Senhora, se eu alcançasse
no tempo que ler quereis,
que a dita dos meus papéis
pola minha se trocasse;
e por ver
tudo o que posso escrever
em mais breve relação,
indo eu onde eles vão,
por mim só quisésseis ler;
Depois de ver um cuidado
tão contente de seu mal,
veríeis o natural
do que aqui vedes pintado;
que o perfeito
Amor, de que sou sujeito,
vereis áspero e cruel,
aqui com tinta e papel,
em mim co sangue no peito.
Que um contino imaginar
naquilo que Amor ordena,
é pena que, enfim, por pena
se não pode declarar;
que, se eu levo
dentro n'alma quanto devo
de trasladar em papéis,
vede qual melhor lereis:
se a mim, se aquilo que escrevo?
Este tempo vão,
esta vida escassa,
para todos passa,
só para mim não.
Os dias se vão
sem ver este dia,
quando vos veria?
Vede esta mudança
se está bem perdida,
em tão curta vida
tão longa esperança!
Se este bem se alcança,
tudo sofreria,
quando vos veria.
Saudosa dor,
eu bem vos entendo;
mas não me defendo,
porque ofendo Amor.
Se fôsseis maior,
em maior valia
vos estimaria.
Minha saudade,
caro penhor meu,
a quem direi eu
tamanha verdade?
Na minha vontade,
de noite e de dia
sempre vos teria.
a esta cantiga alheia:
Vida da minh'alma
não vos posso ver:
isto não é vida
para se sofrer!
Quando vos eu via,
esse bem lograva,
a vida estimava;
mais então vivia,
porque vos servia
só para vos ver.
Já que vos não vejo,
para que é viver?
Vivo sem rezão,
porque em minha dor
não a pôs Amor,
que inimigos são.
Mui grande treição
me obriga a fazer
que viva, Senhora,
sem vos poder ver.
Não me atrevo já,
minha tão querida,
a chamar-vos vida,
porque a tenho má.
Ninguém cuidará,
que isto pode ser,
sendo-me vós vida,
não poder viver!
Dous tormentos vejo
grandes por extremo;
se vos vejo, temo,
e, se não, desejo.
Quando me despejo
e venho a escolher
se temo o desejo,
desejo o temer.
a esta cantiga alheia:
Pastora da serra,
da serra da Estrela,
perco-me por ela.
Nos seus olhos belos
tanto Amor se atreve,
que abrasa entre a neve
quantos ousam vê-los.
Não solta os cabelos
Aurora mais bela:
perco-me por ela.
Não teve esta serra
no meio da altura
mais que a fermosura
que nela se encerra.
Bem céu fica a terra
que tem tal estrela:
perco-me por ela.
Sendo entre pastores
causa de mil males,
não se ouvem nos vales
senão seus louvores.
Eu só por amores
não sei falar nela:
sei morrer por ela.
De alguns que, sentindo,
seu mal vão mostrando,
se ri, não cuidando
que inda paga, rindo.
Eu, triste, encobrindo
só meus males dela,
perco-me por ela.
Se flores deseja
por ventura delas,
das que colhe, belas,
mil morrem de enveja.
Não há quem não veja
todo o milhor nela:
perco-me por ela.
Se na água corrente
seusolhos inclina,
faz luz cristalina
parar a corrente.
Tal se vê, que sente,
por ver-se, água nela:
perco-me por ela.
a uma Dama,
em forma de carta
Querendo escrever um dia
o mal que tanto estimei,
cuidando no que poria,
vi Amor que me dizia:
escreve, que eu notarei.
E como para se ler
não era história pequena
a que de mim quis fazer,
das asas tirou a pena
com que me fez escrever.
E, logo como a tirou,
me disse: Aviva os espritos,
que, pois em teu favor sou,
esta pena que te dou
fará voar teus escritos.
E dando-me a padecer
tudo o que quis que pusesse,
pude, enfim, dele dizer
que me deu com que escrevesse
o que me deu a escrever.
Eu, qu' este engano entendi,
disse-lhe:—que escreverei ?
Respondeu, dizendo assi:
—Altos afeitos de ti,
e daquela a quem te dei.
E já que te manifesto
todas minhas estranhezas,
escreve, pois que te prezas,
milagres dum claro gesto
e, de quem o viu, tristezas.
Ah! Senhora, em quem se apura,
a fé de meu pensamento!
Escutai e estai a tento,
que, com vossa fermosura,
iguala Amor meu tormento.
E, posto que tão remota
estejais de me escutar,
por me não remediar,
ouvi, que, pois Amor nota,
milagres se hão-de notar:
Nota
Escrevem vários autores,
que, junto da clara fonte
do Ganges, os moradores
vivem do cheiro das flores
que nascem naquele monte.
Se os sentidos podem dar
mantimento ao viver,
não é, logo, d'espantar,
se estes vivem de cheirar,
que viv' eu só de vos ver.
üa árvore se conhece,
que, na geral alegria,
ela só tanto entristece, que,
como é noite, florece,
e perde as flores de dia.
Eu, que em ver-vos sinto o preço
que em vossa vista consiste,
em a vendo me entristeço,
porque sei que não mereço
a glória de viver triste.
Um rei de grande poder
com veneno foi criado,
porque, sendo costumado,
não lhe pudesse empecer
se despois lhe fosse dado.
Eu, que criei de pequena
a vida a quanto padece,
desta sorte me acontece,
que não me faz mal a pena
senão quando me falece.
Quem da doença real,
de longe, enfermo se sente,
por segredo natural
fica são, vendo somente
um volátil animal.
Do mal que Amor em mim cria,
quando aquela Fénix vejo,
são de todo ficaria;
mas fica-me hidropesia,
que quanto mais, mais desejo.
Da bívora é verdadeiro
se a consorte vai buscar,
que, em se querendo juntar,
deixa a peçonha primeiro,
porque lhe impede o gerar.
Assi quando me apresento
à vossa vista inumana,
a peçonha do tormento
deixo a parte, porque dana
tamanho contentamento.
Querendo Amor sustentar-se,
fez üa vontade esquiva
düa estátua namorar-se;
despois, por manifestar-se,
converteu-a em mulher viva.
De quem me irei queixando,
ou quem direi que m'engana,
se vou seguindo e buscando
üa imagem que, de humana,
em pedra se vai tornando?
De üa fonte se sabia,
da qual certo se provava
que, quem sobr' ela jurava,
se falsidade dizia,
dos olhos logo cegava.
Vós, que minha liberdade,
Senhora, tiranizais,
injustamente mandais
quando vos falo verdade
que vos não possa ver mais.
Da palma se escreve e canta
ser tão dura e tão forçosa,
que peso não a quebranta,
mas antes, de presunçosa,
com ele mais se levanta.
Co peso do mal que dais,
a constancia que em mim vejo
com que então vos quero mais.
Se alguém os olhos quiser
as andorinhas quebrar,
logo a mãe, sem se deter,
üa erva lhe vai buscar,
que lhe faz outros nascer.
Eu, que os olhos tenho a tento
nos vossos, que estrelas são,
cegam-se os do entendimento,
mas nascem-me os da razão
de folgar com meu tormento.
Lá para onde o sol sai
descobrimos, navegando,
um novo rio admirando,
que o lenho que nele cai,
em pedra se vai tornando.
Não se espantem disto as gentes;
mais razão será que espante
um coração tão possante
que, com lágrimas ardentes,
se converte em diamante.
Pode um mudo nadador
na linha e cana influir
tão venenoso vigor
que faz mais não se bulir
o braço do pescador.
Se começam de beber
deste veneno excelente
meus olhos, sem se deter,
não se sanem mais mover
a nada que se apresente.
Isto são claros sinais
do muito que em mim podeis:
nem podeis desejar mais;
que, se ver-vos desejais,
em mim claro vos vereis.
E quereis ver a que fim
em mim tanto bem se pôs?
Porque quis Amor assim
que, por vos verdes a vós,
também me vísseis a mim.
Dos males que me ordenais,
que inda tenho por pequenos,
sabei, se mos escutais,
que ja não sei dizer mais,
nem vós podeis saber menos.
Mas já que a tanto tormento
não se acha quem resista,
eu, Senhora, me contento
de terdes meu sofrimento
por alvo de vossa vista.
Quantos contrários consente
Amor, por mais padecer!
Que aquela vista excelente,
que me faz viver contente,
me faça tão triste ser!
Mas dou este entendimento
ao mal que tanto me ofende,
como na vela se entende
que, se se apaga co vento,
co mesmo vento se acende.
Exprimentou-se algüa hora
da ave que chamam Camão,
que, se da casa onde mora
vê adúltera a senhora,
morre de pura paixão.
A dor é tão sem medida,
que remédio lhe não val;
mas, oh ditoso animal,
que pode perder a vida
quando vê tamanho mal!
Nos gostos de vos querer
estava agora enlevado,
se não fora salteado
das lembranças de temer
ser por outrem desamado.
Estas suspeitas tão frias,
com que o pensamento sonha,
são assi como as Harpias,
que as mais doces iguarias,
vão converter em peçonha.
Faz-me este mal infinito
não poder já mais dizer,
por não vir a corromper
os gostos que tenho escrito
cos males que hei-de escrever.
Não quero que se apregoe
mal tanto para encobrir,
porque, enquanto aqui se ouvir,
nenhüa outra coisa soe
que a glória de vos servir.
a este moto alheio
Vós, Senhora, tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
Dotou em vós Natureza
o sumo da perfeição,
que, o que em vós é senão,
é em outras gentileza:
o verde não se despreza,
que, agora que vós o tendes,
são belos os olhos verdes.
Ouro e azul é a milhor
cor por que a gente se perde;
mas, a graça desse verde
tira a graça a toda a cor.
Fica agora sendo a flor
a cor que nos olhos tendes,
porque são vossos... e verdes!
a este cantar velho:
Sois fermosa e tudo tendes,
senão que tendes os olhos verdes.
Ninguém vos pode tirar
o serdes bem assombrada;
mas heis-me de perdoar,
que os olhos não valem nada.
Fostes mal aconselhada
em querer que fossem verdes:
trabalhai de os esconderdes.
A vossa testa é jardim,
onde Amor se desenfada;
é branca e bem talhada,
que parece de marfim.
Assim é; e, quanto a mim,
isso nasce de a terdes
tão perto dos olhos verdes.
Os cabelos desatados
o mesmo Sol escurecem;
senão que, por serem ondados,
algum tanto desmerecem:
mas, à fé, que se parecem
a furto dos olhos verdes,
não vos pese de os terdes.
As pestanas têm mostrado
ser raios que abrasam vidas;
se não foram tão compridas
tudo o mais era pintado:
elas me tinham levado
já sem o vós saberdes,
se não foram os olhos verdes.
O mimo desse carão
nem pôr-lhe os olhos consente:
e ser liso e transparente
rouba todo o coração.
Inda assim achareis gente
que lhe não pese de o terdes;
mas não seja cos olhos verdes.
Esse riso é composto
de quantas graças nasceram;
senão que alguns me disseram
vos faz covinhas no rosto.
Na vontade tenho posto
dar-vos a alma, se quiserdes,
a troco dos olhos verdes.
Nunca se viu, nem se escreve
boca nem graça igual,
se não fora de coral
e os dentes de cor de neve.
Dou-me a Deus, que me leve!
Sofrerei quanto tiverdes,
não me tenhais os olhos verdes.
Essa garganta merece
outras palavras, não minhas,
senão que é feita em rosquinhas
de alfenim, o que parece.
Eu sei quem se ofrece
a tomar tudo o que tendes,
e também os olhos verdes.
Essas mãos são ferropeias,
só o vê-las, enfeitiça;
senão que são alvas e cheias,
e têm a feição roliça,
com que apelais por justiça,
pera com elas prenderdes
quem vê vossos olhos verdes.
A vossa galantaria
matará a quem falardes;
tendes uns desdéns e tardes
que eu logo vos roubaria.
Dou-me a Santa Maria!
Sou cujo de quanto tendes,
também desses olhos verdes.
Tudo tendes singular,
com que os corações rendeis,
senão que rindo fazeis
covinhas para enterrar;
e para ressuscitar
em força a graça que tendes;
senão que tendes os olhos verdes.
Tudo, Senhora, alcançais,
quanto ser fermosa alcança;
senão que dais esperança
cos olhos com que matais.
Se acaso os alevantais,
[é para as almas renderdes;
senão que tendes os olhos verdes].
a este moto alheio.
Verdes são as hortas
com rosas e flores;
moças que as regam
matam-me d'amores.
Entre estes penedos
que daqui parecem,
verdes ervas crecem,
altos arvoredos.
Vai destes rochedos
água com que as flores
d'outras são regadas
que matam d'amores.
Co a água que cai
daquela espessura,
outra se mestura
que dos olhos sai:
toda junta vai
regar brancas flores,
onde há outros olhos
que matam d'amores.
Celestes jardins,
as flores, estrelas,
horteloas delas
são uns serafins.
Rosas e jasmins
de diversas cores;
Anjos que as regam
matam-me d'amores.
a este moto alheio:
Verdes são os campos
de cor do limão:
assi são os olhos
do meu coração.
Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes;
d'ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.
Gado, que pasceis,
co contentamento,
vosso mantimento
não no entendeis:
Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.
a este mato alheio:
Menina dos olhos verdes,
porque me não vedes?
Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança
Vossa condição
não é d'olhos verdes,
porque me não vedes.
Isenções a molhos
que eles dizem terdes,
não são d'olhos verdes,
nem de verdes olhos.
Sirvo de giolhos,
e vós não me credes
porque me não vedes.
Haviam de ser,
porque possa vê-los,
que uns olhos tão belos
não se hão-de esconder;
mas fazeis-me crer
que já não são verdes,
porque me não vedes.
Verdes não o são
no que alcanço deles;
verdes são aqueles
que esperança dão.
Se na condição
está serem verdes,
porque me não vedes?
a este moto seu?
Com vossos olhos Gonçalves,
Senhora, cativo tendes
este meu coração Mendes.
Eu sou boa testemunha
que Amor tem por cousa má
que olhos, que são homens já,
se nomeiem sem alcunha,
pois o coração apunha
e diz: olhos, pois vós tendes,
chamai-me coração Mendes.
a este meto seu:
Se Helena apartar do
campo seus olhos,
nascerão abrolhos.
A verdura amena,
gados, que pasceis,
sabei que a deveis
aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
faz flores de abrolhos
o ar de seus olhos.
Faz serras floridas,
faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.
Os corações prende
com graça inumana
de cada pestana
ü alma lhe pende.
Amor se lhe rende,
e, posto em giolhos,
pasma nos seua olhos
a üa Dama
Dama d'estranho primor,
se vos for
pesada minha firmeza,
olhai não me deis tristeza,
porque a converto em amor.
Se cuidais de
me matar quando usais
de esquivança,
irei tomar por vingança
amar-vos cada vez mais.
Porém vosso pensamento,
como isento,
seguirá sua tenção
crendo que em tanta afeição
não haja acrescentamento.
Não creiais
que destarte vos façais
invencível;
que Amor sobre o impossível
amostra que pode mais.
Mas já da tenção que sigo
me desdigo;
que, se há tanto poder nele
também vós podeis mais qu'ele
neste mal que usais comigo.
Mas se for
o vosso poder maior
entre nós,
quem poderá mais que vós
se vós podeis mais que Amor?
Despois que, Dama, vos vi,
entendi
que perdera Amor seu preço;
pois o favor que lhe eu peço
vos pede ele para si.
Nem duvido
que não pode, de sentido,
resistir;
pois, em vez de vos ferir,
ficou, de vos ver,
ferido.
Mas, pois vossa vista e tal
em meu mal,
que posso de vós querer?
Que mal poderei valer
onde o mesmo Amor não val?
Se atentar,
nenhum bem posso esperar;
e oxalá
Que vos
alembrasse já,
sequer para me matar.
Mas nem com isto creiais
que façais
meus serviços mais pequenos;
porqu'eu, quando espero menos,
sabei que então quero mais.
Nada espero,
mas de mim crede este fero
que, em ser vosso,
vos quero tudo o que posso
e não posso quanto quero.
Só por esta fantasia
merecia
de meus males algum fruito;
que ainda não quero muito
para o muito que queria.
De maneira
que não é, na derradeira,
grande espanto,
que quem, Dama, vos quer tanto
que outro tanto de vós queira.
a üas suspeitas
Suspeitas, que me quereis?
Que eu vos quero dar lugar,
que, de certas, me mateis,
se a causa de que nasceis
vos quisesse confessar.
Que de não lhe achar desculpa
a grande mágoa passada
me tem a alma tão cansada
que, se me confessa a culpa,
tê-la-ei por desculpada.
Ora vede que perigos
têm cercado o coração,
que, no meio da opressão,
a seus próprios inimigos
vai pedir a defensão!
Que, suspeitas, eu bem sei,
como se claro vos visse,
que é certo o que já cuidei;
que nunca mal suspeitei
que certo me não saísse.
Mas queria esta certeza
daquela que me atormenta;
por que em tamanha estreiteza
ver que disso se contenta
é descanso da tristeza.
Porque se esta só verdade
me confessa, limpa e nua
de cautela e falsidade,
não pode a minha vontade
desconformar-se da sua.
Por segredo namorado
é certo estar conhecido
que o mal de ser enjeitado
mais atormenta sabido,
mil vezes, que suspeitado.
Mas eu só, em quem se ordena
novo modo de querela,
de medo da dor pequena,
venho achar na maior pena
o refrigério para ela.
Já nas iras me inflamei,
nas vinganças, nos furores
que já, doudo, imaginei;
e já mais doudo o jurei
de arrancar d'alma os amores.
Já determinei mudar-me
pra outra parte com ira;
depois vim a concertar-me que
era bom certificar-me
no que mostrava a mentira.
Mas depois já de cansadas
as fúrias do imaginar,
vinha enfim a arrebentar
em lágrimas magoadas
e bem para magoar.
E deixando-se vencer
os meus fingidos enganos,
de tão claros desenganos
não posso menos fazer
que contentar-me cos danos.
E pedir que me tirassem
este mal de suspeitar
que me vejo atormentar,
ainda que me confessassem
quanto me pode matar.
Olhai bem se me trazeis,
Senhora, posto no fim;
pois neste estado a que vim,
para que vós confesseis
se dão os tratos a mim.
Mas para que tudo possa
Amor, que tudo encaminha,
tal justiça lhe convinha;
porque da culpa que é vossa
venha a ser a morte minha.
Justiça tão mal olhada,
olhai com que-cor se doura,
que quer, no fim da jornada,
que vós sejais confessada
para que eu seja o que moura!
Pois confessai-vos já' gora,
inda que tenho temor
que nem nest' última hora
me há-de perdoar Amor
vossos pecados, Senhora.
E assi vou desesperado,
porque estes são os costumes
de amor que é mal empregado,
do qual vou já condenado
ao inferno, de ciúmes!
a este cantar velho:
Coifa de beirame
namorou Joane.
por cousa tão pouca
andas namorado?
Amas a toucado
e não quem o touca?
Ando cega e louca
por ti, meu Joane;
tu, pelo beirame.
Amas o vestido?
És falso amador.
Tu não vês que Amor
se pinta despido?
Cego e perdido
andas por beirame,
e eu por ti, Joane.
Se alguém te vir,
que dirá de ti?
Que deixas a mi
por cousa tão vil!
Terá bem que rir,
pois amas beirame,
e a mim não, Joane.
Quem ama assi
há-de ser amada;
ando maltratada
de amores, por ti.
Ama-me a mi,
e deixa o beirame,
que é razão, Joane!
A todos encanta
tua parvoíce;
de tua doudice
Gonçalo se espanta
e zombando canta:
—Coifa de beirame
namorou Joane!
Eu não sei que viste
neste meu toucado,
que tão namorado
dele te sentiste.
Não te veja triste:
ama-me, Joane,
e deixa o beirame!
(Joane gemia,
Maria chorava,
assi lamentava
o mal que sentia;
os olhos feria,
e não o beirame
que matou Joane.)
Não sei de que vem
Amares vestido;
que o mesmo Cupido
vestido não tem.
Sabes de que vem
amares beirame?
Vem de ser Joane.
a üa Senhora a quem deram um
pedaço de cetim amarelo pera hüa
filha de quem se tinha suspeita
Se derivais da verdade
esta palavra Sitim,
achareis, sem falsidade,
que após o Si, tem o Tim,
que tine em toda a cidade.
Bem vejo que me entendeis;
mas porque não fale em vão,
sabei que a esta nação
tanto que o Si concedeis
o Tim logo está na mão.
E quem da fama se arreda,
que tudo vai descobrir,
deve sempre de fugir
de sitins, porque da seda
seu natural é rugir.
Mas pano fino e delgado,
qual raxa e outros assi,
dura, aquenta e é calado,
amoroso, e dá de si,
mais que sitim, nem borcado.
Mas estes, que sedas são
com quem s'enganam mil Damas,
mais vos tomam do que dão;
prometem, mas não darão
senão nódoas para as famas.
E se não me quereis crer,
ou tomais outro caminho,
por exemplo o podeis ver,
quando lá virdes arder
a casa de algum vezinho.
Ó feminina simpreza,
donde estão culpas a pares,
que por um Dom de nobreza,
deixam dões de natureza,
mais altos e singulares
—um dom que anda enxertado
(Falo como exprimentado;
que, sitim desta feição,
eu tenho muito cortado.)
Dizem-me que era amarelo;
a quem assi o quis dar,
só para me Deus vingar,
se vem à mão, amarelo,
o que eu não posso cuidar.
Porque quem sabe viver
por estas artes manhosas
(isto bem pode não ser),
dá a mininas fermosas
somente polas fazer.
Quem vos isto diz, Senhora,
serviu nas vossas armadas
muito, mas anda já fora;
e pode ser que inda agora
traz abertas as frechadas.
E, posto que desfavores
o tiram de servidor,
quer-vos ventura milhor;
que dos antigos amores
inda lhe fica este amor.
a esta cantiga alheia:
Minina fermosa
dizei: de que vem
serdes rigorosa
a quem vos quer bem?
Não sei quem assela
vossa fermosura;
que quem é tão dura
não pode ser bela.
Vós sereis fermosa,
mas a razão tem
que quem é irosa
não parece bem.
A mostra é de bela,
pois qual destas duas
ficará na sela?
Se ficar irosa
não vos está bem.
fique antes fermosa,
que mais força tem.
O Amor, fermoso
se pinta e se chama:
se é amor, ama,
se ama, é piadoso.
Diz agora a grosa
que este texto tem,
que quem é fermosa
há-de querer bem.
Havei dó, minina,
dessa fermosura;
que se a terra é dura,
seca-se a bonina.
Sede piadosa;
não veja ninguém
que, por rigorosa,
percais tanto bem.
a üa Senhora que estava
rezando por üas contas
Peço-vos que me digais
as orações que rezastes
se são pelos que matastes,
se por vós, que assi matais?
Se são por vós, sãoperdidas;
que, qual será a oração
que seja satisfação,
Senhora, de tantas vidas?
Que, se vedes quantos vêm
a só vida vos pedir,
como vos há Deus ouvir
se vós não ouvis ninguém?
Não podeis ser perdoada
com mãos a matar tão prontas,
que, se nüa trazeis contas,
na outra trazeis espada
Se dizeis que encomendando
os que matastes andais,
se rezais por quem matais,
para que matais rezando?
Que, se na força do orar
levantais as mãos aos
Céus, não as ergueis para Deus,
erguei-las para matar.
E quando os olhos cerrais
todaenlevada na fé,
cerram-se os de quem vos vê,
para nunca verem mais.
Pois se assi forem tratados
os que vos vêm quando orais,
essas horas que rezais
são as horas dos finados.
Pois logo, se sais servida
que tantos mortos não sejam,
não rezeis onde vos vejam,
ou vede para dar vida.
Ou, se quereis escusar
estes males que causastes,
ressuscitai quem matastes,
não tereis por quem rezar.
a este mato alheio:
Se me levam águas
nos olhos as levo.
Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.
As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar
estas d'amar são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força d'águas
me leva, eu as levo.
Todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós me enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo!
que mandou com um papel
d'alfinetes a üa Dama
Esses alfinetes vão
a vos picarem, não mais,
só porque julgueis então,
o como me picarão
os com que vós me picais.
Mas os que dessas estrelas
vêm, têm pontas tão agudas
que, em que estoutros vão co elas,
podem-vos dar picadelas,
mas os vossos dão feridas.
Assi que, se bem notais,
no como ambos debatem,
nunca podem ser iguais,
que, inda que esses lá maltratem,
estes cá maltratam mais.
Porém, já que Amor consente
em piques tão desiguais,
onde vós sois mais valente,
eu, Senhora, sou contente
do que vos contentar mais.
Venham os alfinetes cá
desses olhos, porque acertem
donde acerto já não há;
porém os meus que vão lá,
só quero que vos apertem.
E deixando o mais passado,
fazei que este papel seja
pregado, digo, empregado,
porque do seu gasalhado
eu mesmo lhe tenho enveja.
E se eles em vós se pregam,
por força os hei-de envejar,
não só porque bem se empregam,
mas porque, Senhora, chegam
onde eu não posso chegar.
Lá vão e lá ficarão
adonde continuamente
a par de si vos terão; e
nfim, lá vos picarão,
eu cá picarei no dente.
a üa Dama que lhe jurara
sempre por seus olhos
Quando me quer enganar
a minha bela perjura,
para mais me confirmar
o que quer certificar,
pelos seus olhos mo jura.
Como meu contentamento
todo se rege por eles,
imagina o pensamento
que se faz agravo a eles
não crer tão grão juramento.
Porém, como em casos tais
ando já visto e corrente,
sem outros certos sinais,
quanto me ela jura mais
tanto mais cuido que mente.
Então, vendo-lhe ofender
uns tais olhos como aqueles,
deixo-me antes tudo crer,
só pela não constranger
a jurar falso por eles.
a este moto:
Vi chorar uns claros olhos
quando deles me partia.
Oh! que mágoa! Oh! que alegria!
Pelo meu apartamento
se arrasaram todos d'água.
Quem cuidou que em tanta mágoa
achasse contentamento?
Julgue todo entendimento
qual mais sentir se devia:
se esta dor, se esta alegria!
Quando mais perdido estive,
então deu a esta alma minha
na maior mágoa que tinha
o maior gosto que tive.
Assi, se minh'alma vive
foi porque me defendia
desta dor esta alegria.
O bem que Amor me não deu no
tempo que o desejei,
quando dele me apartei
me confessou que era meu.
Agora, que farei eu
se a fortuna me desvia
de lograr esta alegria?
Não sei se foi enganado,
pois me tinha defendido
das iras de mal querido
no mel de ser apartado.
achando no fim do dia
o princípio d'alegria.
a este mato alheio:
Trocai o cuidado,
Senhora, comigo;
vereis o perigo
que é ser desamado.
Se trocar desejo
o amor entre nós,
é para que em vós
vejais o que vejo.
E sendo trocado
este amor comigo,
ser-vos-á castigo
terdes meu cuidado.
Tendes o sentido
d'amor livre e isento;
e cuidais que é vento
ser tão mal querido.
Não seja o cuidado
tão vosso inimigo
que queira o perigo
de ser desamado.
Mas nunca foi tal
este meu querer,
que a quem tanto quer
queira tanto mal.
Seja eu maltratado,
e nunca o castigo
vos mostre o perigo
que é ser desamado.
à tenção de Miraguarda
MOTO:
Ver, e mais guardar
de ver outro dia,
quem o acabaria ?
Da lindeza vossa,
Dama, quem a vê,
impossível é
que guardar-se possa.
Se faz tanta mossa
ver-vos um só dia,
quem se guardaria?
Milhor deve ser
neste aventurar,
ver, e não guardar,
que guardar de ver.
Ver, e defender,
muito bom seria;
mas... quem poderia?
a üna Senhoras que haviam de ser
terceiras para com üa Dama sua
Pois a tantas perdições,
Senhoras, quereis dar vida,
ditosa seja a ferida
que tem tais cerurgiões!
Pois ventura
me subiu a tanta altura
que me sejais valedoras,
ditosa seja a tristura
que se cura
por vossos rogos, Senhoras!
Ser minha pena mortal,
já que entendeis que é assim,
não quero falar por mim,
que por mim fala meu mal.
Sois fermosas,
haveis de ser piadosas,
por ser tudo düa cor;
que pois Amor vos fez rosas
milagrosas,
fazei milagres d'amor.
Pedi a quem vós sabeis
que saiba de meu trabalho,
não pelo que eu nisso valho,
mas pelo que vós valeis.
Que o valer
de vosso alto merecer,
com lho pedir de giolhos,
fará que em meu padecer
possa ver
o poder que têm seus olhos.
Vossa muita fermosura
co a sua tanto val
que me rio de meu mal
quando cuido em quem mo cura.
A meus ais
peço-vos que lhe valhais,
Damas de Amor tão validas,
que nunca tal dor sintais
que queirais
onde não sejais queridas.
ao moto que lhe enviou Dona
Francisca de Aragão para que Iho
glosasse:
Mas porém a que cuidados ?1ª.
Tanto maiores tormentos
foram sempre os que sofri,
daquilo que cabe em mi,
que não sei que pensamentos
são os para que nasci.
Quando vejo este meu peito
a perigos arriscados
inclinado, bem suspeito
que a cuidados sou sujeito;
Mas porém a que cuidados ?2ª.
Que vindes em mim buscar,
cuidados, que sou cativo,
e não tenho que vos dar?
Se vindes a me matar,
já há muito que não vivo;
se vindes, porque me dais
tormentos desesperados,
eu, que sempre sofri mais,
não digo que não venhais;
Mas porém a quê, cuidados?
3ª.
Se as penas que Amor me deu
vêm por tão suaves meios,
não há que temer receios,
que val um cuidado meu
por mil descansos alheios.
Ter nuns olhos tão fermosos
os sentidos enlevados,
bem sei que em baixos estados
são cuidados perigosos;
Mas porém, ah! que cuidados!
Carta
que Luís de Camões mandou
a Dona Francisca de Aragão,
com as glosas acima:
Nunca o prazer se conhece
senão despois da tormenta;
tão pouco o bem permanece
que, se o descanso florece,
logo o trabalho arrebenta.
Sempre os bens se lograriam,
mas os males tudo atalham;
porém, já que assi porfiam,
onde descansos trabalham,
trabalhos descansariam.
Qualquer trabalho me fora
por vós grão contentamento;
nada sentira, Senhora,
se vira disto algüa hora
em vós um conhecimento.
Por mal que o mal me tratasse
tudo por bem tomaria;
posto que o corpo cansasse,
a alma descansaria,
se para vós trabalhasse.
Quem vossas cruezas já
sofreu, a tudo se pôs;
costumado ficará;
e muito milhor será,
se trabalhar para vós.
Tristezas esqueceriam,
posto que mal me trataram;
anos não me lembrariam,
que, como estoutros passaram,
tempos tristes passariam.
Se fosse galardoado
este trabalho tão duro,
não vivera magoado;
mas não o foi o passado,
como o será o futuro?
De cansar não cansaria,
se quiséreis que cansasse;
cansar, morrer, fá-lo-ia,
tudo, enfim, me esqueceria,
se algüa hora vos lembrasse.
Pues me distes tal herida,
con gana de darme muerte,
el morir me es dulce suerte,
pues con morir me dais vida.
Ojos, ¿qué os detenéis?
Acabad ya de matarme;
mas muerto volved á mirarme,
por que me resuscitéis.
La llaga cierto ya es mía,
aunque, ojos, vos no queráis;
mas si la muerte me dais,
el morir me es alegría.
Y así digo que acabéis,
ojos, ya de matarme;
mas muerto, volved á mirarme,
por que me resucitéis.
a este moto de Francisco
de Morais:
Triste vida se me ordena,
pois quer vossa condição
que os males, que dais por pena,
me fiquem por galardão,
Despois de sempre sofrer,
Senhora, vossas cruezas,
apesar de meu querer,
me quereis satisfazer
meus serviços com tristezas.
Mas pois embalde resiste
quem vossa vista condena,
prestes estou para a pena,
que, de galardão, tão triste,
triste vida se me ordena.
De contente do mal meu
a tão grande extremo vim,
que consinto em minha fim:
assi que, vos e mais eu,
ambos somos contra mim.
Mas que sofra meu tormento
sem querer mais galardão,
não é fora de razão
que queraa meu sofrimento,
pois quer vossa condição.
O mel, que vós dais por bem,
esse, Senhora, é mortal;
que o mal que dais como mal,
em muito menos se tem,
por costume natural.
Mas porém nesta vitória,
que comigo é bem pequena,
a maior dor me condena
a pena, que dais por glória,
que os males, que dais por pena.
Que mor bem me possa vir,
que servir-vos, não o sei.
Pois que mais quero eu pedir,
se quanto mais vos
servir, tanto mais vos deverei?
Se vossos merecimentos
de tão alta estima são,
assaz de favor me dão
em querer que meus tormentos
me fiquem por galardão.
a este moto seu (acróstico):
A morte, pois que sou vosso,
não na quero, mas se vem,
ha-de ser todo meu bem.
Amor, que em meu pensamento
com tanta fé se fundou,
me tem dado um regimento
que, quando vir meu tormento,
me salve com cujo sou.
E com esta defensão,
com que tudo vencer posso,
diz a causa ao coração:
não tem em mim jurdição
A morte, pois que sou vosso.
Por exprimentar um dia
Amor se me achava forte
nesta fé, como dizia,
me convidou com a morte,
só por ver se a tomaria.
E, como ele seja a cousa
onde está todo o meu bem,
respondi-lhe (como quem
quer dizer mais, e não ousa):
não na quero, mas se vem...
Não disse mais, porque então
entendeu quanto me toca;
e se tinha dito o não,
muitas vezes diz a boca
o que nega o coração.
Toda a cousa defendida
em mais estima se tem:
por isso é cousa sabida
que perder por vós a vida
ha-de ser todo meu bem.
AAAA
Ana quisestes que fosse
o vosso nome da pia,
para mor minha agonia.
Apeles, se fora vivo
e a ver-vos alcançara,
por vós retratos tirara.
Aquiles morreu no templo,
contemplando de giolhos;
eu, quando vejo esses olhos.
Artemisa sepultou
a seu irmão e marido;
vós a mim, e a meu sentido.
B
Bem vejo que sois, Senhora,
extremo de fermosura,
para minha sepultura.
CC
Cleópatra se matou
vendo morto a seu amante;
e eu por vós, em ser constante.
Cassandra disse de Tróia
que havia ser destruída;
e eu por vós, d'alma e da vida.
DD
Dido morreu por Enéas,
e vós matais quem vos ama;
julgai se sois cruel dama!
Dianira, inocente,
da má morte causadora;
vós, da minha, sabedora.
E
Eurídice foi a causa
de Orfeu ir ao Inferno;
vos, de ser meu mal eterno.
FF
Fedra, só de puro amor,
morreu por seu enteado;
eu, morro de desamado.
Febo vai escurecendo
ante vossa claridade;
e eu, sem ter liberdade.
GG
Galateia sois, Senhora,
Da fermosura extremo;
e eu, perdido Polifemo.
Genebra, que foi rainha,
se perdeu por Lançarote;
e vós, por me dar a morte.
HH
Hércules, uma camisa
de chamas o consumiu;
minha alma, dês que vos viu.
Hébis e Dido morreram
com origor da mudança;
eu, vendo vossa esquivança.
JJJJ
Judit, que o duro Holofernes
degolou, se viva fora,
mate lhe déreis, Senhora.
Júlio César conquistou
o mundo com fortaleza;
vós a mim com gentileza.
Júlio César se livrou
dos imigos com abrolhos;
eu, não posso desses olhos.
Jazia-se o Minotauro
preso no seu labirinto;
mas eu mais preso me sinto.
LL
Leandro se afogou
e foi sua causa Hero;
e a mim o que vos quero.
Leandro se afogou
no mar de sua bonança;
eu, no de vossa esperança.
MM
Minerva dizem que foi,
e Palas, deusas da guerra:
e vós, Senhora, da terra.
Medeia foi mui cruel,
mas não chegou a metade
de vossa grã crueldade.
NN
Narciso o siso perdeu
em vendo a sua figura;
eu, por vossa fermosura;
Ninfas enganam mil Faunos
com seu ar e fermosura;
e, a mim, vossa figura.
OO
Os olhos choram o dano
que em vos verem sentiram,
mas eu pago o que eles viram.
Orfeu com a doce harpa
venceu o reino de Plutão;
vós a mim, com perfeição.
PP
Páris a Helena roubou,
por quem Tróia foi perdida;
e vós a mim, alma e vida.
Pirro matou Policena,
perfeita em todos sinais;
e vós a mim me matais.
QQ
Quanto mais desejo ver-vos,
menos vos vejo, Senhora:
não vos ver milhor me fora.
Querendo ver a Diana,
Actéon perdeu a vida,
que eu por vós trago perdida.
RR
Remédio nenhum não vejo
que romedeie meu mal;
nem crueza à vossa igual.
Roma o mundo sujeita
com armas, saber, temor
vós a mim só por amor.
S
Sirena, na mor fortuna
com enganos vai cantando;
e vós, sempre a mim matando.
TT
Tisbe morreu por Píramo,
a ambos matou o Amor;
a mim, vosso desfavor.
Tisbe pelo seu amante
morreu com amor sobejo;
mas eu mais morto me vejo.
WW
Vénus, que por mais fermosa
lhe deu Páris a maçã,
não foi quanto vós louçã.
Vénus levou a maçã
por vós não serdes, Senhora,
nascida naquela hora.
XX
Xpõ vos acabe em graça,
e vos faça piadosa
tanto, quanto sois fermosa.
Xantopea tornou atrás
por Apónio a invocar;
e vós não, a meu chamar.
a este moto alheio:
Vejo-a n'alma pintada
quando me pede o desejo
o natural que não vejo.
Se só no ver puramente
me transformei no que vi,
de vista tão excelente
mal poderei ser ausente
enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
a traz tão bem debuxada,
e a memória tanto voa
que se a não vejo em pessoa,
vejo-a n'alma pintada.
O desejo, que se estende
ao que menos se concede,
sobre vós pede e pretende,
como o doente que pede
o que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência não vejo,
tenho piadade e pejo
de me ver tão pobre estar,
que então não tenho que dar
quando me pede o desejo,
Como aquele que cegou
é cousa vista e notória
que a natureza ordenou
que se lhe dobre em memória
o que em vista lhe faltou;
assi a mim, que não rejo
os olhos ao que desejo,
na memória e na firmeza
me concede a natureza
o natural que não vejo.
a este moto:
¿Qué veré que me contente?
Desque una vez miré,
Señora, vuestra beldad,
jamás por mi voluntad
los ojos de vos quité.
Pues sin vos placer no siente
mi vida, ni lo desea,
si no quereis que os vea,
¿qué veré que me contente?
a este moto:
Quem se confia em olhos,
nas meninas deles vê,
que meninas não têm fé.
Quem põe suas confianças
em meninas sem assento,
ofereça o sofrimento
a duzentas mil mudanças.
Mostram no ar esperanças,
mas em seus olhos se vê
como não têm n'alma fé.
Enganam ao parecer,
porque, no caso de amar,
são mulheres no matar
e meninas no querer.
Quem em seus olhos se crer,
cem mil graças neles vê;
vê-las, sim, mas não ter fé.
Amostram-vos num momento
favores assi a molhos;
mas na mudança dos olhos
se lhe muda o pensamento.
Em nada têm assento,
e o que mais neles se vê
é fermosura sem fé.
a este moto:
Sem vós e com meu cuidado
Olha; com quem e sem quem.
Vendo amor que, com vos ver,
mais levemente sofria
os males que me fazia,
não me pode isto sofrer;
conjurou-se com meu fado,
um novo mal me ordenou;
ambos me levam forçado
não sei onde, pois que sou
sem vós e com meu cuidado.
Não sei qual é mais estranho
destes dous males que sigo,
se não vos ver, se comigo
levar imigo tamanho.
O que fica e o que vem,
um me mata, outro desejo.
Com tal mal e sem tal bem,
em tais extremos me vejo:
olhai com quem e sem quem,
a este moto alheio:
Sem vós e com meu cuidado
olhai com quem, e sem quem.
Amor, cuja providência
foi sempre que não errasse,
porque n'alma vos levasse,
respeitando o mal de ausência
quis que em vós me transformasse.
E vendo-me ir maltratado,
eu e meu cuidado sós,
proveio nisso, de atentado,
por não me ausentar de vós,
sem vós e com meu cuidado.
Mas est'alma que eu trazia
porque vós nela morais,
deixa-me cego, e sem guia;
que há por milhor companhia
ficar onde vós ficais.
Assi me vou de meu bem
onde quer a forte estrela,
sem alma, que em si vos tem,
co mal de viver sem ela:
olhai com quem, e sem que
ao mesmo moto
Querendo Amor esconder-vos
em parte que vos não visse,
com extremos de querer-vos
cegou-me os olhos com ver-vos,
levou-os, sem que vos visse.
Eu, cego, mas atinado,
quando vi que vos não via,
do mesmo Amor indinado,
já vedes qual ficaria
sem vós e com meu cuidado.
a este moto:
Menina fermosa e crua,
bem sei eu
quem deixará de ser seu,
se vós quiséreis ser sua.
Menina mais que na idade,
se, para me querer bem,
vos não vejo ter vontade,
é porque outrem vo-la tem;
tem-vo-la, e faz-vo-la crua.
Porém eu
já tomara não ser meu,
se vós não fôreis tão sua.
Nos olhos e na feição
vos vi, quando vos olhava,
tanta graça que vos dava
de graça este coração;
não no quisestes de crua,
por ser meu:
se outrem vos dera o seu
pode ser fôreis mais sua.
Menina, tende maneira
que ainda não venha a ser
—pois não quereis quem vos quer, —
que queirais quem vos não queira.
Olhai, não me sejais crua;
que pois eu
quero ser vosso e não meu,
sede vós minha e não sua.
a este moto:
Da doença em que ardeis eu
fora vossa mezinha,
só com vós serdes minha
É muito para notar
cura tão bem acertada,
que podereis ser curada
somente com me curar.
e quereis, Dama, trocar,
ambos temos a mezinha:
eu a vossa, e vos a minha.
Olhai que não quer Amor
(porque fiquemos iguais
pois meu ardor não curais,
que se cure vosso ardor.
Eu cá sinto a vossa dor;
e se vós sentis a minha,
dai e tomai a mezinha
a üa dama doente
Olhai que dura sentença
foi Amor dar contra mi:
que, porque em vós me
perdi, em vós me busca a doença.
Claro está
que em vós só me achará;
que em mim, se me vem buscar,
não poderá mais achar
que a forma do que eu fui já.
Que se em vós Amor se pôs,
Senhora, é forçado assi
que o mal, que me busca a mi,
que vos faça mal a vós.
Sem mentir,
Amor me quis destruir
por modo nunca cuidado,
pois vos há-de ser forçado
pesar-vos de vos servir.
Mas sois tão desconhecida,
e são meus males de sorte
que vos ameaça a morte
porque me negais a vida.
Se por boa
tal justiça se pregoa,
quando desta sorte for,
havei vós perdão de Amor,
que a parte já vos perdoa.
Mas o que mais temo, enfim,
é que nesta diferença
que se não torne a doença
se me não tornais a mim.
De verdade,
que já vossa humanidade
de que se queixe não tem;
pois para as almas também
fez Amor enfermidade.
a este moto:
Deu, Senhora, por sentença
Amor, que fôsseis doente,
para fazerdes à gente
doce e fermosa a doença.
Não sabendo Amor curar,
foi a doença fazer
fermosa, para se ver,
doce para se passar.
Então, vendo a diferença
que há de vós a toda a gente,
mandou que fôsseis doente
para glória da doença.
E digo-vos, de verdade,
que a saúde anda envejosa,
por ver estar tão fermosa
em vós essa enfermidade.
Não façais logo detença,
Senhora, em estar doente,
porque adoecerá a gente
com desejos da doença.
Que eu, por ter, fermosa Dama,
a doença que em vós vejo,
vos confesso que desejo
de cair convosco em cama.
Se consentis que me vença
este mal, não houve gente
de saúde tão contente
como eu serei da doença.
a este moto alheio:
Sem ventura é por de mais.
Todo o trabalhado bem
promete gostoso fruito,
mas os trabalhos que vêm
para quem dita não tem,
valem pouco e custam muito.
Rompe toda a pedra dura,
faz os homens imortais
o trabalho, quando atura;
mas querer achar ventura
sem ventura, é por de mais.
a este moto alheio:
Minha alma, lembrai-vos dela.
Pois o ver-vos tenho em mais
que mil vidas que me deis,
assi como a que me dais,
meu bem, já que mo negais,
meus olhos, não mos negueis.
E se a tal estado vim,
guiado de minha estrela,
quando houverdes dó de mim,
minha vida, dai-lhe a fim,
minha alma. lembrai-vos dela.
a este moto alheio:
Tudo pode üa afeição.
Tem tal jurdição Amor
n'alma donde se aposenta
e de que se faz senhor,
que a liberta e isenta
de todo o humano temor.
E com mui justa razão,
como senhor soberano,
que Amor não consente dano;
e pois me sofre tenção,
gritarei por desengano:
tudo pode üa afeição.
a este moto alheio:
¿Para que me dan tormento,
aprovechando tan poco?
Perdido, mas no tan loco
que descubra lo que siento.
Tiempo perdido es aquel
que se pasa en darme afán,
pues quanto más me lo dán
tanto menos siento del.
¿Que descubra lo que siento?
No lo haré, que no es tan poco;
que no puede ser tan loco
quién tiene tal pensamiento.
Sepan que me manda Amor,
que de tan dulce querella,
a nadie dé parte della,
porque la sienta mayor.
Es tan dulce mi tormento
que aun se me antoja poco;
y si es mucho, quedo loco
de gusto de lo que siento.
a este moto alheio:
De vuestros ojos centellas,
que encienden pechos de hielo
suben por el aire al cielo,
y en llegando son estrellas.
Falsos loores os dan,
que essas centellas tan raras
no son nel cielo más claras
que en los ojos donde están.
Porque cuando miro en ellas
de como alumbran el suelo
no sé que serán nel cielo;
mas sé que acá son estrellas.
Ni se puede presumir
que al cielo suban, Senora,
que la lumbre que en vos mora
no tiene más que subir;
mas pienso que dán querellas
a Dios nel octavo cielo,
porque son acá en el suelo,
dos tan hermosas estrellas.
A üas Senhoras que, jogando
perto de üa janela, Ihes cairam
«três paus» e deram na cabeça
de Camões:
Para evitar dias maus
da vida triste que passo,
mandem-me dar um baraço,
que já cá tenho três paus.
este moto:
Quem disser que a barca pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.
Se vos quereis embarcar
e para isso estais no cais,
entrai logo; que tardais?
Olhai que está preiamar!
E se outrem, por vos fretar,
vos disser que esta que pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.
Esta barca é de carreira,
tem seus aparelhos novos;
não há como ela outra em Povos,
boa de leme e veleira.
Mas, se por ser a primeira,
vos disser alguém que pende,
dir-lhe hei, mana, que mente.
a este mato alheio:
Campos bem-aventurados,
tornai-vos agora tristes,
que os dias em que me vistes
alegre são já passados.
Campos cheios de prazer,
vós, que estais reverdecendo,
já me alegrei com vos ver;
agora venho a temer
que entristeçais em me vendo.
E, pois a vista alegrais
dos olhos desesperados,
não quero que me vejais,
para que sempre sejais
campos bem-aventurados.
Porém, se por acidente,
vos pesar de meu tormento,
sabereis que Amor consente
que tudo me descontente,
senão descontentamento.
Por isso vós, arvoredos,
que já nos meus olhos vistes
mais alegrias que medos,
se mos quereis fazer ledos,
tornai-vos agora tristes.
Já me vistes ledo ser,
mas despois que o falso Amor
tão triste me fez viver, .
ledos folgo de vos ver,
porque me dobreis a dor.
E se este gosto sobejo
de minha dor me sentistes,
julgai quanto mais desejo
as horas que vos não vejo
que os dias em que me vistes.
O tempo, que é desigual,
de secos, verdes vos tem;
porque em vosso natural
se muda o mal para o bem,
mas o meu para mor mal.
Se perguntais, verdes prados,
pelos tempos diferentes
que de Amor me foram dados,
tristes, aqui são presentes,
alegres, já são passados.
a este mato seu:
Descalça vai pela neve:
assi faz quem Amor serve.
Os privilégios que os reis
não podem dar, pode Amor,
que faz qualquer amador
livre das humanas leis.
Mortes e guerras cruéis,
ferro, frio, fogo e neve,
tudo sofre quem o serve.
Moça fermosa despreza
todo o frio e toda a dor
(olhai quanto pode Amor
mais que a própria natureza):
medo nem delicadeza
lhe impede que passe a nove;
assi faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve,
a tudo se ofreceria;
passa pela nove fria,
mais alva que a própria neve;
com todo o frio se atreve;
vede em que fogo ferve
o triste que o Amor serve.
a este moto:
Descalça vai para a fonte
Leanor pela verdura;
vai fermosa, e não segura.
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a nove pura;
vai fermosa, e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos d'ouro o trançado,
—fita, de cor d'encarnado,
tão linda que o mundo espanta—;
chave nela graça tanta
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
a esta cantiga alheia:
Na fonte está Leanor
lavando a talha e chorando,
as amigas perguntando:
vistes lá o meu amor?
Posto o pensamento nele,
porque a tudo o Amor a obriga,
cantava, mas a cantiga
eram suspiros por ele.
Nisto estava Leanor
o seu desejo enganando,
às amigas perguntando:
vistes lá o meu amor?
O rosto sobre üa mão,
os olhos no chão pregados,
que, do chorar já cansados,
algum descanso lhe dão.
Desta sorte Leanor
suspende de quando em quando
sua dor; e, em si tornando,
mais pesada sente a dor.
Não deita dos olhos água,
que não quer que a dor se abrande
Amor, porque em mágoa grande
seca as lágrimas a mágoa.
Que, despois de seu amor
soube novas, perguntando,
d'emproviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!
a este moto:
Ferro, fogo, frio e calma,
todo o mundo acabarão;
mas nunca vos tirarão,
alma minha da minh'alma!
Não vos guardei, quando vinha,
em torre, força, ou engenho;
que mais guardada vos tenho
em vós, que sois alma minha.
Ali, nem frio nem calma,
não podem ter jurdição;
na vida sim, porém não
em vós, que tenho por alma.
a este moto:
A alma que está ofrecida a
tudo, nada lhe é forte; assi
passa o bem da vida como
passa o mal da morte
De maneira me sucede
o que temo, e o que desejo,
que sempre o que temo, vejo,
nunca o que a vontade pede.
Tenho tão oferecida
alma e vida a toda a sorte
que isso me dera da morte
como já me dá da vida.
a este moto:
Esconjuro-te, Domingas,
pois me dás tanto cuidado,
que me digas se te vingas:
viverei menos penado.
Juravas-me que outras cabras
folgavas de apacentar;
eu, por nao me magoar,
fingia que eram palavras.
Agora d'arte te vingas
d'algum meu doudo pecado,
qu'inda que queiras, Domingas,
não posso ser enganado.
Qualquer cousa busca o seu;
a fonte vai para o Tejo,
e tu para o teu desejo
por te vingares do meu.
De mi te esqueces, Domingas,
como eu faço do meu gado.
Praza a Deus que, se te vingas,
que moura desesperado.
Na fantasia te pinto;
falo-te, responde o monte;
busco o rio, busco a fonte,
endoudeço, e não o sinto.
Domingas! no vale brado;
responde o eco:—Domingas!
E tu ainda te não vingas
de me ver doudo tornado?
a este moto alheio:
Todo es poco lo posible.
Ved que enganos señorea
nuestro juicio tan loco,
que por mucho que se crea,
todo el bien que se desea,
alcançado, queda poco.
Un bien de cualquiera grado,
si de haberse es imposible,
queda mucho deseado,
mas para mucho, alcanzado,
todo es poco lo posible
ao mesmo moto
Posible es a mi cuidado
poderme hacer satisfecho,
si fuera posible al hado
hacer no echo lo echo,
y futuro lo pasado.
Si olvido pudiera haber,
fuera remedio sufrible;
mas ya que no puede ser,
para contento me hacer,
todo es poco lo posible.
a este moto alheio:
Caterina bem promete;
eramá I como ela mente I
Caterina é mais fermosa
para mim que a luz do dia;
mas mais fermosa seria
se não fosse mentirosa.
Hoje a vejo piadosa,
amanhã tão diferente
que sempre cuido que mente.
Caterina me mentiu
muitas vezes, sem ter lei,
mas todas lhe perdoei
por üa só que cumpriu.
Se, como me consentiu
falar, o mais me consente,
nunca mais direi que mente.
Má, mentirosa, malvada,
dizei: para que mentis?
Prometeis, e não cumpris?
Pois sem cumprir, tudo é nada.
Não sois bem aconselhada;
que quem promete, se mente,
o que perde não no sente.
Jurou-me aquela cadela
de vir, pela alma que tinha;
enganou-me; tem a minha;
dá-lhe pouco de perdê-la.
A vida gasto após ela,
porque ma dá se promete,
mas tira-ma quando mente.
Tudo vos consentiria
quanto quisésseis fazer,
se esse vosso prometer
fosse prometer um dia
todo então me desfaria
convosco; e vós, de contente,
zombaríeis de quem mente.
Prometou-me ontem de vir,
nunca mais me apareceu;
creio que não prometeu
senão só por me mentir.
Faz-me enfim chorar e rir;
rio quando me promete,
mas choro quando me mente.
Mas pois folgais de mentir,
prometendo de me ver,
eu vos deixo o prometer,
deixai-me vós o cumprir:
haveis então de sentir
quanto fica mais contente
o que cumpre que o que mente.
a üa Dama que estava
vestida de dó
MOTO:
De atormentado e perdido,
já vos não peço senão
que tenhais no coração
o que tendes no vestido.
Se de dó vestida andais
por quem já vida não tem,
porque não no haveis de quem
vós tantas vezes matais?
Que brado sem ser ouvido,
e nunca vejo senão
cruezas no coração,
e grande dó no vestido.
a Dona Guiamar de Blasfé,
que se queimara no rosto
com üa vela
MOTO:
Amor que todos ofende
teve, Senhora, por gosto,
que sentisse o vosso rosto
o que nas almas acende.
Aquele rosto que traz
o mundo todo abrasado,
se foi da flama tocado,
foi porque sinta o que faz.
Bem sei que Amor se lhe rende;
porém o seu prossuposto
foi sentir o vosso rosto
o que nas almas acende.
a este mato seu:
Da alma, e de quanto tiver,
quero que me despojeis,
contanto que me deixeis
os olhos para vos ver.
Cousa que este corpo não tem
que já não tenhais rendida;
depois de tirar-lhe a vida,
tirai-lhe a morte também.
Se mais tenho que perder
mais quero que me leveis,
cantento que me deixeis
os olhos para vos ver.
a este moto alheio:
Amores de ua casada
que eu vi pelo meu mel.
Nüa casada fui pôr
os olhos, de si senhores;
cuidei que fossem amores,
eles fizeram-se Amor.
Faz-se o desejo maior
donde o remédio não val
em perigo de meu mal.
Não me pareceu que Amor
pudesse tanto comigo
que donde entra por amigo
se levante por senhor.
Leva-me de dor em dor
e de sinal em sinal,
cada vez para mor mal.
a este mato seu:
Enforquei minha esperança;
mas Amor foi tão madraço
que lhe cortou o baraço.
Foi a Esperança julgada
por sentença da Ventura,
que, pois me teve à pendura,
que fosse dependurada.
Vem Cupido co a espada,
corta-lhe cerco o baraço.
Cupido, foste madraço!
a este moto seu:
Pus o coração nos olhos
e os olhos pus no chão,
por vingar o coração.
O coração envejoso
como dos olhos andava,
sempre remoques me dava
que não era o meu mimoso:
venho eu, de piadoso
do senhor meu coração,
boto os meus olhos no chão.
a este moto seu:
Pus meus olhos nüa funda,
e fiz um tiro com ela
às grades de üa janela.
üa Dama, de malvada,
tomou seus olhos na mão
e tirou me üa pedrada
com eles ao coração.
Armei minha funda então,
e pus os meus olhos nela:
trape! quebro-lh'a janela.
a este moto:
Vos tenéis mi corazón.
Mi corazón me han robado,
y Amor, viendo mis enojos,
me dijo: fuéte llevado
por los más hermosos hojos
que desque vivo he mirado.
Gracias sobrenaturales,
te lo tienen en prisión,
y si Amor tiene razón,
Señora, por la señales
vos tenéis mi corazón.
a este moto alheio:
De dentro tengo mi mal,
que de fuera no hay señal.
Mi nueva y dulce querella,
es invisible á la gente;
el alma sola la siente,
que el cuerpo no es dino della.
Como la viva centena
se encubra en el pedernal
de dentro tengo mi mal.
a este moto seu:
De que me serve fugir
da morte, dor e perigo,
se me eu levo comigo?
Tenho-me persuadido,
por razão conveniente,
que não posso ser contente,
pois que pude ser nacido.
Anda sempre tão unido
o meu tormento comigo
que eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse,
nenhum gosto me seria;
que, não sendo eu, não teria
mal que esse bem me tirasse.
Força é logo que assi passe,
ou com desgosto comigo,
ou sem gosto e sem perigo.
a esta cantiga velha:
Falso cavaleiro ingrato,
enganais-me:
vós dizeis que eu vos mato,
e vós matais-me.
Costumadas artes são
para enganar inocências,
piadosas aparências
sobre isento coração.
Eu vos amo, e vós, ingrato,
magoais-me,
dizendo que eu vos mato,
e vós matais-me.
Vede agora qual de nós
anda mais perto do fim,
que a justiça faz-se em mim
e o pregão diz que sois vós.
Quando mais verdade trato,
levantais-me
que vos desamo e vos mato,
e vós matais-me.
a este moto sei:
Se de meu mal me contento,
é porque para vós vejo
em todo o mundo desejo
e em ninguém merecimento.
Para quem vos soube olhar,
tão impossível foi ser
o poder-vos merecer,
como o não vos desejar.
Pois logo a meu pensamento
nenhum remédio lhe vejo,
senão se der o desejo
asas ao merecimento.
a este moto alheio:
Amor loco amor loco,
yo por vos, y vos por o otro.
Dióme Amor tormentos dos
para que pene doblado:
uno es verme desamado,
otro es mancilla de vos.
!Ved que ordena Amor en nos!
Porque me vos hacéis loca?
que seáis loca por otro.
Tratáis Amor de manera
que porque así me tratáis
quiere que, pues no me amáis,
que améis otro que no os quiera.
Mas con todo, so no os viera
de todo loca por otro,
con mas razón fuera loco.
Y tan contrario viviendo,
alfin, alfin, conformamos,
pues ambos a dos buscamos
lo que más nos va huyendo.
Voy tras vos siempre siguiendo,
y vos huyendo por otro:
andáis loca, y me hacéis loco.
a este moto alheio:
De pequena tomei Amor,
porque o não entendi;
agora que o conheci,
mata-me com desfavor.
Vi-o moço e pequenino,
e a mesma idade ensina
que se incline üa minina,
às mostras de um minino.
Ouvi-lhe chamar Amor,
pelo nome me venci;
nunca tal engano vi,
nem tamanho desamor.
Creceu-me de dia em dia
com a idade a afeição,
porque amor de criação,
n'alma e na vida se cria.
Criou-se em mim este amor,
e senhoreou-se de mi:
agora que o conheci,
mata-me com desfavor.
As flores me torna abrolhos,
a morte me determina
quem eu trouxe de minina
nas mininas dos meus olhos.
Desta mágoa e desta dor
tenho sabido enfim,
por amor me perco a mim,
por quem de mim perde o amor.
Parece ser caso estranho
o que Amor em mim ordena,
que em idade tão pequena
haja tormento tamanho.
milagres de Amor,
hei-os de sofrer assi,
até que haja dó de mi
quem entender esta dor.
a esta cantiga velha:
Apartaram-se os meus olhos
de mim tão longe...
Falsos amores,
falsos, maus, enganadores !
Trataram-me com cautela
por me enganar mais asinha;
dei-lhe posse da alma minha,
foram-me fugir co ela.
Não há vê-los, nem há vê-la,
de mim tão longe...
Falsos amores,
falsos, maus, enganadores!
Entreguei-lhe a liberdade,
e enfim, da vida o milhor:
foram-se, e do desamor
fizeram necessidade.
Quem teve a sua vontade
de mim tão longe?
Falsos amores,
e tão cruéis matadores!
Não se pôs serra nem mar
entre nós, que fora em vão;
pôs-se vossa condição,
que não doce é de passar.
Só ela vos quis leixar
de mim tão longe!
Falsos amores!
...e oxalá que enganadores!
a este moto alheio:
Vede bem se nos meus dias
os desgostos vi sobejos,
pois tenho medo a desejos
e quero mal a alegrias.
Se desejos fui já ter,
serviram de atormentar-me;
se algum pôde alegrar-me,
quis-me antes entristecer.
Passei anos, passei dias,
em desgostos tão sobejas
que, só por não ter desejos,
perderei mil alegrias.
a este moto seu:
Pois me faz dano olhar-vos
não quero, por não perder-vos
que ninguém me veja ver-vos.
De ver-vos a não vos ver
há dous extremos mortais;
e são eles em si tais
que um por um me faz morrer;
mas antes quero escolher
que possa viver sem ver-vos
minh'alma, por não perder-vos.
Deste tamanho perigo
que remédio posso ter,
se vivo só com vos ver,
se vos não vejo, perigo?
Quero acabar comigo
que ninguém me veja ver-vos,
Senhora, por não perder-vos.
a três Damas que lhe diziam
que o amavam
MOTO:
Não sei se me engana Helena,
se Maria, se Joana,
não sei qual delas me engana.
Üa diz que me quer bem,
outra jura que mo quer;
mas, em jura de mulher
quem crerá, se elas não crêm?
Não posso não crer a Helena,
a Maria, nem Joana,
mas não sei qual mais me engana.
Üa faz-me juramentos
que só meu amor estima;
a outra diz que se fina;
Joana, que bebe os ventos.
Se cuido que mente Helena,
também mentirá Joana;
mas quem mente, não me engana.
a üa Dama mal empregada
MOTO SEU:
Minina, não sei dizer,
vendo vos tão acabada,
quão triste estou por vos ver
fermosa e mal empregada.
Quem tão mal vos empregou,
pouco de mi se doía,
pois não viu quanto me ia
em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
lindeza tão extremada
que digam quantos a vêm:
— Fermosa e mal empregada!
Tomastes da fermosura
quanto dela desejastes,
e com ela me guardastes
para tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
matais agora em casada;
matais de toda a maneira;
Fermosa e mal empregada!
a este moto alheio:
Há um bem que chega e foge;
e chama-se este bem tal,
ter bem para sentir mal.
Quem viveu sempre num ser,
inda que seja em pobreza,
não viu o bem da riqueza,
nem o mal de empobrecer:
não ganhou para perder;
mas ganhou com vida igual
não ter bem nem sentir mal.
a üa Dama que lhe virou o rosto
MOTO
Olhos, não vos mereci
que tenhais tal condição:
tão liberais para o chão,
tão irosos para mi.
Baixos e honestos andais,
por vos negardes a quem
não quer mais que aquele bem
que vós no chão espalhais.
Se pouco vos mereci,
não me estimais mais que o chão,
a quem vós o galardão
dais, e mo neguis a mi.
a esta cantiga alheia:
Pequenos contentamentos,
i buscar quem contenteis,
que a mim não me conheceis,
Os gostos, que tantas dores
fizeram já valer menos,
não os aceita pequenas,
quem nunca teve maiores.
Bem parecem vãos favores,
pois tão tarde me quereis
qu'inda me não conheceis.
Ofereceis-me alegria,
tendo-me já cego e mouco:
é baixeza aceitar pouco
quem tanto vos merecia.
Ide-vos por outra via,
pois o bem que me deveis
nunca mo satisfareis.
a esta Trova de Boscão:
Justa fué mi perdición,
de mis males soy contento;
ya no espero galardón,
pues vuestro merecimiento
satistizo a mi pasiôn.
Después que Amor me formó
todo de amor, cual me veo,
en las leyes que me dió,
el mirar me consintió,
y defendióme el deseo.
Mas el alma, como injusta,
en viendo tal perfección,
dió a al deseo ocasión:
y pues quebré ley tan justa,
justa fué mi perdición.
Mostrándoseme el Amor
más benigno que cruel,
sobre tirano, traidor,
de celos de mi dolor,
quiso tomar parte en él.
Yo, que tan dulce tormento
no quieto dallo, aunque peco,
resisto, y no lo consiento;
mas si me lo toma á trueco,
de mis males soy contento.
Señora, ved lo que ordena
este Amor tan falso nuestro!
Por pagar á costa ajena
manda que de un mirar vuestro
haga el premio de mi pena.
Mas vos, para que veáis
tan engañosa tención,
aunque muerto me sintáis,
no miréis, que, si miráis,
ya no espero galardón.
¿Pues que premio (me diréis)
esperas que será bueno?
Sabed, si no lo sabéis,
que es lo más de lo que peno
lo menos que merecéis.
¿Quién hace al mal tan ufano,
y tan libre al sentimiento?
¿El deseo? No, que es vano.
¿El Amor? No, que es tirano
¿Pues? Vuestro merecimiento.
No pudiendo Amor robarme
de mis tan caros despojos,
aunque fué por más honrarme,
vos sola para matarme
le prestastes vuestros ojos.
Matáronme ambos á dos;
mas á vos con mas razón
debe él la satisfacción;
que á mi por él, y por vos,
satisfizo mi pasión,
a este moto:
Foi-se gastando a esperança,
fui entendendo os enganos;
do mal ficaram meus danos
e do bem só a lembrança.
Nunca em prazeres passados
tive firmeza segura,
antes tão arrebatados
que inda não eram chegados
quando mos levou ventura.
E como quem desconfia
ter em tal sorte mudança,
no meio desta porfia,
de quanto bem pretendia
foi-se gastando a esperança.
Não tive por desatino
a ocasião de perdê-la;
mas foi culpa do destino,
que a ninguém, como mais dino,
Amor pudera sustê-la.
Dei-lhe tudo o que era seu,
não receando tais danos
deste, a quem alma lhe deu;
quando já não era meu,
foi entendendo os enganos.
Fiquei, deste mal sobejo
a quem a causa compete,
dizer-lhe tudo o que vejo,
que Amor aceita o desejo,
mas mente no que promete.
Que, se a mim se me obrigou
a dar-me bens soberanos,
foi engano que ordenou,
que do bem tudo levou,
do mal ficaram meus danos.
E se de dor tão desigual
sofro em mim com padecê-los,
quero de novo sofrê-los;
que, por a causa ser tal,
não determino ofendê-los.
Dobre-se o mal, falte a vida,
creça a fé, falte a esperança,
pois foi mal agradecida;
fique a dor n'alma imprimida,
e do bem só a lembrança.
a üa Dama que perguntou
ao Autor quem o matava
MOTO:
Pergunteis-me quem me mata?
Não quero responder nada,
por vos não fazer culpada.
E se a pena neo me atiça
a dizer pena tão forte,
quero-me entregar à morte,
antes que vós à justiça.
Porém, se tendes cobiça
de vos verdes tão culpada,
direi que não sinto nada.
a este moto alheio:
Se alma ver-se não pode
onde pensamentos ferem,
que farei para me crerem?
SUAS
N'alma üa só ferida
faz na vida mil sinais;
tanto se descobre mais
quanto é mais escondida.
Se esta dor tão conhecida
me não vêm, porque não querem,
que farei para me crerem?
Se se pudesse bem ver
quanto calo, e quanto sento,
despois de tanto tormento
cuidaria alegre ser.
Mas se não me querem crer
olhos que tão mal me ferem,
que farei para me crerem?
a esta cantiga alheia:
Se me desta terra for,
eu vos levarei, amor.
Se me for, e vos deixar
(ponho, por caso, que possa),
esta alma minha, que é vossa,
convosco me há-de ficar.
Assi que, só por levar
a minh'alma, se me for,
vos levarei, meu amor.
Que mal pode maltratar-me
que convosco seja mal?
Ou que bem pode ser tal
que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me,
o bem me será maior
se vos levar, meu amor.
a este moto alheio
Vosso bem querer, Senhora:
vosso mal milhor me fora.
Já'gora certo conheço
ser milhor todo tormento
onde o arrependimento
se compra por justo preço.
Enganou-me um bom começo;
mas o fim me diz agora
que o mal milhor me fora.
Quando um bem é tão danoso
que, sendo bem, dá cuidado,
o dano fica obrigado
a ser menos perigoso.
Mas se a mim, por desditoso,
co bem me foi mal, Senhora,
co vosso mal bem me fora.
a este moto:
Irme quieto, madre,
á aquella galera,
con el marinero
á ser marinera.
Madre, si me fuere,
dó quiera que vó,
no lo quiero yo,
que el Amor lo quiere.
Aquél niño fiero
hace que me muera,
por un marinero
á ser marinera.
Él, que todo puede,
madre, no podrá,
pues el alma vá,
que el cuerpo se quede.
Con él, por quién muero,
voy, porque no muera;
que, si es marinero,
seré marinera.
Es tirana ley,
del niño Señor,
que por un amor
se desenhe un Rey:
pues desta manera
quiere, yo me quiero
por un marinero
hacer marinera.
Decid, ondas, ¿cuándo
vistes vos doncella,
siendo tierna y bella,
andar navegando?
|Pues| más no se espera
daquel niño fiero,
vea yo quién quiero,
sea marinera.
a üa Dama a quem
não podia encontrar
MOTO:
Qual terá culpa de nós
neste mal que todo é meu?
quando vindes, não vou eu,
quando vou, não vindes vós
Reinando Amor em dous peitos,
tece tantas falsidades,
que, de conformes vontades,
faz desconformes efeitos.
Igualmente vive em nós;
mas, por desconcerto seu,
vos leva, se venho eu,
me leva, se vindes vós.
a este moto:
Com razão queixar-me posso
de vós, que mel vos queixais;
pois, Senhora, vos sangrais,
que seja num corpo vosso.
Eu, para levar a palma
com que ser vosso mereça,
quero que o corpo padeça
por vós, que dele sois alma.
Vós do corpo vos queixais,
eu queixar-me de vós posso,
porque, tendo um corpo vosso,
na minh'alma vos sangrais.
E sem fazer diferença
no que de mim possuís,
pelo pouco que sentis,
dais à minh'alma doença.
Pois que dous aventurais
oh! não seja o dano nosso:
sangre-se este corpo vosso,
porque, minh'alma, vivais.
E inda, se atentardes bem,
seguis medicina errada,
porque para ser sangrada
üa alma sangue não tem.
E pois em mim sarar posso
males, que à minha alma dais,
se inda outra vez vos sangrais,
seja neste corpo vosso.
a esta cantiga alheia
Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha:
Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas, com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.
Quis voar a üa alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.
a esta cantiga alheia:
Tende-me mão nele
qu'um real me deve I
Cum real de amor,
dous de confiança
e três de esperança
me foge o tredor.
Falso desamor
se encerra naquele
qu'um real me deve.
Pediu-mo emprestado,
não lhe quis penhor;
é mau pagador,
tendo-mo aferrado.
Cum cordel atado,
ao Tronco se leve,
qu'um real me deve.
Por esta travessa
se vai acolhendo;
ei-lo vai correndo,
fugindo a grã pressa.
Nesta mão e nessa
o falso s'atreve,
qu'um real me deve.
Comprou-me amor
sem lhe fazer preço:
eu não lhe mereço
dar-me desfavor.
Dá-me tanta dor
que ando após ele
pelo que me deve.
Eu de cá bradando,
ele vai fugindo;
ele sempre rindo,
eu sempre chorando.
{El} de quando em quando
no amor s'atreve,
como que não deve.
A falar verdade,
ele já pagou;
mas inda ficou
devendo ametade.
Minha liberdade
é a que me deve:
só nela se atreve.
a este moto seu:
Venceu-me Amor, não o nego;
tem mais força qu'eu assaz;
que, como é cego, e rapaz,
dá-me porrada de cego!
Só porque é rapaz ruim,
dei-lhe um bofete, zombando;
diz-me:—Ó mau, estais-me dando
porque sois maior que mim?
pois se vos eu descarrego...
Em dizendo isto, chaz!
torna-m'outra. Tá! rapaz,
que dás porrada de cego!
a este moto:
Dó la mi ventura?
Que no veo alguna.
Sepa quién padece
que en la sepultura
se esconde ventura de
quién la merece.
Allá me parece
que quiere fortuna
que yo halle alguna.
Naciendo mezquino,
dolor fué mi cama;
tristeza fué el ama,
cuidado el padrino.
Vestióse el destino,
negra vestidura;
huyó la ventura.
No se halló tormento,
que allí no se hallase;
ni bien que pasase,
sino como viento.
¡Oh, que nacimiento,
que luego en la cuna
me seguió fortuna!
Esta dicha mía,
que siempre busqué,
buscandola, hallé
que no la hallaría;
que quién nace en día
d'estrella tan dura,
nunca halla ventura.
No puso mi estrella
más ventura en mí;
así vive en fin
quién nace sin ella.
No me quejo della;
quéjome que atura
vida tan escura.
{Vós} sois üa dama
das feias do mundo;
de toda a má fama
sois cabo profundo.
A vossa figura
não é para ver;
em vosso poder
não há fermosura.
{Vós} fostes dotada
de toda a maldade;
perfeita beldade
de vós é tirada.
Sois muito acabada
de tacha e de glosa:
pois, quanto a fermosa,
em vós não há nada.
De grão merecer
sois bem apartada;
andais alongada
do bem parecer.
Bem claro mostrais
em vós fealdade:
não há i maldade
que não precedais.
De fresco carão
vos vejo ausente;
em vós é presente
a má condição.
De ter perfeição
mui alheia estais;
mui muito alcançais
de pouca razão.
a üa Dama por quem penava
Se na alma e no pensamento
por vosso me manifesto,
não me pesa do que sento;
que, se não sofrer tormento,
faço ofensa a vosso gesto.
E, pois quanto Amor ordena
e quanto esta alma deseja
tudo à morte me condena,
não quero senão que seja
tudo pena, pena, pena.
a üa Dama que lhe chamou
«cara-sem-olhos»
Sem olhos vi o mal claro
que dos olhos se seguiu:
pois «cara-sem-olhos» viu
olhos que lhe custam caro.
De olhos não faço menção,
pois quereis que olhos neo sejam;
vendo-vos, olhos sobejam,
não vos vendo olhos não são.
a uma Dama de apelido Anjos,
que lhe chamou diabo
MOTO:
Senhora, pois me chamais
tão sem razão tão mau nome,
inda o diabo vos tome,
Quem quer que viu, ou que leu,
terá por novo e moderno
ter quem vive no Inferno
o pensamento no Céu.
Mas se a vós vos pareceu
que me estava bem tal nome,
esse diabo vos tome.
Perdido mais que ninguém
confesso, Senhora, ser;
mas «diabo» não quer
aos «Anjos» tamanho bem.
Pois logo não me convém,
ou se me convém tal nome
será para que vos tome.
Se vos benzeis com cautela,
como de Anjo, e não de luz,
mal pode fugir da Cruz
quem vós tendes posto nela.
Mas já que foi minha estrela,
ser «diabo», e ter tal nome,
guardai-vos, que vos não tome
Já que chegais tanto ao cabo,
co as mãos postas aos Céus,
vou sempre pedindo a Deus
que vos leve este «diabo».
Eu, Senhora, não me gabo;
mas, pois que me dais tal nome,
tomo-o, para que vos tome.
Enquanto quis Fortuna que tivesse
esperança de algum contentamento,
o gosto de um suave pensamento
me fez que seus efeitos escrevesse.
Porém, temendo Amor que aviso desse
minha escritura a algum juízo isento,
escureceu-me o engenho co tormento,
para que seus enganos não dissesse.
Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
a diversas vontades! Quando lerdes
num breve livro casos tão diversos,
verdades puras são, e não defeitos...
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
tereis o entendimento de meus versos!
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar me, e novas esquivanças;
que não pode tirar me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio,
o mundo todo abarco e nada aperto.
É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao Céu voando,
num'hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar ü'hora.
Se me pergunta alguém porque assi ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;
de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.
Bem pudera Fortuna este instrumento
d'alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;
mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.
Ofogo que na branda cera ardia,
vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo,
se acendeu de outro fogo do desejo,
por alcançar a luz que vence o dia.
Como de dous ardores se encendia,
da grande impaciência fez despejo,
e remetendo com furor sobejo
vos foi beijar na parte onde se via.
Ditosa aquela flama, que se atreve
a apagar seus ardores e tormentos
na vista de que o mundo tremer deve.
Namoram se, Senhora, os Elementos
de vós, e queima o fogo aquela neve
que queima corações e pensamentos.
Pede o desejo, Dama, que vos veja,
não entende o que pede; está enganado.
É este amor tão fino e tão delgado,
que quem o tem não sabe o que deseja.
Não há cousa a qual natural seja
que não queira perpétuo seu estado;
não quer logo o desejo o desejado,
porque não falte nunca onde sobeja.
Mas este puro afeito em mim se dana;
que, como a grave pedra tem por arte
o centro desejar da natureza,
assi o pensamento (pola parte que
vai tomar de mim, terreste e humana)
foi, Senhora, pedir esta baixeza.
Quando da bela vista e doce riso,
tomando estão meus olhos mantimento,
tão enlevado sinto o pensamento
que me faz ver na terra o Paraíso.
Tanto do bem humano estou diviso,
que qualquer outro bem julgo por vento;
assi, que em caso tal, segundo sento,
assaz de pouco faz quem perde o siso.
Em vos louvar, Senhora, não me fundo,
porque quem vossas cousas claro sente,
sentirá que não pode merecê las.
Que de tanta estranheza sois ao mundo,
que não é de estranhar, Dama excelente,
que quem vos fez, fizesse Céu e estrelas.
Tomou-me vossa vista soberana
adonde tinha armas mais à mão,
por mostrar que quem busca defensão
contra esses belos olhos, que se engana.
Por ficar da vitória mais ufana,
deixou-me armar primeiro da Razão;
cuidei de me salvar, mas foi em vão,
que contra o Céu não val defensa humana.
Mas porém se vos tinha prometido
o vosso alto destino esta vitória,
ser-vos tudo bem pouco está sabido.
Que, posto que estivesse apercebido,
não levais de vencer-me grande glória:
maior a levo eu de ser vencido.
Vossos olhos, Senhora, que competem
co Sol em fermosura e claridade,
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.
Meus sentidos vencidos se sometem
assi cegos a tanta majestade;
e da triste prisão, da escuridade,
cheios de medo, por fugir remetem.
Mas se nisto me vedes por acerto,
o áspero desprezo com que olhais
torna a espertar a alma enfraquecida.
Ó gentil cura e estranho desconcerto!
Que fará o favor que vós não dais,
quando o vosso desprezo torna a vida?
Alegres campos, verdes arvoredos,
claras e frescas águas de cristal,
que em vós os debuxais ao natural,
discorrendo da altura dos rochedos;
Silvestres montes, ásperos penedos,
compostos em concerto desigual,
sabei que, sem licença de meu mal,
já não podeis fazer meus olhos ledos.
E, pois me já não vedes como vistes,
não me alegrem verduras deleitosas,
nem águas que correndo alegres vêm.
Semearei em vós lembranças tristes,
regando-vos com lágrimas saudosas,
e nascerão saudades de meu bem.
Está o lascivo e doce passarinho
com o biquinho as penas ordenando;
o verso sem medida, alegre e brando,
espedindo no rústico raminho;
o cruel caçador (que do caminho
se vem calado e manso desviando)
na pronta vista a seta endireitando,
lhe dá no Estígio lago eterno ninho.
Dest' arte o coração, que livre andava,
(posto que já de longe destinado)
onde menos temia, foi ferido.
Porque o Frecheiro cego me esperava,
para que me tomasse descuidado,
em vossos claros olhos escondido.
Lembranças saudosas, se cuidais
de me acabar a vida neste estado,
não vivo com meu mal tão enganado,
que não espere dele muito mais.
De muito longe já me costumais
a viver de algum bem desesperado;
já tenho co a Fortuna concertado
de sofrer os trabalhos que me dais.
Atado ao remo tenho a paciência,
para quantos desgostos der a vida,
cuide em quanto quiser o pensamento;
que, pois não há i outra resistência
para tão certa queda da caída,
aparar-lhe hei debaixo o sofrimento.
Se as penas com que Amor tão mal me trata
quiser que tanto tempo viva delas
que veja escuro o lume das estrelas
em cuja vista o meu se acende e mata;
e se o tempo, que tudo desbarata,
secar as frescas rosas sem colhê-las,
mostrando a linda cor das tranças belas
mudada de ouro fino em bela prata;
vereis, Senhora, então também mudado
o pensamento e aspereza vossa,
quando não sirva já sua mudança.
Suspirareis então pelo passado,
em tempo quando executar-se possa
em vosso arrepender minha vingança.
Quem vê, Senhora, claro e manifesto
o lindo ser de vossos olhos belos,
se não perder a vista só em vê los,
já não paga o que deve a vosso gesto.
Este me parecia preço honesto;
mas eu, por de vantagem merecê los,
dei mais a vida e alma por querê los,
donde já me não fica mais de resto.
Assi que a vida e alma e esperança
e tudo quanto tenho, tudo é vosso,
e o proveito disso eu só o levo.
Porque é tamanha bem aventurança
o dar vos quanto tenho e quanto posso
que, quanto mais vos pago, mais vos devo.
Quando o Sol encoberto vai mostrando
ao mundo a luz quieta e duvidosa,
ao longo de üa praia deleitosa,
vou na minha inimiga imaginando.
Aqui a vi, os cabelos concertando;
ali, co a mão na face tão fermosa;
aqui, falando alegre, ali cuidosa;
agora estando queda, agora andando.
aqui esteve sentada, ali me viu,
erguendo aqueles olhos tão isentos;
aqui movida um pouco, ali segura;
qui se entristeceu, ali se riu;
enfim, nestes cansados pensamentos
passo esta vida vã, que sempre dura.
Tempo é já que minha confiança
se desça de üa falsa opinião;
mas Amor não se rege por razão;
não posso perder, logo, a esperança.
A vida, si; que üa áspera mudança
não deixa viver tanto um coração.
E eu na morte tenho a salvação?
Si, mas quem a deseja não a alcança.
Forçado é logo que eu espere e viva.
Ah! dura lei de Amor, que não consente
quietação nüa alma que é cativa!
Se hei de viver, enfim, forçadamente,
para que quero a glória fugitiva
de üa esperança vã que me atormente?
Transforma se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sòmente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assi co a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia:
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Passo por meus trabalhos tão isento
de sentimento grande nem pequeno,
que só pola vontade com que peno
me fica Amor devendo mais tormento.
Mas vai me Amor matando tanto a tento,
temperando a triaga co veneno,
que do penar a ordem desordeno,
porque não mo consente o sofrimento.
Porém, se esta fineza o Amor sente,
e pagar me meu mal com mal pretende,
torna me com prazer como ao Sol neve.
Mas se me vês cos males tão contente,
faz se avaro da pena, porque entende
que quanto mais me paga, mais me deve.
Num jardim adornado de verdura,
a que esmaltam por cima várias flores,
entrou um dia a deusa dos amores,
com a deusa da caça e da espessura.
Diana tomou logo üa rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos milhores;
mas excediam muito às outras flores
as violas, na graça e fermosura.
Perguntam a Cupido, que ali estava,
qual daquelas três flores tomaria,
por mais suave, pura e mais fermosa?
Sorrindo se, o Minino lhe tornava:
todas fermosas são, mas eu queria
V i o l 'a n t e s que lírio, nem que rosa.
Lindo e sutil trançado, que ficaste
em penhor do remédio que mereço,
se só contigo, vendo te, endoudeço,
que fora cos cabelos que apertaste?
Aquelas tranças d'ouro, que ligaste,
que os raios do Sol têm em pouco preço,
não sei se para engano do que peço
se para me atar, os desataste.
Lindo trançado, em minhas mãos te vejo,
e por satisfação de minhas dores
como quem não tem outra, hei de tomar te.
E se não for contente meu desejo,
dir lhe hei que, nesta regra dos amores,
pelo todo também se toma a parte.
Está se a Primavera trasladando
em vossa vista deleitosa e honesta;
nas lindas faces, olhos, boca e testa,
boninas, lírios, rosas debuxando.
De sorte, vosso gesto matizando,
Natura quanto pode manifesta
que o monte, o campo, o rio e a floresta
se estão de vós, Senhora, namorando.
Se agora não quereis que quem vos ama
possa colher o fruito destas flores,
perderão toda a graça vossos olhos.
Porque pouco aproveita, linda Dama,
que semeasse Amor em vós amores,
se vossa condição produze abrolhos.
Oh! como se me alonga, de ano em ano,
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!
Vai se gastando a idade e cresce o dano;
perde se me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.
Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece,
mil vezes caio, e perco a confiança.
Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda parece,
da vista se me perde, e da esperança.
Porque quereis, Senhora, que ofereça
a vida a tanto mal como padeço?
Se vos nasce do pouco que mereço,
bem por nascer está quem vos mereça.
Sabei que, enfim, por muito que vos peça,
que posso merecer quanto vos peço;
que não consente Amor que em baixo preço
tão alto pensamento se conheça.
Assi que a paga igual de minhas dores,
com nada se restaura, mas deveis ma,
por ser capaz de tantos disfavores.
E se o valor de vossos servidores
houver de ser igual convosco mesma,
vós só convosco mesma andai d'amores.
Quando vejo que meu destino ordena
que por me exprimentar de vós me aparte,
deixando de meu bem tão grande parte
que a mesma culpa fica grave pena;
o duro disfavor que me condena,
quando pela memória se reparte,
endurece os sentidos de tal arte
que a dor da ausência fica mais pequena.
Pois como pode ser que na mudança
daquilo que mais quero estê tão fora
de me não apartar também da vida?
Eu refrearei tão áspera esquivança;
porque mais sentirei partir, Senhora,
sem sentir muito a pena da partida.
Se algü'hora em vós a piedade
de tão longo tormento se sentira,
não consentira Amor que me partira
de vossos olhos, minha saüdade.
Apartei me de vós, mas a vontade,
que pelo natural n'alma vos tira,
me faz crer que esta ausência é de mentira;
mas inda mal, porém, porque é verdade.
Ir me hei, Senhora; e, neste apartamento,
tomarão tristes lágrimas vingança
nos olhos de quem fostes mantimento.
E assi darei vida a meu tormento;
que, enfim, cá me achará minha lembrança
sepultado no vosso esquecimento.
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;
começa de servir outros sete anos,
dizendo:—Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Pensamentos, que agora novamente
cuidados vãos em mim ressuscitais,
dizei me: ainda não vos contentais
de terdes, quem vos tem, tão descontente?
Que fantasia é esta, que presente
cad'hora ante meus olhos me mostrais?
Com sonhos e com sombras atentais
quem nem por sonhos pode ser contente?
Vejo vos, pensamentos, alterados
e não quereis, d'esquivos, declarar me
que é isto que vos traz tão enleados?
Não me negueis, se andais para negar me;
que, se contra mim estais alevantados,
eu vos ajudarei mesmo a matar me.
Vós que, d'olhos suaves e serenos,
com justa causa a vida cativais,
e que os outros cuidados condenais
por indevidos, baixos e pequenos;
se ainda do Amor domésticos venenos
nunca provastes, quero que saibais
que é tanto mais o amor despois que amais,
quanto são mais as causas de ser menos.
E não cuide ninguém que algum defeito,
quando na cousa amada s'apresenta,
possa deminuir o amor perfeito;
pouco e pouco o desculpa o brando peito;
que Amor com seus contrairos s'acrescenta.
Se tomar minha pena em penitência
do erro em que caiu o pensamento,
a isto, e a mais, obriga a paciência.
E se üa cor de morto na aparência,
um espalhar suspiros vãos ao vento,
em vós não faz, Senhora, movimento,
fique meu mal em vossa consciência.
E se de qualquer áspera mudança
toda a vontade isenta Amor castiga
(como eu vi bem no mal que me condena);
e se em vós não s'entende haver vingança,
será forçado (pois Amor me obriga)
que eu só de vossa culpa pague a pena.
Se pena por amar vos se merece,
quem dela livre está? Ou quem isento?
Que alma, que razão, qu'entendimento,
em ver vos se não rende e obedece?
Que mor glória na vida s'oferece
que ocupar se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
em ver vos se não sente, mas esquece.
Mas se merece pena quem amando
contino vos está, se vos ofende,
o mundo matareis, que todo é vosso.
Em mim podeis, Senhora, ir começando,
que claro se conhece e bem se entende
amar vos quanto devo e quanto posso.
Que modo tão sutil da natureza,
para fugir ao mundo, e seus enganos,
permite que se esconda em tenros anos,
debaixo de um burel tanta beleza!
Mas esconder se não pode aquela alteza
e gravidade de olhos soberanos,
a cujo resplandor entre os humanos
resistência não sinto, ou fortaleza.
Quem quer livre ficar de dor e pena,
vendo a ou trazendo a na memória,
da mesma razão sua se condena.
Porque quem mereceu ver tanta glória,
cativo há de ficar; que Amor ordena
que de juro tenha ela esta vitória.
Presença bela, angélica figura,
em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado;
gesto alegre, de rosas semeado,
entre as quais se está rindo a Fermosura;
olhos, onde tem feito tal mistura
em cristal branco o preto marchetado,
que vemos já no verde delicado
não esperança, mas enveja escura;
brandura, aviso e graça, que aumentando
a natural beleza cum desprezo,
com que, mais desprezada, mais se aumenta;
são as prisões de um coração que, preso,
seu mal ao som dos ferros vai cantando,
como faz a sereia na tormenta.
Por cima destas águas, forte e firme,
irei por onde as sortes ordenaram,
pois, por cima de quantas me choraram
aqueles claros olhos, pude vir me.
Já chegado era o fim de despedir me,
já mil impedimentos se acabaram,
quando rios de amor se atravessaram
a me impedir o passo de partir me.
Passei os eu com ânimo obstinado,
com que a morte forçada e gloriosa
faz o vencido já desesperado.
Em que figura, ou gesto desusado,
pode já fazer medo a morte irosa,
a quem tem a seus pés rendido e atado?
Arvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;
nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruto debuxando;
que, pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,
se não te celebrar como mereces,
cantando te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.
Oculto divinal se celebrava
no templo donde toda a criatura
louva o Feitor divino, que a feitura
com seu sagrado sangue restaurava.
Ali Amor, que o tempo me aguardava
onde a vontade tinha mais segura,
nüa celeste e angélica figura
a vista da razão me salteava.
Eu, crendo que o lugar me defendia,
e seu livre costume não sabendo
que nenhum confiado lhe fugia,
deixei me cativar; mas já que entendo,
Senhora, que por vosso me queria,
do tempo que fui livre me arrependo.
Senhora minha, se a Fortuna imiga,
que em minha fim com todo o Céu conspira,
os olhos meus de ver os vossos tira,
porque em mais graves casos me persiga;
comigo levo esta alma, que se obriga,
na mor pressa de mar, de fogo, de ira,
a dar vos a memória, que suspira,
só por fazer convosco eterna liga.
Nest'alma, onde a Fortuna pode pouco,
tão viva vos terei, que frio e fome
vos não possam tirar, nem vãos perigos.
Antes co som da voz, trémulo e rouco,
bradando por vós, só com vosso nome
farei fugir os ventos e os imigos.
Aquela fera humana que enriquece
sua presuntuosa tirania
destas minhas entranhas, onde cria
Amor um mal que falta quando crece;
Se nela o Céu mostrou (como parece)
quanto mostrar ao mundo pretendia,
porque de minha vida se injuria?
Porque de minha morte s'enobrece?
Ora, enfim, sublimai vossa vitória,
Senhora, com vencer me e cativar me:
fazei disto no mundo larga história.
Que, por mais que vos veja maltratar me,
já me fico logrando desta glória
de ver que tendes tanta de matar me.
Amor, que o gesto humano n'alma escreve,
vivas faíscas me mostrou um dia,
donde um puro cristal se derretia
por entre vivas rosas e alva neve.
A vista, que em si mesma não se atreve,
por se certificar do que ali via,
foi convertida em fonte, que fazia
a dor ao sofrimento doce e leve.
Jura Amor que brandura de vontade
causa o primeiro efeito; o pensamento
endoudece, se cuida que é verdade.
Olhai como Amor gera num momento,
de lágrimas de honesta piedade
lágrimas de imortal contentamento.
Como quando do mar tempestuoso
o marinheiro, lasso e trabalhado,
d'um naufrágio cruel já salvo a nado,
só ouvir falar nele o faz medroso;
e jura que em que veja bonançoso
o violento mar, e sossegado
não entre nele mais, mas vai, forçado
pelo muito interesse cobiçoso;
Assi, Senhora eu, que da tormenta,
de vossa vista fujo, por salvar me,
jurando de não mais em outra ver me;
minh'alma que de vós nunca se ausenta,
dá me por preço ver vos, faz tornar me
donde fugi tão perto de perder me.
DDitoso seja aquele que somente
se queixa de amorosas esquivanças;
pois por elas não perde as esperanças
de poder n'algum tempo ser contente.
Ditoso seja quem, estando ausente,
não sente mais que a pena das lembranças;
porqu', inda que se tema de mudanças,
menos se teme a dor quando se sente.
Ditoso seja, enfim, qualquer estado
onde enganos, desprezos e isenção
trazem o coração atormentado.
Mas triste quem se sente magoado
d'erros em que não pode haver perdão,
sem ficar n'alma a mágoa do pecado.
Leda serenidade deleitosa, que
representa em terra um paraíso;
entre rubis e perlas doce riso;
debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa;
presença moderada e graciosa,
onde ensinando estão despejo e siso
que se pode por arte e por aviso,
como por natureza, ser fermosa;
fala, de quem a morte e a vida pende,
rara, suave; enfim, Senhora, vossa;
repouso, nela, alegre e comedido;
estas as armas são com que me rende
e me cativa Amor; mas não que possa
despojar me da glória de rendido.
No mundo quis um tempo que se achasse
o bem que por acerto ou sorte vinha;
e, por exprimentar que dita tinha,
quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.
Mas, por que meu destino me mostrasse
que nem ter esperanças me convinha,
nunca nesta tão longa vida minha
cousa me deixou ver que desejasse.
Mudando andei costume, terra e estado,
por ver se se mudava a sorte dura;
a vida pus nas mãos de um leve lenho.
Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado)
já sei que deste meu buscar ventura,
achado tenho já, que não a tenho.
Oh! quão caro me custa o entender te,
molesto Amor, que, só por alcançar te,
de dor em dor me tens trazido a parte
onde em ti ódio e ira se converte!
Cuidei que para em tudo conhecer te,
me não faltasse experiência e arte;
agora vejo n'alma acrecentar te
aquilo que era causa de perder te.
Estavas tão secreto no meu peito
que eu mesmo, que te tinha, não sabia
que me senhoreavas deste jeito.
Descobriste t'agora; e foi por via
que teu descobrimento e meu defeito,
um me envergonha e outro m'injuria.
Quem quiser ver d'Amor üa excelência
onde sua fineza mais se apura,
atente onde me põe minha ventura,
por ter de minha fé experiência.
Onde lembranças mata a longa ausência,
em temeroso mar, em guerra dura,
ali a saudade está segura,
quando mor risco corre a paciência.
Mas ponha me Fortuna e o duro Fado
em nojo, morte, dano e perdição,
ou em sublime e próspera ventura;
Ponha me, enfim, em baixo ou alto estado;
que até na dura morte me acharão
na língua o nome, n'alma a vista pura.
Se, despois d'esperança tão perdida,
Amor pola ventura consentisse
que inda algü'hora breve alegre visse
de quantas tristes viu tão longa vida;
ü'alma já tão fraca e tão caída,
por mais alto que a sorte me subisse,
não tenho para mim que consentisse
alegria tão tarde consentida.
Não tão somente Amor me não mostrou
um'hora em que vivesse alegremente,
de quantas nesta vida me negou;
mas inda tanta pena me consente,
que co contentamento me tirou
o gosto de algü'hora ser contente.
Senhor João Lopes, o meu baixo estado
ontem vi posto em grau tão excelente,
que vós, que sois enveja a toda a gente,
só por mim vos quiséreis ver trocado.
Vi o gesto suave e delicado
que já vos fez, contente e descontente,
lançar ao vento a voz tão docemente
que fez o ar sereno e sossegado.
Vi lhe em poucas palavras dizer, quanto
ninguém diria em muitas; eu só, cego,
magoado fiquei na doce fala.
Mas mal haja a Fortuna, e o Moço cego!
Um, porque os corações obriga a tanto;
outra, porque os estados desiguala.
Apolo e as nove Musas, discantando
com a dourada lira, me influíam
na suave harmonia que faziam,
quando tomei a pena, começando:
—Ditoso seja o dia e hora, quando
tão delicados olhos me feriam!
Ditosos os sentidos que sentiam
estar se em seu desejo traspassando!
Assi cantava, quando Amor virou
a roda à esperança, que corria
tão ligeira que quase era invisível.
Converteu se me em noite o claro dia;
e, se algüa esperança me ficou,
será de maior mal, se for possível.
Dai me üa lei, Senhora, de querer vos,
que a guarde, sô pena de enojar vos;
que a fé que me obriga a tanto amar vos
fará que fique em lei de obedecer vos.
Tudo me defendei, senão só ver vos,
e dentro na minh'alma contemplar vos;
que, se assi não chegar a contentar vos,
ao menos que não chegue a aborrecer vos.
E, se essa condição cruel e esquiva,
que me dois lei de vida não consente,
dai ma, Senhora, já, seja de morte.
Se nem essa me dais, é bem que viva,
sem saber como vivo, tristemente,
mas contente porém de minha sorte.
Se tanta pena tenho merecida
em pago de sofrer tantas durezas,
provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
que aqui tendes ua alma oferecida.
Nela experimental, se sois servida,
desprezos, disfavores e asperezas;
que mores sofrimentos e firmezas
sustentarei na guerra desta vida.
Mas contra vossos olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda;
mas porei por escudo o coração.
Porque em tão dura e áspera contenda,
é bem que, pois não acho defensão,
com me meter nas lanças me defenda.
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
mas, porque assi o pedia o coração,
quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!
Novo modo de morte, e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
que perde suas forças a afeição,
porque não perca a pena o seu rigor.
Pois nunca houve fraqueza no querer,
mas antes muito mais se esforça assim
um contrário com outro por vencer.
Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
não creio que é razão; mas há de ser
inclinação que eu tenho contra mim.
Diversos dões reparte o Céu benino,
e quer que cada üa um só possua;
assi, ornou de casto peito a Lüa,
ornamento do assento cristalino.
De graça, a Mãe fermosa do Minino,
que nessa vista tem perdido a sua;
Palas, de discrição, que imite a tua;
do valor, Juno, só de império dino.
Mas junto agora o mesmo Céu derrama
em ti o mais que tinha, e foi o menos,
em respeito do Autor da natureza;
que, a seu pesar, te dão, fermosa Dama,
Diana, honestidade, e graça, Vénus,
Palas o aviso seu, Juno a nobreza.
De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança,
sinto vivo da morte o sentimento.
Não sei para que é ter contentamento,
se mais há de perder quem mais alcança.
Mas dou vos esta firme segurança
que, posto que me mate meu tormento,
pelas águas do eterno esquecimento
segura passará minha lembrança.
Antes sem vós meus olhos se entristeçam,
que com qualquer cous' outra se contentem;
antes os esqueçais, que vos esqueçam.
Antes nesta lembrança se atormentem,
que com esquecimento desmereçam
a glória que em sofrer tal pena sentem.
AMorte, que da vida o nó desata,
os nós, que dá o Amor, cortar quisera
na Ausência, que é contr' ele espada fera,
e co Tempo, que tudo desbarata.
Duas contrárias, que üa a outra mata,
a Morte contra o Amor ajunta e altera:
üa é Razão contra a Fortuna austera,
outra, contra a Razão, Fortuna ingrata.
Mas mostre a sua imperial potência
a Morte em apartar dum corpo a alma,
duas num corpo o Amor ajunte e una;
porque assi leve triunfante a palma,
Amor da Morte, apesar da Ausência,
do Tempo, da Razão e da Fortuna.
Suspiros inflamados, que cantais
a tristeza com que eu vivi tão ledo!
Eu mouro e não vos levo, porque hei medo
que ao passar do Lete vos percais.
Escritos para sempre já ficais
onde vos mostrarão todos co dedo
como exemplo de males; que eu concedo
que para aviso d'outros estejais.
Em quem, pois, virdes falsas esperanças
d'Amor e da Fortuna, cujos danos
alguns terão por bem aventuranças,
dizei lhe que os servistes muitos anos,
e que em Fortuna tudo são mudanças,
e que em Amor não há senão enganos.
Todo o animal da calma repousava,
só Liso o ardor dela não sentia;
que o repouso do fogo em que ardia
consistia na Ninfa que buscava.
Os montes parecia que abalava
o triste som das mágoas que dezia;
mas nada o duro peito comovia,
que na vontade d'outrem posto estava.
Cansado já de andar pela espessura,
no tronco d'üa faia, por lembrança,
escreveu estas palavras de tristeza:
«Nunca ponha ninguém sua esperança
em peito feminil, que, de natura,
somente em ser mudável tem firmeza».
Seguia aquele fogo, que o guiava,
Leandro, contra o mar e contra o vento;
as forças lhe faltavam já e o alento,
Amor lhas refazia e renovava.
Despois que viu que a alma lhe faltava,
não esmorece; mas, no pensamento,
(que a língua já não pode) seu intento
ao mar que lho cumprisse, encomendava.
Ó mar (dezia o moço só consigo),
já te não peço a vida; só queria
que a de Hero me salves; não me veja...
Este meu corpo morto, lá o desvia
daquela torre. Sê me nisto amigo,
pois no meu maior bem me houveste enveja!
Por sua Ninfa, Céfalo deixava
Aurora, que por ele se perdia,
posto que dá princípio ao claro dia,
posto que as roxas flores imitava.
Ele, que a bela Prócris tanto amava
que só por ela tudo enjeitaria,
deseja de atentar se lhe acharia
tão firme fé como nele achava.
Mudado o trajo, tece o duro engano:
outro se finge, preço põe diante,
quebra se a fé mudável, e consente.
Ó engenho sutil para seu dano!
Vede que manhas busca um cego amante
para que sempre seja descontente!
Sentindo se tomada a bela esposa
de Céfalo, no crime consentido,
para os montes fugia do marido;
e não sei se de astuta, ou vergonhosa.
Porque ele, enfim, sofrendo a dor ciosa,
de amor cego e forçoso compelido,
após ela se vai como perdido,
já perdoando a culpa criminosa.
Deita se aos pés da Ninfa endurecida,
que do cioso engano está agravada;
já lhe pede perdão, já pede a vida.
Ó força de afeição desatinada!
Que da culpa contra ele cometida,
perdão pedia à parte que é culpada!
Os vestidos Elisa revolvia
que lh'Eneias deixara por memória:
doces despojos da passada glória,
doces, quando seu Fado o consentia.
Entr'eles a fermosa espada via
que instrumento foi da triste história;
e, como quem de si tinha a vitória,
falando só com ela, assi dezia:
—Fermosa e nova espada, se ficaste
só para executares os enganos
de quem te quis deixar, em minha vida,
Sabe que tu comigo t'enganaste;
que, para me tirar de tantos danos,
sobeja me a tristeza da partida.
OFerido sem ter cura perecia
o forte e duro Télefo temido,
por aquele que n'água foi metido,
a quem ferro nenhum cortar podia.
Ao Apolíneo Oráculo pedia
conselho para ser restituído;
respondeu que tornasse a ser ferido
por quem o já ferira, e sararia.
Assi, Senhora, quer minha ventura
que, ferido de ver vos, claramente
com vos tornar a ver Amor me cura.
Mas é tão doce vossa fermosura,
que fico como hidrópico doente,
que co beber lhe cresce mor secura.
Fiou se o coração, de muito isento,
de si cuidando mal, que tomaria
tão ilícito amor tal ousadia,
tal modo nunca visto de tormento.
Mas os olhos pintaram tão a tento
outros que visto tem na fantasia,
que a razão, temerosa do que via,
fugiu, deixando o campo ao pensamento.
Ó Hipólito casto, que, de jeito,
de Fedra, tua madrasta, foste amado,
que não sabia ter nenhum respeito:
em mim vingou o amor teu casto peito;
mas está desse agravo tão vingado,
que se arrepende já do que tem feito.
Oraio cristalino s'estendia
pelo mundo, da Aurora marchetada,
quando Nise, pastora delicada,
donde a vida deixava, se partia.
Dos olhos, com que o Sol escurecia,
levando a vista em lágrimas banhada,
de si, do Fado e Tempo magoada,
pondo os olhos no Céu, assi dezia:
—Nasce, sereno Sol, puro e luzente;
resplandece, fermosa e roxa Aurora,
qualquer alma alegrando descontente;
que a minha, sabe tu que, desd'agora,
jamais na vida a podes ver contente,
nem tão triste nenhüa outra pastora.
Apartava se Nise de Montano,
em cuja alma partindo se ficava;
que o pastor na memória a debuxava,
por poder sustentar se deste engano.
Pelas praias do Índico Oceano
sobre o curvo cajado s'encostava,
e os olhos pelas águas alongava,
que pouco se doíam de seu dano.
Pois com tamanha mágoa e saudade
(dezia) quis deixar me a que eu adoro,
por testemunhas tomo Céu e estrelas.
Mas se em vós, ondas, mora piedade,
levai também as lágrimas que choro,
pois assi me levais a causa delas!
Tomava Daliana por vingança
da culpa do pastor que tanto amava,
casar com Gil vaqueiro; e em si vingava
o erro alheio e pérfida esquivança.
A discrição segura, a confiança,
as rosas que seu rosto debuxava,
o descontentamento lhas secava,
que tudo muda üa áspera mudança.
Gentil planta disposta em seca terra,
lindo fruito de dura mão colhido,
lembranças d'outro amor, e fé perjura,
tornaram verde prado em dura serra;
interesse enganoso, amor fingido,
fizeram desditosa a fermosura.
Quantas vezes do fuso s'esquecia
Daliana, banhando o lindo seio,
tantas vezes de um áspero receio
salteado, Laurénio a cor perdia.
Ela, que a Sílvio mais que a si queria,
para podê lo ver não tinha meio:
ora, como curara o mal alheio
quem o seu mal tão mal curar sabia?
Ele, que viu tão clara esta verdade,
com soluços, dezia (que a espessura
comovia, de mágoa, a piedade):
—Como pode a desordem da Natura
fazer tão diferentes na vontade
a quem fez tão conformes na ventura?
Como fizeste, Pórcia, tal ferida?
Foi voluntária, ou foi por inocência?
—Mas foi fazer Amor experiência
se podia sofrer tirar me a vida.
—E com teu próprio sangue te convida
a não pores à vida resistência?
—Ando me acostumando à paciência,
porque o temor a morte não impida.
—Pois porque comes, logo, fogo ardente,
se a ferro te costumas?—Porque ordena
Amor que morra e pene juntamente.
E tens a dor do ferro por pequena?
—Si: que a dor costumada não se sente;
e eu não quero a morte sem a pena.
Em fermosa Leteia se confia,
por onde vaïdade tanta alcança,
que, tornada em soberba a confiança,
com os deuses celestes competia.
Porque não fosse avante esta ousadia
(que nascem muitos erros da tardança),
em efeito puseram a vingança,
que tamanha doudice merecia.
Mas Oleno, perdido por Leteia,
não lhe sofrendo Amor que suportasse
castigo duro tanta fermosura,
quis padecer em si a pena alheia;
mas, porque a morte Amor não apartasse,
ambos tornados são em pedra dura.
Náiades, vós, que os rios habitais
que os saudosos campos vão regando,
de meus olhos vereis estar manando
outros, que quase aos vossos são iguais.
Dríades, vós, que as setas atirais,
os fugitivos cervos derrubando,
outros olhos vereis que triunfando
derrubam corações, que valem mais.
Deixai as aljavas logo, e as águas frias,
e vinde, Ninfas minhas, se quereis
saber como de uns olhos nascem mágoas;
vereis como se passam em vão os dias;
mas não vireis em vão, que cá achareis
nos seus as setas, e nos meus as águas.
Num bosque que das Ninfas se habitava
Sílvia, Ninfa linda, andava um dia;
subida nüa árvore sombria,
as amarelas flores apanhava.
Cupido, que ali sempre costumava
a vir passar a sesta à sombra fria,
num ramo o arco e setas que trazia,
antes que adormecesse, pendurava.
A Ninfa, como idóneo tempo vira
para tamanha empresa, não dilata,
mas com as armas foge ao Moço esquivo.
As setas traz nos olhos, com que tira:
—Ó pastores! fugi, que a todos mata,
senão a mim, que de matar me vivo.
Tal mostra dá de si vossa figura,
Sibela, clara luz da redondeza,
que as forças e o poder da natureza
com sua claridade mais apura.
Quem viu üa confiança tão segura,
tão singular esmalte da beleza,
que não padeça mais, se ter defesa
contra vossa gentil vista procura?
Eu, pois, por escusar essa esquivança,
a razão sujeitei ao pensamento,
que, rendida, os sentidos lhe entregaram.
Se vos ofende o meu atrevimento,
inda podeis tomar nova vingança
nas relíquias da vida, que escaparam.
Pelos extremos raros que mostrou
em saber, Palas, Vénus em fermosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Asia as adorou.
Aquele saber grande que ajuntou
esprito e corpo em liga generosa,
esta mundana máquina lustrosa,
de só quatro Elementos fabricou.
Mas mor milagre fez a natureza
em vós, Senhoras, pondo em cada üa
o que por todas quatro repartiu.
A vós seu resplandor deu Sol e Lüa,
a vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu.
Na metade do Céu subido ardia
o claro, almo Pastor, quando deixavam
o verde pasto as cabras, e buscavam
a frescura suave da água fria.
Co a folha da árvore sombria,
do raio ardente as aves s'emparavam;
o módulo cantar, de que cessavam,
só nas roucas cigarras se sentia;
quando Liso pastor, num campo verde
Natércia, crua Ninfa, só buscava
com mil suspiros tristes que derrama.
Porque te vás de quem por ti se perde,
para quem pouco te ama? (suspirava).
E o Eco lhe responde: Pouco te ama .
Já a saudosa Aurora destoucava
os seus cabelos d'ouro delicados,
e as flores, nos campos esmaltados,
do cristalino orvalho borrifava;
quando o fermoso gado se espalhava
de Sílvio e de Laurente pelos prados;
pastores ambos, e ambos apartados,
de quem o mesmo Amor não se apartava.
Com verdadeiras lágrimas, Laurente,
—Não sei (dizia) ó Ninfa delicada,
porque não morre já quem vive ausente,
pois a vida sem ti não presta nada?
Responde Sílvio:—Amor não o consente,
que ofende as esperanças da tornada.
Ofilho de Latona esclarecido,
que com seu raio alegra a humana gente,
o hórrido Piton, brava serpente,
matou, sendo das gentes tão temido.
Feriu com arco, e de arco foi ferido,
com ponta aguda d'ouro reluzente;
nas tessálicas praias, docemente,
pela Ninfa Peneia andou perdido.
Não lhe pôde valer, para seu dano,
ciência, diligências, nem respeito
de ser alto, celeste e soberano.
Se este nunca alcançou nem um engano
de quem era tão pouco em seu respeito,
eu que espero de um ser que é mais que humano?
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer te
algüa causa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver te,
quão cedo de meus olhos te levou.
Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar se de ua outra vontade,
que nunca poderá ver se apartada.
Ela só, viu as lágrimas em fio,
que, de uns e d'outros olhos derivadas,
s'acrescentaram em grande e largo rio.
Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.
Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai me repousar em paz ü'hora,
que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho n'alma larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.
Vivo em lembranças, mouro d'esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.
Oh! quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.
Amor, co a esperança já perdida,
teu soberano templo visitei;
por sinal do naufrágio que passei,
em lugar dos vestidos, pus a vida.
Que queres mais de mim, que destruída
me tens a glória toda que alcancei?
Não cuides de forçar me, que não sei
tornar a entrar onde não há saída.
Vês aqui alma, vida e esperança,
despojos doces de meu bem passado,
enquanto quis aquela que eu adoro:
nelas podes tomar de mim vingança;
e se inda não estás de mim vingado,
contenta te com as lágrimas que choro.
Males, que contra mim vos conjurastes,
quanto há de durar tão duro intento?
Se dura porque dura meu tormento,
baste vos quanto já me atormentastes.
Mas se assi perfiais porque cuidastes
derrubar meu tão alto pensamento,
mais pode a causa dele, em que o sustento,
que vós, que dela mesma o ser tomastes.
E, pois vossa tenção, com minha morte,
há de acabar o mal destes amores,
dai já fim a um tormento tão comprido,
porque d'ambos contente seja a sorte:
vós, porque me acabastes, vencedores;
e eu, porque acabei de vós vencido.
Em prisões baixas fui um tempo atado,
vergonhoso castigo de meus erros;
inda agora arrojando levo os ferros
que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.
Sacrifiquei a vida a meu cuidado,
que Amor não quer cordeiros, nem bezerros;
vi mágoas, vi misérias, vi desterros:
parece me que estava assi ordenado.
Contentei me com pouco, conhecendo
que era o contentamento vergonhoso,
só por ver que cousa era viver ledo.
Mas minha estrela, que eu já'gora entendo,
a Morte cega, e o Caso duvidoso,
me fizeram de gostos haver medo.
Cara minha inimiga, em cuja mão
pôs meus contentamentos a ventura,
faltou te a ti na terra sepultura,
porque me falte a mim consolação.
Eternamente as águas lograrão
a tua peregrina fermosura;
mas, enquanto me a mim a vida dura,
sempre viva em minh'alma te acharão.
E se meus rudos versos podem tanto
que possam prometer te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro,
celebrada serás sempre em meu canto;
porque enquanto no mundo houver memória,
será minha escritura teu letreiro.
Foi já num tempo doce cousa amar,
enquanto m'enganava a esperança;
O coração, com esta confiança,
todo se desfazia em desejar.
Ó vão, caduco e débil esperar!
Como se desengana üa mudança!
Que, quanto é mor a bem aventurança,
tanto menos se crê que há de durar!
Quem já se viu contente e prosperado,
vendo se em breve tempo em pena tanta,
razão tem de viver bem magoado.
Porém quem tem o mundo exprimentado,
não o magoa a pena nem o espanta,
que mal se estranhará o costumado.
Que poderei do mundo já querer,
que naquilo em que pus tamanho amor,
não vi senão `desgosto e desamor,
e morte, enfim, que mais não pode ser!
Pois vida me não farta de viver,
pois já sei que não mata grande dor,
se cousa há que mágoa dê maior,
eu a verei; que tudo posso ver.
A morte, a meu pesar, me assegurou
de quanto mal me vinha; já perdi
o que perder o medo me ensinou.
Na vida desamor somente vi,
na morte a grande dor que me ficou:
parece que para isto só nasci!
Pois meus olhos não cansam de chorar
tristezas, que não cansam de cansar me;
pois não abranda o fogo em que abrasar me
pôde quem eu jamais pude abrandar;
não canse o cego Amor de me guiar
a parte donde não saiba tornar me;
nem deixe o mundo todo de escutar me,
enquanto me a voz fraca não deixar.
E se nos montes, rios, ou em vales,
piedade mora, ou dentro mora Amor
em feras, aves, plantas, pedras, águas,
ouçam a longa história de meus males
e curem sua dor com minha dor;
que grandes mágoas podem curar mágoas.
Um mover d'olhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;
um despejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
üa pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;
um encolhido ousar; üa brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento;
esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento.
Fermosos olhos que na idade nossa
mostrais do Céu certissimos sinais,
se quereis conhecer quanto possais,
olhai me a mim, que sou feitura vossa.
Vereis que de viver me desapossa
aquele riso com que a vida dais;
vereis como de Amor não quero mais,
por mais que o tempo corra e o dano possa.
E se dentro nest'alma ver quiserdes,
como num claro espelho, ali vereis
também a vossa, angélica e serena.
Mas eu cuido que só por não me verdes,
ver vos em mim, Senhora, não quereis:
tanto gosto levais de minha pena!
Mudam se os tempos, mudam se as vontades,
muda se o ser, muda se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria, e, enfim,
converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
Conversação doméstica afeiçoa,
ora em forma de boa e sã vontade,
ora de üa amorosa piedade,
sem olhar qualidade de pessoa.
Se despois, porventura, vos magoa
com desamor e pouca lealdade,
logo vos faz mentira da verdade
o brando Amor, que tudo em si perdoa.
Não são isto que falo conjecturas,
que o pensamento julga na aparência,
por fazer delicadas escrituras.
Metido tenho a mão na consciência,
e não falo senão verdades puras
que me ensinou a viva experiência.
Despois que quis Amor que eu só passasse
quanto mal já por muitos repartiu,
entregou me à Fortuna, porque viu
que não tinha mais mal que em mim mostrasse.
Ela, porque do Amor se avantajasse
no tormento que o Céu me permitiu,
o que para ninguém se consentiu,
para mim só mandou que se inventasse.
Eis me aqui vou com vário som gritando,
copioso exemplário para a gente
que destes dous tiranos é sujeita,
desvarios em versos concertando.
Triste quem seu descanso tanto estreita,
que deste tão pequeno está contente!
Ondados fios d'ouro reluzente,
que, agora da mão bela recolhidos,
agora sobre as rosas estendidos,
fazeis que sua beleza se acrecente;
Olhos, que vos moveis tão docemente,
em mil divinos raios entendidos,
se de cá me levais alma e sentidos,
que fora, se de vós não fora ausente?
Honesto riso, que entre a mor fineza
de perlas e corais nasce e parece,
se n'alma em doces ecos não o ouvisse!
Se imaginando só tanta beleza
de si, em nova glória, a alma se esquece,
que fará quando a vir? Ah! quem a visse!
Bem sei, Amor, que é certo o que receio;
mas tu, porque com isso mais te apuras,
de manhoso mo negas, e mo juras
no teu dourado arco; e eu to creio.
A mão tenho metida no teu seio,
e não vejo meus danos às escuras;
e tu contudo tanto me asseguras,
que me digo que minto, e que me enleio.
Não somente consinto neste engano,
mas inda to agradeço, e a mim me nego
tudo o que vejo e sinto de meu dano.
Oh! poderoso mal a que me entrego!
Que, no meio do justo desengano,
me possa inda cegar um Moço cego!
Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
despois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.
Se cuido nas passadas que já dei,
custa me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pola mor mágoa que passei.
Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro n'alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.
Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?
Aquela que, de pura castidade,
de si mesma tomou cruel vingança
por üa breve e súbita mudança,
contrária a sua honra e qualidade
(venceu à fermosura a honestidade,
venceu no fim da vida a esperança
porque ficasse viva tal lembrança,
tal amor, tanta fé, tanta verdade!),
de si, da gente e do mundo esquecida,
feriu com duro ferro o brando peito,
banhando em sangue a força do tirano.
Oh! estranha ousadia ! estranho feito !
Que, dando breve morte ao corpo humano,
tenha sua memória larga vida!
No tempo que de Amor viver soía,
nem sempre andava ao remo ferrolhado;
antes agora livre, agora atado,
em várias flamas variamente ardia.
Que ardesse num só fogo, não queria
O Céu, porque tivesse exprimentado
que nem mudar as causas ao cuidado
mudança na ventura me faria.
E se algum pouco tempo andava isento,
foi como quem co peso descansou,
por tornar a cansar com mais alento.
Louvado seja Amor em meu tormento,
pois para passatempo seu tomou
este meu tão cansado sofrimento!
Quando de minhas mágoas a comprida
maginação os olhos me adormece,
em sonhos aquela alma me aparece
que para mim foi sonho nesta vida.
Lá nüa soïdade, onde estendida
a vista pelo campo desfalece,
corro par'ela; e ela então parece
que mais de mim se alonga, compelida.
Brado: Não me fujais, sombra benina!
Ela (os olhos em mim cum brando pejo,
como quem diz que já não pode ser),
torna a fugir-me; e eu, gritando: Dina...
antes que diga mene, alardo, e vejo
que nem um breve engano posso ter.
Ah! minha Dinamene! Assi deixaste
quem não deixara nunca de querer-te?
Ah! Ninfa! Já não posso ver-te,
tão asinha esta vida desprezaste!
Como já para sempre te apartaste
de quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te,
que não visses quem tanto magoaste?
Nem falar-te somente a dura morte
me deixou, que tão cedo o negro manto
em teus olhos deitado consentiste!
Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte!
Que pena sentirei, que valha tanto,
que inda tenho por pouco o viver triste?
Quem fosse acompanhando juntamente
por esses verdes campos a avezinha
que, despois de perder um bem que tinha,
não sabe mais que cousa é ser contente!
E quem fosse apartando-se da gente,
ela, por companheira e por vizinha,
me ajudasse a chorar a pena minha,
eu a ela o pesar que tanto sente!
Ditosa ave! que, ao menos, se a Natura
a seu primeiro bem não dá segundo,
dá-lhe o ser triste a seu contentamento.
Mas triste quem de longe quis ventura,
que, para respirar, lhe falte o vento,
e, para tudo, enfim, lhe falte o mundo!
Cantando estava um dia bem seguro quando,
passando, Sílvio me dizia
(Sílvio, pastor antigo, que sabia
pelo canto das aves o futuro):
—Méris, quando quiser o fado escuro,
oprimir-te virão em um só dia
dous lobos; logo a voz e a melodia
te fugirão, e o som suave e puro.
Bem foi assi: porque um me degolou
quanto gado vacum pastava e tinha,
de que grandes soldadas esperava;
E outro por meu dano me matou
a cordeira gentil que eu tanto amava,
perpétua saudade da alma minha!
Correm turvas as águas deste rio,
que as do Céu e as do monte as enturbaram;
os campos florecidos se secaram,
intratável se fez o vale, e frio.
Passou o Verão, passou o ardente Estio,
üas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.
Julga-me a gente toda por perdido,
vendo-me, tão entregue a meu cuidado,
andar sempre dos homens apartado,
e dos tratos humanos esquecido.
Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
tenho por baixo, rústico, enganado,
quem não é com meu mal engrandecido.
Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,
busquem riquezas, honras a outra gente,
vencendo ferro, fogo, frio e calma;
que eu só em humilde estado me contento,
de trazer esculpido eternamente
vosso fermoso gesto dentro n'alma.
Océu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:
Ondas (dezia), antes que Amor me mate,
torna-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita.
Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança ainda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
e se torna, não tornam as idades.
Razão é já, ó anos!, que vos vades,
porque estes tão ligeiros que passais,
nem todos para um gosto são iguais,
nem sempre são conformes as vontades.
Aquilo a que já quis é tão mudado
que quase é outra causa: porque os dias
têm o primeiro gosto já danado.
Esperanças de novas alegrias
não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
que do contentamento são espias.
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava o amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a nao querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.
Cantei; mas se me alguém pergunta: —Quando?
—Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.
Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?
Na desesperação já repousava
o peito longamente magoado,
e, com seu dano eterno concertado,
já não temia, já não desejava;
quando üa sombra vã me assegurava
que algum bem me podia estar guardado
em tão fermosa imagem que o treslado
n'alma ficou, que nela se enlevava.
Que crédito que dá tão facilmente
o coração áquilo que deseja,
quando lhe esquece o fero seu destino!
Oh! deixem-me enganar, que eu sou
contente; que, posto que maior meu dano seja,
fica-me a glória já do que imagino.
Eu vivia de lágrimas isento,
num engano tão doce e deleitoso
que em que outro amante fosse mais ditoso,
não valiam mil glórias um tormento.
Vendo-me possuir tal pensamento,
de nenhüa riqueza era envejoso;
vivia bem, de nada receoso,
com doce amor e doce sentimento.
Cobiçosa, a Fortuna me tirou
deste meu tão contente e alegre estado,
e passou-me este bem, que nunca fora:
em troco do qual bem só me deixou
lembranças, que me matam cada hora,
trazendo-me à memória o bem passado.
Indo o triste pastor todo embebido
na sombra de seu doce pensamento,
tais queixas espalhava ao leve vento
cum brando suspirar da alma saído:
—A quem me queixarei, cego, perdido,
pois nas pedras não acho sentimento?
Com quem falo? A quem digo meu tormento
que onde mais chamo, sou menos ouvido?
Oh! bela Ninfa, porque não respondes?
Porque o olhar-me tanto me encareces?
Porque queres que sempre me querele?
Eu quanto mais te vejo, mais te escondes!
Quanto mais mal me vês, mais te endureces!
Assi que co mal cresce a causa dele.
Lembranças que lembrais meu bem passado
para que sinta mais o mal presente,
deixai-me (se quereis) viver contente,
não me deixeis morrer em tal estado.
Mas se também de tudo está ordenado
viver (como se vê) tão descontente,
venha (se vier) o bem por acidente,
e dê a morte fim a meu cuidado.
Que muito milhor é perder a vida,
perdendo-se as lembranças da memória,
pois fazem tanto dano ao pensamento.
Assi que nada perde, quem perdida
a esperança traz de sua glória,
se esta vida há-de ser sempre em tormento.
Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados!
Quão asinha em meu dano vos mudastes!
Passou o tempo que me descansastes,
agora descansais com meus cuidados.
Deixastes-me sentir os bens passados,
para mor dor da dor que me ordenastes;
então nü'hora juntos mos levastes,
Ah! quanto milhor fora não vos ver,
gostos, que assi passais tão de corrida,
que fico duvidoso se vos vi:
sem vós já me não fica que perder,
se não se for esta cansada vida,
que por mor perda minha não perdi.
Ah! imiga cruel, que apartamento
é este que fazeis da pátria terra?
Quem do paterno ninho vos desterra,
glória dos olhos, bem do pensamento?
Is tentar da fortuna o movimento
e dos ventos cruéis a dura guerra?
Ver brenhas d'água, e o mar feito em serra,
levantado de um vento e d'outro vento?
Mas já que vos partis, sem vos partirdes,
para convosco o Céu tanta ventura,
que seja mor que aquela que esperardes.
E só nesta verdade ide segura:
que ficam mais saudades com partirdes,
do que breves desejos de chegardes.
Aqueles claros olhos que chorando
ficavam quando deles me partia,
agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estarão em mim cuidando?
Se terão na memória, como ou quando
deles me vim tão longe de alegria?
Ou s'estarão aquele alegre dia
que torne a vê-los, n'alma figurando?
Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão co as aves e cos ventos?
Oh! bem-aventurados fingimentos,
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!
Quando cuido no tempo que, contente,
vi as pérolas, neve, rosa e ouro,
como quem vê por sonhos um tesouro,
parece tenho tudo aqui presente.
Mas tanto que se passa este acidente,
e vejo o quão distante de vós mouro,
temo quanto imagino por agouro,
porque d'imaginar também me ausente.
Já foram dias em que por ventura
vos vi, Senhora (se, assi dizendo, posso
co coração seguro estar sem medo);
Agora, em tanto mal não mo assegura
a própria fantasia e nojo vosso:
eu não posso entender este segredo!
Quem vos levou de mim, saudoso estado,
que tanta sem-razão comigo usastes?
Quem foi, por quem tão presto me negastes,
esquecido de todo o bem passado?
Trocastes-me um descanso em um cuidado
tão duro, tão cruel, qual m'ordenastes;
a fé, que tínheis dado, me negastes,
quando mais nela estava confiado.
Vivia sem receio deste mal;
Fortuna, que tem tudo a sua mercê,
amor com desamor me revolveu.
Bem sei que neste caso nada val,
que quem naceu chorando, justo é
que pague com chorar o que perdeu.
Senhora já dest'alma, perdoai
de um vencido de Amor os desatinos,
e sejam vossos olhos tão beninos
com este puro amor, que d'alma sai.
A minha pura fé somente olhai,
e vede meus extremos se são finos;
e se de algüa pena forem dinos,
em mim, Senhora minha, vos vingai.
Não seja a dor que abrasa o triste peito
causa por onde pene o coração,
que tanto em firme amor vos é sujeito.
Guardai-vos do que alguns, Dama, dirão,
que, sendo raro em tudo vosso objeito,
possa morar em vós ingratidão.
Cá nesta Babilónia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá onde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
cá, onde o mal se afina, e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a desengana;
cá, neste labirinto, onde a nobreza
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;
cá neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Dizei, Senhora, da Beleza ideia:
para fazerdes esse áureo crino,
onde fostes buscar esse ouro fino?
de que escondida mina ou de que veia?
Dos vossos olhos essa luz Febeia,
esse respeito, de um império dino?
Se o alcançastes com saber divino,
se com encantamentos de Medeia?
De que escondidas conchas escolhestes
as perlas preciosas orientais
que, falando, mostrais no doce riso?
Pois vos formastes tal, como quisestes,
vigiai-vos de vós, não vos vejais,
fugi das fontes: lembre-vos Narciso.
Doce contentamento já passado,
em que todo meu bem já consistia,
quem vos levou de minha companhia
e me deixou de vós tão apartado?
Quem cuidou que se visse neste estado
naquelas breves horas de alegria,
quando minha ventura consentia
que de enganos vivesse meu cuidado?
Fortuna minha foi, cruel e dura,
aquela que causou meu perdimento,
com a qual ninguém pode ter cautela.
Nem se engane nenhüa criatura,
que não pode nenhum impedimento
fugir do que lhe ordena sua estrela.
Doce sonho, suave e soberano,
se por mais longo tempo me durara!
Ah! quem de sonho tal nunca acordara,
pois havia de ver tal desengano!
Ah! deleitoso bem! ah! doce engano!
Se por mais largo espaço me enganara!
Se então a vida mísera acabara,
de alegria e prazer morrera ufano.
Ditoso, não estando em mim, pois tive,
dormindo, o que acordado ter quisera.
Olhai com que me paga meu destino!
Enfim, fora de mim, ditoso estive.
Em mentiras ter dita razão era,
pois sempre nas verdades fui mofino.
Enquanto Febo os montes acendia
do Céu com luminosa claridade,
por evitar do ócio a castidade
na caça o tempo Délia despendia.
Vénus, que então de furto descendia,
por cativar de Anquises a vontade,
vendo Diana em tanta honestidade,
quase zombando dela, lhe dizia:
- Tu vás com tuas redes na espessura
os fugitivos cervos enredando,
mas as minhas enredam o sentido.
—Melhor é (respondia a deusa pura)
nas redes leves cervos ir tomando
que tomar-te a ti nelas teu marido.
Este amor que vos tenho, limpo e puro,
de pensamento vil nunca tocado,
em minha tenra idade começado,
tê-lo dentro nesta alma só procuro.
De haver nele mudança estou seguro,
sem temer nenhum caso ou duro Fado,
nem o supremo bem ou baixo estado,
nem o tempo presente nem futuro.
A bonina e a flor asinha passa;
tudo por terra o Inverno e Estio
deita, só para meu amor é sempre Maio.
Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa,
e que essa ingratidão tudo me enjeita,
traz este meu amor sempre em desmaio.
Fortuna em mim guardando seu direito
em verde derrubou minha alegria.
Oh! quanto se acabou naquele dia,
cuja triste lembrança arde em meu peito!
Quando contemplo tudo, bem suspeito
que a tal bem, tal descanso se devia,
por não dizer o mundo que podia
achar-se em seu engano bem perfeito.
Mas se a Fortuna o fez por descontar-me
tamanho gosto , em cujo sentimento
a memória não faz senão matar-me ,
que culpa pode dar-me o sofrimento,
se a causa que ele tem de atormentar-me,
eu tenho de sofrer o seu tormento?
Já não sinto, Senhora, os desenganas
com que minha afeição sempre tratastes,
nem ver o galardão que me negastes,
merecido por fé, há tantos anos.
A mágoa choro só, só choro os danos
de ver por quem, Senhora, me trocastes;
mas em tal caso vós só me vingastes
de vossa ingratidão, vossos enganos.
que o ofendido toma do culpado,
quando se satisfaz com cousa justa;
mas eu de vossos males e esquivança,
de que agora me vejo bem vingado,
não o quisera eu tanto à vossa custa.
Memória de meu bem, cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.
Basta-me o mal presente, e os temores
dos sucessos que espero infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.
Perdi nua hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.
Cumpre acabe a vida nestes ermos,
porque neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ua só, dura memória!
Na ribeira do Eufrates assentado,
discorrendo me achei pela memória
aquele breve bem, aquela glória,
que em ti, doce Sião, tinha passado.
Da causa de meus males perguntado
me foi: Como não cantas a história
de teu passado bem, e da vitória
que sempre de teu mal hás alcançado?
Não sabes, que a quem canta se lhe esquece
o mal, inda que grave e rigoroso?
Canta, pois, e não chores dessa sorte.
Respondo com suspiros: Quando crece
a muita saudade, o piadoso
remédio é não cantar senso a morte.
Num tão alto lugar, de tanto preço,
este meu pensamento posto vejo,
que desfalece nele inda o desejo,
vendo quanto por mim o desmereço.
Quando esta tal baixesa em mim conheço,
acho que cuidar nele é grão despejo,
e que morrer por ele me é sobejo
e mor bem para mim, do que mereço.
O mais que natural merecimento
de quem me causa um mal tão duro e forte,
o faz que vá crecendo de hora em hora.
Mas eu não deixarei meu pensamento,
porque inda que este mal me causa a morte,
Un bel morir tutta la vita onora.
Odia em que eu nasci, moura e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo, e, se tornar,
eclipse nesse passo o sol padeça.
luz lhe falte, o sol se lhe escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova
o ar, a mãe ao próprio filho não conheça.
s pessoas pasmadas de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!
Olhos fermosos, em quem quis Natura
mostrar do seu poder altos sinais,
se quiserdes saber quanto possais,
vede-me a mim, que sou vossa feitura.
Pintada em mim se vê vossa figura,
no que eu padeço retratada estais;
que, se eu passo tormentos desiguais,
muito mais pode vossa fermosura.
De mim não quero mais que o meu desejo:
ser vosso; e só de ser vosso me arreio,
porque o vosso penhor em mim se assele.
!Tão me lembro de mim quando vos vejo,
nem do mundo; e não erro, porque creio,
que, em lembrar-me de vós, cumpro com ele.
Otempo acaba o ano, o mês e a hora,
a força, a arte, a manha, a fortaleza;
o tempo acaba a fama e a riqueza,
o tempo o mesmo tempo de si chora.
tempo busca e acaba o onde mora
qualquer ingratidão, qualquer dureza;
mas neo pode acabar minha tristeza,
enquanto não quiserdes vós, Senhora.
O tempo o claro dia torna escuro,
e o mais ledo prazer em choro triste;
o tempo a tempestade em grã bonança.
Mas de abrandar o tempo estou seguro
o peito de diamante, onde consiste
a pena e o prazer desta esperança.
Posto me tem Fortuna em tal estado,
e tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido,
não tenho que mudar já, de mudado.
Todo o bem para mim é acabado;
daqui dou o viver já por vivido;
que, aonde o mal é tão conhecido,
também o viver mais será escusado.
Se me basta querer, a morte quero,
que bem outra esperança não convém,
e curarei um mal com outro mal
E, pois do bem tão pouco bem espero,
já que o mel este só remédio tem,
não me culpem em querer remédio tal.
Quando se vir com água o fogo arder,
e misturar co dia a noite escura,
e a terra se vir naquela altura
em que se vem os Céus prevalecer;
o Amor por razão mandado ser,
e a todos ser igual nossa ventura,
com tal mudança, vossa formosura
então a poderei deixar de ver.
Porém não sendo vista esta mudança
no mundo (como claro está não ver-se),
não se espere de mim deixar de ver-vos.
Que basta estar em vós minha esperança,
o ganho de minha alma, e o perder-se,
para não deixar nunca de querer-vos.
Afermosura fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;
o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;
enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando.
Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.
Diana prateada, esclarecia
com a luz que do claro Febo ardente,
por ser de natureza transparente,
em si, como em espelho, reluzia.
Cem mil milhões de graças lhe influía,
quando me apareceu o excelente
raio de vosso aspecto, diferente
em graça e em amor do que soía.
Eu, vendo-me tão cheio de favores,
e tão propínquo a ser de todo vosso,
louvei a hora clara, e a noite escura,
Sois nela destes cor a meus amores;
donde colijo claro que não posso
de dia para vós já ter ventura.
Quando a suprema dor muito me aperta,
se digo que desejo esquecimento,
é força que se faz ao pensamento,
de que a vontade livre desconserta.
Assi, de erro tão grave me desperta
a luz do bem regido entendimento,
que mostra ser engano ou fingimento
dizer que em tal descanso mais se acerta.
Porque essa própria imagem, que na mente
me representa o bem de que careço,
faz-mo de um certo modo ser presente.
Ditosa é, logo, a pena que padeço,
pois que da causa dela em mim se sente
um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.
Quando, Senhora, quis Amor que amasse
essa grã perfeição e gentileza,
logo deu por sentença que a crueza
em vosso peito amor acrescentasse.
Determinou que nada me apartasse,
nem desfavor cruel, nem aspereza;
mas que em minha raríssima firmeza
vossa isenção cruel se executasse.
E, pois tendes aqui oferecida e
sta alma vossa a vosso sacrifício,
acabai de fartar vossa vontade.
Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida;
acabará morrendo em seu oficio,
sua fé defendendo e lealdade.
Que pode já fazer minha ventura
que seja para meu contentamento.,
Ou como fazer devo fundamento
de cousa que o não tem, nem é segura?
Que pena pode ser tão certa e dura
que possa ser maior que meu tormento?
Ou como receará meu pensamento
os males, se com eles mais se apura?
Como quem se costuma de pequeno
com peçonha criar por mão ciente,
da qual o uso já o tem seguro;
assi de acostumado co veneno,
o uso de sofrer meu mal presente
me faz não sentir já nada o futuro.
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
com humano saber, e não divino,
ficará de tamanha culpa dino
quamanha ficais tendo em contemplar-vos.
Não pretenda ninguém de louvar dar-vos,
por mais que raro seja e peregrino:
que vossa fermosura eu imagino
que Deus a Ele só quis comparar-vos.
Ditosa esta alma vossa, que quisestes
em posse pôr de prenda tão subida,
como, Senhora, foi a que me destes.
Melhor a guardarei que a própria vida;
que, pois mercê tamanha me fizestes,
de mim será jamais nunca esquecida.
Se de vosso fermoso e lindo gesto
nasceram lindas flores para os olhos,
que para o peito são duros abrolhos,
em mim se vê mui claro e manifesto:
pois vossa fermosura e vulto honesto
em os ver, de boninas vi mil molhos;
mas se meu coração tivera antolhos,
não vira em vós seu dano o mal funesto.
Um mal visto por bem, um bem tristonho,
que me traz elevado o pensamento
em mil, porém diversas, fantasias,
nas quais eu sempre ando, e sempre sonho;
e vós não cuidais mais que em meu tormento,
em que fundais as vossas alegrias.
Sempre, cruel Senhora, receei,
medindo vossa grã desconfiança,
que desse em desamor vossa tardança,
e que me perdesse eu, pois vos amei.
Perca-se, enfim, já tudo o que esperei,
pois noutro amor já tendes esperança.
Tão patente será vossa mudança,
quanto eu encobri sempre o que vos dei.
Dei-vos a alma, a vida e o sentido;
de tudo o que em mim há vos fiz s
enhora. Prometeis e negais o mesmo Amor.
Agora tal estou que, de perdido,
não sei por onde vou, mas algü'hora
vos dará tal lembrança grande dor.
Sustenta meu viver üa esperança
derivada de um bem tão desejado
que, quando nela estou mais confiado,
mor dúvida me põe qualquer mudança.
E quando inda este bem na mor pujança
de seus gostos me tem mais enlevado,
me atormenta então ver eu que, alcançado
será por quem de vós não tem lembrança.
Assi, que nestas redes enlaçado,
a penas dou a vida , sustentando
üa nova matéria a meu cuidado .
Suspiros d'alma tristes arrancando,
dos silvos de ua pedra acompanhado,
estou matérias tristes lamentando.
encido está de Amor
o mais que pode ser
meu pensamento
vencida a vida,
sujeita a vos servir
oferecendo tudo
Contente deste bem,
ou hora em que se viu
mil vezes desejando
outra vez renovar
Com essa pretensão
a causa que me guia
tão estranha, tão doce,
Jurando não seguir
votando só por vós
ou ser no vosso amor
instituída,
a vosso intento.
louva o momento,
tão bem perdida;
a tal ferida,
seu perdimento.
está segura
nesta empresa,
honrosa e alta.
outra ventura,
rara firmeza,
achado em falta.
El vaso reluciente y cristalino,
de Ángeles agua clara y olorosa,
de blancas e da ornado y fresca rosa
ligado con cabellos de oro fino;
bien claro parecía el don divino
labrado por la mano artificiosa
de aquella blanca Ninfa, graciosa
más que el rubio lucero matutino.
Nel vaso vuestro cuerpo se afigura,
raxado de los blandos miembros bellos,
y en el agua vuestra ánima pura;
la seda es la blancura, e los cabellos
son las prisiones, y la ligadura
con que mi libertad fue asida dellos.
Pues lágrimas tratáis, mis ojos tristes,
y en lágrimas pasáis la noche y día,
mirad si es llanto este que os envia
aquella por quien vos tantas vertistes
Sentid, mis ojos, bien esta que vistes,
y si ella lo es, oh gran ventura mia!
por muy bien empleadas las habría
mil cuentas que por esta sola distes.
Mas una cosa mucho deseada,
aunque se vea cierta, no es creída,
cuanto más esta, que me es enviada.
Pero digo que aunque sea fingida,
que basta que por lágrima sea dada,
porque sea por lágrima tenida.
Se a Fortuna inquieta e mal olhada,
que a justa lei do Céu consigo infama,
a vida quieta, que ela mais desama,
me concedera, honesta e repousada;
pudera ser que a Musa, alevantada
com luz de mais ardente e viva flama.
fizera ao Tejo lá na pátria cama
adormecer co som da lira amada.
Porém, pois o destino trabalhoso,
que me escurece a Musa fraca e lassa,
louvor de tanto preço não sustenta;
a vossa de louvar-me pouco escassa,
outro sujeito busque valeroso,
tal qual em vós ao mundo se apresenta.
Em flor vos arrancou, de então crecida
(Ah! senhor dom António!), a dura sorte,
donde fazendo andava o braço forte
a fama dos Antigos esquecida.
üa só razão tenho conhecida
com que tamanha mágoa se conforte:
que, pois no mundo havia honrada morte,
que não podíeis ter mais larga a vida.
Se meus humildes versos podem tanto
que co desejo meu se iguale a arte,
especial matéria me sereis.
E, celebrado em triste e longo canto,
se morrestes nas mãos do fero Marte,
na memória das gentes vivereis.
Debaixo desta pedra está metido,
das sanguinosas armas descansado,
o capitão ilustre, assinalado,
Dom Fernando de Castro esclarecido.
Por todo o Oriente tão temido,
e da enveja da fama tão cantado,
este, pois, só agora sepultado,
está aqui já em terra convertido.
Alegra-te, ó guerreira Lusitânia
por este Viriato que criaste,
e chora-o, perdido, eternamente.
Exemplo toma nisto de Dardânia;
que, se a Roma co ele aniquilaste,
nem por isso Cartago está contente.
De um tão felice engenho, produzido
de outro, que o claro Sol não viu maior,
é trazer cousas altas no sentido,
todas dinas de espanto e de louvor.
Museu foi antiquíssimo escritor,
filósofo e poeta conhecido,
discípulo do Músico amador
que co som teve o Inferno suspendido.
Este pôde abalar o monte mudo,
cantando aquele mal, que eu já passei,
do mancebo de Abido mal sisudo.
Agora contam já (segundo achei),
Passo, e o nosso Boscão, que disse tudo
dos segredos que move o cego Rei.
Despois que viu Cibele o corpo humano
do fermoso Átis seu verde pinheiro,
em piedade o vão furar primeiro
convertido, chorou seu grave dano.
E, fazendo a sua dor ilustre engano,
a Júpiter pediu que o verdadeiro
preço da nova palma e do loureiro,
ao seu pinheiro desse, soberano.
Mais lhe concede o filho poderoso
que, as estrelas, subindo, tocar possa,
vendo os segredos lá do Céu superno.
Oh! ditoso Pinheiro! Oh! mais ditoso
quem se vir coroar da folha vossa,
cantando à vossa sombra verso eterno!
De tão divino acento e voz humana,
de tão doces palavras peregrinas,
que o rudo engenho meu me desengana.
Mas de vossos escritos corre e mana
licor que vence as águas cabalinas;
e convosco do Tejo as flores finas
farão enveja à cópia mantuana.
E pois, a vós de si não sendo avaras,
as filhas de Mnemósine fermosa
partes dadas vos tem, ao mundo caras,
a minha Musa e a vossa tão famosa,
ambas posso chamar ao mundo raras:
a vossa d'alta, a minha d'envejosa.
Dos ilustres antigos que deixaram
tal nome, que igualou fama à memória,
ficou por luz do tempo a larga história
dos feitos em que mais se assinalaram.
Se se com cousas destes cotejaram
mil vossas, cada üa tão notória,
vencera a menor delas a mor glória
que eles em tantos anos alcançaram.
A glória sua foi; ninguém lha tome.
Seguindo cada um vários caminhos,
estátuas levantando no seu Templo.
Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos,
ilustre Dom João, com melhor nome
a vós encheis de glória e a nós de exemplo.
Esforço grande, igual ao pensamento;
e não em peito timido encerrados
e desfeitos despois em chuva e vento;
animo da cobiça baixa isento,
dino por isso só de altos estados,
fero açoute dos nunca bem domados
povos do Malabar sanguinolento;
gentileza de membros corporais,
ornados de pudica continência,
estas virtudes e outras muitas mais,
dinas todas da homérica eloquência,
jazem debaixo desta sepultura
Não passes, caminhante! Quem me chama ?
—üa memória nova e nunca ouvida,
de um que trocou finita e humana vida,
por divina, infinita e clara fama.
Quem é que tão gentil louvor derrama?
—Quem derramar seu sangue não duvida
por seguir a bandeira esclarecida
de um capitão de Cristo, que mais ama.
Ditoso fim, ditoso sacrificio,
que a Deus se fez e ao mundo juntamente,
apregoando direi tão alta sorte.
Mais poderás contar a toda a gente,
que sempre deu sua vida claro indício
de vir a merecer tão santa morte.
No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura;
foi-me tão cedo a luz do dia escura,
que não vi cinco lustros acabados.
Corri terras e mares apartados
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.
Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto
que neste meu terreno vaso tinha,
me fez manjar de peixes em ti, bruto
mar, que bates na Abássia fera e avara,
tão longe da ditosa pátria minha!
Que levas, cruel Morte?- Um claro dia.
- A que horas o tomaste?- Amanhecendo.
- Entendes o que levas?- Não o entendo.
- Pois quem to faz levar?- Quem o entendia.
Seu corpo quem o goza?- A terra fria.
- Como ficou sua luz?- Anoitecendo.
- Lusitânia que diz?- Fica dizendo:
Enfim, não mereci Dona Maria.
Mataste quem a viu?- Já morto estava.
- Que diz o cru Amor?- Falar não ousa.
- E quem o faz calar?- Minha vontade.
Na corte que ficou?- Saudade brava.
- Que fica lá que ver?- Nenhüa cousa;
mas fica que chorar sua beldade.
Chorai, Ninfas, os fados poderosos
daquela soberana fermosura!
Onde foram parar na sepultura
aqueles reais olhos graciosos?
Ó bens do mundo, falsos e enganosos!
Que mágoas para ouvir! Que tal figura
jaza sem resplandor na terra dura,
com tal rosto e cabelos tão fermosos!
Das outras que será, pois poder teve
a morte sobre cousa tanto bela
que ela eclipsava a luz do claro dia?
Mas o mundo não era dino dela,
por isso mais na terra não esteve;
ao Céu subiu, que já *se* lhe devia.
Os reinos e os impérios poderosos
que em grandeza no mundo mais cresceram,
ou por valor de esforço floreceram
ou por varões nas letras espantosos.
Teve Grécia Temístocles famosos;
os Cipiões a Roma engrandeceram;
doze pares a França glória deram;
Cides a Espanha, e Laras belicosas.
Ao nosso Portugal (que agora vemos
tão diferente de seu ser primeiro),
os vossos deram honra e liberdade.
E em vós, grão sucessor e novo herdeiro
do braganção estado, há mil extremos
iguais ao sangue, e mores que a idade.
Ilustre o dino ramo dos Meneses,
aos quais o prudente e largo Céu
(que errar não sabe), em dote concedeu
rompesse os maométicos arneses;
desprezando a Fortuna e seus reveses,
ide para onde o Fado vos moveu;
erguei flamas no Mar alto Eritreu,
e sereis nova luz aos Portugueses.
Oprimi com tão firme e forte peito
o Pirata insolente, que se espante
e trema Taprobana e Gedrosia.
Dai nova causa à cor do Arabo estreito:
assi que o roxo mar, daqui em diante,
o seja só co sangue de Turquia!
Vós, Ninfas da gangética espessura,
cantai suavemente, em vez sonora,
um grande Capitão, que a roxa Aurora
dos filhos defendeu da noite escura.
Ajuntou-se a caterva negra e dura,
que na Áurea Quersoneso afouta mora,
para lançar do caro ninho fora
aqueles que mais podem que a ventura.
Mas um forte Leão, com pouca gente,
a multidão tão fera como nécia
destruindo castiga e torna fraca.
Pois, ó Ninfas, cantai! que claramente
mais do que Leonidas fez em Grécia,
o nobre Leonis fez em Malaca.
Que vençais no Oriente tantos Reis,
que de novo nos deis da Índia o Estado,
que escureceis a fama que ganhado
tinham os que a ganharam a infiéis;
que do tempo tenhais vencido as leis,
que tudo, enfim, vençais co tempo armado,
mais é vencer na pátria, desarmado,
os monstros e as Quimeras que venceis.
E assi, sobre vencerdes tanto imigo,
e por armas fazer que, sem segundo,
vosso nome no mundo ouvido seja,
o que vos dá mais nome inda no mundo,
é vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
tantas ingratidões, tão grande enveja!
Vós outros, que buscais repouso certo
na vida, com diversos exercícios;
a quem, vendo do mundo os benefícios,
o regimento seu está encoberto;
dedicai, se quereis, ao desconcerto
novas hontas e cegos sacrifícios;
que, por castigo igual de antigos vícios,
quer Deus que andem as cousas por acerto.
Não caiu neste modo de castigo
quem pôs culpa à Fortuna, quem sòmente
crê que acontecimentos há no mundo.
A grande experiência é grão perigo;
mas o que a Deus é justo e evidente
parece injusto aos homens e profundo.
Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
qualquer alma farão segura e forte;
porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,
têm do confuso mundo o regimento.
Efeitos mil revolve o pensamento
e nao sa ~e a que causa se reporte;
mas sabe que o que é mais que vida e morte,
que não o alcança humano entendimento.
Doctos varões darão razões subidas,
mas são experiências mais provadas,
e por isso é melhor ter muito visto.
Cousas há i que passam sem ser criadas
e cousas criadas há sem ser passadas,
mas o melhor de tudo é crer em Cristo.
Detém um pouco, Musa, o largo pranto
que Amor te abre do peito;
e vestida de rico e ledo manto,
dêmos honra e respeito
àquela cujo objeito
todo o mundo alumia,
e quando escuro está é mais que o dia.
Ó Délia, que, apesar da névoa grossa,
cos teus raios de prata
a escura noite fazes, que não possa
encontrar o que trata,
e o que nalma retrata,
Amor por teu divino
rosto, por que endoudeço e desatino:
Tu, que de fermosíssimas estrelas
coroas e rodeias
teus cabelos d'argento e faces belas,
e os campos fermoseias
co as rosas que semeias,
co as boninas que gera
o teu celeste amor na Primavera:
Pois, Délia, dos teus céus vendo estás quantos
furtos de puridades,
suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
as amantes vontades,
üas por saudades,
outras por crus indícios,
fazem das próprias vidas sacrifícios;
vejo teu Endimião por estes montes,
suspenso o Céu, olhando,
e o teu nome, cos olhos feitos fontes,
embalde e em vão chamando,
pedindo e suspirando,
mercês à tua beldade
sem em ti achar üa hora piedade.
Por ti feito pastor de branco armento,
as selvas solitárias
acompanhado só do pensamento,
conversa as alimárias,
de todo amor contrárias,
mas não como ti duras,
onde lamenta e chora desventuras.
Por ti guarda o sitio fresco d'Ílio
suas sombras fermosas;
para ti, Erimanto e o lindo Epilio
as mais purpúreas rosas;
e as drogas cheirosas
deste nosso Oriente
também Arábia Felix eminente.
De que pantera, tigre, ou leopardo
as ásperas entranhas
não temeram o agudo e fero dardo,
quando pelas montanhas
mui remotas e estranhas
ligeira atravessavas,
tão fermosa que Amor de amor matavas?
Das castas virgens sempre os altos gritos,
clara Lucina, ouviste,
renovando lhe a força e os espritos;
mas os daquele triste
já nunca consentiste
ouvi los um momento,
para ser menos grave seu tormento.
Não fujas de mim assi, nem assi te escondas
dum tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
e como o velho Atlante
o seu colo arrogante
move piadosamente,
ouvindo a minha voz fraca e doente.
Triste de mim, que o pior é queixar-me,
pois minhas queixas digo
a quem já ergue as mãos para matar-me,
como a crue imigo;
mas eu meu fado sigo,
que a isto me destina
e isto só pretende e só me ensina.
Quantos dias há que o Céu me desengana,
e eu sempre porfio
cada vez mais na minha teima insana!
Tendo livre alvedrio,
não fujo o desvario;
e este, que em mim vejo,
para esperança minha e meu desejo.
Oh! quanto milhor fora que dormissem
um sono perenal
estes meus olhos tristes, e não vissem
a causa de seu mal
fugir, a tempo tal,
mais que dantes, por teima,
mais cruel que ussa fera, mais que ema.
Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
com mil mortes ao lado,
e, quando mouro mais, então mais vivo!
Porque assi me há ordenado
meu infelice estado
que, quando mais me convida
a morte, para a morte tenha vida.
Minha secreta amiga, mansa noite,
estas rosas (porquanto
ouviste meus queixumes) ora dou te
este fresco adianto,
húmido ainda do pranto
e lágrimas da esposa
do cioso Titã, branca e fermosa.
Tão suave, tão fresca e tão fermosa,
nunca no Céu saiu
a Aurora no princípio do Verão,
às flores dando a graça costumada,
como a fermosa, mansa fera, quando
um pensamento vivo me inspirou,
por quem me desconheço.
Bonina pudibunda ou fresca rosa
nunca no campo abriu,
quando os raios do Sol no Touro estão,
de cores diferentes esmaltada,
como esta flor, que, os olhos inclinando,
o sofrimento triste costumou
à pena que padeço.
Ligeira, bela Ninfa, linda, irosa,
não creio que seguiu
Sátiro, cujo brando coração
d'amores comovesse fera irada,
que assi fosse fugindo e desprezando
este tormento, onde Amor mostrou
tão próspero começo.
Nunca, enfim, cousa bela e rigorosa
Natura produziu
que iguale àquela forma e condição,
que as dores em que vivo estima em nada.
Mas com tão doce gesto, irado e brando
o sentimento e a vida me enlevou,
que a pena lhe agradeço.
Bem cuidei de exaltar em verso ou prosa
aquilo que a alma viu
antre a doce dureza e mansidão,
primores de beleza desusada;
mas, quando quis voar ao Céu, cantando,
entendimento e engenho me cegou
luz de tão alto preço.
Naquela alta pureza deleitosa
que ao mundo se encobriu
e nos olhos angélicos, que são
senhores desta vida destinada,
e naqueles cabelos, que, soltando
ao manso vento, a vida me enredou,
me alegro e entristeço.
Saudade e suspeita perigosa,
que Amor constituiu
por castigo daqueles que se vão;
temores, penas d'alma desprezada,
fera esquivança, que me vai tirando
o mantimento que me sustentou,
a tudo me ofereço.
Se de meu pensamento
tanta razão tivera de agravar me
quanta de meu tormento
a tenho de queixar me,
puderas, triste lira, consolar me.
E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre e pura,
não fora assi tornada,
com tanta desventura,
tão rouca, tão pesada, nem tão dura.
E ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvíreis meus amores,
que exemplo são ao mundo, já, de dores.
Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas e momentos,
oh! quão bem alembrados
sois de meus pensamentos,
reinando agora em mim, duros tormentos!
Ai, gostos fugitivos,
ai, glória já acabada e consumida,
cruéis males esquivos,
que me deixais a vida
quão cheia de pesar, quão destruída!
Mas como não é morta
a triste vida já, que tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
que em vão co seu poder, o tempo cura?
Mas, para padecê la,
se esforça meu sujeito e convalece;
que, só para dizê la,
a força me falece,
e de todo me cansa e m'enfraquece.
Oh! bem afortunado,
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
e cos teus olhos ver a doce amante!
As infernais figuras
moveste com teu canto docemente;
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
quietas se tornaram, de repente.
Ficou como pasmado
todo o Estígio reino co teu canto;
e, quási descansado
de seu eterno pranto
cessou de alçar Sisifo o grave canto.
A ordem se mudava
das penas que ordenava ali Plutão,
em descanso tornava
a roda de Ixião,
e em glória quantas penas ali são.
Pelo qual, admirada
a Rainha infernal e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
de tantos dias já tivera a vida.
Pois minha desventura
como já não abranda üa alma humana
que é contra mim mais dura
e mui mais desumana
que o furor de Calírroë profana!
Ó crua, esquiva e fera,
duro peito, cruel, impedernido,
de algüa tigre fera,
da Hircânia nacido
ou dantre as duras rochas produzido!
Mas que digo, coitado,
e de quem fio em vão minhas querelas?
Só vós (ó do salgado,
húmido reino), belas
e claras Ninfas, condoei vos delas.
E, de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando
sôbol' água erguidas,
as tranças gotejando,
sai alegres todas ver qual ando.
Saí em companhia
cantando e colhendo as lindas flores,
vereis minha agonia,
ouvireis meus amores,
assentareis meus prantos, meus clamores.
Vereis o mais perdido
e mais mofino corpo que é gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
somente vive nele o seu cuidado.
Fermosa fera humana,
em cujo coração soberbo e rudo
a força soberana
do vingativo Amor, que vence tudo,
as pontas amoladas
de quantas setas tinha, tem quebradas;
amada Circe minha
(posto que minha não, contudo amada),
a quem um bem que tinha
da doce liberdade desejada
pouco a pouco entreguei,
e, se mais tenho, inda entregarei:
Pois natureza irosa
da razão te deu partes tão contrárias
que, sendo tão fermosa,
folgues de te queimar em flamas várias,
sem arder em nenhüa
mais que enquanto alumia o mundo a Lua;
pois triunfando vás
com diversos despojos de perdidos,
que tu privando estás
de razão, de juízo e de sentidos,
e quási a todos dando
aquele bem que a todos vás negando;
pois tanto te contenta
ver o nocturno moço, em ferro envolto,
debaixo da tormenta
de Júpiter, em água e vento solto,
a porta que, impedido
lhe tem seu bem, de mágoa adormecido;
porque não tens receio
que tantas inocências e esquivanças
a deusa que põe freio
a soberbas e doudas esperanças
castigue com rigor,
e contra si se acenda o fero Amor?
Olha a fermosa Flora;
de despojos de mil suspiros rica,
pelo capitão chora
que lá em Tessália, enfim, vencido fica,
e foi sublime tanto
que altares lhe deu Roma e nome santo.
Olha em Lesbo aquela
no seu psalteiro insigne conhecida;
dos muitos que por ela
se perderam, perdeu a cara vida
na rocha que se inflama
com ser remédio estremo de quem ama.
Pelo moço escolhido,
onde mais se mostravam as três Graças;
que Vénus escondido
para si teve um tempo antr'as alfaças,
pagou co a morte fria
a má vida que a muitos já daria.
E, vendo-se deixada
daquele por quem tanto já deixara,
se foi desesperada
precipitar da infame rocha cara;
que o mal de mal querida
sabe que vida lhe é perder a vida.
—Tomai-me, bravos mares;
tomai-me vós, pois outrem me deixou!
E assi, dos altos ares
pendendo, com furor se arremessou.
Acude tu, suave,
acude, poderosa e divina ave!
Toma nas asas tuas,
Minino pio, Elisa; sem perigo,
antes que nessas cruas
águas caindo, apague o fogo antigo.
E digno amor tamanho
de viver e ser tido por estranho?
Não; que é razão que seja
para as lobas isentas, que amor vendem,
exemplo onde se veja
que também ficam presas as que prendem.
Assi deu por sentença
Némesis, que Amor quis que tudo vença.
Nunca manhã suave,
estendendo seus raios pelo mundo,
despois de noite grave,
tempestuosa, negra, em mar profundo,
alegrou tanto nau, que já no fundo
se viu em mares grossos,
como a luz clara a mim dos olhos vossos.
Aquela fermosura
que só no virar deles resplandece,
com que a sombra escura
clara se faz, e o campo reverdece,
quando meu pensamento se entristece,
ela e sua viveza
me desfazem a nuvem da tristeza.
O meu peito, onde estais,
é, para tanto bem, pequeno vaso;
quando acaso virais
os olhos, que de mim não fazem caso,
todo, gentil Senhora, então me abraso
na luz que me consume
bem como a borboleta faz no lume.
Se mil almas tivera
que a tão fermosos olhos entregara,
todas quantas tivera
polas pestanas deles pendurara;
e, enlevadas na vista pura e clara,
(posto que disso indinas),
se andaram sempre vendo nas mininas.
E vós, que descuidada
agora vivereis de tais querelas,
de almas minhas cercada
não pudésseis tirar os olhos delas;
não pode ser que, vendo a vossa antr'elas,
a dor que lhe mostrassem,
tantas üa alma só não abrandassem.
as pois o peito ardente
üa só pode ter, fermosa Dama,
basta que esta somente,
como se fossem duas mil, vos ama,
para que a dor de sua ardente flama
convosco tanto possa
que não queirais ver cinza üa alma vossa.
Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e à viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.
Que a flama que se acende
alto tanto alumia
que, se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu, e sente claro dia;
e lá vê do que busca o natural,
a graça, a viva cor,
noutra espécie milhor, que a corporal.
Pois vós, ó claro exemplo
de viva fermosura,
que de tão longe cá noto e contemplo
na alma, que este desejo sobe e apura;
não creais que não vejo aquela imagem
que as gentes nunca vêm,
se de humanos não têm muita ventagem.
Que, se os olhos ausentes
não vêm a compassada
proporção, que das cores excelentes
de pureza e vergonha é variada;
da qual a Poesia, que cantou
até aqui só pinturas,
com mortais fermosuras igualou;
se não vêm os cabelos
que o vulgo chama de ouro,
e se não vêm os claros olhos belos,
de quem cantam que são do Sol tesouro;
e se não vêm do rosto as excelências,
a quem dirão que deve
rosa, cristal e neve as aparências;
vêm logo a graça pura
a luz alta e severa
que é raio da divina fermosura
que na alma imprime e fora reverbera,
assi como cristal do Sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama, esclarecido.
E vêm a gravidade
com a viva alegria,
que misturada tem, de qualidade
que üa da outra nunca se desvia;
nem deixa üa de ser arreceada
por leda e por suave,
nem outra, por ser grave, muito amada.
E vêm do honesto siso
os altos resplandores, temperados
co doce e ledo riso,
a cujo abrir abrem no campo as flores;
as palavras discretas e suaves,
das quais o movimento
fará deter o vento e as altas aves;
dos olhos o virar
(que torna tudo raso),
do qual não sabe o engenho divisar
se foi por artifício, ou feito a caso;
da presença os meneios e a postura,
o andar e o mover se,
donde pode aprender se a fermosura.
Asuele não sei quê,
que espira não sei como,
que, invisível saindo, a vista o vê,
mas para o compreender não acha tomo;
o qual toda a toscana poesia,
que mais Febo restaura,
em Beatriz nem em Laura nunca via;
em vós a nossa idade,
Senhora, o pode ver,
se engenho e ciência e habilidade,
igual à fermosura vossa der,
como eu vi no meu longo apartamento,
qual em ausência a vejo.
Tais asas dá o desejo ao pensamento!
Pois se o desejo afina
üa alma acesa tanto
que por vós use as partes da divina,
por vós levantarei não visto canto,
que o Bétis me onça, e o Tibre me levante;
que o nosso claro Tejo
envolto um pouco vejo e dissonante.
O campo não o esmaltam
flores, mas só abrolhos
o fazem feio; e cuido que lhe faltam
ouvidos para mim, para vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
que o sol, que em vós está,
na escuridão dará mais claro lume.
Aquem darão de Pindo as moradoras,
tão doutas como belas,
florescentes capelas
do triunfante louro ou mirto verde,
da gloriosa palma, que não perde
a presunção sublime,
nem por força do peso algum se oprime?
A quem trarão na fralda delicada
rosas a roxa Clóris,
conchas a branca Dóris;
estas, flores do mar, da terra aquelas,
argênteas, ruivas, brancas e amarelas,
com danças e coreias
de fermosas Nereidas e Napeias?
A quem farão os hinos, odes, cantos,
em Tebas Anflon,
em Lesbos Arion,
senão a vós, por quem restituída
se vê da Poesia já perdida
a honra e glória igual,
Senhor Dom Manuel de Portugal?
Imitando os espritos já passados,
gentis, altos, reais,
honra benina dais
a meu tão baixo quão zeloso engenho.
Por Mecenas a vós celebro e tenho;
e sacro o nome vosso
farei, se algüa cousa em verso posso.
O rudo canto meu, que ressuscita
as honras sepultadas,
as palmas já passadas
dos belicosos nossos Lusitanos,
para tesouro dos futuros anos,
convosco se defende
da lei leteia, à qual tudo se rende.
Na vossa árvore, ornada de honra e glória,
achou tronco excelente
a hera florecente
para a minha até aqui, de baixa estima;
na qual, para trepar, se encosta e arrima;
e nelas subireis
tão alto quanto aos ramos estendeis.
Sempre foram engenhos peregrinos
da Fortuna envejados;
que, quanto levantados
por um braço nas asas são da Fama,
tanto por outro a sorte, que os desama,
co peso e gravidade
os oprime da vil necessidade.
Mas altos corações, dinos de império,
que vencem a Fortuna,
foram sempre coluna
da ciência gentil: Octaviano,
Cipião, Alexandre e Graciano,
que vemos imortais;
e vós, que nosso século dourais.
Pois, logo, enquanto a cítara sonora
se estimar pelo mundo,
com som douto e jucundo,
e enquanto produzir o Tejo e o Douro
peitos de Marte e Febo crespo e louro,
tereis glória imortal,
Senhor Dom Manuel de Portugal.
Aquele único exemplo
de fortaleza heróica e ousadia,
que mereceu, no templo
da Fama eterna, ter perpétuo dia;
o grão filho de Tétis, que dez anos
flagelo foi dos míseros Troianos;
não menos ensinado
foi nas ervas e médica polícia
que destro e costumado
no soberbo exercício da milícia:
assi que as mãos que a tantos morte deram,
também a muitos vida dar puderam.
E não se desprezou,
aquele fero e indómito mancebo,
das artes que ensinou
para o lânguido corpo o intonso Febo;
que, se o temido Heitor matar podia,
também chagas mortais curar sabia.
Tais artes aprendeu
do semíviro mestre e douto velho,
onde tanto creceu
em virtude, ciência e em conselho,
que Télefo, por ele vulnerado,
só dele pôde ser despois curado
Pois a vós, ó excelente
e ilustríssimo Conde, do Céu dado
para fazer presente
de altos heróis o século passado;
em quem bem trasladada está a memória
de vossos ascendentes, honra e glória:
Posto que o pensamento
ocupado tenhais na guerra infesta,
ou co sanguinolento
Taprobano, ou Achém, que o mar molesta,
ou co Cambaio, oculto imigo nosso,
que qualquer deles teme o nome vosso;
favorecer a antiga
ciência, que já aniquiles estimou;
olhai que vos obriga
verdes que em vosso tempo rebentou
o fruto daquela horta, onde florecem
plantas novas, que os doutos` não conhecem.
Olhai que, em vossos anos,
üa horta produze várias ervas
nos campos indianos,
as quais aquelas doutas e protervas
Medeia e Circe nunca conheceram,
posto que a lei da Mágica excederam.
E vede carregado
d'anos, e trás a vária experiência,
um velho que, ensinado
das gangéticas Musas na ciência
Podalíria sutil e arte silvestre,
vence o velho Quiron, de Aquiles mestre;
o qual está pedindo
vosso favor e ajuda ao grão volume
que, impresso à luz saindo,
dará da Medicina um vivo lume,
e descobrir nos há segredos certos,
a todos os antigos encobertos.
Assi que não podeis
negar (como vos pede) benina aura:
que, se muito valeis
na sanguinosa guerra turca e maura,
ajudai quem ajuda contra a morte;
e sereis semelhante ao Grego forte.
Fogem as neves frias
dos altos montes, quando reverdecem
as árvores sombrias;
as verdes ervas crecem,
e o prado ameno de mil cores tecem.
Zéfiro brando espira;
suas setas Amor afia agora;
Progne triste suspira
e Filomela chora;
o Céu da fresca terra se namora.
Vai Vénus citareia
cos coros das Ninfas rodeada;
a linda Panopeia,
despida e delicada,
com as duas irmãs acompanhada.
Enquanto as oficinas
dos Cíclopes Vulcano está queimando,
vão colhendo boninas
as Ninfas, e cantando,
a terra co ligeiro pé tocando.
Dece do duro monte
Diana, já cansada da espessura,
buscando a clara fonte,
onde, por sorte dura,
perdeu Actéon a natural figura.
Assi se vai passando
a verde Primavera e seco Estio;
trás ele vem chegando
despois o Inverno frio,
que também passará por certo fio.
Ir se há embranquecendo
com a frígida neve o seco monte;
e Júpiter, chovendo,
turbará a clara fonte;
temerá o marinheiro o Orionte.
Porque, enfim, tudo passa;
não sabe o tempo ter firmeza em nada;
e nossa vida escassa
foge tão apressada
que quando se começa é acabada.
Que foram dos Troianos
Hector temido, Eneias piadoso?
Consumiram te os anos,
ó Creso tão famoso,
sem te valer teu ouro precioso.
Todo o contentamento
crias que estava no tesouro ufano?
Ó falso pensamento!
Que, à custa do teu dano,
do douto Sólon creste o desengano!
O bem que aqui se alcança
não dura por possante, nem por forte;
que a bem aventurança,
durável de outra sorte,
se há de alcançar na vida para a morte.
Porque, enfim, nada basta
contra o terríbel fim da noite eterna;
nem pode a deusa casta
tornar à luz superna
Hipólito da escura noite averna.
Nem Teseu esforçado,
com manha, nem com força rigorosa,
livrar pode o ousado
Pirítoo da espantosa
prisão leteia, escura e tenebrosa.
Aquele moço fero
na Peletrónia cova doutrinado
do Centauro severo;
cujo peito esforçado
com tutanos de tigres foi criado;
na água fatal, minino,
o lava a mãe, pressaga do futuro,
para que ferro fino
não passe o peito duro
que de si mesmo a si se tem por muro.
A carne lhe endurece,
que ser não possa d'armas ofendida.
Cega! que não conhece
que pode haver ferida
n'alma, que menos dói perder a vida.
Que, aonde o braço irado
dos Troianos passava arnês e escudo,
ali se viu passado
daquele ferro agudo
do Minino que em todos pode tudo.
Ali se viu cativo
da cativa gentil, que serve e adora;
ali se viu que, vivo,
em vivo fogo mora,
porque de seu senhor se vê senhora.
Já toma a branda lira
na mão que a dura Pélias meneara;
ali canta e suspira,
não como lhe ensinara
o velho, mas o Moço que o cegara.
Pois, logo, quem culpado
será, se, de pequeno, oferecido
foi logo a seu cuidado,
no berço instituído
a não poder deixar de ser ferido?
Quem, logo fraco infante,
doutro mais poderoso foi sujeito,
que para cego amante
foi de princípio feito,
com lágrimas banhando o brando peito?
Se agora foi ferido
da penetrante seta e força de erva,
e se Amor é servido
que sirva à linda serva,
para que minha estrela me reserva?
O gesto bem-talhado,
o airoso meneio e a postura,
o rosto delicado,
que na vista afigura
que se ensina por arte a fermosura,
como pode deixar
de cativar quem tenha entendimento?
Que, a quem não penetrar
um doce gesto, atento,
não lhe é nenhum louvor viver isento.
Que aqueles cujos peitos
ornou d'altas ciências o destino,
esses foram sujeitos
ao cego e vão Minino,
arrebatados do furor divino.
O Rei famoso hebreio,
que, mais que todos soube, mais amou;
tanto, que a Deus alheio
falso sacrificou.
Se muito soube e teve, muito errou.
E o grão Sábio que ensina,
passeando, os segredos da Sofia,
à baixa concubina
do vil eunuco Hermia
ergueu aras, que aos deuses só devia.
Aras ergue a quem ama
o Filósofo insigne namorado.
Dói se a perpétua Fama
e grita que, culpado,
de lesa divindade é acusado.
Já foge donde habita;
já paga a culpa enorme com o desterro,
mas, oh! grande desdita!
Bem mostra tamanho erro
que doutos corações não são de ferro.
Antes na altiva mente,
no sutil sangue e engenho mais perfeito,
há mais conveniente
e conforme sujeito
onde se imprima o brando e doce afeito.
Naquele tempo brando
em que se vê do mundo a fermosura,
que Tétis descansando
de seu trabalho está, fermosa e pura,
cansava o Amor o peito
do mancebo Peleu de um duro afeito.
Com ímpeto forçoso
lhe tinha fugido a bela Ninfa
quando, no tempo aquoso,
Noto ligeiro move a clara linfa,
serras no mar erguendo,
que as altas vão da terra desfazendo.
Esperava o mancebo,
com a dor que o seu peito n'alma sente,
um dos dias que Febo
o mundo todo abrasa em fogo ardente,
soltando as tranças d'ouro
em que Clície de amor faz seu tesouro.
Era o mês que Apolo
entre os irmãos celestes passa o tempo;
o vento enfreia Eolo,
para que o deleitoso passatempo
seja quieto e mudo;
que a tudo Amor obriga, e vence tudo.
O luminoso dia
os amorosos corpos despertava
na cega idolatria,
que o peito mais contenta e mais agrava;
onde o cego Minino
se faz crer dos humanos que é contino.
Quando a fermosa Ninfa
com todo ajuntamento venerando,
na pura e clara linfa
o cristalino corpo está lavando;
o qual, nas águas vendo,
nele, alegre de o ver, se está revendo:
O peito diamantino
em cuja branca teta Amor se cria;
o gesto peregrino,
cuja presença torna a noite, dia;
a graciosa boca,
que Amor a seus amores mais provoca;
os rubins graciosos;
e pérolas que escondem entre as rosas
os jardins deleitosos,
que o Céu plantou em faces tão fermosas;
o transparente colo,
que ciúmes a Dafne faz de Apolo;
O sutil movimento
dos olhos, cuja vista o Amor cegou;
o qual, com seu tormento,
nunca mais de tais olhos se apartou,
mas antes de contino
nas mininas o trazem por minino;
os fios espalhados
d'Amor que aos mais dos peitos faz cobiça,
onde Amor enredados
os corações humanos traz e atiça,
com férvido desejo
por onde ele começa a ser sobejo.
O mancebo Peleu,
que de Neptuno estava aconselhado,
vendo na terra o Céu
em tão bela figura tresladado,
mudo um pouco ficou,
porque logo Amor a fala lhe tirou.
Enfim, querendo ver
quem tanto mal de longe lhe fazia,
a vista foi perder,
porque, de puro amor, Amor não via;
ficando cego e mudo
contra as forças do Amor, que pode tudo.
Agora se aparelha
para a batalha; agora arremetendo;
agora se aconselha;
agora vai; agora está tremendo;
quando já de Cupido
com nova seta o peito viu ferido.
Remete o moço logo
para onde estava a chaga sem sossego,
e co sobejo fogo,
quanto mais perto estava, então mais cego
se via; e cum suspiro
na fermosa donzela emprega o tiro.
Vingado assi Peleu,
naceu deste amoroso ajuntamento
o forte Larisseu,
destruição do frígio pensamento;
que, por não ser ferido,
foi nas ondas estígias sumergido.
Já calma nos deixou
sem flores as ribeiras graciosas;
já de todo secou
os cravos, lírios e as purpúreas rosas;
fogem da calma grave os passarinhos
para o sombrio emparo de seus ninhos.
Meneia os altos freixos
a branda viração, de quando em quando,
e dentre vários seixos,
o liquido cristal sai murmurando;
as gatas, que das alvas pedras saltam,
o prado, como pérolas, esmaltam.
Da caça já cansada,
busca a casta Titónia a espessura,
onde, à sombra deitada,
logre o doce repouso da verdura,
e sobre o seu cabelo crespo e louro
deixe cair o bosque o seu tesouro.
O Céu desimpedido
mostra o eterno lume das estrelas;
e de flores vestido,
üas vermelhas, outras amarelas,
se mostra alegre o bosque, alegre o monte,
o rio, o arvoredo, o prado, a fonte.
Porque como o minino
que a Júpiter pela águia foi levado,
no cerco cristalino
foi do amador de Clície visitado,
o bosque chorará, chorará a fonte,
o rio, o arvoredo, o prado, o monte.
O mar, que agora, brando,
é das lindas Nereidas cortado,
se irá alevantando
todo, em crespas escumas empolado;
o soberbo furar do negro vento f
fará por toda a parte movimento.
Lei é da Natureza
mudar se desta sorte o tempo leve,
suceder à beleza
da Primavera o fruto; à calma, a nove;
e tornar outra vez, por certo fio,
Outono, Inverno, Primavera, Estio.
Tudo, enfim, faz mudança,
quanto o claro Sol vê, quanto alumia;
nem se acha segurança
em tudo quanto alegra o belo dia;
mudam se as condições, muda se a idade,
a bonança, os estados e a vontade.
Só a minha inimiga
a dura condição nunca mudou,
para que o mundo diga
que, nela, lei tão certa se quebrou;
só ela em me não ver sempre está firme,
ou por fugir d'Amor, ou por fugir me.
Mas já sofrível fora
só ela em me matar, mostrar firmeza,
se não achara agora
também em mim mudada a natureza;
pois sempre o coração tenho turbado,
sempre d'escuras nuvens rodeado.
Sempre exprimento os fios
que em contino receio Amor me manda;
sempre os dous caudais rios
que em meus olhos abriu, quem nos seus anda,
correm, sem chegar nunca o Verão brando,
que tamanha aspereza vá mudando.
O Sol sereno e puro
que no fermoso rostro resplandece,
envolto em manto escuro
do triste esquecimento, não parece,
deixando em triste noite a triste vida,
que nunca é de luz nova socorrida.
Porém seja o que for:
mude se por meu dano, a Natureza;
perca a constância Amor;
a Fortuna inconstante ache firmeza;
e tudo se conjure contra mi,
mas eu firme estarei no que emprendi.
Tão crua Ninfa, nem tão fugitiva,
com lindo pé pisou
verde erva, nem colheu as brancas flores,
soltando seus cabelos d'ouro fino
ao vento que em doces nós os olhos ata,
nem tão linda, discreta e tão fermosa
como esta minha imiga.
Aquilo que em pessoa que hoje viva
no mundo não se achou,
quis nela a Natureza, seus primores
mostrando, que se achasse de contino:
castidade e beleza; ua me mata,
a outra, de suave e deleitosa,
me faz doce a fadiga.
Mas esta bela fera, tão esquiva,
que o prazer me roubou,
quis-me pagar seus únicos louvores,
cantando eu num estilo dela indino;
porque, se de louvor tão alto trata,
não sei eu tão baixo verso e prosa
que escreva nem que diga.
Aquela luz que a do Sol claro priva,
e a minha me cegou;
aquele mover de olhos, minhas dores
causando no olhar manso e divino;
o doce rir, que esta alma desbarata,
me faz a sua pena desejosa
e de seu mal amiga.
De belos olhos veio a flama viva
que n'alma se ateou
com a lenha de vossos disfavores,
queimando dentro o coração mofino,
cujo fim, por mor dano, se dilata
co a esperança falsa e duvidosa
que forçado é que siga.
Mas, minha ou vossa, vendo-se cativa
quem Deus livre criou,
se aqueixa desses olhos roubadores,
culpando ao claro raio peregrino;
mas logo a luz suave, que a resgata,
de vossa linda vista graciosa
a faz que se desliga.
Nenhüa que no mundo humana viva,
que o Criador formou
por milagre maior entre os maiores,
formou um feito de tal Feitor dino;
Deus não quer que sejais, Senhora, ingrata,
mas que ajudeis ua alma desditosa
que em vos servir periga:
a sofrer esta pena rigorosa
vosso valor me obriga.
Quem pode ser no mundo tão quieto,
ou quem terá tão livre o pensamento,
quem tão exprimentado e tão discreto, t
tão fora, enfim, de humano entendimento
que, ou com público efeito, ou com secreto,
lhe não revolva e espante o sentimento,
deixando lhe o juízo quási incerto,
ver e notar do mundo o desconcerto?
Quem há que veja aquele que vivia
de latrocínios, mortes e adultérios,
que ao juízo das gentes merecia
perpétua pena, imensos vitupérios,
se a Fortuna em contrário o leva e guia,
mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
em alteza d'estados triunfante,
que, por livre que seja, não se espante?
Quem há que veja aquele que tão clara
teve a vida que em tudo por perfeito
o próprio Momo às gentes o julgara,
ainda que lhe vira aberto o peito,
se a má Fortuna, ao bem somente avara,
o reprime e lhe nega seu direito,
que lhe não fique o peito congelado,
por mais e mais que seja exprimentado?
Demócrito dos deuses proferia
que eram só dous: a Pena e Beneficio.
Segredo algum será da fantasia
de que eu achar não posso claro indicio;
que, se ambos vêm por não cuidada
via a quem os não merece, é grande vicio
em deuses sem justiça e sem razão.
Mas Demócrito o disse, e Paulo não.
Dir me heis que, se este estranho desconcerto
novamente ao mundo se mostrasse,
que, por livre que fosse e mui experto,
não era de espantar se me espantasse;
mas que se já de Sócrates foi certo
que nenhum grande caso lhe mudasse
o vulto, ou de prudente, ou de constante,
que tome exemplo dele, e não me espante.
Parece a razão boa; mas eu digo
qu'é este uso da Fortuna tão danado
que, quanto mais usado e mais antigo,
tanto é mais estranhado e blasfemado.
Porque se o Céu, das gentes tão amigo,
não dá à Fortuna tempo limitado,
não é para causar mui grande espanto
que mal tão mal olhado dure tanto.
Outro espanto maior aqui me enleia:
que, conquanto Fortuna tão profana
com estes desconcertos senhoreia,
a nenhüa pessoa desengana.
Não há ninguém que assente nem que creia
este discurso vão da vida humana,
por mais que filosofe, nem que entenda,
que algum pouco do mundo não pretenda.
Como nos vossos ombros tão constantes,
Príncipe ilustre e raro, sustenteis
tantos negócios árduos e importantes
dinos do largo Império que regeis;
como sempre nas armas rutilantes
vestido, o mar e a terra segureis
do pirata insolente, e do tirano
jugo do potentíssimo Otomano;
e como, com virtude necessária,
mal entendida do juízo alheio,
a desordem do vulgo temerária
na santa paz ponhais o duro freio;
se com minha escritura longa e vária
vos ocupasse o tempo, certo creio
que com ridiculosa fantasia
contra o comum proveito pecaria.
E não menos seria reputado
por doce adulador, sagaz e agudo,
que contra meu tão baixo e triste estado
busco favor em vós, que podeis tudo:
se, contra a opinião do vulgo errado,
vos celebrasse em verso humilde e rudo,
dirão que com lisonja ajuda peço
contra a miséria injusta que padeço.
Porém, porque a virtude pode tanto
no livre arbítrio (como disse bem
a Dario rei, o moço sábio e santo
que foi reedificar Hierusalém),
esta me obriga que, em humilde canto,
contra a tenção que a plebe ignara tem,
vos faça claro o que vos não alcança,
e não de prémio algum vil esperança.
Rómulo, Baco e outros que alcançaram
nomes de semideuses soberanos,
enquanto pelo mundo exercitaram
altos feitos e quási mais que humanos,
com justíssima causa se queixaram
que não lhe responderam os mundanos
favores do rumor, justos e iguais,
a seus merecimentos imortais.
Aquele que nos braços poderosos
irou a vida ao tingitano Anteu,
a quem os seus trabalhos tão famosos
fizeram cidadão do alto Céu,
achou que a má tenção dos envejosos
não se doma senão despois que o véu
se rompe corporal; porque na vida
ninguém alcança a glória merecida.
Pois, logo, se varões tão excelentes
foram do baixo vulgo molestados,
o vitupério vil das rudes gentes
é louvor dos reais e sulimados.
Quem no lume dos vossos ascendentes
poderá pôr os olhos que, abalados l
lhe não fiquem da luz, vendo os maiores
vossos passados, Reis e Emperadores?
Quem verá aquele pai da pátria sua,
açoute do soberbo Castelhano,
que o duro jugo, só, co a espada nua
removeu do pescoço lusitano,
que não diga: Ó grão Nuno! a eterna tua
memória causará (se não me engano),
que qualquer teu menor tanto se estime
que nunca possas ser senão sublime!
Nisto não falo mais, porque conheço
que da matéria se me abaixa o engenho.
Mas, pois que a dizer tudo me ofereço,
que dias há que no desejo o tenho,
sendo vós de tão alto e ilustre preço
a vida fostes pôr num fraco lenho,
por largo mar e undosa tempestade
só por servir a régia Majestade.
E despois de tomar a rédea dura
na mão, do povo indómito que estava
costumado à largueza e à soltura
do pesado governo que acabava;
quem não terá por santa e justa cura,
qual do vosso conceito se esperava,
a tão desenfreada infirmidade
aplicar lhe contrária qualidade?
Não é muito, Senhor, se o moderado
governo se blasfema e se desama;
porque o povo a larguezas acostumado
à lei serena e justa dura chama.
Pois o zelo, em virtude só fundado,
de salvar almas da tartárea flama,
co a água salutífera de Cristo,
poderá porventura ser malquisto?
Mui alto Rei, a quem os Céus em sorte
deram o nome augusto e sublimado
daquele cavaleiro que, na morte,
por Cristo foi de setas mil passado;
pois dele o fiel peito, casto e forte,
co nome imperial tendes tomado,
tomai também a seta veneranda
que a vós o sucessor de Pedro manda.
Já por sorte do Céu, que o consentiu,
tendes o braço seu, relíquia cara
defensor contra o gládio que feriu
o povo que David contar mandara.
No qual, pois tudo em vós se permitiu,
presságio temos e esperança clara
que sereis braço forte e soberano
contra o soberbo gládio mauritano.
E o que este presságio agora encerra
nos faz ter por mais certo e verdadeiro
a seta que vos dá quem é na terra
das relíquias celestes despenseiro:
que as vossas setas são, na justa guerra,
agudas, e entrarão por derradeiro
(caindo a vossos pés povo sem lei),
nos peitos que inimigos são do Rei.
Quando vossas bandeiras despregava
Albuquerque fortíssimo, com glória,
polas praias da Pérsia, e alcançava
de nações tão remotas a vitória;
as setas embebidas que tirava
o arco armusiano, é larga história
que no ar, Deus querendo, se viravam,
pregando se nos peitos que as tiravam.
O querido de Deus, por quem peleja
o ar também e o vento conjurado,
ao atambor acode, por que veja
que quem a Deus ama é de Deus amado;
os contrários, revéis à madre Igreja,
atroarão co tom do Céu irado,
que assi deu já favor maior que humano
a Josué hebreu, e Teodósio hispano.
Pois se as setas tiradas da inimiga
corda, contra si só nocivas são,
que farão, Rei, as vossas que têm liga
co a que já tocou Sebastião?
Tinta vem do seu sangue com que obriga
a levantar a Deus o coração,
crendo que as que vós atirareis
no sangue sarraceno as tingireis.
Ascânio (se trazer me é concedido,
entre santos exemplos, um profano)
rei do largo Império conhecido
romano, e só relíquia do troiano,
vingou, com seta e animo e atrevido,
as soberbas palavras de Numano;
e logo foi dali remunerado,
com louvores de Apolo celebrado.
Assi vós, Rei, que fostes segurança
de nossa liberdade, e que nos dais
de grandes bens certíssima esperança;
nos costumes e aspeito que mostrais
concebemos segura confiança
que Deus, a quem servis e venerais,
vos fará vingador dos seus revéis,
e os prémios vos dará que mereceis.
Estes humildes versas, que pregão
são destes vossos Reinos, com verdade,
recebei com humilde e leda mão,
pois é devido a reis benignidade.
Tenham (se não merecem galardão)
favor, sequer, da régia Majestade;
assi tenhais, de quem já tendes tanto,
com o nome e relíquia, favor santo.
Esprito valoroso, cujo estado
o alto Deus prospere e acrescente,
regendo o fiel Reino descansado,
com vida felicíssima, e contente:
a vós, em quem o humil necessitado
acha sempre favor e amor ardente,
peço queirais ouvir que, na verdade,
zelo e amor de Deus me persuade.
Não vos seja posado o atrever me
a querer emprender sujeito alheio,
porque fizeram lágrimas mover me
vir ante vós, ousado e sem receio.
E se por tal quiserdes conhecer me,
servindo vos de mim por algum meio,
o nome, o braço, a Musa e quanto posso,
há já muito, Senhor, que tudo é vosso.
Quem vos isto oferece, dirá quanto
desejo, muito há, ser vos aceito
porque com vosso zelo, o favor santo,
faça meu rude verso algum proveito;
que, cobrindo me vós com vosso manto,
a eu ser nobre tendo algum respeito,
sei que posso ganhar o que não tenho,
pois me não faltam forças nem engenho.
Porem isto, Senhor, deixando a parte,
que razão é devida a que me guia,
a vós tenho com força, engenho e arte
por influxo do Céu, que a vós me envia;
a vós a quem tem dado Apolo e Marte
de seus tesouros parte e melhoria,
venho cantar, com vez rouca e chorosa,
por üa encarcerada desditosa.
A vós venho, Senhor, na confiança
do vosso nome pondo meu sentido,
que quem em vós confia, tudo alcança,
sendo cousa de que Deus é servido;
e pois Ele vos deu justa balança
para pesar justiça e dar ouvido,
ouvi a petição da miserável,
com quem Fortuna foi tão pouco afável.
Ouvi da pobre Dona Catarina
o grande desemparo inopinado
a quem nenhum remédio determina
ou permite seu duro e cruel Fado;
que, se na tenra idade foi mofina,
a vida entregando ao vão cuidado,
haja nisso castigo com brandura,
porque o medo a fará viver segura.
Foge-me pouco a pouco a curta vida
(se por caso é verdade que inda vivo);
vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos;
choro pelo passado e, quando falo,
se me passam os dias passo e passo,
vai se me, enfim, a idade e fica a pena.
Enquanto aparelho um novo esprito,
e voz de cisne tal que o mundo espante,
com que de vós, Senhor, em alto grito
louvares mil em toda a parte cante,
ouvi o canto agreste em tronco escrito,
entre vacas e gado petulante;
que, quando tempo for, em milhor modo
por vós me ouvirá o mundo todo.
As vos querelas, brandas e amorosas,
sejam de vós tratadas brandamente;
verdades d'alma pouco venturosas,
saídas com suspiro vivo e ardente,
que em vossas mãos se entregam valerosas,
para despois viverem entre a gente,
chorando sempre a antiga crueldade,
e os corações moverem a piedade.
Já declinava o Sol contra o Oriente,
e o mais do dia já era passado,
quando o pastor, co grave mal que sente,
por dar alívio em parte a seu cuidado,
se queixa da pastara docemente,
cuidando de ninguém ser escutado.
Eu, que o ouvi dua árvore, escrevia
as mágoas que cantou; e assi dezia:
-Ou tu do monte Píndaso és nascida,
ou mármor te pariu, formosa e dura:
que não pode ser seja concebida
dureza tal de humana criatura;
ou és quiçais em pedra convertida,
e tens de natureza tal ventura;
porém não fez em ti boa impressão,
tornar-te só de mármor o coração.
Já esta minha voz rouca e chorosa
a gente mais remota moveria,
e se tocasse a veia lacrimosa
os tigres em Hircania amansaria.
Se não foras cruel, quanto fermosa,
meu longo suspirar te abrandaria;
mas suspirar por ti, mas bem-querer-te,
que fazem, senão mais endurecer-te?
Se deixaras vencer a crueldade
de tua tão perfeita fermosura,
um pouco viras bem minha vontade,
e viras esta fé tão limpa e pura,
porventura que houveras piedade
e tivera eu quiçais milhor ventura.
Mas nunca achei milhor tua beleza,
se não com ver-se em ti tua dureza
Já um peito abrandara que não sente
meu duro e grave mal, segundo é forte;
se decera ao Inferno fero e ardente,
movera a piedade a mesma morte.
Se ua gota de água brandamente
abranda um penedo duro e forte,
como lágrimas tantas não farão
um pequeno sinal num coração?
Na testa tenho üa fonte viva d'água,
que por meus olhos tristes se derrama;
no peito está de fogo ua viva frágoa,
que tudo em si converte e tudo inflama;
Amor, ao derredor, por maior mágoa,
voando, mais acende a ardente chama.
E se qués ver se ardentes são seus tiros,
olha se são ardentes meus suspiros.
Quando rumor algum grande se sente,
que se acende fogo em casa, ou torre,
de pura compaixão vai toda a gente
gritando: «Água ao fogo!» e cada um corre.
Assi anda meu peito em chama ardente,
e co a água dos olhos se socorre;
que quem me abrasa outra água me defende,
porque com esta o fogo mais se acende.
Quando o Sol sai lá no Oriente
o seu antigo curso começando,
fermoso, intenso, puro e refulgente,
o monte, campo, mar, tudo alegrando;
quando de nós se esconde no Ponente,
e noutras terras sai, alumiando;
sempre, enquanto dá ao mundo giro,
por ti meus olhos choram e eu suspiro.
Caminha o dia todo o caminhante,
vem, acabado, a noite em que descansa;
trabalha na tormenta o mareante,
goza o dia sereno e de bonança;
na terra o lavrador, se nela cansa:
mas eu, de meu trabalho e mal tão forte,
tormento espero, enfim, e crua morte.
Co' ouvir meu mal, as rosas matutinas,
de dó de mim, se cerram e emmurchecem;
co meu suspiro ardente, as cores finas
perdem o cravo, o lírio, e não florecem.
Co a roxa aurora, as pálidas baninas,
em vez de se alegrarem, se entristecem;
deixa seu canto Progne e Filomena;
que mais lhe dói que a sua a minha pena.
Responde o monte côncavo a meus ais,
e tu, como áspide, cerras-lhe o ouvido;
as árvores do campo, os animais,
mostram sentir meu mal sem ser sentido;
e a ti, as minhas dores desiguais
não movem esse peito endurecido;
por mais e mais que chamo, não respondes,
e quanto mais te busco, mais te escondes.
Naquela parte adonde costumavas
apacentar teus olhos e teu gado,
ali, onde mil vezes me mostravas
ser eu de ti o pasto desejado,
mil vezes te busquei por ver se davas
ainda algum descanso a meu cuidado.
No campo em vão te busco, e busco o monte,
qual o ferido cervo busca a fonte.
Este lugar de ti desamparado,
com cujas sombras frias já folgaste,
agora triste e escuro é já tornado;
que todo o bem contigo nos levaste.
Tu eras nosso sol mais desejado;
não temos luz despois que nos deixaste.
Torna, meu claro sol! Vem já, meu bem!
Qual é o Josué que te detém?
Despois que deste vale te apartaste,
não pace o branco gado, com secura;
secou-se o campo dês que lhe negaste
dos teus foemosos olhos a luz pura;
secou-se a fonte donde já te olhaste,
quando milhor que agora, áspera e dura;
nega, sem ti, a terra dando gritos,
pasto às cabras e leite a os cabritos.
Sem ti, doce cruel minha inimiga,
a clara luz escura me parece;
este ribeiro, quando Amor me obriga,
com meu chorar por ti contino crece.
Não há fera que a fome não persiga,
nem o campo sem ti já não florece;
cegos estão meus olhos, já não vêm,
pois que não podem ver meu claro bem.
O campo, como de antes, não se esmalta
de boninas azuis, brancas, vermelhas;
não chave ao pasto já, que há d'água falta;
as mansas e pacíficas ovelhas
sem ti perecem e o Céu também lhes falta;
não acham flor as melífluas abelhas;
com lágrimas que manam dos meus olhos
produze a terra já ásperos abrolhos
Torna pois já, pastora, a este prado,
e restituirás esta alegria;
alegrarás o monte, o campo, o gado,
alegrarás também a fonte fria.
Torna, vem já, meu sol tão desejado,
faze esta noite escura em claro dia;
e alegra já esta magoada vida,
toda em tua ausência consumida.
Vem, como quando o raio eminente
do nosso horizonte que, escondido,
deixa um certo temor à mortal gente,
que causa ver o Orbe escurecido;
e quando torna a vir, claro e luzente,
alegra o mundo todo entristecido;
assi é para mim tua luz pura
claro sol, e, ausente, noite escura.
Tu, esquecida já do bem passado
e do primeiro amor que me mostraste,
teu coração de mim tens apartado,
e o lugar também desamparaste.
Não te quero eu a ti mais que a meu gado?
Não sou eu mesmo aquele que tu amaste?
Pois onde merecia tão grão desvio?
Ouve-me, pois me vês já morto e frio.
Bem vês que por Amor se move tudo,
e não há quem de Amor se veja isento;
o animal mais simples, baixo e rudo,
o de mais levantado pensamento,
até debaixo d'água o peixe mudo,
lá tem d'Amor também seu movimento;
a ave, que no ar cantando voa,
também por outra ave se afeiçoa.
A música do leve passarinho,
que sem concerto algum solta e derrama,
saltando de raminho em raminho,
cantando com amor suspira e chama,
té achar no amado e doce ninho
aquele a quem busca e a quem ama,
descansa do trabalho que tomara
tendo só seu descanso em quem achara.
A fera que é mais fera, e o leão
sempre acha outro leão, e outra fera,
em que possa empregar üa afeição
que lhe a conversação no peito gera;
também sabe sentir sua paixão,
também suspira, morre e desespera,
acena, salta, brada, ferve e geme;
e, não temendo nada, Amor só teme.
O cervo que, escondido e emboscado,
temendo o cobiçoso caçador,
está na selva, monte, bosque ou prado,
ali onde está e vive, vive amor.
D'amor e de temor acompanhado,
com justa causa, amor tem e temor:
temor, de quem ali feri-lo vinha;
e amor, a quem já ferido o tinha.
Se o animal insensível, que não sente,
também sente d'Amor a frecha dura,
porque te não abranda o fogo ardente,
que procede de tua fermosura?
Porque escondes a luz do Sol à gente,
que nesses olhos trazes, bela e pura?
Mais bela, mais suave e mais fermosa
que o lirio, o jasmim, o cravo, a rosa.
Pode ser, se me viras, que sentiras
ver desfazer um peito em triste pranto;
e bem pouco fizeras, se me viras,
já que eu só por te ver, suspiro tanto.
As mágoas e suspiros que me ouviras
te puderam mover a grande espanto,
a dor, a piedade, o sentimento,
e mais, que para mais é meu tormento.
Os pensamentos vãos, que o vento leve,
o suspirar em vão também ao vento,
o esperar a calma, a chuva, a neve,
e não te poder ver um só momento,
tormento é que somente a ti se deve.
E se pode inda haver maior tormento,
quem te viu e se vê de si ausente,
muito mais passará mais levemente.
Faz mossa a pedra dura em sua dureza
co a água que lhe toca brandamente;
abranda o ferro forte a fortaleza,
se lhe toca também o fogo ardente;
só em ti não conheço a natureza,
que a ser de pedra, ferro ou de serpente,
já teu peito cruel fora desfeito
do fogo e das lágrimas que deito.
Quando a formosa Aurora mostra a fronte,
alegra toda a terra, vendo o dia;
quando Febo aparece no horizonte,
manifesta também grande alegria;
contente come o gado ao pé do monte,
alegre vai beber à fonte fria.
Tudo contente está, alegre tudo;
eu só, só pensativo, triste e mudo.
Se da alma e do corpo tens a palma,
e do corpo sem alma não tens dó,
há dó do corpo só, que está sem alma,
pois sem alma não vive o corpo só.
Na chama, no ardor, no fogo e calma,
na afeição, no querer eu sou um só;
não acharás vontade mais cativa;
nem outra como a tua tão esquiva.
Se te apartas por não ouvir meu rogo,
onde estiveres te hei-de importunar;
posto que vá por água, ferro ou fogo,
contigo em toda a parte m'hás-de achar;
que a chama que me abrasa é de tal fogo
que, enquanto eu vivo for, há-de durar,
e o nó que me tem preso é de tal sorte
que não se há-de soltar em vida ou morte.
Neste meu coração sempre estarás
enquanto a alma estiver com ele unida;
meu spírito também possuirás,
despois que a alma do corpo for partida.
Por mais e mais que faças, não farás
que não te ame nesta e na outra vida.
Impossível será que, eternamente,
estês de mim ausente, estando ausente.
Cá me acompanhará tua memória,
se o rio que se diz do esquecimento,
da minha não borrar tão longa história,
tão grave mal, tão duro apartamento.
Até que eu te veja entrar na glória
vivirei num contino sentimento;
e inda então será (se isto ser possa)
servir esta alma minha lá a vossa.
Aqui, com grave dor, com triste acento,
deu o triste pastor fim a seu canto;
co rosto baixo, e alto o pensamento,
seus olhos começaram novo pranto;
mil vezes fez parar no ar o vento,
e apiadou no Céu o coro santo;
as circunstantes selvas se abaixaram
de dó das tristes mágoas que escutaram.
Com üa mão na face, e encostado,
em sua dor tão enlevado estava
que, como em grave sono sepultado,
não viu o Sol que já no mar entrava.
Berrando anda em roda o mesmo gado,
que o seguro curral já desejava;
nas covas as raposas, e em seus ninhos
se recolhem os simples passarinhos.
Já sobre um seco ramo estava posto
o mocho co funesto e triste pranto;
a cujo sem o pastor ergueu o rosto
e viu a terra envolta em negro manto.
Quebrando então o fio a seu gosto,
mas não quebrando o fio a seu pranto,
para milhor cuidar em seu cuidado,
levou para os currais o manso gado.
Vós, semícapros deuses do alto monte,
Faunos longevos, Sátiros, Silvanos;
e vós, deusas do bosque e clara fonte,
ou dos troncos que vivem largos anos,
se tendes pronta um pouco a sacra fonte
a nossos versos rústicos e humanos,
ou me dai já a coroa de loureiro,
ou penda a minha lira dum pinheiro.
ALIEUTO
Vós, húmidas deidades deste pego,
Tritões cerúleos, Próteo, com Palemo;
e vós, Nereidas do sal em que navego,
por quem do vento as fúrias pouco temo;
se às vossas ricas aras nunca nego
o congro nadador na pá do remo,
não consintais que a música marinha
vencida seja aqui da lira minha.
AGRÁRIO
Pastor se fez um tempo o Moço louro,
que do Sol as carretas move e guia;
ouviu o rio Anfriso a lira d'ouro
que o sacro inventor ali tangia.
Io foi vaca; Júpiter foi touro;
mansas ovelhas junto da água fria
guardou o fermoso Adónis; e tornado
em bezerro Neptuno foi já achado.
ALIEUTO
Pescador já foi Glauco, o qual agora
deus é do mar; e Próteo focas guarda.
Naceu no pego a deusa, que é senhora
do amoroso prazer, que sempre tarda. S
e foi bezerro o deus que mar adora
também já foi Delfim; e quem rês guarda
verá que os moços pescadores eram
que o escuro enigma a o Vate deram.
AGRÁRIO
Fermosa Dinamene, se dos ninhos
os implumes penhores já furtei
à doce filomela, e dos murtinhos
para ti, fera! as flores apanhei;
e se os crespos madronhos nos raminhos
a ti, com tanto gosto, apresentei,
porque não dás a Agrário desditoso
um só revolver d'olhos piadoso?
ALIEUTO
Para quem trago eu d'água em vaso cavo,
os curvos camarões vivos saltando?
Para quem as conchinhas ruivas cavo
na praia os brancos búzios apanhando?
Para quem, de margulho, no mar bravo,
os ramos de coral venho arrancando,
senão para a fermosa Lemnoria
que cum só riso a vida me daria?
AGRÁRIO
Quem viu já o desgrenhado e crespo Inverno
d'altas nuvens vestido, hórrido e feio,
ennegrecendo a vista o Céu superno,
quando arranca os troncos o rio cheio;
raios, chuvas, trovões, um triste inferno,
mostra ao mundo um pálido receio;
tal é o amor cioso a quem suspeita
que outrem de seus trabalhos se aproveita.
ALIEUTO
Se alguém viu pelo alto o sibilante
furor, deitando flamas e bramidos,
quando as pasmosas serras traz diante,
hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos,
a braços derrubando o já nutante
mundo, cos Elementos destruídos,
assi me representa a fantasia
a desesperação de ver um dia.
AGRÁRIO
Minh'alva Dinamene, a Primavera,
que os campos deleitosos pinta e veste,
e, rindo se, üa cor aos olhos gera
com que na terra vêm o arco celeste;
o cheiro, rosas, flores, a verde hera,
com toda a fermosura amena, agreste,
não é para meus olhos tão fermosa
como a tua, que abate o lírio e rosa.
ALIEUTO
As conchinhas da praia que apresentam
a cor das nuvens, quando nace o dia;
o canto das Sirenas, que adormentam;
a tinta que no múrice se cria;
navegar pelas águas que se assentam
co brando bafo quando a sesta é fria,
não podem, Ninfa minha, assi aprazer me
como ver te üa hora alegre ver me.
AGRÁRIO
A deusa que na Líbica alagoa
em forma virginal apareceu,
cujo nome tomou, que tanto soa,
os olhos belos tem da cor do céu,
garços os tem; mas üa que a coroa
das fermosas do campo mereceu,
da cor do campo os mostra, graciosos
quem diz que não são estes os fermosos?
ALIEUTO
Cousas grandes e estranhas
tem pelo mundo feito e faz Natura,
que, a quem vos não viu, Ninfas, muito espantam
Nas Líbicas montanhas
os crocodilos feros, de pintura
tão singular, que só co a vista encantam,
a sua voz levantam
tão própria e natural à voz humana
que, a quem a ouve, facilmente engana.
E vós, ó gentes feras, cujo aspeito
o mundo tem sujeito,
tendes de natureza juntamente
a vista e voz de gente, e fero o peito.
Das amorosas leis
com que liga natura os corações
andais fugindo, ó Ninfas, na espessura?
Como não vos correis
que haja em vós tão duras condições
que possam mais que a próvida Natura?
Se vossa fermosura
é sobrenatural, não é forçado
que assi tenha também o peito irado;
mas antes ao Amor, em cuja mão
os corações estão,
por vossa gentileza tão fermosa
lhe deveis amorosa condição.
Amor é um brando afeito
que Deus no mundo pôs e a Natureza
para aumentar as cousas que criou.
De Amor está sujeito
tudo quanto pssui a redondeza;
Nada sem este afeito se gerou.
Por ele conservou
a causa principal o mundo amado,
donde o pai famulento foi deitado.
As cousas ele as ata e as conforma;
com o mundo reforma
a matéria. Quem há que não o veja?
Quanto meu mal deseja, sempre forma.
Entre as ervas dos prados
não há machos e fêmeas conhecidas
e junto üa da outra permanece?
Não estão carregados
os ulmeiros das vides retorcidas,
onde o cacho enforcado amadurece?
Não vedes que padece
tanta tristeza a rola pela morte
de sua amada e única consorte?
Pois lá no Olimpo, a quantos cativou
Cupido e maltratou?
Milhor que eu o dirá a sutil donzela
que lá na sua tela o dibuxou.
Ah! caso grande e grave!
Ah, peitos de diamante fabricados,
e das leis absolutas naturais!
Aquele amor suave,
aquele poder alto, que, forçados,
os deuses obedecem desprezais?
Pois quero que saibais
que contra o fero Amor nunca houve escudo:
o seu costume é vingança em tudo.
Eu vos verei deitar em um momento,
suspiros mil ao vento,
lágrimas, tristes prantos, nova dor,
por quem tenha outro amor no pensamento.
Mais quisera dizer
o desditoso amante, que ajudado
se via então da mágoa e da tristeza;
mas foi lho defender
o outro companheiro, como irado
com tão disforme e áspera dureza.
Aquilo que a rudeza.
e a ciência agreste lhe ensinara
imaginando como que acordara
d'algum sonho arrancando d'alma um grito.
O mais que ali foi dito,
vós, montes, o direis, e vós, penedos;
que em vossos arvoredos anda escrito.
SÁTIRO SEGUNDO
Nem vós nascidas sois de gente humana,
nem foi humano o leite que mamastes,
mas d'algüa disforme fera Hircana;
lá no Cáucaso monte vos criastes,
daqui tomastes a aspereza insana;
daqui o frio peito congelastes.
Sois Esfinges nos gestos naturais,
que o rosto só de humanas amostrais.
Se vós fostes criadas na espessura,
onde não houve cousa que se achasse,
animal, erva verde, ou pedra dura,
que em seu tempo passado não amasse,
nem a quem a afeição suave e pura
nessa presente forma não mudasse;
porque não deixareis também memória
de vós, em namorada e longa história?
Olhai como, na Arcádia, soterrando
o namorado Alfeu sua água clara
lá na ardente Sicília, vai buscando
por debaixo do mar a Ninfa cara.
Assi mesmo vereis passar nadando
Ácis, que Galateia tanto amara,
por onde do Ciclope a grande mágoa
converteu do mancebo o sangue em água.
Virai os olhos, Ninfas, à Ericina
espessura; vereis ali tornar se
Egéria em fonte clara e cristalina,
pela morte de Numa, destilar se.
Olhai que a triste Bíblis vos ensina
com perder se de todo e transformar se
em lágrimas que, enfim, puderam tanto
que acrecentaram sempre o verde manto.
E se entre as claras águas houve amores,
Os penedos também foram perdidos.
Olhai os dons conformes amadores,
no monte Ida em pedra convertidos:
Leteia, por cair em vãos errores,
de sua fermosura procedidos;
Oleno, porque a culpa em si tomava,
por não ver castigar quem tanto amava.
Tomai exemplo e vede em Cipro aquela
por quem Ífis no laço pôs a vida.
Também vereis em pedra a Ninfa bela
cuja voz foi por Juno consumida;
e, se queixar se quer de sua estrela,
a voz extrema só lhe é concedida.
E tu também, ó Dafne, que trouxeste
primeiro ao monte o doce verso agreste.
Tamanho amor tinha a branda amiga,
que em inimiga, enfim, se foi tornando;
porque outra Ninfa estranha o sojiga,
suas mágicas ervas vai buscando.
Olhai a crua dor a quanto obriga,
por vingar sua ira, transformando s
e foi em pedra. Ó dura confusão!
Despois lhe pesaria; mas em vão.
Olhai, Ninfas, as árvores alçadas,
a cuja sombra andais colhendo flores,
como em seu tempo foram namoradas,
que inda agora o tronco sente as dores.
Vereis também, se fordes alembradas,
como a cor das amoras é de amores;
em sangue dos amantes na verdura
testemunha é de Tisbe a sepultura.
E lá pela odorífera Sabeia
não vedes que, de lágrimas daquela
que com seu pai se ajunta e se recreia,
Arábia se enriquece e vive dela?
Vede mais a verde árvore Peneia,
que foi já noutro tempo Ninfa bela,
e Ciparisso, angélico mancebo,
ambos verdes com lágrimas de Febo.
Está o moço de Frígia delicado
no mais alto arvoredo convertido,
que tantas vezes fere o vento, irado;
galardão de seus erros merecido,
que, da alta Berecíntia sendo amado,
por üa Ninfa baixa foi perdido;
e a deusa a quem perdeu do pensamento
quis que também perdesse o entendimento.
O súbito furor lhe afigurava
que o monte, as casas e árvores caíam;
já dos pudicos membros se privava,
que a deusa e a fúria grande o constrangiam.
Já no indino monte se lançava;
de sua morte as feras se doíam,
destarte perdeu Átis na espessura,
despois de tantas perdas, a figura.
Lembre vos quando as gentes celebravam
em Grécia as grandes festas de Lieu,
onde as fermosas Ninfas se juntavam
e os sacros moradores do Liceu.
Todos em doce sono se ocupavam
pelo monte despois que anoiteceu;
mas o deus do Helesponto não dormia,
que um novo amor o sono lhe impedia.
Mas ela, enfim, os braços estendendo,
em ramos se lhe foram transformando;
em raízes os pés se vão torcendo,
e o nome Loto só lhe vai ficando.
Vede, Napeias, este caso horrendo,
que vos está de longe ameaçando.
Que assi também aquela a quem seguia
o sacro Pan, a forma só perdia.
E que direi de Fílis, que, perdida
da saudosa dor em que vivia,
com desesperação, enfim, trazida
do comprido esperar de dia em dia,
por desatar do corpo a triste vida
atava ao colo a cinta que trazia,
mas o tronco sem folha pelo monte
Ródope abraça o lento Demofonte.
Nas boninas também vereis Jacinto,
por quem Febo de si se queixa em vão,
vereis o monte Idálio em sangue tinto,
do neto de seu pai, da mãe irmão.
Chora Vénus a dor do moço extinto,
maldiz o Céu e a Terra com razão;
a Terra, porque logo não se abriu;
o Céu, porque tal morte permitiu.
E tu, constante Clície, a quem falece
a fé de teus amores enganosos,
no louro amante, que de ti se esquece,
se esquecem os teus olhos saudosos.
Nenhum alegre estado permanece,
que são do mundo os gostos mentirosos;
e tu, ó clara luz, por quem suspiras;
ainda agora em erva a folha viras.
Trago vos estas cousas à lembrança,
porque se estranhe mais vossa crueza
com ver que a criação e longa usança
vos não perverte e muda a natureza.
Dou estas lágrimas minhas em fiança
que em tudo quanto está na redondeza
cousa há de Amor isenta, se atentais,
enquanto a vós não virdes, não vejais
Já vos disse que de Amor sempre tiveram
as cousas insensíveis pena e glória.
Vede as sensíveis como se perderam;
e dir vos ei das aves larga história.
Que as penas que em sua alma se sofreram
nas asas lhe ficaram por memória.
E aquele alívio e leve movimento
lhe ficou só por dor do pensamento.
O doce rouxinol e a andorinha,
de onde elas se foram transformando,
senão do puro amor que o Trácio tinha
que, em poupa, inda a amada anda chamando?
Chama sem culpa a mísera avezinha
que, nas areias de Fásis habitando,
do rio toma o nome; e assi se vai
chamando à mãe cruel, e mouro o pai.
Vede a que enjeitou Palas por falar
(que dos amores é maior defeito),
e aquela que sucede em seu lugar,
ambas aves; de Amor usado efeito;
üa, porque fugia ao deus do mar;
outra, porque temera o pátrio leito.
E Cila, que a seu pai pôs em perigo,
só por ser muito amiga do inimigo.
A ele lhe ficaram ainda as cores
da púrpura Real, que ter soía;
Ésaco, que seguindo seus amores
o trouxe a ver tão cedo o extremo dia:
ou vede os dous tão firmes amadores
que Amor aves tornou na praia fria.
Do rei dos ventos era genro o triste,
mas contra o Fado, enfim, nada resiste.
Estava a triste Alcíone esperando
com longos olhos o marido ausente,
mas os irados ventos assoprando,
nas águas o afogaram tristemente.
Em sonhos se lhe está representando;
que o coração pressago nunca mente;
só do bem as suspeitas mentirão,
que as do mal futuro, certas são.
o pranto os olhos seus a triste ensaia;
buscando o mar com eles, ia e vinha,
quando o corpo sem alma achou na praia.
Sem alma o corpo achou, que n' alma tinha!
Nereidas do Egeio, consolai a,
pois este triste ofício vos convinha!
Consolai a; saí das vossas águas,
se consolação há em grandes mágoas.
Mas, oh! néscio de mi, que estou falando
das avezinhas mansas e amorosas?
Se também teve Amor poder e mando
entre as feras monteses venenosas.
O leão e a leoa, como ou quando
tais formas alcançaram temerosas?
Sabe o da deusa Dindimene o templo,
e a que o deu a Adónis por exemplo.
Quem fosse a mansa vaca, di lo ia;
mas o grão Nilo o diga, que a adora.
Que forma tem a Ursa, saber se ia
do Pólo Boreal, onde ela mora.
O caso de Acteon, também, diria
em cervo transformado; e milhor fora
que dos olhos perdera a vista escura
que escolher nos seus galgos sepultura.
(Daqui se tiraram duas oitavas)
Tudo isto Acteon viu na fonte clara,
onde a si de improviso em cervo viu;
que quem assi destarte ali o topara,
que se mudasse em cervo permitiu.
Mas, como o triste amante em si notara
a desusada forma, se partiu.
Os seus, que o não conhecem, o vão chamando;
e, estando ali presente, o vão buscando.
Cos olhos e co gesto lhes falava,
que a voz humana já mudada tinha.
Qualquer deles por ele então chamava,
e a multidão dos cães contra ele vinha.
Que viesse ver um cervo, lhe gritava:
—Acteon, aonde estás? Acude asinha!
Que tardar tanto é este (lhe dizia)?
— É este, é este, o eco respondia.
Quantas cousas em vão estou falando,
ó esquivas Napeias! sem que veja
o peito de diamante um pouco brando d
e quem meu dano tanto só deseja.
Pois por mais que de mim andeis tirando,
e por mais longa, enfim, que a vida seja,
nunca em mim se verá tamanha dor
que Amor a não converta em mais amor.
Aqui, ó Ninfas minhas, vos pintei
todo de amores um jardim suave;
das aves, pedras, águas vos contei,
sem me ficar bonina, fera ou ave.
Se o amor dos peitos que deixei,
que dos contentamentos tem a chave,
por dita em tempo algum determinasse
que de tão longos danos vos pesasse,
quanto mais devagar vos contaria
de minha larga história, e não alheia?
E com quanta mais água regaria,
de contente, que o rio a branca areia?
Entre os contentamentos me seria
este um não cuidado, e grande ideia;
e vós, gostando deste estado ufano,
zombareis então de vosso engano.
Mas com quem falo, ou que estou gritando,
pois não há nos penedos sentimento?
Ao vento estou palavras espalhando;
a quem as digo, corre mais que o vento.
A voz e a vida, a dor me estão tirando,
e não me tira o tempo o pensamento.
Direi, enfim, as duras esquivanças
que só na morte tenho as esperanças.
A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
nutrem e cibam de poção divina,
não as da fonte Délia Cabalina,
que são Medeias, Circes e Medusas,
mas aquelas em cujo peito, infusas,
as leis estão, que as leis da Graça ensina,
beninas no amor e na doutrina
e não soberbas, cegas e confusas;
este pequeno parto, produzido
de meu saber e fraco entendimento,
üa vontade grande te oferece.
Se for de ti notado de atrevido,
daqui peço perdão do atrevimento,
o qual esta vontade te merece.
Vai o bem fugindo,
crece o mel cos anos,
vão se descobrindo
co tempo os enganos.
Amor e alegria
menos tempo dura.
Triste de quem fia
nos bens da ventura!
Bem sem fundamento
tem certa mudança,
certo sentimento
na dor da lembrança.
Quem vive contente,
viva receoso: mal
que se não sente,
é mais perigoso.
Quem males sentiu,
saiba já temer;
e pelo que viu
julgue o que há de ser.
Alegre vivia,
triste vivo agora;
chora a alma de dia,
e de noite chora.
Confesso os enganos
do meu pensamento:
bem de tantos anos
foi se num momento.
Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.
A luz do sol pura
só a vós se negue;
seja a noite escura
nunca a manhã chegue.
O campo floreça,
murmurem as águas,
tudo me entristeça,
creçam minhas mágoas.
Quisera mostrar
o mal que padeço;
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.
Em tristes cuidados
passo a triste vida;
cuidados cansados,
vida aborrecida!
Nunca pude crer
o que agora creio:
cegou me o prazer
do mal que me veio.
Ah, ventura minha,
como me negaste!
Um só bem que tinha
porque mo roubaste?
Triste fantesia,
quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia
que tanto lhe tarda!
Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.
A luz do sol pura
só a vós se negue;
seja a noite escura
nunca a manhã chegue.
O campo floreça,
murmurem as águas,
tudo me entristeça,
creçam minhas mágoas.
Quisera mostrar
o mal que padeço;
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.
Em tristes cuidados
passo a triste vida;
cuidados cansados,
vida aborrecida!
Nunca pude crer
o que agora creio:
cegou me o prazer
do mel que me veio.
Ah, ventura minha,
como me negaste!
Um só bem que tinha
porque mo roubaste?
Triste fantesia,
quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia
que tanto lhe tarda!
Nesta idade cega
nada permanece;
o que ainda não chega
já desaparece.
Qualquer esperança
foge como o vento:
tudo faz mudança,
salvo meu tormento
Amor cego e triste,
quem o tem, padece:
mal quem lhe resiste!
Mal quem lhe obedece!
No meu mal esquivo
sei como Amor trata:
e, pois nele vivo,
nenhum amor mata.