Senhora, se eu alcançasse no tempo que ler quereis, que a dita dos meus papéis pola minha se trocasse; e por ver tudo o que posso escrever em mais breve relação, indo eu onde eles vão, por mim só quisésseis ler; Depois de ver um cuidado tão contente de seu mal, veríeis o natural do que aqui vedes pintado; que o perfeito Amor, de que sou sujeito, vereis áspero e cruel, aqui com tinta e papel, em mim co sangue no peito. Que um contino imaginar naquilo que Amor ordena, é pena que, enfim, por pena se não pode declarar; que, se eu levo dentro n'alma quanto devo de trasladar em papéis, vede qual melhor lereis: se a mim, se aquilo que escrevo? Este tempo vão, esta vida escassa, para todos passa, só para mim não. Os dias se vão sem ver este dia, quando vos veria? Vede esta mudança se está bem perdida, em tão curta vida tão longa esperança! Se este bem se alcança, tudo sofreria, quando vos veria. Saudosa dor, eu bem vos entendo; mas não me defendo, porque ofendo Amor. Se fôsseis maior, em maior valia vos estimaria. Minha saudade, caro penhor meu, a quem direi eu tamanha verdade? Na minha vontade, de noite e de dia sempre vos teria. a esta cantiga alheia: Vida da minh'alma não vos posso ver: isto não é vida para se sofrer! Quando vos eu via, esse bem lograva, a vida estimava; mais então vivia, porque vos servia só para vos ver. Já que vos não vejo, para que é viver? Vivo sem rezão, porque em minha dor não a pôs Amor, que inimigos são. Mui grande treição me obriga a fazer que viva, Senhora, sem vos poder ver. Não me atrevo já, minha tão querida, a chamar-vos vida, porque a tenho má. Ninguém cuidará, que isto pode ser, sendo-me vós vida, não poder viver! Dous tormentos vejo grandes por extremo; se vos vejo, temo, e, se não, desejo. Quando me despejo e venho a escolher se temo o desejo, desejo o temer. a esta cantiga alheia: Pastora da serra, da serra da Estrela, perco-me por ela. Nos seus olhos belos tanto Amor se atreve, que abrasa entre a neve quantos ousam vê-los. Não solta os cabelos Aurora mais bela: perco-me por ela. Não teve esta serra no meio da altura mais que a fermosura que nela se encerra. Bem céu fica a terra que tem tal estrela: perco-me por ela. Sendo entre pastores causa de mil males, não se ouvem nos vales senão seus louvores. Eu só por amores não sei falar nela: sei morrer por ela. De alguns que, sentindo, seu mal vão mostrando, se ri, não cuidando que inda paga, rindo. Eu, triste, encobrindo só meus males dela, perco-me por ela. Se flores deseja por ventura delas, das que colhe, belas, mil morrem de enveja. Não há quem não veja todo o milhor nela: perco-me por ela. Se na água corrente seusolhos inclina, faz luz cristalina parar a corrente. Tal se vê, que sente, por ver-se, água nela: perco-me por ela. a uma Dama, em forma de carta Querendo escrever um dia o mal que tanto estimei, cuidando no que poria, vi Amor que me dizia: escreve, que eu notarei. E como para se ler não era história pequena a que de mim quis fazer, das asas tirou a pena com que me fez escrever. E, logo como a tirou, me disse: Aviva os espritos, que, pois em teu favor sou, esta pena que te dou fará voar teus escritos. E dando-me a padecer tudo o que quis que pusesse, pude, enfim, dele dizer que me deu com que escrevesse o que me deu a escrever. Eu, qu' este engano entendi, disse-lhe:—que escreverei ? Respondeu, dizendo assi: —Altos afeitos de ti, e daquela a quem te dei. E já que te manifesto todas minhas estranhezas, escreve, pois que te prezas, milagres dum claro gesto e, de quem o viu, tristezas. Ah! Senhora, em quem se apura, a fé de meu pensamento! Escutai e estai a tento, que, com vossa fermosura, iguala Amor meu tormento. E, posto que tão remota estejais de me escutar, por me não remediar, ouvi, que, pois Amor nota, milagres se hão-de notar: Nota Escrevem vários autores, que, junto da clara fonte do Ganges, os moradores vivem do cheiro das flores que nascem naquele monte. Se os sentidos podem dar mantimento ao viver, não é, logo, d'espantar, se estes vivem de cheirar, que viv' eu só de vos ver. üa árvore se conhece, que, na geral alegria, ela só tanto entristece, que, como é noite, florece, e perde as flores de dia. Eu, que em ver-vos sinto o preço que em vossa vista consiste, em a vendo me entristeço, porque sei que não mereço a glória de viver triste. Um rei de grande poder com veneno foi criado, porque, sendo costumado, não lhe pudesse empecer se despois lhe fosse dado. Eu, que criei de pequena a vida a quanto padece, desta sorte me acontece, que não me faz mal a pena senão quando me falece. Quem da doença real, de longe, enfermo se sente, por segredo natural fica são, vendo somente um volátil animal. Do mal que Amor em mim cria, quando aquela Fénix vejo, são de todo ficaria; mas fica-me hidropesia, que quanto mais, mais desejo. Da bívora é verdadeiro se a consorte vai buscar, que, em se querendo juntar, deixa a peçonha primeiro, porque lhe impede o gerar. Assi quando me apresento à vossa vista inumana, a peçonha do tormento deixo a parte, porque dana tamanho contentamento. Querendo Amor sustentar-se, fez üa vontade esquiva düa estátua namorar-se; despois, por manifestar-se, converteu-a em mulher viva. De quem me irei queixando, ou quem direi que m'engana, se vou seguindo e buscando üa imagem que, de humana, em pedra se vai tornando? De üa fonte se sabia, da qual certo se provava que, quem sobr' ela jurava, se falsidade dizia, dos olhos logo cegava. Vós, que minha liberdade, Senhora, tiranizais, injustamente mandais quando vos falo verdade que vos não possa ver mais. Da palma se escreve e canta ser tão dura e tão forçosa, que peso não a quebranta, mas antes, de presunçosa, com ele mais se levanta. Co peso do mal que dais, a constancia que em mim vejo com que então vos quero mais. Se alguém os olhos quiser as andorinhas quebrar, logo a mãe, sem se deter, üa erva lhe vai buscar, que lhe faz outros nascer. Eu, que os olhos tenho a tento nos vossos, que estrelas são, cegam-se os do entendimento, mas nascem-me os da razão de folgar com meu tormento. Lá para onde o sol sai descobrimos, navegando, um novo rio admirando, que o lenho que nele cai, em pedra se vai tornando. Não se espantem disto as gentes; mais razão será que espante um coração tão possante que, com lágrimas ardentes, se converte em diamante. Pode um mudo nadador na linha e cana influir tão venenoso vigor que faz mais não se bulir o braço do pescador. Se começam de beber deste veneno excelente meus olhos, sem se deter, não se sanem mais mover a nada que se apresente. Isto são claros sinais do muito que em mim podeis: nem podeis desejar mais; que, se ver-vos desejais, em mim claro vos vereis. E quereis ver a que fim em mim tanto bem se pôs? Porque quis Amor assim que, por vos verdes a vós, também me vísseis a mim. Dos males que me ordenais, que inda tenho por pequenos, sabei, se mos escutais, que ja não sei dizer mais, nem vós podeis saber menos. Mas já que a tanto tormento não se acha quem resista, eu, Senhora, me contento de terdes meu sofrimento por alvo de vossa vista. Quantos contrários consente Amor, por mais padecer! Que aquela vista excelente, que me faz viver contente, me faça tão triste ser! Mas dou este entendimento ao mal que tanto me ofende, como na vela se entende que, se se apaga co vento, co mesmo vento se acende. Exprimentou-se algüa hora da ave que chamam Camão, que, se da casa onde mora vê adúltera a senhora, morre de pura paixão. A dor é tão sem medida, que remédio lhe não val; mas, oh ditoso animal, que pode perder a vida quando vê tamanho mal! Nos gostos de vos querer estava agora enlevado, se não fora salteado das lembranças de temer ser por outrem desamado. Estas suspeitas tão frias, com que o pensamento sonha, são assi como as Harpias, que as mais doces iguarias, vão converter em peçonha. Faz-me este mal infinito não poder já mais dizer, por não vir a corromper os gostos que tenho escrito cos males que hei-de escrever. Não quero que se apregoe mal tanto para encobrir, porque, enquanto aqui se ouvir, nenhüa outra coisa soe que a glória de vos servir. a este moto alheio Vós, Senhora, tudo tendes, senão que tendes os olhos verdes. Dotou em vós Natureza o sumo da perfeição, que, o que em vós é senão, é em outras gentileza: o verde não se despreza, que, agora que vós o tendes, são belos os olhos verdes. Ouro e azul é a milhor cor por que a gente se perde; mas, a graça desse verde tira a graça a toda a cor. Fica agora sendo a flor a cor que nos olhos tendes, porque são vossos... e verdes! a este cantar velho: Sois fermosa e tudo tendes, senão que tendes os olhos verdes. Ninguém vos pode tirar o serdes bem assombrada; mas heis-me de perdoar, que os olhos não valem nada. Fostes mal aconselhada em querer que fossem verdes: trabalhai de os esconderdes. A vossa testa é jardim, onde Amor se desenfada; é branca e bem talhada, que parece de marfim. Assim é; e, quanto a mim, isso nasce de a terdes tão perto dos olhos verdes. Os cabelos desatados o mesmo Sol escurecem; senão que, por serem ondados, algum tanto desmerecem: mas, à fé, que se parecem a furto dos olhos verdes, não vos pese de os terdes. As pestanas têm mostrado ser raios que abrasam vidas; se não foram tão compridas tudo o mais era pintado: elas me tinham levado já sem o vós saberdes, se não foram os olhos verdes. O mimo desse carão nem pôr-lhe os olhos consente: e ser liso e transparente rouba todo o coração. Inda assim achareis gente que lhe não pese de o terdes; mas não seja cos olhos verdes. Esse riso é composto de quantas graças nasceram; senão que alguns me disseram vos faz covinhas no rosto. Na vontade tenho posto dar-vos a alma, se quiserdes, a troco dos olhos verdes. Nunca se viu, nem se escreve boca nem graça igual, se não fora de coral e os dentes de cor de neve. Dou-me a Deus, que me leve! Sofrerei quanto tiverdes, não me tenhais os olhos verdes. Essa garganta merece outras palavras, não minhas, senão que é feita em rosquinhas de alfenim, o que parece. Eu sei quem se ofrece a tomar tudo o que tendes, e também os olhos verdes. Essas mãos são ferropeias, só o vê-las, enfeitiça; senão que são alvas e cheias, e têm a feição roliça, com que apelais por justiça, pera com elas prenderdes quem vê vossos olhos verdes. A vossa galantaria matará a quem falardes; tendes uns desdéns e tardes que eu logo vos roubaria. Dou-me a Santa Maria! Sou cujo de quanto tendes, também desses olhos verdes. Tudo tendes singular, com que os corações rendeis, senão que rindo fazeis covinhas para enterrar; e para ressuscitar em força a graça que tendes; senão que tendes os olhos verdes. Tudo, Senhora, alcançais, quanto ser fermosa alcança; senão que dais esperança cos olhos com que matais. Se acaso os alevantais, [é para as almas renderdes; senão que tendes os olhos verdes]. a este moto alheio. Verdes são as hortas com rosas e flores; moças que as regam matam-me d'amores. Entre estes penedos que daqui parecem, verdes ervas crecem, altos arvoredos. Vai destes rochedos água com que as flores d'outras são regadas que matam d'amores. Co a água que cai daquela espessura, outra se mestura que dos olhos sai: toda junta vai regar brancas flores, onde há outros olhos que matam d'amores. Celestes jardins, as flores, estrelas, horteloas delas são uns serafins. Rosas e jasmins de diversas cores; Anjos que as regam matam-me d'amores. a este moto alheio: Verdes são os campos de cor do limão: assi são os olhos do meu coração. Campo, que te estendes com verdura bela; ovelhas, que nela vosso pasto tendes; d'ervas vos mantendes que traz o Verão, e eu das lembranças do meu coração. Gado, que pasceis, co contentamento, vosso mantimento não no entendeis: Isso que comeis não são ervas, não: são graças dos olhos do meu coração. a este mato alheio: Menina dos olhos verdes, porque me não vedes? Eles verdes são, e têm por usança na cor, esperança Vossa condição não é d'olhos verdes, porque me não vedes. Isenções a molhos que eles dizem terdes, não são d'olhos verdes, nem de verdes olhos. Sirvo de giolhos, e vós não me credes porque me não vedes. Haviam de ser, porque possa vê-los, que uns olhos tão belos não se hão-de esconder; mas fazeis-me crer que já não são verdes, porque me não vedes. Verdes não o são no que alcanço deles; verdes são aqueles que esperança dão. Se na condição está serem verdes, porque me não vedes? a este moto seu? Com vossos olhos Gonçalves, Senhora, cativo tendes este meu coração Mendes. Eu sou boa testemunha que Amor tem por cousa má que olhos, que são homens já, se nomeiem sem alcunha, pois o coração apunha e diz: olhos, pois vós tendes, chamai-me coração Mendes. a este meto seu: Se Helena apartar do campo seus olhos, nascerão abrolhos. A verdura amena, gados, que pasceis, sabei que a deveis aos olhos de Helena. Os ventos serena, faz flores de abrolhos o ar de seus olhos. Faz serras floridas, faz claras as fontes: se isto faz nos montes, que fará nas vidas? Trá-las suspendidas como ervas em molhos, na luz de seus olhos. Os corações prende com graça inumana de cada pestana ü alma lhe pende. Amor se lhe rende, e, posto em giolhos, pasma nos seua olhos a üa Dama Dama d'estranho primor, se vos for pesada minha firmeza, olhai não me deis tristeza, porque a converto em amor. Se cuidais de me matar quando usais de esquivança, irei tomar por vingança amar-vos cada vez mais. Porém vosso pensamento, como isento, seguirá sua tenção crendo que em tanta afeição não haja acrescentamento. Não creiais que destarte vos façais invencível; que Amor sobre o impossível amostra que pode mais. Mas já da tenção que sigo me desdigo; que, se há tanto poder nele também vós podeis mais qu'ele neste mal que usais comigo. Mas se for o vosso poder maior entre nós, quem poderá mais que vós se vós podeis mais que Amor? Despois que, Dama, vos vi, entendi que perdera Amor seu preço; pois o favor que lhe eu peço vos pede ele para si. Nem duvido que não pode, de sentido, resistir; pois, em vez de vos ferir, ficou, de vos ver, ferido. Mas, pois vossa vista e tal em meu mal, que posso de vós querer? Que mal poderei valer onde o mesmo Amor não val? Se atentar, nenhum bem posso esperar; e oxalá Que vos alembrasse já, sequer para me matar. Mas nem com isto creiais que façais meus serviços mais pequenos; porqu'eu, quando espero menos, sabei que então quero mais. Nada espero, mas de mim crede este fero que, em ser vosso, vos quero tudo o que posso e não posso quanto quero. Só por esta fantasia merecia de meus males algum fruito; que ainda não quero muito para o muito que queria. De maneira que não é, na derradeira, grande espanto, que quem, Dama, vos quer tanto que outro tanto de vós queira. a üas suspeitas Suspeitas, que me quereis? Que eu vos quero dar lugar, que, de certas, me mateis, se a causa de que nasceis vos quisesse confessar. Que de não lhe achar desculpa a grande mágoa passada me tem a alma tão cansada que, se me confessa a culpa, tê-la-ei por desculpada. Ora vede que perigos têm cercado o coração, que, no meio da opressão, a seus próprios inimigos vai pedir a defensão! Que, suspeitas, eu bem sei, como se claro vos visse, que é certo o que já cuidei; que nunca mal suspeitei que certo me não saísse. Mas queria esta certeza daquela que me atormenta; por que em tamanha estreiteza ver que disso se contenta é descanso da tristeza. Porque se esta só verdade me confessa, limpa e nua de cautela e falsidade, não pode a minha vontade desconformar-se da sua. Por segredo namorado é certo estar conhecido que o mal de ser enjeitado mais atormenta sabido, mil vezes, que suspeitado. Mas eu só, em quem se ordena novo modo de querela, de medo da dor pequena, venho achar na maior pena o refrigério para ela. Já nas iras me inflamei, nas vinganças, nos furores que já, doudo, imaginei; e já mais doudo o jurei de arrancar d'alma os amores. Já determinei mudar-me pra outra parte com ira; depois vim a concertar-me que era bom certificar-me no que mostrava a mentira. Mas depois já de cansadas as fúrias do imaginar, vinha enfim a arrebentar em lágrimas magoadas e bem para magoar. E deixando-se vencer os meus fingidos enganos, de tão claros desenganos não posso menos fazer que contentar-me cos danos. E pedir que me tirassem este mal de suspeitar que me vejo atormentar, ainda que me confessassem quanto me pode matar. Olhai bem se me trazeis, Senhora, posto no fim; pois neste estado a que vim, para que vós confesseis se dão os tratos a mim. Mas para que tudo possa Amor, que tudo encaminha, tal justiça lhe convinha; porque da culpa que é vossa venha a ser a morte minha. Justiça tão mal olhada, olhai com que-cor se doura, que quer, no fim da jornada, que vós sejais confessada para que eu seja o que moura! Pois confessai-vos já' gora, inda que tenho temor que nem nest' última hora me há-de perdoar Amor vossos pecados, Senhora. E assi vou desesperado, porque estes são os costumes de amor que é mal empregado, do qual vou já condenado ao inferno, de ciúmes! a este cantar velho: Coifa de beirame namorou Joane. por cousa tão pouca andas namorado? Amas a toucado e não quem o touca? Ando cega e louca por ti, meu Joane; tu, pelo beirame. Amas o vestido? És falso amador. Tu não vês que Amor se pinta despido? Cego e perdido andas por beirame, e eu por ti, Joane. Se alguém te vir, que dirá de ti? Que deixas a mi por cousa tão vil! Terá bem que rir, pois amas beirame, e a mim não, Joane. Quem ama assi há-de ser amada; ando maltratada de amores, por ti. Ama-me a mi, e deixa o beirame, que é razão, Joane! A todos encanta tua parvoíce; de tua doudice Gonçalo se espanta e zombando canta: —Coifa de beirame namorou Joane! Eu não sei que viste neste meu toucado, que tão namorado dele te sentiste. Não te veja triste: ama-me, Joane, e deixa o beirame! (Joane gemia, Maria chorava, assi lamentava o mal que sentia; os olhos feria, e não o beirame que matou Joane.) Não sei de que vem Amares vestido; que o mesmo Cupido vestido não tem. Sabes de que vem amares beirame? Vem de ser Joane. a üa Senhora a quem deram um pedaço de cetim amarelo pera hüa filha de quem se tinha suspeita Se derivais da verdade esta palavra Sitim, achareis, sem falsidade, que após o Si, tem o Tim, que tine em toda a cidade. Bem vejo que me entendeis; mas porque não fale em vão, sabei que a esta nação tanto que o Si concedeis o Tim logo está na mão. E quem da fama se arreda, que tudo vai descobrir, deve sempre de fugir de sitins, porque da seda seu natural é rugir. Mas pano fino e delgado, qual raxa e outros assi, dura, aquenta e é calado, amoroso, e dá de si, mais que sitim, nem borcado. Mas estes, que sedas são com quem s'enganam mil Damas, mais vos tomam do que dão; prometem, mas não darão senão nódoas para as famas. E se não me quereis crer, ou tomais outro caminho, por exemplo o podeis ver, quando lá virdes arder a casa de algum vezinho. Ó feminina simpreza, donde estão culpas a pares, que por um Dom de nobreza, deixam dões de natureza, mais altos e singulares —um dom que anda enxertado (Falo como exprimentado; que, sitim desta feição, eu tenho muito cortado.) Dizem-me que era amarelo; a quem assi o quis dar, só para me Deus vingar, se vem à mão, amarelo, o que eu não posso cuidar. Porque quem sabe viver por estas artes manhosas (isto bem pode não ser), dá a mininas fermosas somente polas fazer. Quem vos isto diz, Senhora, serviu nas vossas armadas muito, mas anda já fora; e pode ser que inda agora traz abertas as frechadas. E, posto que desfavores o tiram de servidor, quer-vos ventura milhor; que dos antigos amores inda lhe fica este amor. a esta cantiga alheia: Minina fermosa dizei: de que vem serdes rigorosa a quem vos quer bem? Não sei quem assela vossa fermosura; que quem é tão dura não pode ser bela. Vós sereis fermosa, mas a razão tem que quem é irosa não parece bem. A mostra é de bela, pois qual destas duas ficará na sela? Se ficar irosa não vos está bem. fique antes fermosa, que mais força tem. O Amor, fermoso se pinta e se chama: se é amor, ama, se ama, é piadoso. Diz agora a grosa que este texto tem, que quem é fermosa há-de querer bem. Havei dó, minina, dessa fermosura; que se a terra é dura, seca-se a bonina. Sede piadosa; não veja ninguém que, por rigorosa, percais tanto bem. a üa Senhora que estava rezando por üas contas Peço-vos que me digais as orações que rezastes se são pelos que matastes, se por vós, que assi matais? Se são por vós, sãoperdidas; que, qual será a oração que seja satisfação, Senhora, de tantas vidas? Que, se vedes quantos vêm a só vida vos pedir, como vos há Deus ouvir se vós não ouvis ninguém? Não podeis ser perdoada com mãos a matar tão prontas, que, se nüa trazeis contas, na outra trazeis espada Se dizeis que encomendando os que matastes andais, se rezais por quem matais, para que matais rezando? Que, se na força do orar levantais as mãos aos Céus, não as ergueis para Deus, erguei-las para matar. E quando os olhos cerrais todaenlevada na fé, cerram-se os de quem vos vê, para nunca verem mais. Pois se assi forem tratados os que vos vêm quando orais, essas horas que rezais são as horas dos finados. Pois logo, se sais servida que tantos mortos não sejam, não rezeis onde vos vejam, ou vede para dar vida. Ou, se quereis escusar estes males que causastes, ressuscitai quem matastes, não tereis por quem rezar. a este mato alheio: Se me levam águas nos olhos as levo. Se de saudade morrerei ou não, meus olhos dirão de mim a verdade. Por eles me atrevo a lançar as águas que mostrem as mágoas que nesta alma levo. As águas que em vão me fazem chorar, se elas são do mar estas d'amar são. Por elas relevo todas minhas mágoas; que, se força d'águas me leva, eu as levo. Todas me entristecem, todas são salgadas; porém as choradas doces me parecem. Correi, doces águas, que, se em vós me enlevo, não doem as mágoas que no peito levo! que mandou com um papel d'alfinetes a üa Dama Esses alfinetes vão a vos picarem, não mais, só porque julgueis então, o como me picarão os com que vós me picais. Mas os que dessas estrelas vêm, têm pontas tão agudas que, em que estoutros vão co elas, podem-vos dar picadelas, mas os vossos dão feridas. Assi que, se bem notais, no como ambos debatem, nunca podem ser iguais, que, inda que esses lá maltratem, estes cá maltratam mais. Porém, já que Amor consente em piques tão desiguais, onde vós sois mais valente, eu, Senhora, sou contente do que vos contentar mais. Venham os alfinetes cá desses olhos, porque acertem donde acerto já não há; porém os meus que vão lá, só quero que vos apertem. E deixando o mais passado, fazei que este papel seja pregado, digo, empregado, porque do seu gasalhado eu mesmo lhe tenho enveja. E se eles em vós se pregam, por força os hei-de envejar, não só porque bem se empregam, mas porque, Senhora, chegam onde eu não posso chegar. Lá vão e lá ficarão adonde continuamente a par de si vos terão; e nfim, lá vos picarão, eu cá picarei no dente. a üa Dama que lhe jurara sempre por seus olhos Quando me quer enganar a minha bela perjura, para mais me confirmar o que quer certificar, pelos seus olhos mo jura. Como meu contentamento todo se rege por eles, imagina o pensamento que se faz agravo a eles não crer tão grão juramento. Porém, como em casos tais ando já visto e corrente, sem outros certos sinais, quanto me ela jura mais tanto mais cuido que mente. Então, vendo-lhe ofender uns tais olhos como aqueles, deixo-me antes tudo crer, só pela não constranger a jurar falso por eles. a este moto: Vi chorar uns claros olhos quando deles me partia. Oh! que mágoa! Oh! que alegria! Pelo meu apartamento se arrasaram todos d'água. Quem cuidou que em tanta mágoa achasse contentamento? Julgue todo entendimento qual mais sentir se devia: se esta dor, se esta alegria! Quando mais perdido estive, então deu a esta alma minha na maior mágoa que tinha o maior gosto que tive. Assi, se minh'alma vive foi porque me defendia desta dor esta alegria. O bem que Amor me não deu no tempo que o desejei, quando dele me apartei me confessou que era meu. Agora, que farei eu se a fortuna me desvia de lograr esta alegria? Não sei se foi enganado, pois me tinha defendido das iras de mal querido no mel de ser apartado. achando no fim do dia o princípio d'alegria. a este mato alheio: Trocai o cuidado, Senhora, comigo; vereis o perigo que é ser desamado. Se trocar desejo o amor entre nós, é para que em vós vejais o que vejo. E sendo trocado este amor comigo, ser-vos-á castigo terdes meu cuidado. Tendes o sentido d'amor livre e isento; e cuidais que é vento ser tão mal querido. Não seja o cuidado tão vosso inimigo que queira o perigo de ser desamado. Mas nunca foi tal este meu querer, que a quem tanto quer queira tanto mal. Seja eu maltratado, e nunca o castigo vos mostre o perigo que é ser desamado. à tenção de Miraguarda MOTO: Ver, e mais guardar de ver outro dia, quem o acabaria ? Da lindeza vossa, Dama, quem a vê, impossível é que guardar-se possa. Se faz tanta mossa ver-vos um só dia, quem se guardaria? Milhor deve ser neste aventurar, ver, e não guardar, que guardar de ver. Ver, e defender, muito bom seria; mas... quem poderia? a üna Senhoras que haviam de ser terceiras para com üa Dama sua Pois a tantas perdições, Senhoras, quereis dar vida, ditosa seja a ferida que tem tais cerurgiões! Pois ventura me subiu a tanta altura que me sejais valedoras, ditosa seja a tristura que se cura por vossos rogos, Senhoras! Ser minha pena mortal, já que entendeis que é assim, não quero falar por mim, que por mim fala meu mal. Sois fermosas, haveis de ser piadosas, por ser tudo düa cor; que pois Amor vos fez rosas milagrosas, fazei milagres d'amor. Pedi a quem vós sabeis que saiba de meu trabalho, não pelo que eu nisso valho, mas pelo que vós valeis. Que o valer de vosso alto merecer, com lho pedir de giolhos, fará que em meu padecer possa ver o poder que têm seus olhos. Vossa muita fermosura co a sua tanto val que me rio de meu mal quando cuido em quem mo cura. A meus ais peço-vos que lhe valhais, Damas de Amor tão validas, que nunca tal dor sintais que queirais onde não sejais queridas. ao moto que lhe enviou Dona Francisca de Aragão para que Iho glosasse: Mas porém a que cuidados ?1ª. Tanto maiores tormentos foram sempre os que sofri, daquilo que cabe em mi, que não sei que pensamentos são os para que nasci. Quando vejo este meu peito a perigos arriscados inclinado, bem suspeito que a cuidados sou sujeito; Mas porém a que cuidados ?2ª. Que vindes em mim buscar, cuidados, que sou cativo, e não tenho que vos dar? Se vindes a me matar, já há muito que não vivo; se vindes, porque me dais tormentos desesperados, eu, que sempre sofri mais, não digo que não venhais; Mas porém a quê, cuidados? 3ª. Se as penas que Amor me deu vêm por tão suaves meios, não há que temer receios, que val um cuidado meu por mil descansos alheios. Ter nuns olhos tão fermosos os sentidos enlevados, bem sei que em baixos estados são cuidados perigosos; Mas porém, ah! que cuidados! Carta que Luís de Camões mandou a Dona Francisca de Aragão, com as glosas acima: Nunca o prazer se conhece senão despois da tormenta; tão pouco o bem permanece que, se o descanso florece, logo o trabalho arrebenta. Sempre os bens se lograriam, mas os males tudo atalham; porém, já que assi porfiam, onde descansos trabalham, trabalhos descansariam. Qualquer trabalho me fora por vós grão contentamento; nada sentira, Senhora, se vira disto algüa hora em vós um conhecimento. Por mal que o mal me tratasse tudo por bem tomaria; posto que o corpo cansasse, a alma descansaria, se para vós trabalhasse. Quem vossas cruezas já sofreu, a tudo se pôs; costumado ficará; e muito milhor será, se trabalhar para vós. Tristezas esqueceriam, posto que mal me trataram; anos não me lembrariam, que, como estoutros passaram, tempos tristes passariam. Se fosse galardoado este trabalho tão duro, não vivera magoado; mas não o foi o passado, como o será o futuro? De cansar não cansaria, se quiséreis que cansasse; cansar, morrer, fá-lo-ia, tudo, enfim, me esqueceria, se algüa hora vos lembrasse. Pues me distes tal herida, con gana de darme muerte, el morir me es dulce suerte, pues con morir me dais vida. Ojos, ¿qué os detenéis? Acabad ya de matarme; mas muerto volved á mirarme, por que me resuscitéis. La llaga cierto ya es mía, aunque, ojos, vos no queráis; mas si la muerte me dais, el morir me es alegría. Y así digo que acabéis, ojos, ya de matarme; mas muerto, volved á mirarme, por que me resucitéis. a este moto de Francisco de Morais: Triste vida se me ordena, pois quer vossa condição que os males, que dais por pena, me fiquem por galardão, Despois de sempre sofrer, Senhora, vossas cruezas, apesar de meu querer, me quereis satisfazer meus serviços com tristezas. Mas pois embalde resiste quem vossa vista condena, prestes estou para a pena, que, de galardão, tão triste, triste vida se me ordena. De contente do mal meu a tão grande extremo vim, que consinto em minha fim: assi que, vos e mais eu, ambos somos contra mim. Mas que sofra meu tormento sem querer mais galardão, não é fora de razão que queraa meu sofrimento, pois quer vossa condição. O mel, que vós dais por bem, esse, Senhora, é mortal; que o mal que dais como mal, em muito menos se tem, por costume natural. Mas porém nesta vitória, que comigo é bem pequena, a maior dor me condena a pena, que dais por glória, que os males, que dais por pena. Que mor bem me possa vir, que servir-vos, não o sei. Pois que mais quero eu pedir, se quanto mais vos servir, tanto mais vos deverei? Se vossos merecimentos de tão alta estima são, assaz de favor me dão em querer que meus tormentos me fiquem por galardão. a este moto seu (acróstico): A morte, pois que sou vosso, não na quero, mas se vem, ha-de ser todo meu bem. Amor, que em meu pensamento com tanta fé se fundou, me tem dado um regimento que, quando vir meu tormento, me salve com cujo sou. E com esta defensão, com que tudo vencer posso, diz a causa ao coração: não tem em mim jurdição A morte, pois que sou vosso. Por exprimentar um dia Amor se me achava forte nesta fé, como dizia, me convidou com a morte, só por ver se a tomaria. E, como ele seja a cousa onde está todo o meu bem, respondi-lhe (como quem quer dizer mais, e não ousa): não na quero, mas se vem... Não disse mais, porque então entendeu quanto me toca; e se tinha dito o não, muitas vezes diz a boca o que nega o coração. Toda a cousa defendida em mais estima se tem: por isso é cousa sabida que perder por vós a vida ha-de ser todo meu bem. AAAA Ana quisestes que fosse o vosso nome da pia, para mor minha agonia. Apeles, se fora vivo e a ver-vos alcançara, por vós retratos tirara. Aquiles morreu no templo, contemplando de giolhos; eu, quando vejo esses olhos. Artemisa sepultou a seu irmão e marido; vós a mim, e a meu sentido. B Bem vejo que sois, Senhora, extremo de fermosura, para minha sepultura. CC Cleópatra se matou vendo morto a seu amante; e eu por vós, em ser constante. Cassandra disse de Tróia que havia ser destruída; e eu por vós, d'alma e da vida. DD Dido morreu por Enéas, e vós matais quem vos ama; julgai se sois cruel dama! Dianira, inocente, da má morte causadora; vós, da minha, sabedora. E Eurídice foi a causa de Orfeu ir ao Inferno; vos, de ser meu mal eterno. FF Fedra, só de puro amor, morreu por seu enteado; eu, morro de desamado. Febo vai escurecendo ante vossa claridade; e eu, sem ter liberdade. GG Galateia sois, Senhora, Da fermosura extremo; e eu, perdido Polifemo. Genebra, que foi rainha, se perdeu por Lançarote; e vós, por me dar a morte. HH Hércules, uma camisa de chamas o consumiu; minha alma, dês que vos viu. Hébis e Dido morreram com origor da mudança; eu, vendo vossa esquivança. JJJJ Judit, que o duro Holofernes degolou, se viva fora, mate lhe déreis, Senhora. Júlio César conquistou o mundo com fortaleza; vós a mim com gentileza. Júlio César se livrou dos imigos com abrolhos; eu, não posso desses olhos. Jazia-se o Minotauro preso no seu labirinto; mas eu mais preso me sinto. LL Leandro se afogou e foi sua causa Hero; e a mim o que vos quero. Leandro se afogou no mar de sua bonança; eu, no de vossa esperança. MM Minerva dizem que foi, e Palas, deusas da guerra: e vós, Senhora, da terra. Medeia foi mui cruel, mas não chegou a metade de vossa grã crueldade. NN Narciso o siso perdeu em vendo a sua figura; eu, por vossa fermosura; Ninfas enganam mil Faunos com seu ar e fermosura; e, a mim, vossa figura. OO Os olhos choram o dano que em vos verem sentiram, mas eu pago o que eles viram. Orfeu com a doce harpa venceu o reino de Plutão; vós a mim, com perfeição. PP Páris a Helena roubou, por quem Tróia foi perdida; e vós a mim, alma e vida. Pirro matou Policena, perfeita em todos sinais; e vós a mim me matais. QQ Quanto mais desejo ver-vos, menos vos vejo, Senhora: não vos ver milhor me fora. Querendo ver a Diana, Actéon perdeu a vida, que eu por vós trago perdida. RR Remédio nenhum não vejo que romedeie meu mal; nem crueza à vossa igual. Roma o mundo sujeita com armas, saber, temor vós a mim só por amor. S Sirena, na mor fortuna com enganos vai cantando; e vós, sempre a mim matando. TT Tisbe morreu por Píramo, a ambos matou o Amor; a mim, vosso desfavor. Tisbe pelo seu amante morreu com amor sobejo; mas eu mais morto me vejo. WW Vénus, que por mais fermosa lhe deu Páris a maçã, não foi quanto vós louçã. Vénus levou a maçã por vós não serdes, Senhora, nascida naquela hora. XX Xpõ vos acabe em graça, e vos faça piadosa tanto, quanto sois fermosa. Xantopea tornou atrás por Apónio a invocar; e vós não, a meu chamar. a este moto alheio: Vejo-a n'alma pintada quando me pede o desejo o natural que não vejo. Se só no ver puramente me transformei no que vi, de vista tão excelente mal poderei ser ausente enquanto o não for de mi. Porque a alma namorada a traz tão bem debuxada, e a memória tanto voa que se a não vejo em pessoa, vejo-a n'alma pintada. O desejo, que se estende ao que menos se concede, sobre vós pede e pretende, como o doente que pede o que mais se lhe defende. Eu, que em ausência não vejo, tenho piadade e pejo de me ver tão pobre estar, que então não tenho que dar quando me pede o desejo, Como aquele que cegou é cousa vista e notória que a natureza ordenou que se lhe dobre em memória o que em vista lhe faltou; assi a mim, que não rejo os olhos ao que desejo, na memória e na firmeza me concede a natureza o natural que não vejo. a este moto: ¿Qué veré que me contente? Desque una vez miré, Señora, vuestra beldad, jamás por mi voluntad los ojos de vos quité. Pues sin vos placer no siente mi vida, ni lo desea, si no quereis que os vea, ¿qué veré que me contente? a este moto: Quem se confia em olhos, nas meninas deles vê, que meninas não têm fé. Quem põe suas confianças em meninas sem assento, ofereça o sofrimento a duzentas mil mudanças. Mostram no ar esperanças, mas em seus olhos se vê como não têm n'alma fé. Enganam ao parecer, porque, no caso de amar, são mulheres no matar e meninas no querer. Quem em seus olhos se crer, cem mil graças neles vê; vê-las, sim, mas não ter fé. Amostram-vos num momento favores assi a molhos; mas na mudança dos olhos se lhe muda o pensamento. Em nada têm assento, e o que mais neles se vê é fermosura sem fé. a este moto: Sem vós e com meu cuidado Olha; com quem e sem quem. Vendo amor que, com vos ver, mais levemente sofria os males que me fazia, não me pode isto sofrer; conjurou-se com meu fado, um novo mal me ordenou; ambos me levam forçado não sei onde, pois que sou sem vós e com meu cuidado. Não sei qual é mais estranho destes dous males que sigo, se não vos ver, se comigo levar imigo tamanho. O que fica e o que vem, um me mata, outro desejo. Com tal mal e sem tal bem, em tais extremos me vejo: olhai com quem e sem quem, a este moto alheio: Sem vós e com meu cuidado olhai com quem, e sem quem. Amor, cuja providência foi sempre que não errasse, porque n'alma vos levasse, respeitando o mal de ausência quis que em vós me transformasse. E vendo-me ir maltratado, eu e meu cuidado sós, proveio nisso, de atentado, por não me ausentar de vós, sem vós e com meu cuidado. Mas est'alma que eu trazia porque vós nela morais, deixa-me cego, e sem guia; que há por milhor companhia ficar onde vós ficais. Assi me vou de meu bem onde quer a forte estrela, sem alma, que em si vos tem, co mal de viver sem ela: olhai com quem, e sem que ao mesmo moto Querendo Amor esconder-vos em parte que vos não visse, com extremos de querer-vos cegou-me os olhos com ver-vos, levou-os, sem que vos visse. Eu, cego, mas atinado, quando vi que vos não via, do mesmo Amor indinado, já vedes qual ficaria sem vós e com meu cuidado. a este moto: Menina fermosa e crua, bem sei eu quem deixará de ser seu, se vós quiséreis ser sua. Menina mais que na idade, se, para me querer bem, vos não vejo ter vontade, é porque outrem vo-la tem; tem-vo-la, e faz-vo-la crua. Porém eu já tomara não ser meu, se vós não fôreis tão sua. Nos olhos e na feição vos vi, quando vos olhava, tanta graça que vos dava de graça este coração; não no quisestes de crua, por ser meu: se outrem vos dera o seu pode ser fôreis mais sua. Menina, tende maneira que ainda não venha a ser —pois não quereis quem vos quer, — que queirais quem vos não queira. Olhai, não me sejais crua; que pois eu quero ser vosso e não meu, sede vós minha e não sua. a este moto: Da doença em que ardeis eu fora vossa mezinha, só com vós serdes minha É muito para notar cura tão bem acertada, que podereis ser curada somente com me curar. e quereis, Dama, trocar, ambos temos a mezinha: eu a vossa, e vos a minha. Olhai que não quer Amor (porque fiquemos iguais pois meu ardor não curais, que se cure vosso ardor. Eu cá sinto a vossa dor; e se vós sentis a minha, dai e tomai a mezinha a üa dama doente Olhai que dura sentença foi Amor dar contra mi: que, porque em vós me perdi, em vós me busca a doença. Claro está que em vós só me achará; que em mim, se me vem buscar, não poderá mais achar que a forma do que eu fui já. Que se em vós Amor se pôs, Senhora, é forçado assi que o mal, que me busca a mi, que vos faça mal a vós. Sem mentir, Amor me quis destruir por modo nunca cuidado, pois vos há-de ser forçado pesar-vos de vos servir. Mas sois tão desconhecida, e são meus males de sorte que vos ameaça a morte porque me negais a vida. Se por boa tal justiça se pregoa, quando desta sorte for, havei vós perdão de Amor, que a parte já vos perdoa. Mas o que mais temo, enfim, é que nesta diferença que se não torne a doença se me não tornais a mim. De verdade, que já vossa humanidade de que se queixe não tem; pois para as almas também fez Amor enfermidade. a este moto: Deu, Senhora, por sentença Amor, que fôsseis doente, para fazerdes à gente doce e fermosa a doença. Não sabendo Amor curar, foi a doença fazer fermosa, para se ver, doce para se passar. Então, vendo a diferença que há de vós a toda a gente, mandou que fôsseis doente para glória da doença. E digo-vos, de verdade, que a saúde anda envejosa, por ver estar tão fermosa em vós essa enfermidade. Não façais logo detença, Senhora, em estar doente, porque adoecerá a gente com desejos da doença. Que eu, por ter, fermosa Dama, a doença que em vós vejo, vos confesso que desejo de cair convosco em cama. Se consentis que me vença este mal, não houve gente de saúde tão contente como eu serei da doença. a este moto alheio: Sem ventura é por de mais. Todo o trabalhado bem promete gostoso fruito, mas os trabalhos que vêm para quem dita não tem, valem pouco e custam muito. Rompe toda a pedra dura, faz os homens imortais o trabalho, quando atura; mas querer achar ventura sem ventura, é por de mais. a este moto alheio: Minha alma, lembrai-vos dela. Pois o ver-vos tenho em mais que mil vidas que me deis, assi como a que me dais, meu bem, já que mo negais, meus olhos, não mos negueis. E se a tal estado vim, guiado de minha estrela, quando houverdes dó de mim, minha vida, dai-lhe a fim, minha alma. lembrai-vos dela. a este moto alheio: Tudo pode üa afeição. Tem tal jurdição Amor n'alma donde se aposenta e de que se faz senhor, que a liberta e isenta de todo o humano temor. E com mui justa razão, como senhor soberano, que Amor não consente dano; e pois me sofre tenção, gritarei por desengano: tudo pode üa afeição. a este moto alheio: ¿Para que me dan tormento, aprovechando tan poco? Perdido, mas no tan loco que descubra lo que siento. Tiempo perdido es aquel que se pasa en darme afán, pues quanto más me lo dán tanto menos siento del. ¿Que descubra lo que siento? No lo haré, que no es tan poco; que no puede ser tan loco quién tiene tal pensamiento. Sepan que me manda Amor, que de tan dulce querella, a nadie dé parte della, porque la sienta mayor. Es tan dulce mi tormento que aun se me antoja poco; y si es mucho, quedo loco de gusto de lo que siento. a este moto alheio: De vuestros ojos centellas, que encienden pechos de hielo suben por el aire al cielo, y en llegando son estrellas. Falsos loores os dan, que essas centellas tan raras no son nel cielo más claras que en los ojos donde están. Porque cuando miro en ellas de como alumbran el suelo no sé que serán nel cielo; mas sé que acá son estrellas. Ni se puede presumir que al cielo suban, Senora, que la lumbre que en vos mora no tiene más que subir; mas pienso que dán querellas a Dios nel octavo cielo, porque son acá en el suelo, dos tan hermosas estrellas. A üas Senhoras que, jogando perto de üa janela, Ihes cairam «três paus» e deram na cabeça de Camões: Para evitar dias maus da vida triste que passo, mandem-me dar um baraço, que já cá tenho três paus. este moto: Quem disser que a barca pende, dir-lhe hei, mana, que mente. Se vos quereis embarcar e para isso estais no cais, entrai logo; que tardais? Olhai que está preiamar! E se outrem, por vos fretar, vos disser que esta que pende, dir-lhe hei, mana, que mente. Esta barca é de carreira, tem seus aparelhos novos; não há como ela outra em Povos, boa de leme e veleira. Mas, se por ser a primeira, vos disser alguém que pende, dir-lhe hei, mana, que mente. a este mato alheio: Campos bem-aventurados, tornai-vos agora tristes, que os dias em que me vistes alegre são já passados. Campos cheios de prazer, vós, que estais reverdecendo, já me alegrei com vos ver; agora venho a temer que entristeçais em me vendo. E, pois a vista alegrais dos olhos desesperados, não quero que me vejais, para que sempre sejais campos bem-aventurados. Porém, se por acidente, vos pesar de meu tormento, sabereis que Amor consente que tudo me descontente, senão descontentamento. Por isso vós, arvoredos, que já nos meus olhos vistes mais alegrias que medos, se mos quereis fazer ledos, tornai-vos agora tristes. Já me vistes ledo ser, mas despois que o falso Amor tão triste me fez viver, . ledos folgo de vos ver, porque me dobreis a dor. E se este gosto sobejo de minha dor me sentistes, julgai quanto mais desejo as horas que vos não vejo que os dias em que me vistes. O tempo, que é desigual, de secos, verdes vos tem; porque em vosso natural se muda o mal para o bem, mas o meu para mor mal. Se perguntais, verdes prados, pelos tempos diferentes que de Amor me foram dados, tristes, aqui são presentes, alegres, já são passados. a este mato seu: Descalça vai pela neve: assi faz quem Amor serve. Os privilégios que os reis não podem dar, pode Amor, que faz qualquer amador livre das humanas leis. Mortes e guerras cruéis, ferro, frio, fogo e neve, tudo sofre quem o serve. Moça fermosa despreza todo o frio e toda a dor (olhai quanto pode Amor mais que a própria natureza): medo nem delicadeza lhe impede que passe a nove; assi faz quem Amor serve. Por mais trabalhos que leve, a tudo se ofreceria; passa pela nove fria, mais alva que a própria neve; com todo o frio se atreve; vede em que fogo ferve o triste que o Amor serve. a este moto: Descalça vai para a fonte Leanor pela verdura; vai fermosa, e não segura. Leva na cabeça o pote, o testo nas mãos de prata, cinta de fina escarlata, sainho de chamalote; traz a vasquinha de cote, mais branca que a nove pura; vai fermosa, e não segura. Descobre a touca a garganta, cabelos d'ouro o trançado, —fita, de cor d'encarnado, tão linda que o mundo espanta—; chave nela graça tanta que dá graça à fermosura; vai fermosa, e não segura. a esta cantiga alheia: Na fonte está Leanor lavando a talha e chorando, as amigas perguntando: vistes lá o meu amor? Posto o pensamento nele, porque a tudo o Amor a obriga, cantava, mas a cantiga eram suspiros por ele. Nisto estava Leanor o seu desejo enganando, às amigas perguntando: vistes lá o meu amor? O rosto sobre üa mão, os olhos no chão pregados, que, do chorar já cansados, algum descanso lhe dão. Desta sorte Leanor suspende de quando em quando sua dor; e, em si tornando, mais pesada sente a dor. Não deita dos olhos água, que não quer que a dor se abrande Amor, porque em mágoa grande seca as lágrimas a mágoa. Que, despois de seu amor soube novas, perguntando, d'emproviso a vi chorando. Olhai que extremos de dor! a este moto: Ferro, fogo, frio e calma, todo o mundo acabarão; mas nunca vos tirarão, alma minha da minh'alma! Não vos guardei, quando vinha, em torre, força, ou engenho; que mais guardada vos tenho em vós, que sois alma minha. Ali, nem frio nem calma, não podem ter jurdição; na vida sim, porém não em vós, que tenho por alma. a este moto: A alma que está ofrecida a tudo, nada lhe é forte; assi passa o bem da vida como passa o mal da morte De maneira me sucede o que temo, e o que desejo, que sempre o que temo, vejo, nunca o que a vontade pede. Tenho tão oferecida alma e vida a toda a sorte que isso me dera da morte como já me dá da vida. a este moto: Esconjuro-te, Domingas, pois me dás tanto cuidado, que me digas se te vingas: viverei menos penado. Juravas-me que outras cabras folgavas de apacentar; eu, por nao me magoar, fingia que eram palavras. Agora d'arte te vingas d'algum meu doudo pecado, qu'inda que queiras, Domingas, não posso ser enganado. Qualquer cousa busca o seu; a fonte vai para o Tejo, e tu para o teu desejo por te vingares do meu. De mi te esqueces, Domingas, como eu faço do meu gado. Praza a Deus que, se te vingas, que moura desesperado. Na fantasia te pinto; falo-te, responde o monte; busco o rio, busco a fonte, endoudeço, e não o sinto. Domingas! no vale brado; responde o eco:—Domingas! E tu ainda te não vingas de me ver doudo tornado? a este moto alheio: Todo es poco lo posible. Ved que enganos señorea nuestro juicio tan loco, que por mucho que se crea, todo el bien que se desea, alcançado, queda poco. Un bien de cualquiera grado, si de haberse es imposible, queda mucho deseado, mas para mucho, alcanzado, todo es poco lo posible ao mesmo moto Posible es a mi cuidado poderme hacer satisfecho, si fuera posible al hado hacer no echo lo echo, y futuro lo pasado. Si olvido pudiera haber, fuera remedio sufrible; mas ya que no puede ser, para contento me hacer, todo es poco lo posible. a este moto alheio: Caterina bem promete; eramá I como ela mente I Caterina é mais fermosa para mim que a luz do dia; mas mais fermosa seria se não fosse mentirosa. Hoje a vejo piadosa, amanhã tão diferente que sempre cuido que mente. Caterina me mentiu muitas vezes, sem ter lei, mas todas lhe perdoei por üa só que cumpriu. Se, como me consentiu falar, o mais me consente, nunca mais direi que mente. Má, mentirosa, malvada, dizei: para que mentis? Prometeis, e não cumpris? Pois sem cumprir, tudo é nada. Não sois bem aconselhada; que quem promete, se mente, o que perde não no sente. Jurou-me aquela cadela de vir, pela alma que tinha; enganou-me; tem a minha; dá-lhe pouco de perdê-la. A vida gasto após ela, porque ma dá se promete, mas tira-ma quando mente. Tudo vos consentiria quanto quisésseis fazer, se esse vosso prometer fosse prometer um dia todo então me desfaria convosco; e vós, de contente, zombaríeis de quem mente. Prometou-me ontem de vir, nunca mais me apareceu; creio que não prometeu senão só por me mentir. Faz-me enfim chorar e rir; rio quando me promete, mas choro quando me mente. Mas pois folgais de mentir, prometendo de me ver, eu vos deixo o prometer, deixai-me vós o cumprir: haveis então de sentir quanto fica mais contente o que cumpre que o que mente. a üa Dama que estava vestida de dó MOTO: De atormentado e perdido, já vos não peço senão que tenhais no coração o que tendes no vestido. Se de dó vestida andais por quem já vida não tem, porque não no haveis de quem vós tantas vezes matais? Que brado sem ser ouvido, e nunca vejo senão cruezas no coração, e grande dó no vestido. a Dona Guiamar de Blasfé, que se queimara no rosto com üa vela MOTO: Amor que todos ofende teve, Senhora, por gosto, que sentisse o vosso rosto o que nas almas acende. Aquele rosto que traz o mundo todo abrasado, se foi da flama tocado, foi porque sinta o que faz. Bem sei que Amor se lhe rende; porém o seu prossuposto foi sentir o vosso rosto o que nas almas acende. a este mato seu: Da alma, e de quanto tiver, quero que me despojeis, contanto que me deixeis os olhos para vos ver. Cousa que este corpo não tem que já não tenhais rendida; depois de tirar-lhe a vida, tirai-lhe a morte também. Se mais tenho que perder mais quero que me leveis, cantento que me deixeis os olhos para vos ver. a este moto alheio: Amores de ua casada que eu vi pelo meu mel. Nüa casada fui pôr os olhos, de si senhores; cuidei que fossem amores, eles fizeram-se Amor. Faz-se o desejo maior donde o remédio não val em perigo de meu mal. Não me pareceu que Amor pudesse tanto comigo que donde entra por amigo se levante por senhor. Leva-me de dor em dor e de sinal em sinal, cada vez para mor mal. a este mato seu: Enforquei minha esperança; mas Amor foi tão madraço que lhe cortou o baraço. Foi a Esperança julgada por sentença da Ventura, que, pois me teve à pendura, que fosse dependurada. Vem Cupido co a espada, corta-lhe cerco o baraço. Cupido, foste madraço! a este moto seu: Pus o coração nos olhos e os olhos pus no chão, por vingar o coração. O coração envejoso como dos olhos andava, sempre remoques me dava que não era o meu mimoso: venho eu, de piadoso do senhor meu coração, boto os meus olhos no chão. a este moto seu: Pus meus olhos nüa funda, e fiz um tiro com ela às grades de üa janela. üa Dama, de malvada, tomou seus olhos na mão e tirou me üa pedrada com eles ao coração. Armei minha funda então, e pus os meus olhos nela: trape! quebro-lh'a janela. a este moto: Vos tenéis mi corazón. Mi corazón me han robado, y Amor, viendo mis enojos, me dijo: fuéte llevado por los más hermosos hojos que desque vivo he mirado. Gracias sobrenaturales, te lo tienen en prisión, y si Amor tiene razón, Señora, por la señales vos tenéis mi corazón. a este moto alheio: De dentro tengo mi mal, que de fuera no hay señal. Mi nueva y dulce querella, es invisible á la gente; el alma sola la siente, que el cuerpo no es dino della. Como la viva centena se encubra en el pedernal de dentro tengo mi mal. a este moto seu: De que me serve fugir da morte, dor e perigo, se me eu levo comigo? Tenho-me persuadido, por razão conveniente, que não posso ser contente, pois que pude ser nacido. Anda sempre tão unido o meu tormento comigo que eu mesmo sou meu perigo. E se de mi me livrasse, nenhum gosto me seria; que, não sendo eu, não teria mal que esse bem me tirasse. Força é logo que assi passe, ou com desgosto comigo, ou sem gosto e sem perigo. a esta cantiga velha: Falso cavaleiro ingrato, enganais-me: vós dizeis que eu vos mato, e vós matais-me. Costumadas artes são para enganar inocências, piadosas aparências sobre isento coração. Eu vos amo, e vós, ingrato, magoais-me, dizendo que eu vos mato, e vós matais-me. Vede agora qual de nós anda mais perto do fim, que a justiça faz-se em mim e o pregão diz que sois vós. Quando mais verdade trato, levantais-me que vos desamo e vos mato, e vós matais-me. a este moto sei: Se de meu mal me contento, é porque para vós vejo em todo o mundo desejo e em ninguém merecimento. Para quem vos soube olhar, tão impossível foi ser o poder-vos merecer, como o não vos desejar. Pois logo a meu pensamento nenhum remédio lhe vejo, senão se der o desejo asas ao merecimento. a este moto alheio: Amor loco amor loco, yo por vos, y vos por o otro. Dióme Amor tormentos dos para que pene doblado: uno es verme desamado, otro es mancilla de vos. !Ved que ordena Amor en nos! Porque me vos hacéis loca? que seáis loca por otro. Tratáis Amor de manera que porque así me tratáis quiere que, pues no me amáis, que améis otro que no os quiera. Mas con todo, so no os viera de todo loca por otro, con mas razón fuera loco. Y tan contrario viviendo, alfin, alfin, conformamos, pues ambos a dos buscamos lo que más nos va huyendo. Voy tras vos siempre siguiendo, y vos huyendo por otro: andáis loca, y me hacéis loco. a este moto alheio: De pequena tomei Amor, porque o não entendi; agora que o conheci, mata-me com desfavor. Vi-o moço e pequenino, e a mesma idade ensina que se incline üa minina, às mostras de um minino. Ouvi-lhe chamar Amor, pelo nome me venci; nunca tal engano vi, nem tamanho desamor. Creceu-me de dia em dia com a idade a afeição, porque amor de criação, n'alma e na vida se cria. Criou-se em mim este amor, e senhoreou-se de mi: agora que o conheci, mata-me com desfavor. As flores me torna abrolhos, a morte me determina quem eu trouxe de minina nas mininas dos meus olhos. Desta mágoa e desta dor tenho sabido enfim, por amor me perco a mim, por quem de mim perde o amor. Parece ser caso estranho o que Amor em mim ordena, que em idade tão pequena haja tormento tamanho. milagres de Amor, hei-os de sofrer assi, até que haja dó de mi quem entender esta dor. a esta cantiga velha: Apartaram-se os meus olhos de mim tão longe... Falsos amores, falsos, maus, enganadores ! Trataram-me com cautela por me enganar mais asinha; dei-lhe posse da alma minha, foram-me fugir co ela. Não há vê-los, nem há vê-la, de mim tão longe... Falsos amores, falsos, maus, enganadores! Entreguei-lhe a liberdade, e enfim, da vida o milhor: foram-se, e do desamor fizeram necessidade. Quem teve a sua vontade de mim tão longe? Falsos amores, e tão cruéis matadores! Não se pôs serra nem mar entre nós, que fora em vão; pôs-se vossa condição, que não doce é de passar. Só ela vos quis leixar de mim tão longe! Falsos amores! ...e oxalá que enganadores! a este moto alheio: Vede bem se nos meus dias os desgostos vi sobejos, pois tenho medo a desejos e quero mal a alegrias. Se desejos fui já ter, serviram de atormentar-me; se algum pôde alegrar-me, quis-me antes entristecer. Passei anos, passei dias, em desgostos tão sobejas que, só por não ter desejos, perderei mil alegrias. a este moto seu: Pois me faz dano olhar-vos não quero, por não perder-vos que ninguém me veja ver-vos. De ver-vos a não vos ver há dous extremos mortais; e são eles em si tais que um por um me faz morrer; mas antes quero escolher que possa viver sem ver-vos minh'alma, por não perder-vos. Deste tamanho perigo que remédio posso ter, se vivo só com vos ver, se vos não vejo, perigo? Quero acabar comigo que ninguém me veja ver-vos, Senhora, por não perder-vos. a três Damas que lhe diziam que o amavam MOTO: Não sei se me engana Helena, se Maria, se Joana, não sei qual delas me engana. Üa diz que me quer bem, outra jura que mo quer; mas, em jura de mulher quem crerá, se elas não crêm? Não posso não crer a Helena, a Maria, nem Joana, mas não sei qual mais me engana. Üa faz-me juramentos que só meu amor estima; a outra diz que se fina; Joana, que bebe os ventos. Se cuido que mente Helena, também mentirá Joana; mas quem mente, não me engana. a üa Dama mal empregada MOTO SEU: Minina, não sei dizer, vendo vos tão acabada, quão triste estou por vos ver fermosa e mal empregada. Quem tão mal vos empregou, pouco de mi se doía, pois não viu quanto me ia em tirar-me o que tirou. Obriga o primor que tem lindeza tão extremada que digam quantos a vêm: — Fermosa e mal empregada! Tomastes da fermosura quanto dela desejastes, e com ela me guardastes para tão triste ventura. Matáveis sendo solteira, matais agora em casada; matais de toda a maneira; Fermosa e mal empregada! a este moto alheio: Há um bem que chega e foge; e chama-se este bem tal, ter bem para sentir mal. Quem viveu sempre num ser, inda que seja em pobreza, não viu o bem da riqueza, nem o mal de empobrecer: não ganhou para perder; mas ganhou com vida igual não ter bem nem sentir mal. a üa Dama que lhe virou o rosto MOTO Olhos, não vos mereci que tenhais tal condição: tão liberais para o chão, tão irosos para mi. Baixos e honestos andais, por vos negardes a quem não quer mais que aquele bem que vós no chão espalhais. Se pouco vos mereci, não me estimais mais que o chão, a quem vós o galardão dais, e mo neguis a mi. a esta cantiga alheia: Pequenos contentamentos, i buscar quem contenteis, que a mim não me conheceis, Os gostos, que tantas dores fizeram já valer menos, não os aceita pequenas, quem nunca teve maiores. Bem parecem vãos favores, pois tão tarde me quereis qu'inda me não conheceis. Ofereceis-me alegria, tendo-me já cego e mouco: é baixeza aceitar pouco quem tanto vos merecia. Ide-vos por outra via, pois o bem que me deveis nunca mo satisfareis. a esta Trova de Boscão: Justa fué mi perdición, de mis males soy contento; ya no espero galardón, pues vuestro merecimiento satistizo a mi pasiôn. Después que Amor me formó todo de amor, cual me veo, en las leyes que me dió, el mirar me consintió, y defendióme el deseo. Mas el alma, como injusta, en viendo tal perfección, dió a al deseo ocasión: y pues quebré ley tan justa, justa fué mi perdición. Mostrándoseme el Amor más benigno que cruel, sobre tirano, traidor, de celos de mi dolor, quiso tomar parte en él. Yo, que tan dulce tormento no quieto dallo, aunque peco, resisto, y no lo consiento; mas si me lo toma á trueco, de mis males soy contento. Señora, ved lo que ordena este Amor tan falso nuestro! Por pagar á costa ajena manda que de un mirar vuestro haga el premio de mi pena. Mas vos, para que veáis tan engañosa tención, aunque muerto me sintáis, no miréis, que, si miráis, ya no espero galardón. ¿Pues que premio (me diréis) esperas que será bueno? Sabed, si no lo sabéis, que es lo más de lo que peno lo menos que merecéis. ¿Quién hace al mal tan ufano, y tan libre al sentimiento? ¿El deseo? No, que es vano. ¿El Amor? No, que es tirano ¿Pues? Vuestro merecimiento. No pudiendo Amor robarme de mis tan caros despojos, aunque fué por más honrarme, vos sola para matarme le prestastes vuestros ojos. Matáronme ambos á dos; mas á vos con mas razón debe él la satisfacción; que á mi por él, y por vos, satisfizo mi pasión, a este moto: Foi-se gastando a esperança, fui entendendo os enganos; do mal ficaram meus danos e do bem só a lembrança. Nunca em prazeres passados tive firmeza segura, antes tão arrebatados que inda não eram chegados quando mos levou ventura. E como quem desconfia ter em tal sorte mudança, no meio desta porfia, de quanto bem pretendia foi-se gastando a esperança. Não tive por desatino a ocasião de perdê-la; mas foi culpa do destino, que a ninguém, como mais dino, Amor pudera sustê-la. Dei-lhe tudo o que era seu, não receando tais danos deste, a quem alma lhe deu; quando já não era meu, foi entendendo os enganos. Fiquei, deste mal sobejo a quem a causa compete, dizer-lhe tudo o que vejo, que Amor aceita o desejo, mas mente no que promete. Que, se a mim se me obrigou a dar-me bens soberanos, foi engano que ordenou, que do bem tudo levou, do mal ficaram meus danos. E se de dor tão desigual sofro em mim com padecê-los, quero de novo sofrê-los; que, por a causa ser tal, não determino ofendê-los. Dobre-se o mal, falte a vida, creça a fé, falte a esperança, pois foi mal agradecida; fique a dor n'alma imprimida, e do bem só a lembrança. a üa Dama que perguntou ao Autor quem o matava MOTO: Pergunteis-me quem me mata? Não quero responder nada, por vos não fazer culpada. E se a pena neo me atiça a dizer pena tão forte, quero-me entregar à morte, antes que vós à justiça. Porém, se tendes cobiça de vos verdes tão culpada, direi que não sinto nada. a este moto alheio: Se alma ver-se não pode onde pensamentos ferem, que farei para me crerem? SUAS N'alma üa só ferida faz na vida mil sinais; tanto se descobre mais quanto é mais escondida. Se esta dor tão conhecida me não vêm, porque não querem, que farei para me crerem? Se se pudesse bem ver quanto calo, e quanto sento, despois de tanto tormento cuidaria alegre ser. Mas se não me querem crer olhos que tão mal me ferem, que farei para me crerem? a esta cantiga alheia: Se me desta terra for, eu vos levarei, amor. Se me for, e vos deixar (ponho, por caso, que possa), esta alma minha, que é vossa, convosco me há-de ficar. Assi que, só por levar a minh'alma, se me for, vos levarei, meu amor. Que mal pode maltratar-me que convosco seja mal? Ou que bem pode ser tal que sem vós possa alegrar-me? O mal não pode enojar-me, o bem me será maior se vos levar, meu amor. a este moto alheio Vosso bem querer, Senhora: vosso mal milhor me fora. Já'gora certo conheço ser milhor todo tormento onde o arrependimento se compra por justo preço. Enganou-me um bom começo; mas o fim me diz agora que o mal milhor me fora. Quando um bem é tão danoso que, sendo bem, dá cuidado, o dano fica obrigado a ser menos perigoso. Mas se a mim, por desditoso, co bem me foi mal, Senhora, co vosso mal bem me fora. a este moto: Irme quieto, madre, á aquella galera, con el marinero á ser marinera. Madre, si me fuere, dó quiera que vó, no lo quiero yo, que el Amor lo quiere. Aquél niño fiero hace que me muera, por un marinero á ser marinera. Él, que todo puede, madre, no podrá, pues el alma vá, que el cuerpo se quede. Con él, por quién muero, voy, porque no muera; que, si es marinero, seré marinera. Es tirana ley, del niño Señor, que por un amor se desenhe un Rey: pues desta manera quiere, yo me quiero por un marinero hacer marinera. Decid, ondas, ¿cuándo vistes vos doncella, siendo tierna y bella, andar navegando? |Pues| más no se espera daquel niño fiero, vea yo quién quiero, sea marinera. a üa Dama a quem não podia encontrar MOTO: Qual terá culpa de nós neste mal que todo é meu? quando vindes, não vou eu, quando vou, não vindes vós Reinando Amor em dous peitos, tece tantas falsidades, que, de conformes vontades, faz desconformes efeitos. Igualmente vive em nós; mas, por desconcerto seu, vos leva, se venho eu, me leva, se vindes vós. a este moto: Com razão queixar-me posso de vós, que mel vos queixais; pois, Senhora, vos sangrais, que seja num corpo vosso. Eu, para levar a palma com que ser vosso mereça, quero que o corpo padeça por vós, que dele sois alma. Vós do corpo vos queixais, eu queixar-me de vós posso, porque, tendo um corpo vosso, na minh'alma vos sangrais. E sem fazer diferença no que de mim possuís, pelo pouco que sentis, dais à minh'alma doença. Pois que dous aventurais oh! não seja o dano nosso: sangre-se este corpo vosso, porque, minh'alma, vivais. E inda, se atentardes bem, seguis medicina errada, porque para ser sangrada üa alma sangue não tem. E pois em mim sarar posso males, que à minha alma dais, se inda outra vez vos sangrais, seja neste corpo vosso. a esta cantiga alheia Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha: Perdigão, que o pensamento subiu em alto lugar, perde a pena do voar, ganha a pena do tormento. Não tem no ar nem no vento asas, com que se sustenha: não há mal que lhe não venha. Quis voar a üa alta torre mas achou-se desasado; e, vendo-se depenado, de puro penado morre. Se a queixumes se socorre, lança no fogo mais lenha: não há mal que lhe não venha. a esta cantiga alheia: Tende-me mão nele qu'um real me deve I Cum real de amor, dous de confiança e três de esperança me foge o tredor. Falso desamor se encerra naquele qu'um real me deve. Pediu-mo emprestado, não lhe quis penhor; é mau pagador, tendo-mo aferrado. Cum cordel atado, ao Tronco se leve, qu'um real me deve. Por esta travessa se vai acolhendo; ei-lo vai correndo, fugindo a grã pressa. Nesta mão e nessa o falso s'atreve, qu'um real me deve. Comprou-me amor sem lhe fazer preço: eu não lhe mereço dar-me desfavor. Dá-me tanta dor que ando após ele pelo que me deve. Eu de cá bradando, ele vai fugindo; ele sempre rindo, eu sempre chorando. {El} de quando em quando no amor s'atreve, como que não deve. A falar verdade, ele já pagou; mas inda ficou devendo ametade. Minha liberdade é a que me deve: só nela se atreve. a este moto seu: Venceu-me Amor, não o nego; tem mais força qu'eu assaz; que, como é cego, e rapaz, dá-me porrada de cego! Só porque é rapaz ruim, dei-lhe um bofete, zombando; diz-me:—Ó mau, estais-me dando porque sois maior que mim? pois se vos eu descarrego... Em dizendo isto, chaz! torna-m'outra. Tá! rapaz, que dás porrada de cego! a este moto: Dó la mi ventura? Que no veo alguna. Sepa quién padece que en la sepultura se esconde ventura de quién la merece. Allá me parece que quiere fortuna que yo halle alguna. Naciendo mezquino, dolor fué mi cama; tristeza fué el ama, cuidado el padrino. Vestióse el destino, negra vestidura; huyó la ventura. No se halló tormento, que allí no se hallase; ni bien que pasase, sino como viento. ¡Oh, que nacimiento, que luego en la cuna me seguió fortuna! Esta dicha mía, que siempre busqué, buscandola, hallé que no la hallaría; que quién nace en día d'estrella tan dura, nunca halla ventura. No puso mi estrella más ventura en mí; así vive en fin quién nace sin ella. No me quejo della; quéjome que atura vida tan escura. {Vós} sois üa dama das feias do mundo; de toda a má fama sois cabo profundo. A vossa figura não é para ver; em vosso poder não há fermosura. {Vós} fostes dotada de toda a maldade; perfeita beldade de vós é tirada. Sois muito acabada de tacha e de glosa: pois, quanto a fermosa, em vós não há nada. De grão merecer sois bem apartada; andais alongada do bem parecer. Bem claro mostrais em vós fealdade: não há i maldade que não precedais. De fresco carão vos vejo ausente; em vós é presente a má condição. De ter perfeição mui alheia estais; mui muito alcançais de pouca razão. a üa Dama por quem penava Se na alma e no pensamento por vosso me manifesto, não me pesa do que sento; que, se não sofrer tormento, faço ofensa a vosso gesto. E, pois quanto Amor ordena e quanto esta alma deseja tudo à morte me condena, não quero senão que seja tudo pena, pena, pena. a üa Dama que lhe chamou «cara-sem-olhos» Sem olhos vi o mal claro que dos olhos se seguiu: pois «cara-sem-olhos» viu olhos que lhe custam caro. De olhos não faço menção, pois quereis que olhos neo sejam; vendo-vos, olhos sobejam, não vos vendo olhos não são. a uma Dama de apelido Anjos, que lhe chamou diabo MOTO: Senhora, pois me chamais tão sem razão tão mau nome, inda o diabo vos tome, Quem quer que viu, ou que leu, terá por novo e moderno ter quem vive no Inferno o pensamento no Céu. Mas se a vós vos pareceu que me estava bem tal nome, esse diabo vos tome. Perdido mais que ninguém confesso, Senhora, ser; mas «diabo» não quer aos «Anjos» tamanho bem. Pois logo não me convém, ou se me convém tal nome será para que vos tome. Se vos benzeis com cautela, como de Anjo, e não de luz, mal pode fugir da Cruz quem vós tendes posto nela. Mas já que foi minha estrela, ser «diabo», e ter tal nome, guardai-vos, que vos não tome Já que chegais tanto ao cabo, co as mãos postas aos Céus, vou sempre pedindo a Deus que vos leve este «diabo». Eu, Senhora, não me gabo; mas, pois que me dais tal nome, tomo-o, para que vos tome. Enquanto quis Fortuna que tivesse esperança de algum contentamento, o gosto de um suave pensamento me fez que seus efeitos escrevesse. Porém, temendo Amor que aviso desse minha escritura a algum juízo isento, escureceu-me o engenho co tormento, para que seus enganos não dissesse. Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos a diversas vontades! Quando lerdes num breve livro casos tão diversos, verdades puras são, e não defeitos... E sabei que, segundo o amor tiverdes, tereis o entendimento de meus versos! Busque Amor novas artes, novo engenho, para matar me, e novas esquivanças; que não pode tirar me as esperanças, que mal me tirará o que eu não tenho. Olhai de que esperanças me mantenho! Vede que perigosas seguranças! Que não temo contrastes nem mudanças, andando em bravo mar, perdido o lenho. Mas, conquanto não pode haver desgosto onde esperança falta, lá me esconde Amor um mal, que mata e não se vê. Que dias há que n'alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê. Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto. É tudo quanto sinto, um desconcerto; da alma um fogo me sai, da vista um rio; agora espero, agora desconfio, agora desvario, agora acerto. Estando em terra, chego ao Céu voando, num'hora acho mil anos, e é de jeito que em mil anos não posso achar ü'hora. Se me pergunta alguém porque assi ando, respondo que não sei; porém suspeito que só porque vos vi, minha Senhora. Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor? Doces águas e claras do Mondego, doce repouso de minha lembrança, onde a comprida e pérfida esperança longo tempo após si me trouxe cego; de vós me aparto; mas, porém, não nego que inda a memória longa, que me alcança, me não deixa de vós fazer mudança, mas quanto mais me alongo, mais me achego. Bem pudera Fortuna este instrumento d'alma levar por terra nova e estranha, oferecido ao mar remoto e vento; mas alma, que de cá vos acompanha, nas asas do ligeiro pensamento, para vós, águas, voa, e em vós se banha. Ofogo que na branda cera ardia, vendo o rosto gentil que eu n'alma vejo, se acendeu de outro fogo do desejo, por alcançar a luz que vence o dia. Como de dous ardores se encendia, da grande impaciência fez despejo, e remetendo com furor sobejo vos foi beijar na parte onde se via. Ditosa aquela flama, que se atreve a apagar seus ardores e tormentos na vista de que o mundo tremer deve. Namoram se, Senhora, os Elementos de vós, e queima o fogo aquela neve que queima corações e pensamentos. Pede o desejo, Dama, que vos veja, não entende o que pede; está enganado. É este amor tão fino e tão delgado, que quem o tem não sabe o que deseja. Não há cousa a qual natural seja que não queira perpétuo seu estado; não quer logo o desejo o desejado, porque não falte nunca onde sobeja. Mas este puro afeito em mim se dana; que, como a grave pedra tem por arte o centro desejar da natureza, assi o pensamento (pola parte que vai tomar de mim, terreste e humana) foi, Senhora, pedir esta baixeza. Quando da bela vista e doce riso, tomando estão meus olhos mantimento, tão enlevado sinto o pensamento que me faz ver na terra o Paraíso. Tanto do bem humano estou diviso, que qualquer outro bem julgo por vento; assi, que em caso tal, segundo sento, assaz de pouco faz quem perde o siso. Em vos louvar, Senhora, não me fundo, porque quem vossas cousas claro sente, sentirá que não pode merecê las. Que de tanta estranheza sois ao mundo, que não é de estranhar, Dama excelente, que quem vos fez, fizesse Céu e estrelas. Tomou-me vossa vista soberana adonde tinha armas mais à mão, por mostrar que quem busca defensão contra esses belos olhos, que se engana. Por ficar da vitória mais ufana, deixou-me armar primeiro da Razão; cuidei de me salvar, mas foi em vão, que contra o Céu não val defensa humana. Mas porém se vos tinha prometido o vosso alto destino esta vitória, ser-vos tudo bem pouco está sabido. Que, posto que estivesse apercebido, não levais de vencer-me grande glória: maior a levo eu de ser vencido. Vossos olhos, Senhora, que competem co Sol em fermosura e claridade, enchem os meus de tal suavidade que em lágrimas, de vê-los, se derretem. Meus sentidos vencidos se sometem assi cegos a tanta majestade; e da triste prisão, da escuridade, cheios de medo, por fugir remetem. Mas se nisto me vedes por acerto, o áspero desprezo com que olhais torna a espertar a alma enfraquecida. Ó gentil cura e estranho desconcerto! Que fará o favor que vós não dais, quando o vosso desprezo torna a vida? Alegres campos, verdes arvoredos, claras e frescas águas de cristal, que em vós os debuxais ao natural, discorrendo da altura dos rochedos; Silvestres montes, ásperos penedos, compostos em concerto desigual, sabei que, sem licença de meu mal, já não podeis fazer meus olhos ledos. E, pois me já não vedes como vistes, não me alegrem verduras deleitosas, nem águas que correndo alegres vêm. Semearei em vós lembranças tristes, regando-vos com lágrimas saudosas, e nascerão saudades de meu bem. Está o lascivo e doce passarinho com o biquinho as penas ordenando; o verso sem medida, alegre e brando, espedindo no rústico raminho; o cruel caçador (que do caminho se vem calado e manso desviando) na pronta vista a seta endireitando, lhe dá no Estígio lago eterno ninho. Dest' arte o coração, que livre andava, (posto que já de longe destinado) onde menos temia, foi ferido. Porque o Frecheiro cego me esperava, para que me tomasse descuidado, em vossos claros olhos escondido. Lembranças saudosas, se cuidais de me acabar a vida neste estado, não vivo com meu mal tão enganado, que não espere dele muito mais. De muito longe já me costumais a viver de algum bem desesperado; já tenho co a Fortuna concertado de sofrer os trabalhos que me dais. Atado ao remo tenho a paciência, para quantos desgostos der a vida, cuide em quanto quiser o pensamento; que, pois não há i outra resistência para tão certa queda da caída, aparar-lhe hei debaixo o sofrimento. Se as penas com que Amor tão mal me trata quiser que tanto tempo viva delas que veja escuro o lume das estrelas em cuja vista o meu se acende e mata; e se o tempo, que tudo desbarata, secar as frescas rosas sem colhê-las, mostrando a linda cor das tranças belas mudada de ouro fino em bela prata; vereis, Senhora, então também mudado o pensamento e aspereza vossa, quando não sirva já sua mudança. Suspirareis então pelo passado, em tempo quando executar-se possa em vosso arrepender minha vingança. Quem vê, Senhora, claro e manifesto o lindo ser de vossos olhos belos, se não perder a vista só em vê los, já não paga o que deve a vosso gesto. Este me parecia preço honesto; mas eu, por de vantagem merecê los, dei mais a vida e alma por querê los, donde já me não fica mais de resto. Assi que a vida e alma e esperança e tudo quanto tenho, tudo é vosso, e o proveito disso eu só o levo. Porque é tamanha bem aventurança o dar vos quanto tenho e quanto posso que, quanto mais vos pago, mais vos devo. Quando o Sol encoberto vai mostrando ao mundo a luz quieta e duvidosa, ao longo de üa praia deleitosa, vou na minha inimiga imaginando. Aqui a vi, os cabelos concertando; ali, co a mão na face tão fermosa; aqui, falando alegre, ali cuidosa; agora estando queda, agora andando. aqui esteve sentada, ali me viu, erguendo aqueles olhos tão isentos; aqui movida um pouco, ali segura; qui se entristeceu, ali se riu; enfim, nestes cansados pensamentos passo esta vida vã, que sempre dura. Tempo é já que minha confiança se desça de üa falsa opinião; mas Amor não se rege por razão; não posso perder, logo, a esperança. A vida, si; que üa áspera mudança não deixa viver tanto um coração. E eu na morte tenho a salvação? Si, mas quem a deseja não a alcança. Forçado é logo que eu espere e viva. Ah! dura lei de Amor, que não consente quietação nüa alma que é cativa! Se hei de viver, enfim, forçadamente, para que quero a glória fugitiva de üa esperança vã que me atormente? Transforma se o amador na cousa amada, por virtude do muito imaginar; não tenho, logo, mais que desejar, pois em mim tenho a parte desejada. Se nela está minha alma transformada, que mais deseja o corpo de alcançar? Em si sòmente pode descansar, pois consigo tal alma está liada. Mas esta linda e pura semideia, que, como um acidente em seu sujeito, assi co a alma minha se conforma, está no pensamento como ideia: e o vivo e puro amor de que sou feito, como a matéria simples busca a forma. Passo por meus trabalhos tão isento de sentimento grande nem pequeno, que só pola vontade com que peno me fica Amor devendo mais tormento. Mas vai me Amor matando tanto a tento, temperando a triaga co veneno, que do penar a ordem desordeno, porque não mo consente o sofrimento. Porém, se esta fineza o Amor sente, e pagar me meu mal com mal pretende, torna me com prazer como ao Sol neve. Mas se me vês cos males tão contente, faz se avaro da pena, porque entende que quanto mais me paga, mais me deve. Num jardim adornado de verdura, a que esmaltam por cima várias flores, entrou um dia a deusa dos amores, com a deusa da caça e da espessura. Diana tomou logo üa rosa pura, Vénus um roxo lírio, dos milhores; mas excediam muito às outras flores as violas, na graça e fermosura. Perguntam a Cupido, que ali estava, qual daquelas três flores tomaria, por mais suave, pura e mais fermosa? Sorrindo se, o Minino lhe tornava: todas fermosas são, mas eu queria V i o l 'a n t e s que lírio, nem que rosa. Lindo e sutil trançado, que ficaste em penhor do remédio que mereço, se só contigo, vendo te, endoudeço, que fora cos cabelos que apertaste? Aquelas tranças d'ouro, que ligaste, que os raios do Sol têm em pouco preço, não sei se para engano do que peço se para me atar, os desataste. Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, e por satisfação de minhas dores como quem não tem outra, hei de tomar te. E se não for contente meu desejo, dir lhe hei que, nesta regra dos amores, pelo todo também se toma a parte. Está se a Primavera trasladando em vossa vista deleitosa e honesta; nas lindas faces, olhos, boca e testa, boninas, lírios, rosas debuxando. De sorte, vosso gesto matizando, Natura quanto pode manifesta que o monte, o campo, o rio e a floresta se estão de vós, Senhora, namorando. Se agora não quereis que quem vos ama possa colher o fruito destas flores, perderão toda a graça vossos olhos. Porque pouco aproveita, linda Dama, que semeasse Amor em vós amores, se vossa condição produze abrolhos. Oh! como se me alonga, de ano em ano, a peregrinação cansada minha! Como se encurta, e como ao fim caminha este meu breve e vão discurso humano! Vai se gastando a idade e cresce o dano; perde se me um remédio, que inda tinha; se por experiência se adivinha, qualquer grande esperança é grande engano. Corro após este bem que não se alcança; no meio do caminho me falece, mil vezes caio, e perco a confiança. Quando ele foge, eu tardo; e, na tardança, se os olhos ergo a ver se inda parece, da vista se me perde, e da esperança. Porque quereis, Senhora, que ofereça a vida a tanto mal como padeço? Se vos nasce do pouco que mereço, bem por nascer está quem vos mereça. Sabei que, enfim, por muito que vos peça, que posso merecer quanto vos peço; que não consente Amor que em baixo preço tão alto pensamento se conheça. Assi que a paga igual de minhas dores, com nada se restaura, mas deveis ma, por ser capaz de tantos disfavores. E se o valor de vossos servidores houver de ser igual convosco mesma, vós só convosco mesma andai d'amores. Quando vejo que meu destino ordena que por me exprimentar de vós me aparte, deixando de meu bem tão grande parte que a mesma culpa fica grave pena; o duro disfavor que me condena, quando pela memória se reparte, endurece os sentidos de tal arte que a dor da ausência fica mais pequena. Pois como pode ser que na mudança daquilo que mais quero estê tão fora de me não apartar também da vida? Eu refrearei tão áspera esquivança; porque mais sentirei partir, Senhora, sem sentir muito a pena da partida. Se algü'hora em vós a piedade de tão longo tormento se sentira, não consentira Amor que me partira de vossos olhos, minha saüdade. Apartei me de vós, mas a vontade, que pelo natural n'alma vos tira, me faz crer que esta ausência é de mentira; mas inda mal, porém, porque é verdade. Ir me hei, Senhora; e, neste apartamento, tomarão tristes lágrimas vingança nos olhos de quem fostes mantimento. E assi darei vida a meu tormento; que, enfim, cá me achará minha lembrança sepultado no vosso esquecimento. Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela; mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prémio pretendia. Os dias, na esperança de um só dia, passava, contentando se com vê la; porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assi negada a sua pastora, como se a não tivera merecida; começa de servir outros sete anos, dizendo:—Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida. Pensamentos, que agora novamente cuidados vãos em mim ressuscitais, dizei me: ainda não vos contentais de terdes, quem vos tem, tão descontente? Que fantasia é esta, que presente cad'hora ante meus olhos me mostrais? Com sonhos e com sombras atentais quem nem por sonhos pode ser contente? Vejo vos, pensamentos, alterados e não quereis, d'esquivos, declarar me que é isto que vos traz tão enleados? Não me negueis, se andais para negar me; que, se contra mim estais alevantados, eu vos ajudarei mesmo a matar me. Vós que, d'olhos suaves e serenos, com justa causa a vida cativais, e que os outros cuidados condenais por indevidos, baixos e pequenos; se ainda do Amor domésticos venenos nunca provastes, quero que saibais que é tanto mais o amor despois que amais, quanto são mais as causas de ser menos. E não cuide ninguém que algum defeito, quando na cousa amada s'apresenta, possa deminuir o amor perfeito; pouco e pouco o desculpa o brando peito; que Amor com seus contrairos s'acrescenta. Se tomar minha pena em penitência do erro em que caiu o pensamento, a isto, e a mais, obriga a paciência. E se üa cor de morto na aparência, um espalhar suspiros vãos ao vento, em vós não faz, Senhora, movimento, fique meu mal em vossa consciência. E se de qualquer áspera mudança toda a vontade isenta Amor castiga (como eu vi bem no mal que me condena); e se em vós não s'entende haver vingança, será forçado (pois Amor me obriga) que eu só de vossa culpa pague a pena. Se pena por amar vos se merece, quem dela livre está? Ou quem isento? Que alma, que razão, qu'entendimento, em ver vos se não rende e obedece? Que mor glória na vida s'oferece que ocupar se em vós o pensamento? Toda a pena cruel, todo o tormento em ver vos se não sente, mas esquece. Mas se merece pena quem amando contino vos está, se vos ofende, o mundo matareis, que todo é vosso. Em mim podeis, Senhora, ir começando, que claro se conhece e bem se entende amar vos quanto devo e quanto posso. Que modo tão sutil da natureza, para fugir ao mundo, e seus enganos, permite que se esconda em tenros anos, debaixo de um burel tanta beleza! Mas esconder se não pode aquela alteza e gravidade de olhos soberanos, a cujo resplandor entre os humanos resistência não sinto, ou fortaleza. Quem quer livre ficar de dor e pena, vendo a ou trazendo a na memória, da mesma razão sua se condena. Porque quem mereceu ver tanta glória, cativo há de ficar; que Amor ordena que de juro tenha ela esta vitória. Presença bela, angélica figura, em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado; gesto alegre, de rosas semeado, entre as quais se está rindo a Fermosura; olhos, onde tem feito tal mistura em cristal branco o preto marchetado, que vemos já no verde delicado não esperança, mas enveja escura; brandura, aviso e graça, que aumentando a natural beleza cum desprezo, com que, mais desprezada, mais se aumenta; são as prisões de um coração que, preso, seu mal ao som dos ferros vai cantando, como faz a sereia na tormenta. Por cima destas águas, forte e firme, irei por onde as sortes ordenaram, pois, por cima de quantas me choraram aqueles claros olhos, pude vir me. Já chegado era o fim de despedir me, já mil impedimentos se acabaram, quando rios de amor se atravessaram a me impedir o passo de partir me. Passei os eu com ânimo obstinado, com que a morte forçada e gloriosa faz o vencido já desesperado. Em que figura, ou gesto desusado, pode já fazer medo a morte irosa, a quem tem a seus pés rendido e atado? Arvore, cujo pomo, belo e brando, natureza de leite e sangue pinta, onde a pureza, de vergonha tinta, está virgíneas faces imitando; nunca da ira e do vento, que arrancando os troncos vão, o teu injúria sinta; nem por malícia de ar te seja extinta a cor, que está teu fruto debuxando; que, pois me emprestas doce e idóneo abrigo a meu contentamento, e favoreces com teu suave cheiro minha glória, se não te celebrar como mereces, cantando te, sequer farei contigo doce, nos casos tristes, a memória. Oculto divinal se celebrava no templo donde toda a criatura louva o Feitor divino, que a feitura com seu sagrado sangue restaurava. Ali Amor, que o tempo me aguardava onde a vontade tinha mais segura, nüa celeste e angélica figura a vista da razão me salteava. Eu, crendo que o lugar me defendia, e seu livre costume não sabendo que nenhum confiado lhe fugia, deixei me cativar; mas já que entendo, Senhora, que por vosso me queria, do tempo que fui livre me arrependo. Senhora minha, se a Fortuna imiga, que em minha fim com todo o Céu conspira, os olhos meus de ver os vossos tira, porque em mais graves casos me persiga; comigo levo esta alma, que se obriga, na mor pressa de mar, de fogo, de ira, a dar vos a memória, que suspira, só por fazer convosco eterna liga. Nest'alma, onde a Fortuna pode pouco, tão viva vos terei, que frio e fome vos não possam tirar, nem vãos perigos. Antes co som da voz, trémulo e rouco, bradando por vós, só com vosso nome farei fugir os ventos e os imigos. Aquela fera humana que enriquece sua presuntuosa tirania destas minhas entranhas, onde cria Amor um mal que falta quando crece; Se nela o Céu mostrou (como parece) quanto mostrar ao mundo pretendia, porque de minha vida se injuria? Porque de minha morte s'enobrece? Ora, enfim, sublimai vossa vitória, Senhora, com vencer me e cativar me: fazei disto no mundo larga história. Que, por mais que vos veja maltratar me, já me fico logrando desta glória de ver que tendes tanta de matar me. Amor, que o gesto humano n'alma escreve, vivas faíscas me mostrou um dia, donde um puro cristal se derretia por entre vivas rosas e alva neve. A vista, que em si mesma não se atreve, por se certificar do que ali via, foi convertida em fonte, que fazia a dor ao sofrimento doce e leve. Jura Amor que brandura de vontade causa o primeiro efeito; o pensamento endoudece, se cuida que é verdade. Olhai como Amor gera num momento, de lágrimas de honesta piedade lágrimas de imortal contentamento. Como quando do mar tempestuoso o marinheiro, lasso e trabalhado, d'um naufrágio cruel já salvo a nado, só ouvir falar nele o faz medroso; e jura que em que veja bonançoso o violento mar, e sossegado não entre nele mais, mas vai, forçado pelo muito interesse cobiçoso; Assi, Senhora eu, que da tormenta, de vossa vista fujo, por salvar me, jurando de não mais em outra ver me; minh'alma que de vós nunca se ausenta, dá me por preço ver vos, faz tornar me donde fugi tão perto de perder me. DDitoso seja aquele que somente se queixa de amorosas esquivanças; pois por elas não perde as esperanças de poder n'algum tempo ser contente. Ditoso seja quem, estando ausente, não sente mais que a pena das lembranças; porqu', inda que se tema de mudanças, menos se teme a dor quando se sente. Ditoso seja, enfim, qualquer estado onde enganos, desprezos e isenção trazem o coração atormentado. Mas triste quem se sente magoado d'erros em que não pode haver perdão, sem ficar n'alma a mágoa do pecado. Leda serenidade deleitosa, que representa em terra um paraíso; entre rubis e perlas doce riso; debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa; presença moderada e graciosa, onde ensinando estão despejo e siso que se pode por arte e por aviso, como por natureza, ser fermosa; fala, de quem a morte e a vida pende, rara, suave; enfim, Senhora, vossa; repouso, nela, alegre e comedido; estas as armas são com que me rende e me cativa Amor; mas não que possa despojar me da glória de rendido. No mundo quis um tempo que se achasse o bem que por acerto ou sorte vinha; e, por exprimentar que dita tinha, quis que a Fortuna em mim se exprimentasse. Mas, por que meu destino me mostrasse que nem ter esperanças me convinha, nunca nesta tão longa vida minha cousa me deixou ver que desejasse. Mudando andei costume, terra e estado, por ver se se mudava a sorte dura; a vida pus nas mãos de um leve lenho. Mas (segundo o que o Céu me tem mostrado) já sei que deste meu buscar ventura, achado tenho já, que não a tenho. Oh! quão caro me custa o entender te, molesto Amor, que, só por alcançar te, de dor em dor me tens trazido a parte onde em ti ódio e ira se converte! Cuidei que para em tudo conhecer te, me não faltasse experiência e arte; agora vejo n'alma acrecentar te aquilo que era causa de perder te. Estavas tão secreto no meu peito que eu mesmo, que te tinha, não sabia que me senhoreavas deste jeito. Descobriste t'agora; e foi por via que teu descobrimento e meu defeito, um me envergonha e outro m'injuria. Quem quiser ver d'Amor üa excelência onde sua fineza mais se apura, atente onde me põe minha ventura, por ter de minha fé experiência. Onde lembranças mata a longa ausência, em temeroso mar, em guerra dura, ali a saudade está segura, quando mor risco corre a paciência. Mas ponha me Fortuna e o duro Fado em nojo, morte, dano e perdição, ou em sublime e próspera ventura; Ponha me, enfim, em baixo ou alto estado; que até na dura morte me acharão na língua o nome, n'alma a vista pura. Se, despois d'esperança tão perdida, Amor pola ventura consentisse que inda algü'hora breve alegre visse de quantas tristes viu tão longa vida; ü'alma já tão fraca e tão caída, por mais alto que a sorte me subisse, não tenho para mim que consentisse alegria tão tarde consentida. Não tão somente Amor me não mostrou um'hora em que vivesse alegremente, de quantas nesta vida me negou; mas inda tanta pena me consente, que co contentamento me tirou o gosto de algü'hora ser contente. Senhor João Lopes, o meu baixo estado ontem vi posto em grau tão excelente, que vós, que sois enveja a toda a gente, só por mim vos quiséreis ver trocado. Vi o gesto suave e delicado que já vos fez, contente e descontente, lançar ao vento a voz tão docemente que fez o ar sereno e sossegado. Vi lhe em poucas palavras dizer, quanto ninguém diria em muitas; eu só, cego, magoado fiquei na doce fala. Mas mal haja a Fortuna, e o Moço cego! Um, porque os corações obriga a tanto; outra, porque os estados desiguala. Apolo e as nove Musas, discantando com a dourada lira, me influíam na suave harmonia que faziam, quando tomei a pena, começando: —Ditoso seja o dia e hora, quando tão delicados olhos me feriam! Ditosos os sentidos que sentiam estar se em seu desejo traspassando! Assi cantava, quando Amor virou a roda à esperança, que corria tão ligeira que quase era invisível. Converteu se me em noite o claro dia; e, se algüa esperança me ficou, será de maior mal, se for possível. Dai me üa lei, Senhora, de querer vos, que a guarde, sô pena de enojar vos; que a fé que me obriga a tanto amar vos fará que fique em lei de obedecer vos. Tudo me defendei, senão só ver vos, e dentro na minh'alma contemplar vos; que, se assi não chegar a contentar vos, ao menos que não chegue a aborrecer vos. E, se essa condição cruel e esquiva, que me dois lei de vida não consente, dai ma, Senhora, já, seja de morte. Se nem essa me dais, é bem que viva, sem saber como vivo, tristemente, mas contente porém de minha sorte. Se tanta pena tenho merecida em pago de sofrer tantas durezas, provai, Senhora, em mim vossas cruezas, que aqui tendes ua alma oferecida. Nela experimental, se sois servida, desprezos, disfavores e asperezas; que mores sofrimentos e firmezas sustentarei na guerra desta vida. Mas contra vossos olhos quais serão? Forçado é que tudo se lhe renda; mas porei por escudo o coração. Porque em tão dura e áspera contenda, é bem que, pois não acho defensão, com me meter nas lanças me defenda. Sempre a Razão vencida foi de Amor; mas, porque assi o pedia o coração, quis Amor ser vencido da Razão. Ora que caso pode haver maior! Novo modo de morte, e nova dor! Estranheza de grande admiração, que perde suas forças a afeição, porque não perca a pena o seu rigor. Pois nunca houve fraqueza no querer, mas antes muito mais se esforça assim um contrário com outro por vencer. Mas a Razão, que a luta vence, enfim, não creio que é razão; mas há de ser inclinação que eu tenho contra mim. Diversos dões reparte o Céu benino, e quer que cada üa um só possua; assi, ornou de casto peito a Lüa, ornamento do assento cristalino. De graça, a Mãe fermosa do Minino, que nessa vista tem perdido a sua; Palas, de discrição, que imite a tua; do valor, Juno, só de império dino. Mas junto agora o mesmo Céu derrama em ti o mais que tinha, e foi o menos, em respeito do Autor da natureza; que, a seu pesar, te dão, fermosa Dama, Diana, honestidade, e graça, Vénus, Palas o aviso seu, Juno a nobreza. De vós me aparto, ó vida! Em tal mudança, sinto vivo da morte o sentimento. Não sei para que é ter contentamento, se mais há de perder quem mais alcança. Mas dou vos esta firme segurança que, posto que me mate meu tormento, pelas águas do eterno esquecimento segura passará minha lembrança. Antes sem vós meus olhos se entristeçam, que com qualquer cous' outra se contentem; antes os esqueçais, que vos esqueçam. Antes nesta lembrança se atormentem, que com esquecimento desmereçam a glória que em sofrer tal pena sentem. AMorte, que da vida o nó desata, os nós, que dá o Amor, cortar quisera na Ausência, que é contr' ele espada fera, e co Tempo, que tudo desbarata. Duas contrárias, que üa a outra mata, a Morte contra o Amor ajunta e altera: üa é Razão contra a Fortuna austera, outra, contra a Razão, Fortuna ingrata. Mas mostre a sua imperial potência a Morte em apartar dum corpo a alma, duas num corpo o Amor ajunte e una; porque assi leve triunfante a palma, Amor da Morte, apesar da Ausência, do Tempo, da Razão e da Fortuna. Suspiros inflamados, que cantais a tristeza com que eu vivi tão ledo! Eu mouro e não vos levo, porque hei medo que ao passar do Lete vos percais. Escritos para sempre já ficais onde vos mostrarão todos co dedo como exemplo de males; que eu concedo que para aviso d'outros estejais. Em quem, pois, virdes falsas esperanças d'Amor e da Fortuna, cujos danos alguns terão por bem aventuranças, dizei lhe que os servistes muitos anos, e que em Fortuna tudo são mudanças, e que em Amor não há senão enganos. Todo o animal da calma repousava, só Liso o ardor dela não sentia; que o repouso do fogo em que ardia consistia na Ninfa que buscava. Os montes parecia que abalava o triste som das mágoas que dezia; mas nada o duro peito comovia, que na vontade d'outrem posto estava. Cansado já de andar pela espessura, no tronco d'üa faia, por lembrança, escreveu estas palavras de tristeza: «Nunca ponha ninguém sua esperança em peito feminil, que, de natura, somente em ser mudável tem firmeza». Seguia aquele fogo, que o guiava, Leandro, contra o mar e contra o vento; as forças lhe faltavam já e o alento, Amor lhas refazia e renovava. Despois que viu que a alma lhe faltava, não esmorece; mas, no pensamento, (que a língua já não pode) seu intento ao mar que lho cumprisse, encomendava. Ó mar (dezia o moço só consigo), já te não peço a vida; só queria que a de Hero me salves; não me veja... Este meu corpo morto, lá o desvia daquela torre. Sê me nisto amigo, pois no meu maior bem me houveste enveja! Por sua Ninfa, Céfalo deixava Aurora, que por ele se perdia, posto que dá princípio ao claro dia, posto que as roxas flores imitava. Ele, que a bela Prócris tanto amava que só por ela tudo enjeitaria, deseja de atentar se lhe acharia tão firme fé como nele achava. Mudado o trajo, tece o duro engano: outro se finge, preço põe diante, quebra se a fé mudável, e consente. Ó engenho sutil para seu dano! Vede que manhas busca um cego amante para que sempre seja descontente! Sentindo se tomada a bela esposa de Céfalo, no crime consentido, para os montes fugia do marido; e não sei se de astuta, ou vergonhosa. Porque ele, enfim, sofrendo a dor ciosa, de amor cego e forçoso compelido, após ela se vai como perdido, já perdoando a culpa criminosa. Deita se aos pés da Ninfa endurecida, que do cioso engano está agravada; já lhe pede perdão, já pede a vida. Ó força de afeição desatinada! Que da culpa contra ele cometida, perdão pedia à parte que é culpada! Os vestidos Elisa revolvia que lh'Eneias deixara por memória: doces despojos da passada glória, doces, quando seu Fado o consentia. Entr'eles a fermosa espada via que instrumento foi da triste história; e, como quem de si tinha a vitória, falando só com ela, assi dezia: —Fermosa e nova espada, se ficaste só para executares os enganos de quem te quis deixar, em minha vida, Sabe que tu comigo t'enganaste; que, para me tirar de tantos danos, sobeja me a tristeza da partida. OFerido sem ter cura perecia o forte e duro Télefo temido, por aquele que n'água foi metido, a quem ferro nenhum cortar podia. Ao Apolíneo Oráculo pedia conselho para ser restituído; respondeu que tornasse a ser ferido por quem o já ferira, e sararia. Assi, Senhora, quer minha ventura que, ferido de ver vos, claramente com vos tornar a ver Amor me cura. Mas é tão doce vossa fermosura, que fico como hidrópico doente, que co beber lhe cresce mor secura. Fiou se o coração, de muito isento, de si cuidando mal, que tomaria tão ilícito amor tal ousadia, tal modo nunca visto de tormento. Mas os olhos pintaram tão a tento outros que visto tem na fantasia, que a razão, temerosa do que via, fugiu, deixando o campo ao pensamento. Ó Hipólito casto, que, de jeito, de Fedra, tua madrasta, foste amado, que não sabia ter nenhum respeito: em mim vingou o amor teu casto peito; mas está desse agravo tão vingado, que se arrepende já do que tem feito. Oraio cristalino s'estendia pelo mundo, da Aurora marchetada, quando Nise, pastora delicada, donde a vida deixava, se partia. Dos olhos, com que o Sol escurecia, levando a vista em lágrimas banhada, de si, do Fado e Tempo magoada, pondo os olhos no Céu, assi dezia: —Nasce, sereno Sol, puro e luzente; resplandece, fermosa e roxa Aurora, qualquer alma alegrando descontente; que a minha, sabe tu que, desd'agora, jamais na vida a podes ver contente, nem tão triste nenhüa outra pastora. Apartava se Nise de Montano, em cuja alma partindo se ficava; que o pastor na memória a debuxava, por poder sustentar se deste engano. Pelas praias do Índico Oceano sobre o curvo cajado s'encostava, e os olhos pelas águas alongava, que pouco se doíam de seu dano. Pois com tamanha mágoa e saudade (dezia) quis deixar me a que eu adoro, por testemunhas tomo Céu e estrelas. Mas se em vós, ondas, mora piedade, levai também as lágrimas que choro, pois assi me levais a causa delas! Tomava Daliana por vingança da culpa do pastor que tanto amava, casar com Gil vaqueiro; e em si vingava o erro alheio e pérfida esquivança. A discrição segura, a confiança, as rosas que seu rosto debuxava, o descontentamento lhas secava, que tudo muda üa áspera mudança. Gentil planta disposta em seca terra, lindo fruito de dura mão colhido, lembranças d'outro amor, e fé perjura, tornaram verde prado em dura serra; interesse enganoso, amor fingido, fizeram desditosa a fermosura. Quantas vezes do fuso s'esquecia Daliana, banhando o lindo seio, tantas vezes de um áspero receio salteado, Laurénio a cor perdia. Ela, que a Sílvio mais que a si queria, para podê lo ver não tinha meio: ora, como curara o mal alheio quem o seu mal tão mal curar sabia? Ele, que viu tão clara esta verdade, com soluços, dezia (que a espessura comovia, de mágoa, a piedade): —Como pode a desordem da Natura fazer tão diferentes na vontade a quem fez tão conformes na ventura? Como fizeste, Pórcia, tal ferida? Foi voluntária, ou foi por inocência? —Mas foi fazer Amor experiência se podia sofrer tirar me a vida. —E com teu próprio sangue te convida a não pores à vida resistência? —Ando me acostumando à paciência, porque o temor a morte não impida. —Pois porque comes, logo, fogo ardente, se a ferro te costumas?—Porque ordena Amor que morra e pene juntamente. E tens a dor do ferro por pequena? —Si: que a dor costumada não se sente; e eu não quero a morte sem a pena. Em fermosa Leteia se confia, por onde vaïdade tanta alcança, que, tornada em soberba a confiança, com os deuses celestes competia. Porque não fosse avante esta ousadia (que nascem muitos erros da tardança), em efeito puseram a vingança, que tamanha doudice merecia. Mas Oleno, perdido por Leteia, não lhe sofrendo Amor que suportasse castigo duro tanta fermosura, quis padecer em si a pena alheia; mas, porque a morte Amor não apartasse, ambos tornados são em pedra dura. Náiades, vós, que os rios habitais que os saudosos campos vão regando, de meus olhos vereis estar manando outros, que quase aos vossos são iguais. Dríades, vós, que as setas atirais, os fugitivos cervos derrubando, outros olhos vereis que triunfando derrubam corações, que valem mais. Deixai as aljavas logo, e as águas frias, e vinde, Ninfas minhas, se quereis saber como de uns olhos nascem mágoas; vereis como se passam em vão os dias; mas não vireis em vão, que cá achareis nos seus as setas, e nos meus as águas. Num bosque que das Ninfas se habitava Sílvia, Ninfa linda, andava um dia; subida nüa árvore sombria, as amarelas flores apanhava. Cupido, que ali sempre costumava a vir passar a sesta à sombra fria, num ramo o arco e setas que trazia, antes que adormecesse, pendurava. A Ninfa, como idóneo tempo vira para tamanha empresa, não dilata, mas com as armas foge ao Moço esquivo. As setas traz nos olhos, com que tira: —Ó pastores! fugi, que a todos mata, senão a mim, que de matar me vivo. Tal mostra dá de si vossa figura, Sibela, clara luz da redondeza, que as forças e o poder da natureza com sua claridade mais apura. Quem viu üa confiança tão segura, tão singular esmalte da beleza, que não padeça mais, se ter defesa contra vossa gentil vista procura? Eu, pois, por escusar essa esquivança, a razão sujeitei ao pensamento, que, rendida, os sentidos lhe entregaram. Se vos ofende o meu atrevimento, inda podeis tomar nova vingança nas relíquias da vida, que escaparam. Pelos extremos raros que mostrou em saber, Palas, Vénus em fermosa, Diana em casta, Juno em animosa, África, Europa e Asia as adorou. Aquele saber grande que ajuntou esprito e corpo em liga generosa, esta mundana máquina lustrosa, de só quatro Elementos fabricou. Mas mor milagre fez a natureza em vós, Senhoras, pondo em cada üa o que por todas quatro repartiu. A vós seu resplandor deu Sol e Lüa, a vós com viva luz, graça e pureza, Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu. Na metade do Céu subido ardia o claro, almo Pastor, quando deixavam o verde pasto as cabras, e buscavam a frescura suave da água fria. Co a folha da árvore sombria, do raio ardente as aves s'emparavam; o módulo cantar, de que cessavam, só nas roucas cigarras se sentia; quando Liso pastor, num campo verde Natércia, crua Ninfa, só buscava com mil suspiros tristes que derrama. Porque te vás de quem por ti se perde, para quem pouco te ama? (suspirava). E o Eco lhe responde: Pouco te ama . Já a saudosa Aurora destoucava os seus cabelos d'ouro delicados, e as flores, nos campos esmaltados, do cristalino orvalho borrifava; quando o fermoso gado se espalhava de Sílvio e de Laurente pelos prados; pastores ambos, e ambos apartados, de quem o mesmo Amor não se apartava. Com verdadeiras lágrimas, Laurente, —Não sei (dizia) ó Ninfa delicada, porque não morre já quem vive ausente, pois a vida sem ti não presta nada? Responde Sílvio:—Amor não o consente, que ofende as esperanças da tornada. Ofilho de Latona esclarecido, que com seu raio alegra a humana gente, o hórrido Piton, brava serpente, matou, sendo das gentes tão temido. Feriu com arco, e de arco foi ferido, com ponta aguda d'ouro reluzente; nas tessálicas praias, docemente, pela Ninfa Peneia andou perdido. Não lhe pôde valer, para seu dano, ciência, diligências, nem respeito de ser alto, celeste e soberano. Se este nunca alcançou nem um engano de quem era tão pouco em seu respeito, eu que espero de um ser que é mais que humano? Alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste. Se lá no assento etéreo, onde subiste, memória desta vida se consente, não te esqueças daquele amor ardente que já nos olhos meus tão puro viste. E se vires que pode merecer te algüa causa a dor que me ficou da mágoa, sem remédio, de perder te, roga a Deus, que teus anos encurtou, que tão cedo de cá me leve a ver te, quão cedo de meus olhos te levou. Aquela triste e leda madrugada, cheia toda de mágoa e de piedade, enquanto houver no mundo saudade quero que seja sempre celebrada. Ela só, quando amena e marchetada saía, dando ao mundo claridade, viu apartar se de ua outra vontade, que nunca poderá ver se apartada. Ela só, viu as lágrimas em fio, que, de uns e d'outros olhos derivadas, s'acrescentaram em grande e largo rio. Ela viu as palavras magoadas que puderam tornar o fogo frio, e dar descanso às almas condenadas. Doces lembranças da passada glória, que me tirou Fortuna roubadora, deixai me repousar em paz ü'hora, que comigo ganhais pouca vitória. Impressa tenho n'alma larga história deste passado bem que nunca fora; ou fora, e não passara; mas já agora em mim não pode haver mais que a memória. Vivo em lembranças, mouro d'esquecido, de quem sempre devera ser lembrado, se lhe lembrara estado tão contente. Oh! quem tornar pudera a ser nascido! Soubera me lograr do bem passado, se conhecer soubera o mal presente. Amor, co a esperança já perdida, teu soberano templo visitei; por sinal do naufrágio que passei, em lugar dos vestidos, pus a vida. Que queres mais de mim, que destruída me tens a glória toda que alcancei? Não cuides de forçar me, que não sei tornar a entrar onde não há saída. Vês aqui alma, vida e esperança, despojos doces de meu bem passado, enquanto quis aquela que eu adoro: nelas podes tomar de mim vingança; e se inda não estás de mim vingado, contenta te com as lágrimas que choro. Males, que contra mim vos conjurastes, quanto há de durar tão duro intento? Se dura porque dura meu tormento, baste vos quanto já me atormentastes. Mas se assi perfiais porque cuidastes derrubar meu tão alto pensamento, mais pode a causa dele, em que o sustento, que vós, que dela mesma o ser tomastes. E, pois vossa tenção, com minha morte, há de acabar o mal destes amores, dai já fim a um tormento tão comprido, porque d'ambos contente seja a sorte: vós, porque me acabastes, vencedores; e eu, porque acabei de vós vencido. Em prisões baixas fui um tempo atado, vergonhoso castigo de meus erros; inda agora arrojando levo os ferros que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado. Sacrifiquei a vida a meu cuidado, que Amor não quer cordeiros, nem bezerros; vi mágoas, vi misérias, vi desterros: parece me que estava assi ordenado. Contentei me com pouco, conhecendo que era o contentamento vergonhoso, só por ver que cousa era viver ledo. Mas minha estrela, que eu já'gora entendo, a Morte cega, e o Caso duvidoso, me fizeram de gostos haver medo. Cara minha inimiga, em cuja mão pôs meus contentamentos a ventura, faltou te a ti na terra sepultura, porque me falte a mim consolação. Eternamente as águas lograrão a tua peregrina fermosura; mas, enquanto me a mim a vida dura, sempre viva em minh'alma te acharão. E se meus rudos versos podem tanto que possam prometer te longa história daquele amor tão puro e verdadeiro, celebrada serás sempre em meu canto; porque enquanto no mundo houver memória, será minha escritura teu letreiro. Foi já num tempo doce cousa amar, enquanto m'enganava a esperança; O coração, com esta confiança, todo se desfazia em desejar. Ó vão, caduco e débil esperar! Como se desengana üa mudança! Que, quanto é mor a bem aventurança, tanto menos se crê que há de durar! Quem já se viu contente e prosperado, vendo se em breve tempo em pena tanta, razão tem de viver bem magoado. Porém quem tem o mundo exprimentado, não o magoa a pena nem o espanta, que mal se estranhará o costumado. Que poderei do mundo já querer, que naquilo em que pus tamanho amor, não vi senão `desgosto e desamor, e morte, enfim, que mais não pode ser! Pois vida me não farta de viver, pois já sei que não mata grande dor, se cousa há que mágoa dê maior, eu a verei; que tudo posso ver. A morte, a meu pesar, me assegurou de quanto mal me vinha; já perdi o que perder o medo me ensinou. Na vida desamor somente vi, na morte a grande dor que me ficou: parece que para isto só nasci! Pois meus olhos não cansam de chorar tristezas, que não cansam de cansar me; pois não abranda o fogo em que abrasar me pôde quem eu jamais pude abrandar; não canse o cego Amor de me guiar a parte donde não saiba tornar me; nem deixe o mundo todo de escutar me, enquanto me a voz fraca não deixar. E se nos montes, rios, ou em vales, piedade mora, ou dentro mora Amor em feras, aves, plantas, pedras, águas, ouçam a longa história de meus males e curem sua dor com minha dor; que grandes mágoas podem curar mágoas. Um mover d'olhos, brando e piadoso, sem ver de quê; um riso brando e honesto, quase forçado; um doce e humilde gesto, de qualquer alegria duvidoso; um despejo quieto e vergonhoso; um repouso gravíssimo e modesto; üa pura bondade, manifesto indício da alma, limpo e gracioso; um encolhido ousar; üa brandura; um medo sem ter culpa; um ar sereno; um longo e obediente sofrimento; esta foi a celeste fermosura da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento. Fermosos olhos que na idade nossa mostrais do Céu certissimos sinais, se quereis conhecer quanto possais, olhai me a mim, que sou feitura vossa. Vereis que de viver me desapossa aquele riso com que a vida dais; vereis como de Amor não quero mais, por mais que o tempo corra e o dano possa. E se dentro nest'alma ver quiserdes, como num claro espelho, ali vereis também a vossa, angélica e serena. Mas eu cuido que só por não me verdes, ver vos em mim, Senhora, não quereis: tanto gosto levais de minha pena! Mudam se os tempos, mudam se as vontades, muda se o ser, muda se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, diferentes em tudo da esperança; do mal ficam as mágoas na lembrança, e do bem (se algum houve), as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, que já coberto foi de neve fria, e, enfim, converte em choro o doce canto. E, afora este mudar se cada dia, outra mudança faz de mor espanto, que não se muda já como soía. Conversação doméstica afeiçoa, ora em forma de boa e sã vontade, ora de üa amorosa piedade, sem olhar qualidade de pessoa. Se despois, porventura, vos magoa com desamor e pouca lealdade, logo vos faz mentira da verdade o brando Amor, que tudo em si perdoa. Não são isto que falo conjecturas, que o pensamento julga na aparência, por fazer delicadas escrituras. Metido tenho a mão na consciência, e não falo senão verdades puras que me ensinou a viva experiência. Despois que quis Amor que eu só passasse quanto mal já por muitos repartiu, entregou me à Fortuna, porque viu que não tinha mais mal que em mim mostrasse. Ela, porque do Amor se avantajasse no tormento que o Céu me permitiu, o que para ninguém se consentiu, para mim só mandou que se inventasse. Eis me aqui vou com vário som gritando, copioso exemplário para a gente que destes dous tiranos é sujeita, desvarios em versos concertando. Triste quem seu descanso tanto estreita, que deste tão pequeno está contente! Ondados fios d'ouro reluzente, que, agora da mão bela recolhidos, agora sobre as rosas estendidos, fazeis que sua beleza se acrecente; Olhos, que vos moveis tão docemente, em mil divinos raios entendidos, se de cá me levais alma e sentidos, que fora, se de vós não fora ausente? Honesto riso, que entre a mor fineza de perlas e corais nasce e parece, se n'alma em doces ecos não o ouvisse! Se imaginando só tanta beleza de si, em nova glória, a alma se esquece, que fará quando a vir? Ah! quem a visse! Bem sei, Amor, que é certo o que receio; mas tu, porque com isso mais te apuras, de manhoso mo negas, e mo juras no teu dourado arco; e eu to creio. A mão tenho metida no teu seio, e não vejo meus danos às escuras; e tu contudo tanto me asseguras, que me digo que minto, e que me enleio. Não somente consinto neste engano, mas inda to agradeço, e a mim me nego tudo o que vejo e sinto de meu dano. Oh! poderoso mal a que me entrego! Que, no meio do justo desengano, me possa inda cegar um Moço cego! Com grandes esperanças já cantei, com que os deuses no Olimpo conquistara; despois vim a chorar porque cantara e agora choro já porque chorei. Se cuido nas passadas que já dei, custa me esta lembrança só tão cara que a dor de ver as mágoas que passara tenho pola mor mágoa que passei. Pois logo, se está claro que um tormento dá causa que outro n'alma se acrescente, já nunca posso ter contentamento. Mas esta fantasia se me mente? Oh! ocioso e cego pensamento! Ainda eu imagino em ser contente? Aquela que, de pura castidade, de si mesma tomou cruel vingança por üa breve e súbita mudança, contrária a sua honra e qualidade (venceu à fermosura a honestidade, venceu no fim da vida a esperança porque ficasse viva tal lembrança, tal amor, tanta fé, tanta verdade!), de si, da gente e do mundo esquecida, feriu com duro ferro o brando peito, banhando em sangue a força do tirano. Oh! estranha ousadia ! estranho feito ! Que, dando breve morte ao corpo humano, tenha sua memória larga vida! No tempo que de Amor viver soía, nem sempre andava ao remo ferrolhado; antes agora livre, agora atado, em várias flamas variamente ardia. Que ardesse num só fogo, não queria O Céu, porque tivesse exprimentado que nem mudar as causas ao cuidado mudança na ventura me faria. E se algum pouco tempo andava isento, foi como quem co peso descansou, por tornar a cansar com mais alento. Louvado seja Amor em meu tormento, pois para passatempo seu tomou este meu tão cansado sofrimento! Quando de minhas mágoas a comprida maginação os olhos me adormece, em sonhos aquela alma me aparece que para mim foi sonho nesta vida. Lá nüa soïdade, onde estendida a vista pelo campo desfalece, corro par'ela; e ela então parece que mais de mim se alonga, compelida. Brado: Não me fujais, sombra benina! Ela (os olhos em mim cum brando pejo, como quem diz que já não pode ser), torna a fugir-me; e eu, gritando: Dina... antes que diga mene, alardo, e vejo que nem um breve engano posso ter. Ah! minha Dinamene! Assi deixaste quem não deixara nunca de querer-te? Ah! Ninfa! Já não posso ver-te, tão asinha esta vida desprezaste! Como já para sempre te apartaste de quem tão longe estava de perder-te? Puderam estas ondas defender-te, que não visses quem tanto magoaste? Nem falar-te somente a dura morte me deixou, que tão cedo o negro manto em teus olhos deitado consentiste! Ó mar, ó Céu, ó minha escura sorte! Que pena sentirei, que valha tanto, que inda tenho por pouco o viver triste? Quem fosse acompanhando juntamente por esses verdes campos a avezinha que, despois de perder um bem que tinha, não sabe mais que cousa é ser contente! E quem fosse apartando-se da gente, ela, por companheira e por vizinha, me ajudasse a chorar a pena minha, eu a ela o pesar que tanto sente! Ditosa ave! que, ao menos, se a Natura a seu primeiro bem não dá segundo, dá-lhe o ser triste a seu contentamento. Mas triste quem de longe quis ventura, que, para respirar, lhe falte o vento, e, para tudo, enfim, lhe falte o mundo! Cantando estava um dia bem seguro quando, passando, Sílvio me dizia (Sílvio, pastor antigo, que sabia pelo canto das aves o futuro): —Méris, quando quiser o fado escuro, oprimir-te virão em um só dia dous lobos; logo a voz e a melodia te fugirão, e o som suave e puro. Bem foi assi: porque um me degolou quanto gado vacum pastava e tinha, de que grandes soldadas esperava; E outro por meu dano me matou a cordeira gentil que eu tanto amava, perpétua saudade da alma minha! Correm turvas as águas deste rio, que as do Céu e as do monte as enturbaram; os campos florecidos se secaram, intratável se fez o vale, e frio. Passou o Verão, passou o ardente Estio, üas cousas por outras se trocaram; os fementidos Fados já deixaram do mundo o regimento, ou desvario. Tem o tempo sua ordem já sabida; o mundo, não; mas anda tão confuso, que parece que dele Deus se esquece. Casos, opiniões, natura e uso fazem que nos pareça desta vida que não há nela mais que o que parece. Julga-me a gente toda por perdido, vendo-me, tão entregue a meu cuidado, andar sempre dos homens apartado, e dos tratos humanos esquecido. Mas eu, que tenho o mundo conhecido, tenho por baixo, rústico, enganado, quem não é com meu mal engrandecido. Vão revolvendo a terra, o mar e o vento, busquem riquezas, honras a outra gente, vencendo ferro, fogo, frio e calma; que eu só em humilde estado me contento, de trazer esculpido eternamente vosso fermoso gesto dentro n'alma. Océu, a terra, o vento sossegado... As ondas, que se estendem pela areia... Os peixes, que no mar o sono enfreia... O nocturno silêncio repousado... O pescador Aónio, que, deitado onde co vento a água se meneia, chorando, o nome amado em vão nomeia, que não pode ser mais que nomeado: Ondas (dezia), antes que Amor me mate, torna-me a minha Ninfa, que tão cedo me fizestes à morte estar sujeita. Ninguém lhe fala; o mar de longe bate; move-se brandamente o arvoredo; leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita. Que me quereis, perpétuas saudades? Com que esperança ainda me enganais? Que o tempo que se vai não torna mais, e se torna, não tornam as idades. Razão é já, ó anos!, que vos vades, porque estes tão ligeiros que passais, nem todos para um gosto são iguais, nem sempre são conformes as vontades. Aquilo a que já quis é tão mudado que quase é outra causa: porque os dias têm o primeiro gosto já danado. Esperanças de novas alegrias não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado, que do contentamento são espias. Erros meus, má fortuna, amor ardente em minha perdição se conjuraram; os erros e a fortuna sobejaram, que para mim bastava o amor somente. Tudo passei; mas tenho tão presente a grande dor das cousas que passaram, que as magoadas iras me ensinaram a nao querer já nunca ser contente. Errei todo o discurso de meus anos; dei causa que a Fortuna castigasse as minhas mal fundadas esperanças. De amor não vi senão breves enganos. Oh! quem tanto pudesse que fartasse este meu duro génio de vinganças! Eu cantei já, e agora vou chorando o tempo que cantei tão confiado; parece que no canto já passado se estavam minhas lágrimas criando. Cantei; mas se me alguém pergunta: —Quando? —Não sei; que também fui nisso enganado. É tão triste este meu presente estado que o passado, por ledo, estou julgando. Fizeram-me cantar, manhosamente, contentamentos não, mas confianças; cantava, mas já era ao som dos ferros. De quem me queixarei, que tudo mente? Mas eu que culpa ponho às esperanças onde a Fortuna injusta é mais que os erros? Na desesperação já repousava o peito longamente magoado, e, com seu dano eterno concertado, já não temia, já não desejava; quando üa sombra vã me assegurava que algum bem me podia estar guardado em tão fermosa imagem que o treslado n'alma ficou, que nela se enlevava. Que crédito que dá tão facilmente o coração áquilo que deseja, quando lhe esquece o fero seu destino! Oh! deixem-me enganar, que eu sou contente; que, posto que maior meu dano seja, fica-me a glória já do que imagino. Eu vivia de lágrimas isento, num engano tão doce e deleitoso que em que outro amante fosse mais ditoso, não valiam mil glórias um tormento. Vendo-me possuir tal pensamento, de nenhüa riqueza era envejoso; vivia bem, de nada receoso, com doce amor e doce sentimento. Cobiçosa, a Fortuna me tirou deste meu tão contente e alegre estado, e passou-me este bem, que nunca fora: em troco do qual bem só me deixou lembranças, que me matam cada hora, trazendo-me à memória o bem passado. Indo o triste pastor todo embebido na sombra de seu doce pensamento, tais queixas espalhava ao leve vento cum brando suspirar da alma saído: —A quem me queixarei, cego, perdido, pois nas pedras não acho sentimento? Com quem falo? A quem digo meu tormento que onde mais chamo, sou menos ouvido? Oh! bela Ninfa, porque não respondes? Porque o olhar-me tanto me encareces? Porque queres que sempre me querele? Eu quanto mais te vejo, mais te escondes! Quanto mais mal me vês, mais te endureces! Assi que co mal cresce a causa dele. Lembranças que lembrais meu bem passado para que sinta mais o mal presente, deixai-me (se quereis) viver contente, não me deixeis morrer em tal estado. Mas se também de tudo está ordenado viver (como se vê) tão descontente, venha (se vier) o bem por acidente, e dê a morte fim a meu cuidado. Que muito milhor é perder a vida, perdendo-se as lembranças da memória, pois fazem tanto dano ao pensamento. Assi que nada perde, quem perdida a esperança traz de sua glória, se esta vida há-de ser sempre em tormento. Ah! Fortuna cruel! Ah! duros Fados! Quão asinha em meu dano vos mudastes! Passou o tempo que me descansastes, agora descansais com meus cuidados. Deixastes-me sentir os bens passados, para mor dor da dor que me ordenastes; então nü'hora juntos mos levastes, Ah! quanto milhor fora não vos ver, gostos, que assi passais tão de corrida, que fico duvidoso se vos vi: sem vós já me não fica que perder, se não se for esta cansada vida, que por mor perda minha não perdi. Ah! imiga cruel, que apartamento é este que fazeis da pátria terra? Quem do paterno ninho vos desterra, glória dos olhos, bem do pensamento? Is tentar da fortuna o movimento e dos ventos cruéis a dura guerra? Ver brenhas d'água, e o mar feito em serra, levantado de um vento e d'outro vento? Mas já que vos partis, sem vos partirdes, para convosco o Céu tanta ventura, que seja mor que aquela que esperardes. E só nesta verdade ide segura: que ficam mais saudades com partirdes, do que breves desejos de chegardes. Aqueles claros olhos que chorando ficavam quando deles me partia, agora que farão? Quem mo diria? Se porventura estarão em mim cuidando? Se terão na memória, como ou quando deles me vim tão longe de alegria? Ou s'estarão aquele alegre dia que torne a vê-los, n'alma figurando? Se contarão as horas e os momentos? Se acharão num momento muitos anos? Se falarão co as aves e cos ventos? Oh! bem-aventurados fingimentos, que, nesta ausência, tão doces enganos sabeis fazer aos tristes pensamentos! Quando cuido no tempo que, contente, vi as pérolas, neve, rosa e ouro, como quem vê por sonhos um tesouro, parece tenho tudo aqui presente. Mas tanto que se passa este acidente, e vejo o quão distante de vós mouro, temo quanto imagino por agouro, porque d'imaginar também me ausente. Já foram dias em que por ventura vos vi, Senhora (se, assi dizendo, posso co coração seguro estar sem medo); Agora, em tanto mal não mo assegura a própria fantasia e nojo vosso: eu não posso entender este segredo! Quem vos levou de mim, saudoso estado, que tanta sem-razão comigo usastes? Quem foi, por quem tão presto me negastes, esquecido de todo o bem passado? Trocastes-me um descanso em um cuidado tão duro, tão cruel, qual m'ordenastes; a fé, que tínheis dado, me negastes, quando mais nela estava confiado. Vivia sem receio deste mal; Fortuna, que tem tudo a sua mercê, amor com desamor me revolveu. Bem sei que neste caso nada val, que quem naceu chorando, justo é que pague com chorar o que perdeu. Senhora já dest'alma, perdoai de um vencido de Amor os desatinos, e sejam vossos olhos tão beninos com este puro amor, que d'alma sai. A minha pura fé somente olhai, e vede meus extremos se são finos; e se de algüa pena forem dinos, em mim, Senhora minha, vos vingai. Não seja a dor que abrasa o triste peito causa por onde pene o coração, que tanto em firme amor vos é sujeito. Guardai-vos do que alguns, Dama, dirão, que, sendo raro em tudo vosso objeito, possa morar em vós ingratidão. Cá nesta Babilónia, donde mana matéria a quanto mal o mundo cria; cá onde o puro Amor não tem valia, que a Mãe, que manda mais, tudo profana; cá, onde o mal se afina, e o bem se dana, e pode mais que a honra a tirania; cá, onde a errada e cega Monarquia cuida que um nome vão a desengana; cá, neste labirinto, onde a nobreza com esforço e saber pedindo vão às portas da cobiça e da vileza; cá neste escuro caos de confusão, cumprindo o curso estou da natureza. Vê se me esquecerei de ti, Sião! Dizei, Senhora, da Beleza ideia: para fazerdes esse áureo crino, onde fostes buscar esse ouro fino? de que escondida mina ou de que veia? Dos vossos olhos essa luz Febeia, esse respeito, de um império dino? Se o alcançastes com saber divino, se com encantamentos de Medeia? De que escondidas conchas escolhestes as perlas preciosas orientais que, falando, mostrais no doce riso? Pois vos formastes tal, como quisestes, vigiai-vos de vós, não vos vejais, fugi das fontes: lembre-vos Narciso. Doce contentamento já passado, em que todo meu bem já consistia, quem vos levou de minha companhia e me deixou de vós tão apartado? Quem cuidou que se visse neste estado naquelas breves horas de alegria, quando minha ventura consentia que de enganos vivesse meu cuidado? Fortuna minha foi, cruel e dura, aquela que causou meu perdimento, com a qual ninguém pode ter cautela. Nem se engane nenhüa criatura, que não pode nenhum impedimento fugir do que lhe ordena sua estrela. Doce sonho, suave e soberano, se por mais longo tempo me durara! Ah! quem de sonho tal nunca acordara, pois havia de ver tal desengano! Ah! deleitoso bem! ah! doce engano! Se por mais largo espaço me enganara! Se então a vida mísera acabara, de alegria e prazer morrera ufano. Ditoso, não estando em mim, pois tive, dormindo, o que acordado ter quisera. Olhai com que me paga meu destino! Enfim, fora de mim, ditoso estive. Em mentiras ter dita razão era, pois sempre nas verdades fui mofino. Enquanto Febo os montes acendia do Céu com luminosa claridade, por evitar do ócio a castidade na caça o tempo Délia despendia. Vénus, que então de furto descendia, por cativar de Anquises a vontade, vendo Diana em tanta honestidade, quase zombando dela, lhe dizia: - Tu vás com tuas redes na espessura os fugitivos cervos enredando, mas as minhas enredam o sentido. —Melhor é (respondia a deusa pura) nas redes leves cervos ir tomando que tomar-te a ti nelas teu marido. Este amor que vos tenho, limpo e puro, de pensamento vil nunca tocado, em minha tenra idade começado, tê-lo dentro nesta alma só procuro. De haver nele mudança estou seguro, sem temer nenhum caso ou duro Fado, nem o supremo bem ou baixo estado, nem o tempo presente nem futuro. A bonina e a flor asinha passa; tudo por terra o Inverno e Estio deita, só para meu amor é sempre Maio. Mas ver-vos para mim, Senhora, escassa, e que essa ingratidão tudo me enjeita, traz este meu amor sempre em desmaio. Fortuna em mim guardando seu direito em verde derrubou minha alegria. Oh! quanto se acabou naquele dia, cuja triste lembrança arde em meu peito! Quando contemplo tudo, bem suspeito que a tal bem, tal descanso se devia, por não dizer o mundo que podia achar-se em seu engano bem perfeito. Mas se a Fortuna o fez por descontar-me tamanho gosto , em cujo sentimento a memória não faz senão matar-me , que culpa pode dar-me o sofrimento, se a causa que ele tem de atormentar-me, eu tenho de sofrer o seu tormento? Já não sinto, Senhora, os desenganas com que minha afeição sempre tratastes, nem ver o galardão que me negastes, merecido por fé, há tantos anos. A mágoa choro só, só choro os danos de ver por quem, Senhora, me trocastes; mas em tal caso vós só me vingastes de vossa ingratidão, vossos enganos. que o ofendido toma do culpado, quando se satisfaz com cousa justa; mas eu de vossos males e esquivança, de que agora me vejo bem vingado, não o quisera eu tanto à vossa custa. Memória de meu bem, cortado em flores por ordem de meus tristes e maus Fados, deixai-me descansar com meus cuidados nesta inquietação de meus amores. Basta-me o mal presente, e os temores dos sucessos que espero infortunados, sem que venham, de novo, bens passados afrontar meu repouso com suas dores. Perdi nua hora quanto em termos tão vagarosos e largos alcancei; leixai-me, pois, lembranças desta glória. Cumpre acabe a vida nestes ermos, porque neles com meu mal acabarei mil vidas, não ua só, dura memória! Na ribeira do Eufrates assentado, discorrendo me achei pela memória aquele breve bem, aquela glória, que em ti, doce Sião, tinha passado. Da causa de meus males perguntado me foi: Como não cantas a história de teu passado bem, e da vitória que sempre de teu mal hás alcançado? Não sabes, que a quem canta se lhe esquece o mal, inda que grave e rigoroso? Canta, pois, e não chores dessa sorte. Respondo com suspiros: Quando crece a muita saudade, o piadoso remédio é não cantar senso a morte. Num tão alto lugar, de tanto preço, este meu pensamento posto vejo, que desfalece nele inda o desejo, vendo quanto por mim o desmereço. Quando esta tal baixesa em mim conheço, acho que cuidar nele é grão despejo, e que morrer por ele me é sobejo e mor bem para mim, do que mereço. O mais que natural merecimento de quem me causa um mal tão duro e forte, o faz que vá crecendo de hora em hora. Mas eu não deixarei meu pensamento, porque inda que este mal me causa a morte, Un bel morir tutta la vita onora. Odia em que eu nasci, moura e pereça, não o queira jamais o tempo dar, não torne mais ao mundo, e, se tornar, eclipse nesse passo o sol padeça. luz lhe falte, o sol se lhe escureça, mostre o mundo sinais de se acabar, nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar, a mãe ao próprio filho não conheça. s pessoas pasmadas de ignorantes, as lágrimas no rosto, a cor perdida, cuidem que o mundo já se destruiu. Ó gente temerosa, não te espantes, que este dia deitou ao mundo a vida mais desgraçada que jamais se viu! Olhos fermosos, em quem quis Natura mostrar do seu poder altos sinais, se quiserdes saber quanto possais, vede-me a mim, que sou vossa feitura. Pintada em mim se vê vossa figura, no que eu padeço retratada estais; que, se eu passo tormentos desiguais, muito mais pode vossa fermosura. De mim não quero mais que o meu desejo: ser vosso; e só de ser vosso me arreio, porque o vosso penhor em mim se assele. !Tão me lembro de mim quando vos vejo, nem do mundo; e não erro, porque creio, que, em lembrar-me de vós, cumpro com ele. Otempo acaba o ano, o mês e a hora, a força, a arte, a manha, a fortaleza; o tempo acaba a fama e a riqueza, o tempo o mesmo tempo de si chora. tempo busca e acaba o onde mora qualquer ingratidão, qualquer dureza; mas neo pode acabar minha tristeza, enquanto não quiserdes vós, Senhora. O tempo o claro dia torna escuro, e o mais ledo prazer em choro triste; o tempo a tempestade em grã bonança. Mas de abrandar o tempo estou seguro o peito de diamante, onde consiste a pena e o prazer desta esperança. Posto me tem Fortuna em tal estado, e tanto a seus pés me tem rendido! Não tenho que perder já, de perdido, não tenho que mudar já, de mudado. Todo o bem para mim é acabado; daqui dou o viver já por vivido; que, aonde o mal é tão conhecido, também o viver mais será escusado. Se me basta querer, a morte quero, que bem outra esperança não convém, e curarei um mal com outro mal E, pois do bem tão pouco bem espero, já que o mel este só remédio tem, não me culpem em querer remédio tal. Quando se vir com água o fogo arder, e misturar co dia a noite escura, e a terra se vir naquela altura em que se vem os Céus prevalecer; o Amor por razão mandado ser, e a todos ser igual nossa ventura, com tal mudança, vossa formosura então a poderei deixar de ver. Porém não sendo vista esta mudança no mundo (como claro está não ver-se), não se espere de mim deixar de ver-vos. Que basta estar em vós minha esperança, o ganho de minha alma, e o perder-se, para não deixar nunca de querer-vos. Afermosura fresca serra, e a sombra dos verdes castanheiros, o manso caminhar destes ribeiros, donde toda a tristeza se desterra; o rouco som do mar, a estranha terra, o esconder do sol pelos outeiros, o recolher dos gados derradeiros, das nuvens pelo ar a branda guerra; enfim, tudo o que a rara natureza com tanta variedade nos ofrece, me está (se não te vejo) magoando. Sem ti, tudo me enoja e me aborrece; sem ti, perpetuamente estou passando nas mores alegrias, mor tristeza. Diana prateada, esclarecia com a luz que do claro Febo ardente, por ser de natureza transparente, em si, como em espelho, reluzia. Cem mil milhões de graças lhe influía, quando me apareceu o excelente raio de vosso aspecto, diferente em graça e em amor do que soía. Eu, vendo-me tão cheio de favores, e tão propínquo a ser de todo vosso, louvei a hora clara, e a noite escura, Sois nela destes cor a meus amores; donde colijo claro que não posso de dia para vós já ter ventura. Quando a suprema dor muito me aperta, se digo que desejo esquecimento, é força que se faz ao pensamento, de que a vontade livre desconserta. Assi, de erro tão grave me desperta a luz do bem regido entendimento, que mostra ser engano ou fingimento dizer que em tal descanso mais se acerta. Porque essa própria imagem, que na mente me representa o bem de que careço, faz-mo de um certo modo ser presente. Ditosa é, logo, a pena que padeço, pois que da causa dela em mim se sente um bem que, inda sem ver-vos, reconheço. Quando, Senhora, quis Amor que amasse essa grã perfeição e gentileza, logo deu por sentença que a crueza em vosso peito amor acrescentasse. Determinou que nada me apartasse, nem desfavor cruel, nem aspereza; mas que em minha raríssima firmeza vossa isenção cruel se executasse. E, pois tendes aqui oferecida e sta alma vossa a vosso sacrifício, acabai de fartar vossa vontade. Não lhe alargueis, Senhora, mais a vida; acabará morrendo em seu oficio, sua fé defendendo e lealdade. Que pode já fazer minha ventura que seja para meu contentamento., Ou como fazer devo fundamento de cousa que o não tem, nem é segura? Que pena pode ser tão certa e dura que possa ser maior que meu tormento? Ou como receará meu pensamento os males, se com eles mais se apura? Como quem se costuma de pequeno com peçonha criar por mão ciente, da qual o uso já o tem seguro; assi de acostumado co veneno, o uso de sofrer meu mal presente me faz não sentir já nada o futuro. Quem presumir, Senhora, de louvar-vos com humano saber, e não divino, ficará de tamanha culpa dino quamanha ficais tendo em contemplar-vos. Não pretenda ninguém de louvar dar-vos, por mais que raro seja e peregrino: que vossa fermosura eu imagino que Deus a Ele só quis comparar-vos. Ditosa esta alma vossa, que quisestes em posse pôr de prenda tão subida, como, Senhora, foi a que me destes. Melhor a guardarei que a própria vida; que, pois mercê tamanha me fizestes, de mim será jamais nunca esquecida. Se de vosso fermoso e lindo gesto nasceram lindas flores para os olhos, que para o peito são duros abrolhos, em mim se vê mui claro e manifesto: pois vossa fermosura e vulto honesto em os ver, de boninas vi mil molhos; mas se meu coração tivera antolhos, não vira em vós seu dano o mal funesto. Um mal visto por bem, um bem tristonho, que me traz elevado o pensamento em mil, porém diversas, fantasias, nas quais eu sempre ando, e sempre sonho; e vós não cuidais mais que em meu tormento, em que fundais as vossas alegrias. Sempre, cruel Senhora, receei, medindo vossa grã desconfiança, que desse em desamor vossa tardança, e que me perdesse eu, pois vos amei. Perca-se, enfim, já tudo o que esperei, pois noutro amor já tendes esperança. Tão patente será vossa mudança, quanto eu encobri sempre o que vos dei. Dei-vos a alma, a vida e o sentido; de tudo o que em mim há vos fiz s enhora. Prometeis e negais o mesmo Amor. Agora tal estou que, de perdido, não sei por onde vou, mas algü'hora vos dará tal lembrança grande dor. Sustenta meu viver üa esperança derivada de um bem tão desejado que, quando nela estou mais confiado, mor dúvida me põe qualquer mudança. E quando inda este bem na mor pujança de seus gostos me tem mais enlevado, me atormenta então ver eu que, alcançado será por quem de vós não tem lembrança. Assi, que nestas redes enlaçado, a penas dou a vida , sustentando üa nova matéria a meu cuidado . Suspiros d'alma tristes arrancando, dos silvos de ua pedra acompanhado, estou matérias tristes lamentando. encido está de Amor o mais que pode ser meu pensamento vencida a vida, sujeita a vos servir oferecendo tudo Contente deste bem, ou hora em que se viu mil vezes desejando outra vez renovar Com essa pretensão a causa que me guia tão estranha, tão doce, Jurando não seguir votando só por vós ou ser no vosso amor instituída, a vosso intento. louva o momento, tão bem perdida; a tal ferida, seu perdimento. está segura nesta empresa, honrosa e alta. outra ventura, rara firmeza, achado em falta. El vaso reluciente y cristalino, de Ángeles agua clara y olorosa, de blancas e da ornado y fresca rosa ligado con cabellos de oro fino; bien claro parecía el don divino labrado por la mano artificiosa de aquella blanca Ninfa, graciosa más que el rubio lucero matutino. Nel vaso vuestro cuerpo se afigura, raxado de los blandos miembros bellos, y en el agua vuestra ánima pura; la seda es la blancura, e los cabellos son las prisiones, y la ligadura con que mi libertad fue asida dellos. Pues lágrimas tratáis, mis ojos tristes, y en lágrimas pasáis la noche y día, mirad si es llanto este que os envia aquella por quien vos tantas vertistes Sentid, mis ojos, bien esta que vistes, y si ella lo es, oh gran ventura mia! por muy bien empleadas las habría mil cuentas que por esta sola distes. Mas una cosa mucho deseada, aunque se vea cierta, no es creída, cuanto más esta, que me es enviada. Pero digo que aunque sea fingida, que basta que por lágrima sea dada, porque sea por lágrima tenida. Se a Fortuna inquieta e mal olhada, que a justa lei do Céu consigo infama, a vida quieta, que ela mais desama, me concedera, honesta e repousada; pudera ser que a Musa, alevantada com luz de mais ardente e viva flama. fizera ao Tejo lá na pátria cama adormecer co som da lira amada. Porém, pois o destino trabalhoso, que me escurece a Musa fraca e lassa, louvor de tanto preço não sustenta; a vossa de louvar-me pouco escassa, outro sujeito busque valeroso, tal qual em vós ao mundo se apresenta. Em flor vos arrancou, de então crecida (Ah! senhor dom António!), a dura sorte, donde fazendo andava o braço forte a fama dos Antigos esquecida. üa só razão tenho conhecida com que tamanha mágoa se conforte: que, pois no mundo havia honrada morte, que não podíeis ter mais larga a vida. Se meus humildes versos podem tanto que co desejo meu se iguale a arte, especial matéria me sereis. E, celebrado em triste e longo canto, se morrestes nas mãos do fero Marte, na memória das gentes vivereis. Debaixo desta pedra está metido, das sanguinosas armas descansado, o capitão ilustre, assinalado, Dom Fernando de Castro esclarecido. Por todo o Oriente tão temido, e da enveja da fama tão cantado, este, pois, só agora sepultado, está aqui já em terra convertido. Alegra-te, ó guerreira Lusitânia por este Viriato que criaste, e chora-o, perdido, eternamente. Exemplo toma nisto de Dardânia; que, se a Roma co ele aniquilaste, nem por isso Cartago está contente. De um tão felice engenho, produzido de outro, que o claro Sol não viu maior, é trazer cousas altas no sentido, todas dinas de espanto e de louvor. Museu foi antiquíssimo escritor, filósofo e poeta conhecido, discípulo do Músico amador que co som teve o Inferno suspendido. Este pôde abalar o monte mudo, cantando aquele mal, que eu já passei, do mancebo de Abido mal sisudo. Agora contam já (segundo achei), Passo, e o nosso Boscão, que disse tudo dos segredos que move o cego Rei. Despois que viu Cibele o corpo humano do fermoso Átis seu verde pinheiro, em piedade o vão furar primeiro convertido, chorou seu grave dano. E, fazendo a sua dor ilustre engano, a Júpiter pediu que o verdadeiro preço da nova palma e do loureiro, ao seu pinheiro desse, soberano. Mais lhe concede o filho poderoso que, as estrelas, subindo, tocar possa, vendo os segredos lá do Céu superno. Oh! ditoso Pinheiro! Oh! mais ditoso quem se vir coroar da folha vossa, cantando à vossa sombra verso eterno! De tão divino acento e voz humana, de tão doces palavras peregrinas, que o rudo engenho meu me desengana. Mas de vossos escritos corre e mana licor que vence as águas cabalinas; e convosco do Tejo as flores finas farão enveja à cópia mantuana. E pois, a vós de si não sendo avaras, as filhas de Mnemósine fermosa partes dadas vos tem, ao mundo caras, a minha Musa e a vossa tão famosa, ambas posso chamar ao mundo raras: a vossa d'alta, a minha d'envejosa. Dos ilustres antigos que deixaram tal nome, que igualou fama à memória, ficou por luz do tempo a larga história dos feitos em que mais se assinalaram. Se se com cousas destes cotejaram mil vossas, cada üa tão notória, vencera a menor delas a mor glória que eles em tantos anos alcançaram. A glória sua foi; ninguém lha tome. Seguindo cada um vários caminhos, estátuas levantando no seu Templo. Vós, honra portuguesa e dos Coutinhos, ilustre Dom João, com melhor nome a vós encheis de glória e a nós de exemplo. Esforço grande, igual ao pensamento; e não em peito timido encerrados e desfeitos despois em chuva e vento; animo da cobiça baixa isento, dino por isso só de altos estados, fero açoute dos nunca bem domados povos do Malabar sanguinolento; gentileza de membros corporais, ornados de pudica continência, estas virtudes e outras muitas mais, dinas todas da homérica eloquência, jazem debaixo desta sepultura Não passes, caminhante! Quem me chama ? —üa memória nova e nunca ouvida, de um que trocou finita e humana vida, por divina, infinita e clara fama. Quem é que tão gentil louvor derrama? —Quem derramar seu sangue não duvida por seguir a bandeira esclarecida de um capitão de Cristo, que mais ama. Ditoso fim, ditoso sacrificio, que a Deus se fez e ao mundo juntamente, apregoando direi tão alta sorte. Mais poderás contar a toda a gente, que sempre deu sua vida claro indício de vir a merecer tão santa morte. No mundo poucos anos, e cansados, vivi, cheios de vil miséria dura; foi-me tão cedo a luz do dia escura, que não vi cinco lustros acabados. Corri terras e mares apartados buscando à vida algum remédio ou cura; mas aquilo que, enfim, não quer ventura, não o alcançam trabalhos arriscados. Criou-me Portugal na verde e cara pátria minha Alenquer; mas ar corruto que neste meu terreno vaso tinha, me fez manjar de peixes em ti, bruto mar, que bates na Abássia fera e avara, tão longe da ditosa pátria minha! Que levas, cruel Morte?- Um claro dia. - A que horas o tomaste?- Amanhecendo. - Entendes o que levas?- Não o entendo. - Pois quem to faz levar?- Quem o entendia. Seu corpo quem o goza?- A terra fria. - Como ficou sua luz?- Anoitecendo. - Lusitânia que diz?- Fica dizendo: Enfim, não mereci Dona Maria. Mataste quem a viu?- Já morto estava. - Que diz o cru Amor?- Falar não ousa. - E quem o faz calar?- Minha vontade. Na corte que ficou?- Saudade brava. - Que fica lá que ver?- Nenhüa cousa; mas fica que chorar sua beldade. Chorai, Ninfas, os fados poderosos daquela soberana fermosura! Onde foram parar na sepultura aqueles reais olhos graciosos? Ó bens do mundo, falsos e enganosos! Que mágoas para ouvir! Que tal figura jaza sem resplandor na terra dura, com tal rosto e cabelos tão fermosos! Das outras que será, pois poder teve a morte sobre cousa tanto bela que ela eclipsava a luz do claro dia? Mas o mundo não era dino dela, por isso mais na terra não esteve; ao Céu subiu, que já *se* lhe devia. Os reinos e os impérios poderosos que em grandeza no mundo mais cresceram, ou por valor de esforço floreceram ou por varões nas letras espantosos. Teve Grécia Temístocles famosos; os Cipiões a Roma engrandeceram; doze pares a França glória deram; Cides a Espanha, e Laras belicosas. Ao nosso Portugal (que agora vemos tão diferente de seu ser primeiro), os vossos deram honra e liberdade. E em vós, grão sucessor e novo herdeiro do braganção estado, há mil extremos iguais ao sangue, e mores que a idade. Ilustre o dino ramo dos Meneses, aos quais o prudente e largo Céu (que errar não sabe), em dote concedeu rompesse os maométicos arneses; desprezando a Fortuna e seus reveses, ide para onde o Fado vos moveu; erguei flamas no Mar alto Eritreu, e sereis nova luz aos Portugueses. Oprimi com tão firme e forte peito o Pirata insolente, que se espante e trema Taprobana e Gedrosia. Dai nova causa à cor do Arabo estreito: assi que o roxo mar, daqui em diante, o seja só co sangue de Turquia! Vós, Ninfas da gangética espessura, cantai suavemente, em vez sonora, um grande Capitão, que a roxa Aurora dos filhos defendeu da noite escura. Ajuntou-se a caterva negra e dura, que na Áurea Quersoneso afouta mora, para lançar do caro ninho fora aqueles que mais podem que a ventura. Mas um forte Leão, com pouca gente, a multidão tão fera como nécia destruindo castiga e torna fraca. Pois, ó Ninfas, cantai! que claramente mais do que Leonidas fez em Grécia, o nobre Leonis fez em Malaca. Que vençais no Oriente tantos Reis, que de novo nos deis da Índia o Estado, que escureceis a fama que ganhado tinham os que a ganharam a infiéis; que do tempo tenhais vencido as leis, que tudo, enfim, vençais co tempo armado, mais é vencer na pátria, desarmado, os monstros e as Quimeras que venceis. E assi, sobre vencerdes tanto imigo, e por armas fazer que, sem segundo, vosso nome no mundo ouvido seja, o que vos dá mais nome inda no mundo, é vencerdes, Senhor, no Reino amigo, tantas ingratidões, tão grande enveja! Vós outros, que buscais repouso certo na vida, com diversos exercícios; a quem, vendo do mundo os benefícios, o regimento seu está encoberto; dedicai, se quereis, ao desconcerto novas hontas e cegos sacrifícios; que, por castigo igual de antigos vícios, quer Deus que andem as cousas por acerto. Não caiu neste modo de castigo quem pôs culpa à Fortuna, quem sòmente crê que acontecimentos há no mundo. A grande experiência é grão perigo; mas o que a Deus é justo e evidente parece injusto aos homens e profundo. Verdade, Amor, Razão, Merecimento, qualquer alma farão segura e forte; porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte, têm do confuso mundo o regimento. Efeitos mil revolve o pensamento e nao sa ~e a que causa se reporte; mas sabe que o que é mais que vida e morte, que não o alcança humano entendimento. Doctos varões darão razões subidas, mas são experiências mais provadas, e por isso é melhor ter muito visto. Cousas há i que passam sem ser criadas e cousas criadas há sem ser passadas, mas o melhor de tudo é crer em Cristo. Detém um pouco, Musa, o largo pranto que Amor te abre do peito; e vestida de rico e ledo manto, dêmos honra e respeito àquela cujo objeito todo o mundo alumia, e quando escuro está é mais que o dia. Ó Délia, que, apesar da névoa grossa, cos teus raios de prata a escura noite fazes, que não possa encontrar o que trata, e o que nalma retrata, Amor por teu divino rosto, por que endoudeço e desatino: Tu, que de fermosíssimas estrelas coroas e rodeias teus cabelos d'argento e faces belas, e os campos fermoseias co as rosas que semeias, co as boninas que gera o teu celeste amor na Primavera: Pois, Délia, dos teus céus vendo estás quantos furtos de puridades, suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos, as amantes vontades, üas por saudades, outras por crus indícios, fazem das próprias vidas sacrifícios; vejo teu Endimião por estes montes, suspenso o Céu, olhando, e o teu nome, cos olhos feitos fontes, embalde e em vão chamando, pedindo e suspirando, mercês à tua beldade sem em ti achar üa hora piedade. Por ti feito pastor de branco armento, as selvas solitárias acompanhado só do pensamento, conversa as alimárias, de todo amor contrárias, mas não como ti duras, onde lamenta e chora desventuras. Por ti guarda o sitio fresco d'Ílio suas sombras fermosas; para ti, Erimanto e o lindo Epilio as mais purpúreas rosas; e as drogas cheirosas deste nosso Oriente também Arábia Felix eminente. De que pantera, tigre, ou leopardo as ásperas entranhas não temeram o agudo e fero dardo, quando pelas montanhas mui remotas e estranhas ligeira atravessavas, tão fermosa que Amor de amor matavas? Das castas virgens sempre os altos gritos, clara Lucina, ouviste, renovando lhe a força e os espritos; mas os daquele triste já nunca consentiste ouvi los um momento, para ser menos grave seu tormento. Não fujas de mim assi, nem assi te escondas dum tão fiel amante! Olha como suspiram estas ondas, e como o velho Atlante o seu colo arrogante move piadosamente, ouvindo a minha voz fraca e doente. Triste de mim, que o pior é queixar-me, pois minhas queixas digo a quem já ergue as mãos para matar-me, como a crue imigo; mas eu meu fado sigo, que a isto me destina e isto só pretende e só me ensina. Quantos dias há que o Céu me desengana, e eu sempre porfio cada vez mais na minha teima insana! Tendo livre alvedrio, não fujo o desvario; e este, que em mim vejo, para esperança minha e meu desejo. Oh! quanto milhor fora que dormissem um sono perenal estes meus olhos tristes, e não vissem a causa de seu mal fugir, a tempo tal, mais que dantes, por teima, mais cruel que ussa fera, mais que ema. Ai de mim, que me abraso em fogo vivo, com mil mortes ao lado, e, quando mouro mais, então mais vivo! Porque assi me há ordenado meu infelice estado que, quando mais me convida a morte, para a morte tenha vida. Minha secreta amiga, mansa noite, estas rosas (porquanto ouviste meus queixumes) ora dou te este fresco adianto, húmido ainda do pranto e lágrimas da esposa do cioso Titã, branca e fermosa. Tão suave, tão fresca e tão fermosa, nunca no Céu saiu a Aurora no princípio do Verão, às flores dando a graça costumada, como a fermosa, mansa fera, quando um pensamento vivo me inspirou, por quem me desconheço. Bonina pudibunda ou fresca rosa nunca no campo abriu, quando os raios do Sol no Touro estão, de cores diferentes esmaltada, como esta flor, que, os olhos inclinando, o sofrimento triste costumou à pena que padeço. Ligeira, bela Ninfa, linda, irosa, não creio que seguiu Sátiro, cujo brando coração d'amores comovesse fera irada, que assi fosse fugindo e desprezando este tormento, onde Amor mostrou tão próspero começo. Nunca, enfim, cousa bela e rigorosa Natura produziu que iguale àquela forma e condição, que as dores em que vivo estima em nada. Mas com tão doce gesto, irado e brando o sentimento e a vida me enlevou, que a pena lhe agradeço. Bem cuidei de exaltar em verso ou prosa aquilo que a alma viu antre a doce dureza e mansidão, primores de beleza desusada; mas, quando quis voar ao Céu, cantando, entendimento e engenho me cegou luz de tão alto preço. Naquela alta pureza deleitosa que ao mundo se encobriu e nos olhos angélicos, que são senhores desta vida destinada, e naqueles cabelos, que, soltando ao manso vento, a vida me enredou, me alegro e entristeço. Saudade e suspeita perigosa, que Amor constituiu por castigo daqueles que se vão; temores, penas d'alma desprezada, fera esquivança, que me vai tirando o mantimento que me sustentou, a tudo me ofereço. Se de meu pensamento tanta razão tivera de agravar me quanta de meu tormento a tenho de queixar me, puderas, triste lira, consolar me. E minha voz cansada, que noutro tempo foi alegre e pura, não fora assi tornada, com tanta desventura, tão rouca, tão pesada, nem tão dura. E ser como soía, pudera levantar vossos louvores; vós, minha Hierarquia, ouvíreis meus amores, que exemplo são ao mundo, já, de dores. Alegres meus cuidados, contentes dias, horas e momentos, oh! quão bem alembrados sois de meus pensamentos, reinando agora em mim, duros tormentos! Ai, gostos fugitivos, ai, glória já acabada e consumida, cruéis males esquivos, que me deixais a vida quão cheia de pesar, quão destruída! Mas como não é morta a triste vida já, que tanto dura? Como não abre a porta a tanta desventura, que em vão co seu poder, o tempo cura? Mas, para padecê la, se esforça meu sujeito e convalece; que, só para dizê la, a força me falece, e de todo me cansa e m'enfraquece. Oh! bem afortunado, tu, que alcançaste com lira toante, Orfeu, ser escutado do fero Radamante, e cos teus olhos ver a doce amante! As infernais figuras moveste com teu canto docemente; as três Fúrias escuras, implacáveis à gente, quietas se tornaram, de repente. Ficou como pasmado todo o Estígio reino co teu canto; e, quási descansado de seu eterno pranto cessou de alçar Sisifo o grave canto. A ordem se mudava das penas que ordenava ali Plutão, em descanso tornava a roda de Ixião, e em glória quantas penas ali são. Pelo qual, admirada a Rainha infernal e comovida, te deu a desejada esposa que, perdida, de tantos dias já tivera a vida. Pois minha desventura como já não abranda üa alma humana que é contra mim mais dura e mui mais desumana que o furor de Calírroë profana! Ó crua, esquiva e fera, duro peito, cruel, impedernido, de algüa tigre fera, da Hircânia nacido ou dantre as duras rochas produzido! Mas que digo, coitado, e de quem fio em vão minhas querelas? Só vós (ó do salgado, húmido reino), belas e claras Ninfas, condoei vos delas. E, de ouro guarnecidas, vossas louras cabeças levantando sôbol' água erguidas, as tranças gotejando, sai alegres todas ver qual ando. Saí em companhia cantando e colhendo as lindas flores, vereis minha agonia, ouvireis meus amores, assentareis meus prantos, meus clamores. Vereis o mais perdido e mais mofino corpo que é gerado; que está já convertido em choro, e neste estado somente vive nele o seu cuidado. Fermosa fera humana, em cujo coração soberbo e rudo a força soberana do vingativo Amor, que vence tudo, as pontas amoladas de quantas setas tinha, tem quebradas; amada Circe minha (posto que minha não, contudo amada), a quem um bem que tinha da doce liberdade desejada pouco a pouco entreguei, e, se mais tenho, inda entregarei: Pois natureza irosa da razão te deu partes tão contrárias que, sendo tão fermosa, folgues de te queimar em flamas várias, sem arder em nenhüa mais que enquanto alumia o mundo a Lua; pois triunfando vás com diversos despojos de perdidos, que tu privando estás de razão, de juízo e de sentidos, e quási a todos dando aquele bem que a todos vás negando; pois tanto te contenta ver o nocturno moço, em ferro envolto, debaixo da tormenta de Júpiter, em água e vento solto, a porta que, impedido lhe tem seu bem, de mágoa adormecido; porque não tens receio que tantas inocências e esquivanças a deusa que põe freio a soberbas e doudas esperanças castigue com rigor, e contra si se acenda o fero Amor? Olha a fermosa Flora; de despojos de mil suspiros rica, pelo capitão chora que lá em Tessália, enfim, vencido fica, e foi sublime tanto que altares lhe deu Roma e nome santo. Olha em Lesbo aquela no seu psalteiro insigne conhecida; dos muitos que por ela se perderam, perdeu a cara vida na rocha que se inflama com ser remédio estremo de quem ama. Pelo moço escolhido, onde mais se mostravam as três Graças; que Vénus escondido para si teve um tempo antr'as alfaças, pagou co a morte fria a má vida que a muitos já daria. E, vendo-se deixada daquele por quem tanto já deixara, se foi desesperada precipitar da infame rocha cara; que o mal de mal querida sabe que vida lhe é perder a vida. —Tomai-me, bravos mares; tomai-me vós, pois outrem me deixou! E assi, dos altos ares pendendo, com furor se arremessou. Acude tu, suave, acude, poderosa e divina ave! Toma nas asas tuas, Minino pio, Elisa; sem perigo, antes que nessas cruas águas caindo, apague o fogo antigo. E digno amor tamanho de viver e ser tido por estranho? Não; que é razão que seja para as lobas isentas, que amor vendem, exemplo onde se veja que também ficam presas as que prendem. Assi deu por sentença Némesis, que Amor quis que tudo vença. Nunca manhã suave, estendendo seus raios pelo mundo, despois de noite grave, tempestuosa, negra, em mar profundo, alegrou tanto nau, que já no fundo se viu em mares grossos, como a luz clara a mim dos olhos vossos. Aquela fermosura que só no virar deles resplandece, com que a sombra escura clara se faz, e o campo reverdece, quando meu pensamento se entristece, ela e sua viveza me desfazem a nuvem da tristeza. O meu peito, onde estais, é, para tanto bem, pequeno vaso; quando acaso virais os olhos, que de mim não fazem caso, todo, gentil Senhora, então me abraso na luz que me consume bem como a borboleta faz no lume. Se mil almas tivera que a tão fermosos olhos entregara, todas quantas tivera polas pestanas deles pendurara; e, enlevadas na vista pura e clara, (posto que disso indinas), se andaram sempre vendo nas mininas. E vós, que descuidada agora vivereis de tais querelas, de almas minhas cercada não pudésseis tirar os olhos delas; não pode ser que, vendo a vossa antr'elas, a dor que lhe mostrassem, tantas üa alma só não abrandassem. as pois o peito ardente üa só pode ter, fermosa Dama, basta que esta somente, como se fossem duas mil, vos ama, para que a dor de sua ardente flama convosco tanto possa que não queirais ver cinza üa alma vossa. Pode um desejo imenso arder no peito tanto que à branda e à viva alma o fogo intenso lhe gaste as nódoas do terreno manto, e purifique em tanta alteza o esprito com olhos imortais que faz que leia mais do que vê escrito. Que a flama que se acende alto tanto alumia que, se o nobre desejo ao bem se estende que nunca viu, e sente claro dia; e lá vê do que busca o natural, a graça, a viva cor, noutra espécie milhor, que a corporal. Pois vós, ó claro exemplo de viva fermosura, que de tão longe cá noto e contemplo na alma, que este desejo sobe e apura; não creais que não vejo aquela imagem que as gentes nunca vêm, se de humanos não têm muita ventagem. Que, se os olhos ausentes não vêm a compassada proporção, que das cores excelentes de pureza e vergonha é variada; da qual a Poesia, que cantou até aqui só pinturas, com mortais fermosuras igualou; se não vêm os cabelos que o vulgo chama de ouro, e se não vêm os claros olhos belos, de quem cantam que são do Sol tesouro; e se não vêm do rosto as excelências, a quem dirão que deve rosa, cristal e neve as aparências; vêm logo a graça pura a luz alta e severa que é raio da divina fermosura que na alma imprime e fora reverbera, assi como cristal do Sol ferido, que por fora derrama a recebida flama, esclarecido. E vêm a gravidade com a viva alegria, que misturada tem, de qualidade que üa da outra nunca se desvia; nem deixa üa de ser arreceada por leda e por suave, nem outra, por ser grave, muito amada. E vêm do honesto siso os altos resplandores, temperados co doce e ledo riso, a cujo abrir abrem no campo as flores; as palavras discretas e suaves, das quais o movimento fará deter o vento e as altas aves; dos olhos o virar (que torna tudo raso), do qual não sabe o engenho divisar se foi por artifício, ou feito a caso; da presença os meneios e a postura, o andar e o mover se, donde pode aprender se a fermosura. Asuele não sei quê, que espira não sei como, que, invisível saindo, a vista o vê, mas para o compreender não acha tomo; o qual toda a toscana poesia, que mais Febo restaura, em Beatriz nem em Laura nunca via; em vós a nossa idade, Senhora, o pode ver, se engenho e ciência e habilidade, igual à fermosura vossa der, como eu vi no meu longo apartamento, qual em ausência a vejo. Tais asas dá o desejo ao pensamento! Pois se o desejo afina üa alma acesa tanto que por vós use as partes da divina, por vós levantarei não visto canto, que o Bétis me onça, e o Tibre me levante; que o nosso claro Tejo envolto um pouco vejo e dissonante. O campo não o esmaltam flores, mas só abrolhos o fazem feio; e cuido que lhe faltam ouvidos para mim, para vós olhos. Mas faça o que quiser o vil costume; que o sol, que em vós está, na escuridão dará mais claro lume. Aquem darão de Pindo as moradoras, tão doutas como belas, florescentes capelas do triunfante louro ou mirto verde, da gloriosa palma, que não perde a presunção sublime, nem por força do peso algum se oprime? A quem trarão na fralda delicada rosas a roxa Clóris, conchas a branca Dóris; estas, flores do mar, da terra aquelas, argênteas, ruivas, brancas e amarelas, com danças e coreias de fermosas Nereidas e Napeias? A quem farão os hinos, odes, cantos, em Tebas Anflon, em Lesbos Arion, senão a vós, por quem restituída se vê da Poesia já perdida a honra e glória igual, Senhor Dom Manuel de Portugal? Imitando os espritos já passados, gentis, altos, reais, honra benina dais a meu tão baixo quão zeloso engenho. Por Mecenas a vós celebro e tenho; e sacro o nome vosso farei, se algüa cousa em verso posso. O rudo canto meu, que ressuscita as honras sepultadas, as palmas já passadas dos belicosos nossos Lusitanos, para tesouro dos futuros anos, convosco se defende da lei leteia, à qual tudo se rende. Na vossa árvore, ornada de honra e glória, achou tronco excelente a hera florecente para a minha até aqui, de baixa estima; na qual, para trepar, se encosta e arrima; e nelas subireis tão alto quanto aos ramos estendeis. Sempre foram engenhos peregrinos da Fortuna envejados; que, quanto levantados por um braço nas asas são da Fama, tanto por outro a sorte, que os desama, co peso e gravidade os oprime da vil necessidade. Mas altos corações, dinos de império, que vencem a Fortuna, foram sempre coluna da ciência gentil: Octaviano, Cipião, Alexandre e Graciano, que vemos imortais; e vós, que nosso século dourais. Pois, logo, enquanto a cítara sonora se estimar pelo mundo, com som douto e jucundo, e enquanto produzir o Tejo e o Douro peitos de Marte e Febo crespo e louro, tereis glória imortal, Senhor Dom Manuel de Portugal. Aquele único exemplo de fortaleza heróica e ousadia, que mereceu, no templo da Fama eterna, ter perpétuo dia; o grão filho de Tétis, que dez anos flagelo foi dos míseros Troianos; não menos ensinado foi nas ervas e médica polícia que destro e costumado no soberbo exercício da milícia: assi que as mãos que a tantos morte deram, também a muitos vida dar puderam. E não se desprezou, aquele fero e indómito mancebo, das artes que ensinou para o lânguido corpo o intonso Febo; que, se o temido Heitor matar podia, também chagas mortais curar sabia. Tais artes aprendeu do semíviro mestre e douto velho, onde tanto creceu em virtude, ciência e em conselho, que Télefo, por ele vulnerado, só dele pôde ser despois curado Pois a vós, ó excelente e ilustríssimo Conde, do Céu dado para fazer presente de altos heróis o século passado; em quem bem trasladada está a memória de vossos ascendentes, honra e glória: Posto que o pensamento ocupado tenhais na guerra infesta, ou co sanguinolento Taprobano, ou Achém, que o mar molesta, ou co Cambaio, oculto imigo nosso, que qualquer deles teme o nome vosso; favorecer a antiga ciência, que já aniquiles estimou; olhai que vos obriga verdes que em vosso tempo rebentou o fruto daquela horta, onde florecem plantas novas, que os doutos` não conhecem. Olhai que, em vossos anos, üa horta produze várias ervas nos campos indianos, as quais aquelas doutas e protervas Medeia e Circe nunca conheceram, posto que a lei da Mágica excederam. E vede carregado d'anos, e trás a vária experiência, um velho que, ensinado das gangéticas Musas na ciência Podalíria sutil e arte silvestre, vence o velho Quiron, de Aquiles mestre; o qual está pedindo vosso favor e ajuda ao grão volume que, impresso à luz saindo, dará da Medicina um vivo lume, e descobrir nos há segredos certos, a todos os antigos encobertos. Assi que não podeis negar (como vos pede) benina aura: que, se muito valeis na sanguinosa guerra turca e maura, ajudai quem ajuda contra a morte; e sereis semelhante ao Grego forte. Fogem as neves frias dos altos montes, quando reverdecem as árvores sombrias; as verdes ervas crecem, e o prado ameno de mil cores tecem. Zéfiro brando espira; suas setas Amor afia agora; Progne triste suspira e Filomela chora; o Céu da fresca terra se namora. Vai Vénus citareia cos coros das Ninfas rodeada; a linda Panopeia, despida e delicada, com as duas irmãs acompanhada. Enquanto as oficinas dos Cíclopes Vulcano está queimando, vão colhendo boninas as Ninfas, e cantando, a terra co ligeiro pé tocando. Dece do duro monte Diana, já cansada da espessura, buscando a clara fonte, onde, por sorte dura, perdeu Actéon a natural figura. Assi se vai passando a verde Primavera e seco Estio; trás ele vem chegando despois o Inverno frio, que também passará por certo fio. Ir se há embranquecendo com a frígida neve o seco monte; e Júpiter, chovendo, turbará a clara fonte; temerá o marinheiro o Orionte. Porque, enfim, tudo passa; não sabe o tempo ter firmeza em nada; e nossa vida escassa foge tão apressada que quando se começa é acabada. Que foram dos Troianos Hector temido, Eneias piadoso? Consumiram te os anos, ó Creso tão famoso, sem te valer teu ouro precioso. Todo o contentamento crias que estava no tesouro ufano? Ó falso pensamento! Que, à custa do teu dano, do douto Sólon creste o desengano! O bem que aqui se alcança não dura por possante, nem por forte; que a bem aventurança, durável de outra sorte, se há de alcançar na vida para a morte. Porque, enfim, nada basta contra o terríbel fim da noite eterna; nem pode a deusa casta tornar à luz superna Hipólito da escura noite averna. Nem Teseu esforçado, com manha, nem com força rigorosa, livrar pode o ousado Pirítoo da espantosa prisão leteia, escura e tenebrosa. Aquele moço fero na Peletrónia cova doutrinado do Centauro severo; cujo peito esforçado com tutanos de tigres foi criado; na água fatal, minino, o lava a mãe, pressaga do futuro, para que ferro fino não passe o peito duro que de si mesmo a si se tem por muro. A carne lhe endurece, que ser não possa d'armas ofendida. Cega! que não conhece que pode haver ferida n'alma, que menos dói perder a vida. Que, aonde o braço irado dos Troianos passava arnês e escudo, ali se viu passado daquele ferro agudo do Minino que em todos pode tudo. Ali se viu cativo da cativa gentil, que serve e adora; ali se viu que, vivo, em vivo fogo mora, porque de seu senhor se vê senhora. Já toma a branda lira na mão que a dura Pélias meneara; ali canta e suspira, não como lhe ensinara o velho, mas o Moço que o cegara. Pois, logo, quem culpado será, se, de pequeno, oferecido foi logo a seu cuidado, no berço instituído a não poder deixar de ser ferido? Quem, logo fraco infante, doutro mais poderoso foi sujeito, que para cego amante foi de princípio feito, com lágrimas banhando o brando peito? Se agora foi ferido da penetrante seta e força de erva, e se Amor é servido que sirva à linda serva, para que minha estrela me reserva? O gesto bem-talhado, o airoso meneio e a postura, o rosto delicado, que na vista afigura que se ensina por arte a fermosura, como pode deixar de cativar quem tenha entendimento? Que, a quem não penetrar um doce gesto, atento, não lhe é nenhum louvor viver isento. Que aqueles cujos peitos ornou d'altas ciências o destino, esses foram sujeitos ao cego e vão Minino, arrebatados do furor divino. O Rei famoso hebreio, que, mais que todos soube, mais amou; tanto, que a Deus alheio falso sacrificou. Se muito soube e teve, muito errou. E o grão Sábio que ensina, passeando, os segredos da Sofia, à baixa concubina do vil eunuco Hermia ergueu aras, que aos deuses só devia. Aras ergue a quem ama o Filósofo insigne namorado. Dói se a perpétua Fama e grita que, culpado, de lesa divindade é acusado. Já foge donde habita; já paga a culpa enorme com o desterro, mas, oh! grande desdita! Bem mostra tamanho erro que doutos corações não são de ferro. Antes na altiva mente, no sutil sangue e engenho mais perfeito, há mais conveniente e conforme sujeito onde se imprima o brando e doce afeito. Naquele tempo brando em que se vê do mundo a fermosura, que Tétis descansando de seu trabalho está, fermosa e pura, cansava o Amor o peito do mancebo Peleu de um duro afeito. Com ímpeto forçoso lhe tinha fugido a bela Ninfa quando, no tempo aquoso, Noto ligeiro move a clara linfa, serras no mar erguendo, que as altas vão da terra desfazendo. Esperava o mancebo, com a dor que o seu peito n'alma sente, um dos dias que Febo o mundo todo abrasa em fogo ardente, soltando as tranças d'ouro em que Clície de amor faz seu tesouro. Era o mês que Apolo entre os irmãos celestes passa o tempo; o vento enfreia Eolo, para que o deleitoso passatempo seja quieto e mudo; que a tudo Amor obriga, e vence tudo. O luminoso dia os amorosos corpos despertava na cega idolatria, que o peito mais contenta e mais agrava; onde o cego Minino se faz crer dos humanos que é contino. Quando a fermosa Ninfa com todo ajuntamento venerando, na pura e clara linfa o cristalino corpo está lavando; o qual, nas águas vendo, nele, alegre de o ver, se está revendo: O peito diamantino em cuja branca teta Amor se cria; o gesto peregrino, cuja presença torna a noite, dia; a graciosa boca, que Amor a seus amores mais provoca; os rubins graciosos; e pérolas que escondem entre as rosas os jardins deleitosos, que o Céu plantou em faces tão fermosas; o transparente colo, que ciúmes a Dafne faz de Apolo; O sutil movimento dos olhos, cuja vista o Amor cegou; o qual, com seu tormento, nunca mais de tais olhos se apartou, mas antes de contino nas mininas o trazem por minino; os fios espalhados d'Amor que aos mais dos peitos faz cobiça, onde Amor enredados os corações humanos traz e atiça, com férvido desejo por onde ele começa a ser sobejo. O mancebo Peleu, que de Neptuno estava aconselhado, vendo na terra o Céu em tão bela figura tresladado, mudo um pouco ficou, porque logo Amor a fala lhe tirou. Enfim, querendo ver quem tanto mal de longe lhe fazia, a vista foi perder, porque, de puro amor, Amor não via; ficando cego e mudo contra as forças do Amor, que pode tudo. Agora se aparelha para a batalha; agora arremetendo; agora se aconselha; agora vai; agora está tremendo; quando já de Cupido com nova seta o peito viu ferido. Remete o moço logo para onde estava a chaga sem sossego, e co sobejo fogo, quanto mais perto estava, então mais cego se via; e cum suspiro na fermosa donzela emprega o tiro. Vingado assi Peleu, naceu deste amoroso ajuntamento o forte Larisseu, destruição do frígio pensamento; que, por não ser ferido, foi nas ondas estígias sumergido. Já calma nos deixou sem flores as ribeiras graciosas; já de todo secou os cravos, lírios e as purpúreas rosas; fogem da calma grave os passarinhos para o sombrio emparo de seus ninhos. Meneia os altos freixos a branda viração, de quando em quando, e dentre vários seixos, o liquido cristal sai murmurando; as gatas, que das alvas pedras saltam, o prado, como pérolas, esmaltam. Da caça já cansada, busca a casta Titónia a espessura, onde, à sombra deitada, logre o doce repouso da verdura, e sobre o seu cabelo crespo e louro deixe cair o bosque o seu tesouro. O Céu desimpedido mostra o eterno lume das estrelas; e de flores vestido, üas vermelhas, outras amarelas, se mostra alegre o bosque, alegre o monte, o rio, o arvoredo, o prado, a fonte. Porque como o minino que a Júpiter pela águia foi levado, no cerco cristalino foi do amador de Clície visitado, o bosque chorará, chorará a fonte, o rio, o arvoredo, o prado, o monte. O mar, que agora, brando, é das lindas Nereidas cortado, se irá alevantando todo, em crespas escumas empolado; o soberbo furar do negro vento f fará por toda a parte movimento. Lei é da Natureza mudar se desta sorte o tempo leve, suceder à beleza da Primavera o fruto; à calma, a nove; e tornar outra vez, por certo fio, Outono, Inverno, Primavera, Estio. Tudo, enfim, faz mudança, quanto o claro Sol vê, quanto alumia; nem se acha segurança em tudo quanto alegra o belo dia; mudam se as condições, muda se a idade, a bonança, os estados e a vontade. Só a minha inimiga a dura condição nunca mudou, para que o mundo diga que, nela, lei tão certa se quebrou; só ela em me não ver sempre está firme, ou por fugir d'Amor, ou por fugir me. Mas já sofrível fora só ela em me matar, mostrar firmeza, se não achara agora também em mim mudada a natureza; pois sempre o coração tenho turbado, sempre d'escuras nuvens rodeado. Sempre exprimento os fios que em contino receio Amor me manda; sempre os dous caudais rios que em meus olhos abriu, quem nos seus anda, correm, sem chegar nunca o Verão brando, que tamanha aspereza vá mudando. O Sol sereno e puro que no fermoso rostro resplandece, envolto em manto escuro do triste esquecimento, não parece, deixando em triste noite a triste vida, que nunca é de luz nova socorrida. Porém seja o que for: mude se por meu dano, a Natureza; perca a constância Amor; a Fortuna inconstante ache firmeza; e tudo se conjure contra mi, mas eu firme estarei no que emprendi. Tão crua Ninfa, nem tão fugitiva, com lindo pé pisou verde erva, nem colheu as brancas flores, soltando seus cabelos d'ouro fino ao vento que em doces nós os olhos ata, nem tão linda, discreta e tão fermosa como esta minha imiga. Aquilo que em pessoa que hoje viva no mundo não se achou, quis nela a Natureza, seus primores mostrando, que se achasse de contino: castidade e beleza; ua me mata, a outra, de suave e deleitosa, me faz doce a fadiga. Mas esta bela fera, tão esquiva, que o prazer me roubou, quis-me pagar seus únicos louvores, cantando eu num estilo dela indino; porque, se de louvor tão alto trata, não sei eu tão baixo verso e prosa que escreva nem que diga. Aquela luz que a do Sol claro priva, e a minha me cegou; aquele mover de olhos, minhas dores causando no olhar manso e divino; o doce rir, que esta alma desbarata, me faz a sua pena desejosa e de seu mal amiga. De belos olhos veio a flama viva que n'alma se ateou com a lenha de vossos disfavores, queimando dentro o coração mofino, cujo fim, por mor dano, se dilata co a esperança falsa e duvidosa que forçado é que siga. Mas, minha ou vossa, vendo-se cativa quem Deus livre criou, se aqueixa desses olhos roubadores, culpando ao claro raio peregrino; mas logo a luz suave, que a resgata, de vossa linda vista graciosa a faz que se desliga. Nenhüa que no mundo humana viva, que o Criador formou por milagre maior entre os maiores, formou um feito de tal Feitor dino; Deus não quer que sejais, Senhora, ingrata, mas que ajudeis ua alma desditosa que em vos servir periga: a sofrer esta pena rigorosa vosso valor me obriga. Quem pode ser no mundo tão quieto, ou quem terá tão livre o pensamento, quem tão exprimentado e tão discreto, t tão fora, enfim, de humano entendimento que, ou com público efeito, ou com secreto, lhe não revolva e espante o sentimento, deixando lhe o juízo quási incerto, ver e notar do mundo o desconcerto? Quem há que veja aquele que vivia de latrocínios, mortes e adultérios, que ao juízo das gentes merecia perpétua pena, imensos vitupérios, se a Fortuna em contrário o leva e guia, mostrando, enfim, que tudo são mistérios, em alteza d'estados triunfante, que, por livre que seja, não se espante? Quem há que veja aquele que tão clara teve a vida que em tudo por perfeito o próprio Momo às gentes o julgara, ainda que lhe vira aberto o peito, se a má Fortuna, ao bem somente avara, o reprime e lhe nega seu direito, que lhe não fique o peito congelado, por mais e mais que seja exprimentado? Demócrito dos deuses proferia que eram só dous: a Pena e Beneficio. Segredo algum será da fantasia de que eu achar não posso claro indicio; que, se ambos vêm por não cuidada via a quem os não merece, é grande vicio em deuses sem justiça e sem razão. Mas Demócrito o disse, e Paulo não. Dir me heis que, se este estranho desconcerto novamente ao mundo se mostrasse, que, por livre que fosse e mui experto, não era de espantar se me espantasse; mas que se já de Sócrates foi certo que nenhum grande caso lhe mudasse o vulto, ou de prudente, ou de constante, que tome exemplo dele, e não me espante. Parece a razão boa; mas eu digo qu'é este uso da Fortuna tão danado que, quanto mais usado e mais antigo, tanto é mais estranhado e blasfemado. Porque se o Céu, das gentes tão amigo, não dá à Fortuna tempo limitado, não é para causar mui grande espanto que mal tão mal olhado dure tanto. Outro espanto maior aqui me enleia: que, conquanto Fortuna tão profana com estes desconcertos senhoreia, a nenhüa pessoa desengana. Não há ninguém que assente nem que creia este discurso vão da vida humana, por mais que filosofe, nem que entenda, que algum pouco do mundo não pretenda. Como nos vossos ombros tão constantes, Príncipe ilustre e raro, sustenteis tantos negócios árduos e importantes dinos do largo Império que regeis; como sempre nas armas rutilantes vestido, o mar e a terra segureis do pirata insolente, e do tirano jugo do potentíssimo Otomano; e como, com virtude necessária, mal entendida do juízo alheio, a desordem do vulgo temerária na santa paz ponhais o duro freio; se com minha escritura longa e vária vos ocupasse o tempo, certo creio que com ridiculosa fantasia contra o comum proveito pecaria. E não menos seria reputado por doce adulador, sagaz e agudo, que contra meu tão baixo e triste estado busco favor em vós, que podeis tudo: se, contra a opinião do vulgo errado, vos celebrasse em verso humilde e rudo, dirão que com lisonja ajuda peço contra a miséria injusta que padeço. Porém, porque a virtude pode tanto no livre arbítrio (como disse bem a Dario rei, o moço sábio e santo que foi reedificar Hierusalém), esta me obriga que, em humilde canto, contra a tenção que a plebe ignara tem, vos faça claro o que vos não alcança, e não de prémio algum vil esperança. Rómulo, Baco e outros que alcançaram nomes de semideuses soberanos, enquanto pelo mundo exercitaram altos feitos e quási mais que humanos, com justíssima causa se queixaram que não lhe responderam os mundanos favores do rumor, justos e iguais, a seus merecimentos imortais. Aquele que nos braços poderosos irou a vida ao tingitano Anteu, a quem os seus trabalhos tão famosos fizeram cidadão do alto Céu, achou que a má tenção dos envejosos não se doma senão despois que o véu se rompe corporal; porque na vida ninguém alcança a glória merecida. Pois, logo, se varões tão excelentes foram do baixo vulgo molestados, o vitupério vil das rudes gentes é louvor dos reais e sulimados. Quem no lume dos vossos ascendentes poderá pôr os olhos que, abalados l lhe não fiquem da luz, vendo os maiores vossos passados, Reis e Emperadores? Quem verá aquele pai da pátria sua, açoute do soberbo Castelhano, que o duro jugo, só, co a espada nua removeu do pescoço lusitano, que não diga: Ó grão Nuno! a eterna tua memória causará (se não me engano), que qualquer teu menor tanto se estime que nunca possas ser senão sublime! Nisto não falo mais, porque conheço que da matéria se me abaixa o engenho. Mas, pois que a dizer tudo me ofereço, que dias há que no desejo o tenho, sendo vós de tão alto e ilustre preço a vida fostes pôr num fraco lenho, por largo mar e undosa tempestade só por servir a régia Majestade. E despois de tomar a rédea dura na mão, do povo indómito que estava costumado à largueza e à soltura do pesado governo que acabava; quem não terá por santa e justa cura, qual do vosso conceito se esperava, a tão desenfreada infirmidade aplicar lhe contrária qualidade? Não é muito, Senhor, se o moderado governo se blasfema e se desama; porque o povo a larguezas acostumado à lei serena e justa dura chama. Pois o zelo, em virtude só fundado, de salvar almas da tartárea flama, co a água salutífera de Cristo, poderá porventura ser malquisto? Mui alto Rei, a quem os Céus em sorte deram o nome augusto e sublimado daquele cavaleiro que, na morte, por Cristo foi de setas mil passado; pois dele o fiel peito, casto e forte, co nome imperial tendes tomado, tomai também a seta veneranda que a vós o sucessor de Pedro manda. Já por sorte do Céu, que o consentiu, tendes o braço seu, relíquia cara defensor contra o gládio que feriu o povo que David contar mandara. No qual, pois tudo em vós se permitiu, presságio temos e esperança clara que sereis braço forte e soberano contra o soberbo gládio mauritano. E o que este presságio agora encerra nos faz ter por mais certo e verdadeiro a seta que vos dá quem é na terra das relíquias celestes despenseiro: que as vossas setas são, na justa guerra, agudas, e entrarão por derradeiro (caindo a vossos pés povo sem lei), nos peitos que inimigos são do Rei. Quando vossas bandeiras despregava Albuquerque fortíssimo, com glória, polas praias da Pérsia, e alcançava de nações tão remotas a vitória; as setas embebidas que tirava o arco armusiano, é larga história que no ar, Deus querendo, se viravam, pregando se nos peitos que as tiravam. O querido de Deus, por quem peleja o ar também e o vento conjurado, ao atambor acode, por que veja que quem a Deus ama é de Deus amado; os contrários, revéis à madre Igreja, atroarão co tom do Céu irado, que assi deu já favor maior que humano a Josué hebreu, e Teodósio hispano. Pois se as setas tiradas da inimiga corda, contra si só nocivas são, que farão, Rei, as vossas que têm liga co a que já tocou Sebastião? Tinta vem do seu sangue com que obriga a levantar a Deus o coração, crendo que as que vós atirareis no sangue sarraceno as tingireis. Ascânio (se trazer me é concedido, entre santos exemplos, um profano) rei do largo Império conhecido romano, e só relíquia do troiano, vingou, com seta e animo e atrevido, as soberbas palavras de Numano; e logo foi dali remunerado, com louvores de Apolo celebrado. Assi vós, Rei, que fostes segurança de nossa liberdade, e que nos dais de grandes bens certíssima esperança; nos costumes e aspeito que mostrais concebemos segura confiança que Deus, a quem servis e venerais, vos fará vingador dos seus revéis, e os prémios vos dará que mereceis. Estes humildes versas, que pregão são destes vossos Reinos, com verdade, recebei com humilde e leda mão, pois é devido a reis benignidade. Tenham (se não merecem galardão) favor, sequer, da régia Majestade; assi tenhais, de quem já tendes tanto, com o nome e relíquia, favor santo. Esprito valoroso, cujo estado o alto Deus prospere e acrescente, regendo o fiel Reino descansado, com vida felicíssima, e contente: a vós, em quem o humil necessitado acha sempre favor e amor ardente, peço queirais ouvir que, na verdade, zelo e amor de Deus me persuade. Não vos seja posado o atrever me a querer emprender sujeito alheio, porque fizeram lágrimas mover me vir ante vós, ousado e sem receio. E se por tal quiserdes conhecer me, servindo vos de mim por algum meio, o nome, o braço, a Musa e quanto posso, há já muito, Senhor, que tudo é vosso. Quem vos isto oferece, dirá quanto desejo, muito há, ser vos aceito porque com vosso zelo, o favor santo, faça meu rude verso algum proveito; que, cobrindo me vós com vosso manto, a eu ser nobre tendo algum respeito, sei que posso ganhar o que não tenho, pois me não faltam forças nem engenho. Porem isto, Senhor, deixando a parte, que razão é devida a que me guia, a vós tenho com força, engenho e arte por influxo do Céu, que a vós me envia; a vós a quem tem dado Apolo e Marte de seus tesouros parte e melhoria, venho cantar, com vez rouca e chorosa, por üa encarcerada desditosa. A vós venho, Senhor, na confiança do vosso nome pondo meu sentido, que quem em vós confia, tudo alcança, sendo cousa de que Deus é servido; e pois Ele vos deu justa balança para pesar justiça e dar ouvido, ouvi a petição da miserável, com quem Fortuna foi tão pouco afável. Ouvi da pobre Dona Catarina o grande desemparo inopinado a quem nenhum remédio determina ou permite seu duro e cruel Fado; que, se na tenra idade foi mofina, a vida entregando ao vão cuidado, haja nisso castigo com brandura, porque o medo a fará viver segura. Foge-me pouco a pouco a curta vida (se por caso é verdade que inda vivo); vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos; choro pelo passado e, quando falo, se me passam os dias passo e passo, vai se me, enfim, a idade e fica a pena. Enquanto aparelho um novo esprito, e voz de cisne tal que o mundo espante, com que de vós, Senhor, em alto grito louvares mil em toda a parte cante, ouvi o canto agreste em tronco escrito, entre vacas e gado petulante; que, quando tempo for, em milhor modo por vós me ouvirá o mundo todo. As vos querelas, brandas e amorosas, sejam de vós tratadas brandamente; verdades d'alma pouco venturosas, saídas com suspiro vivo e ardente, que em vossas mãos se entregam valerosas, para despois viverem entre a gente, chorando sempre a antiga crueldade, e os corações moverem a piedade. Já declinava o Sol contra o Oriente, e o mais do dia já era passado, quando o pastor, co grave mal que sente, por dar alívio em parte a seu cuidado, se queixa da pastara docemente, cuidando de ninguém ser escutado. Eu, que o ouvi dua árvore, escrevia as mágoas que cantou; e assi dezia: -Ou tu do monte Píndaso és nascida, ou mármor te pariu, formosa e dura: que não pode ser seja concebida dureza tal de humana criatura; ou és quiçais em pedra convertida, e tens de natureza tal ventura; porém não fez em ti boa impressão, tornar-te só de mármor o coração. Já esta minha voz rouca e chorosa a gente mais remota moveria, e se tocasse a veia lacrimosa os tigres em Hircania amansaria. Se não foras cruel, quanto fermosa, meu longo suspirar te abrandaria; mas suspirar por ti, mas bem-querer-te, que fazem, senão mais endurecer-te? Se deixaras vencer a crueldade de tua tão perfeita fermosura, um pouco viras bem minha vontade, e viras esta fé tão limpa e pura, porventura que houveras piedade e tivera eu quiçais milhor ventura. Mas nunca achei milhor tua beleza, se não com ver-se em ti tua dureza Já um peito abrandara que não sente meu duro e grave mal, segundo é forte; se decera ao Inferno fero e ardente, movera a piedade a mesma morte. Se ua gota de água brandamente abranda um penedo duro e forte, como lágrimas tantas não farão um pequeno sinal num coração? Na testa tenho üa fonte viva d'água, que por meus olhos tristes se derrama; no peito está de fogo ua viva frágoa, que tudo em si converte e tudo inflama; Amor, ao derredor, por maior mágoa, voando, mais acende a ardente chama. E se qués ver se ardentes são seus tiros, olha se são ardentes meus suspiros. Quando rumor algum grande se sente, que se acende fogo em casa, ou torre, de pura compaixão vai toda a gente gritando: «Água ao fogo!» e cada um corre. Assi anda meu peito em chama ardente, e co a água dos olhos se socorre; que quem me abrasa outra água me defende, porque com esta o fogo mais se acende. Quando o Sol sai lá no Oriente o seu antigo curso começando, fermoso, intenso, puro e refulgente, o monte, campo, mar, tudo alegrando; quando de nós se esconde no Ponente, e noutras terras sai, alumiando; sempre, enquanto dá ao mundo giro, por ti meus olhos choram e eu suspiro. Caminha o dia todo o caminhante, vem, acabado, a noite em que descansa; trabalha na tormenta o mareante, goza o dia sereno e de bonança; na terra o lavrador, se nela cansa: mas eu, de meu trabalho e mal tão forte, tormento espero, enfim, e crua morte. Co' ouvir meu mal, as rosas matutinas, de dó de mim, se cerram e emmurchecem; co meu suspiro ardente, as cores finas perdem o cravo, o lírio, e não florecem. Co a roxa aurora, as pálidas baninas, em vez de se alegrarem, se entristecem; deixa seu canto Progne e Filomena; que mais lhe dói que a sua a minha pena. Responde o monte côncavo a meus ais, e tu, como áspide, cerras-lhe o ouvido; as árvores do campo, os animais, mostram sentir meu mal sem ser sentido; e a ti, as minhas dores desiguais não movem esse peito endurecido; por mais e mais que chamo, não respondes, e quanto mais te busco, mais te escondes. Naquela parte adonde costumavas apacentar teus olhos e teu gado, ali, onde mil vezes me mostravas ser eu de ti o pasto desejado, mil vezes te busquei por ver se davas ainda algum descanso a meu cuidado. No campo em vão te busco, e busco o monte, qual o ferido cervo busca a fonte. Este lugar de ti desamparado, com cujas sombras frias já folgaste, agora triste e escuro é já tornado; que todo o bem contigo nos levaste. Tu eras nosso sol mais desejado; não temos luz despois que nos deixaste. Torna, meu claro sol! Vem já, meu bem! Qual é o Josué que te detém? Despois que deste vale te apartaste, não pace o branco gado, com secura; secou-se o campo dês que lhe negaste dos teus foemosos olhos a luz pura; secou-se a fonte donde já te olhaste, quando milhor que agora, áspera e dura; nega, sem ti, a terra dando gritos, pasto às cabras e leite a os cabritos. Sem ti, doce cruel minha inimiga, a clara luz escura me parece; este ribeiro, quando Amor me obriga, com meu chorar por ti contino crece. Não há fera que a fome não persiga, nem o campo sem ti já não florece; cegos estão meus olhos, já não vêm, pois que não podem ver meu claro bem. O campo, como de antes, não se esmalta de boninas azuis, brancas, vermelhas; não chave ao pasto já, que há d'água falta; as mansas e pacíficas ovelhas sem ti perecem e o Céu também lhes falta; não acham flor as melífluas abelhas; com lágrimas que manam dos meus olhos produze a terra já ásperos abrolhos Torna pois já, pastora, a este prado, e restituirás esta alegria; alegrarás o monte, o campo, o gado, alegrarás também a fonte fria. Torna, vem já, meu sol tão desejado, faze esta noite escura em claro dia; e alegra já esta magoada vida, toda em tua ausência consumida. Vem, como quando o raio eminente do nosso horizonte que, escondido, deixa um certo temor à mortal gente, que causa ver o Orbe escurecido; e quando torna a vir, claro e luzente, alegra o mundo todo entristecido; assi é para mim tua luz pura claro sol, e, ausente, noite escura. Tu, esquecida já do bem passado e do primeiro amor que me mostraste, teu coração de mim tens apartado, e o lugar também desamparaste. Não te quero eu a ti mais que a meu gado? Não sou eu mesmo aquele que tu amaste? Pois onde merecia tão grão desvio? Ouve-me, pois me vês já morto e frio. Bem vês que por Amor se move tudo, e não há quem de Amor se veja isento; o animal mais simples, baixo e rudo, o de mais levantado pensamento, até debaixo d'água o peixe mudo, lá tem d'Amor também seu movimento; a ave, que no ar cantando voa, também por outra ave se afeiçoa. A música do leve passarinho, que sem concerto algum solta e derrama, saltando de raminho em raminho, cantando com amor suspira e chama, té achar no amado e doce ninho aquele a quem busca e a quem ama, descansa do trabalho que tomara tendo só seu descanso em quem achara. A fera que é mais fera, e o leão sempre acha outro leão, e outra fera, em que possa empregar üa afeição que lhe a conversação no peito gera; também sabe sentir sua paixão, também suspira, morre e desespera, acena, salta, brada, ferve e geme; e, não temendo nada, Amor só teme. O cervo que, escondido e emboscado, temendo o cobiçoso caçador, está na selva, monte, bosque ou prado, ali onde está e vive, vive amor. D'amor e de temor acompanhado, com justa causa, amor tem e temor: temor, de quem ali feri-lo vinha; e amor, a quem já ferido o tinha. Se o animal insensível, que não sente, também sente d'Amor a frecha dura, porque te não abranda o fogo ardente, que procede de tua fermosura? Porque escondes a luz do Sol à gente, que nesses olhos trazes, bela e pura? Mais bela, mais suave e mais fermosa que o lirio, o jasmim, o cravo, a rosa. Pode ser, se me viras, que sentiras ver desfazer um peito em triste pranto; e bem pouco fizeras, se me viras, já que eu só por te ver, suspiro tanto. As mágoas e suspiros que me ouviras te puderam mover a grande espanto, a dor, a piedade, o sentimento, e mais, que para mais é meu tormento. Os pensamentos vãos, que o vento leve, o suspirar em vão também ao vento, o esperar a calma, a chuva, a neve, e não te poder ver um só momento, tormento é que somente a ti se deve. E se pode inda haver maior tormento, quem te viu e se vê de si ausente, muito mais passará mais levemente. Faz mossa a pedra dura em sua dureza co a água que lhe toca brandamente; abranda o ferro forte a fortaleza, se lhe toca também o fogo ardente; só em ti não conheço a natureza, que a ser de pedra, ferro ou de serpente, já teu peito cruel fora desfeito do fogo e das lágrimas que deito. Quando a formosa Aurora mostra a fronte, alegra toda a terra, vendo o dia; quando Febo aparece no horizonte, manifesta também grande alegria; contente come o gado ao pé do monte, alegre vai beber à fonte fria. Tudo contente está, alegre tudo; eu só, só pensativo, triste e mudo. Se da alma e do corpo tens a palma, e do corpo sem alma não tens dó, há dó do corpo só, que está sem alma, pois sem alma não vive o corpo só. Na chama, no ardor, no fogo e calma, na afeição, no querer eu sou um só; não acharás vontade mais cativa; nem outra como a tua tão esquiva. Se te apartas por não ouvir meu rogo, onde estiveres te hei-de importunar; posto que vá por água, ferro ou fogo, contigo em toda a parte m'hás-de achar; que a chama que me abrasa é de tal fogo que, enquanto eu vivo for, há-de durar, e o nó que me tem preso é de tal sorte que não se há-de soltar em vida ou morte. Neste meu coração sempre estarás enquanto a alma estiver com ele unida; meu spírito também possuirás, despois que a alma do corpo for partida. Por mais e mais que faças, não farás que não te ame nesta e na outra vida. Impossível será que, eternamente, estês de mim ausente, estando ausente. Cá me acompanhará tua memória, se o rio que se diz do esquecimento, da minha não borrar tão longa história, tão grave mal, tão duro apartamento. Até que eu te veja entrar na glória vivirei num contino sentimento; e inda então será (se isto ser possa) servir esta alma minha lá a vossa. Aqui, com grave dor, com triste acento, deu o triste pastor fim a seu canto; co rosto baixo, e alto o pensamento, seus olhos começaram novo pranto; mil vezes fez parar no ar o vento, e apiadou no Céu o coro santo; as circunstantes selvas se abaixaram de dó das tristes mágoas que escutaram. Com üa mão na face, e encostado, em sua dor tão enlevado estava que, como em grave sono sepultado, não viu o Sol que já no mar entrava. Berrando anda em roda o mesmo gado, que o seguro curral já desejava; nas covas as raposas, e em seus ninhos se recolhem os simples passarinhos. Já sobre um seco ramo estava posto o mocho co funesto e triste pranto; a cujo sem o pastor ergueu o rosto e viu a terra envolta em negro manto. Quebrando então o fio a seu gosto, mas não quebrando o fio a seu pranto, para milhor cuidar em seu cuidado, levou para os currais o manso gado. Vós, semícapros deuses do alto monte, Faunos longevos, Sátiros, Silvanos; e vós, deusas do bosque e clara fonte, ou dos troncos que vivem largos anos, se tendes pronta um pouco a sacra fonte a nossos versos rústicos e humanos, ou me dai já a coroa de loureiro, ou penda a minha lira dum pinheiro. ALIEUTO Vós, húmidas deidades deste pego, Tritões cerúleos, Próteo, com Palemo; e vós, Nereidas do sal em que navego, por quem do vento as fúrias pouco temo; se às vossas ricas aras nunca nego o congro nadador na pá do remo, não consintais que a música marinha vencida seja aqui da lira minha. AGRÁRIO Pastor se fez um tempo o Moço louro, que do Sol as carretas move e guia; ouviu o rio Anfriso a lira d'ouro que o sacro inventor ali tangia. Io foi vaca; Júpiter foi touro; mansas ovelhas junto da água fria guardou o fermoso Adónis; e tornado em bezerro Neptuno foi já achado. ALIEUTO Pescador já foi Glauco, o qual agora deus é do mar; e Próteo focas guarda. Naceu no pego a deusa, que é senhora do amoroso prazer, que sempre tarda. S e foi bezerro o deus que mar adora também já foi Delfim; e quem rês guarda verá que os moços pescadores eram que o escuro enigma a o Vate deram. AGRÁRIO Fermosa Dinamene, se dos ninhos os implumes penhores já furtei à doce filomela, e dos murtinhos para ti, fera! as flores apanhei; e se os crespos madronhos nos raminhos a ti, com tanto gosto, apresentei, porque não dás a Agrário desditoso um só revolver d'olhos piadoso? ALIEUTO Para quem trago eu d'água em vaso cavo, os curvos camarões vivos saltando? Para quem as conchinhas ruivas cavo na praia os brancos búzios apanhando? Para quem, de margulho, no mar bravo, os ramos de coral venho arrancando, senão para a fermosa Lemnoria que cum só riso a vida me daria? AGRÁRIO Quem viu já o desgrenhado e crespo Inverno d'altas nuvens vestido, hórrido e feio, ennegrecendo a vista o Céu superno, quando arranca os troncos o rio cheio; raios, chuvas, trovões, um triste inferno, mostra ao mundo um pálido receio; tal é o amor cioso a quem suspeita que outrem de seus trabalhos se aproveita. ALIEUTO Se alguém viu pelo alto o sibilante furor, deitando flamas e bramidos, quando as pasmosas serras traz diante, hórrido aos olhos, hórrido aos ouvidos, a braços derrubando o já nutante mundo, cos Elementos destruídos, assi me representa a fantasia a desesperação de ver um dia. AGRÁRIO Minh'alva Dinamene, a Primavera, que os campos deleitosos pinta e veste, e, rindo se, üa cor aos olhos gera com que na terra vêm o arco celeste; o cheiro, rosas, flores, a verde hera, com toda a fermosura amena, agreste, não é para meus olhos tão fermosa como a tua, que abate o lírio e rosa. ALIEUTO As conchinhas da praia que apresentam a cor das nuvens, quando nace o dia; o canto das Sirenas, que adormentam; a tinta que no múrice se cria; navegar pelas águas que se assentam co brando bafo quando a sesta é fria, não podem, Ninfa minha, assi aprazer me como ver te üa hora alegre ver me. AGRÁRIO A deusa que na Líbica alagoa em forma virginal apareceu, cujo nome tomou, que tanto soa, os olhos belos tem da cor do céu, garços os tem; mas üa que a coroa das fermosas do campo mereceu, da cor do campo os mostra, graciosos quem diz que não são estes os fermosos? ALIEUTO Cousas grandes e estranhas tem pelo mundo feito e faz Natura, que, a quem vos não viu, Ninfas, muito espantam Nas Líbicas montanhas os crocodilos feros, de pintura tão singular, que só co a vista encantam, a sua voz levantam tão própria e natural à voz humana que, a quem a ouve, facilmente engana. E vós, ó gentes feras, cujo aspeito o mundo tem sujeito, tendes de natureza juntamente a vista e voz de gente, e fero o peito. Das amorosas leis com que liga natura os corações andais fugindo, ó Ninfas, na espessura? Como não vos correis que haja em vós tão duras condições que possam mais que a próvida Natura? Se vossa fermosura é sobrenatural, não é forçado que assi tenha também o peito irado; mas antes ao Amor, em cuja mão os corações estão, por vossa gentileza tão fermosa lhe deveis amorosa condição. Amor é um brando afeito que Deus no mundo pôs e a Natureza para aumentar as cousas que criou. De Amor está sujeito tudo quanto pssui a redondeza; Nada sem este afeito se gerou. Por ele conservou a causa principal o mundo amado, donde o pai famulento foi deitado. As cousas ele as ata e as conforma; com o mundo reforma a matéria. Quem há que não o veja? Quanto meu mal deseja, sempre forma. Entre as ervas dos prados não há machos e fêmeas conhecidas e junto üa da outra permanece? Não estão carregados os ulmeiros das vides retorcidas, onde o cacho enforcado amadurece? Não vedes que padece tanta tristeza a rola pela morte de sua amada e única consorte? Pois lá no Olimpo, a quantos cativou Cupido e maltratou? Milhor que eu o dirá a sutil donzela que lá na sua tela o dibuxou. Ah! caso grande e grave! Ah, peitos de diamante fabricados, e das leis absolutas naturais! Aquele amor suave, aquele poder alto, que, forçados, os deuses obedecem desprezais? Pois quero que saibais que contra o fero Amor nunca houve escudo: o seu costume é vingança em tudo. Eu vos verei deitar em um momento, suspiros mil ao vento, lágrimas, tristes prantos, nova dor, por quem tenha outro amor no pensamento. Mais quisera dizer o desditoso amante, que ajudado se via então da mágoa e da tristeza; mas foi lho defender o outro companheiro, como irado com tão disforme e áspera dureza. Aquilo que a rudeza. e a ciência agreste lhe ensinara imaginando como que acordara d'algum sonho arrancando d'alma um grito. O mais que ali foi dito, vós, montes, o direis, e vós, penedos; que em vossos arvoredos anda escrito. SÁTIRO SEGUNDO Nem vós nascidas sois de gente humana, nem foi humano o leite que mamastes, mas d'algüa disforme fera Hircana; lá no Cáucaso monte vos criastes, daqui tomastes a aspereza insana; daqui o frio peito congelastes. Sois Esfinges nos gestos naturais, que o rosto só de humanas amostrais. Se vós fostes criadas na espessura, onde não houve cousa que se achasse, animal, erva verde, ou pedra dura, que em seu tempo passado não amasse, nem a quem a afeição suave e pura nessa presente forma não mudasse; porque não deixareis também memória de vós, em namorada e longa história? Olhai como, na Arcádia, soterrando o namorado Alfeu sua água clara lá na ardente Sicília, vai buscando por debaixo do mar a Ninfa cara. Assi mesmo vereis passar nadando Ácis, que Galateia tanto amara, por onde do Ciclope a grande mágoa converteu do mancebo o sangue em água. Virai os olhos, Ninfas, à Ericina espessura; vereis ali tornar se Egéria em fonte clara e cristalina, pela morte de Numa, destilar se. Olhai que a triste Bíblis vos ensina com perder se de todo e transformar se em lágrimas que, enfim, puderam tanto que acrecentaram sempre o verde manto. E se entre as claras águas houve amores, Os penedos também foram perdidos. Olhai os dons conformes amadores, no monte Ida em pedra convertidos: Leteia, por cair em vãos errores, de sua fermosura procedidos; Oleno, porque a culpa em si tomava, por não ver castigar quem tanto amava. Tomai exemplo e vede em Cipro aquela por quem Ífis no laço pôs a vida. Também vereis em pedra a Ninfa bela cuja voz foi por Juno consumida; e, se queixar se quer de sua estrela, a voz extrema só lhe é concedida. E tu também, ó Dafne, que trouxeste primeiro ao monte o doce verso agreste. Tamanho amor tinha a branda amiga, que em inimiga, enfim, se foi tornando; porque outra Ninfa estranha o sojiga, suas mágicas ervas vai buscando. Olhai a crua dor a quanto obriga, por vingar sua ira, transformando s e foi em pedra. Ó dura confusão! Despois lhe pesaria; mas em vão. Olhai, Ninfas, as árvores alçadas, a cuja sombra andais colhendo flores, como em seu tempo foram namoradas, que inda agora o tronco sente as dores. Vereis também, se fordes alembradas, como a cor das amoras é de amores; em sangue dos amantes na verdura testemunha é de Tisbe a sepultura. E lá pela odorífera Sabeia não vedes que, de lágrimas daquela que com seu pai se ajunta e se recreia, Arábia se enriquece e vive dela? Vede mais a verde árvore Peneia, que foi já noutro tempo Ninfa bela, e Ciparisso, angélico mancebo, ambos verdes com lágrimas de Febo. Está o moço de Frígia delicado no mais alto arvoredo convertido, que tantas vezes fere o vento, irado; galardão de seus erros merecido, que, da alta Berecíntia sendo amado, por üa Ninfa baixa foi perdido; e a deusa a quem perdeu do pensamento quis que também perdesse o entendimento. O súbito furor lhe afigurava que o monte, as casas e árvores caíam; já dos pudicos membros se privava, que a deusa e a fúria grande o constrangiam. Já no indino monte se lançava; de sua morte as feras se doíam, destarte perdeu Átis na espessura, despois de tantas perdas, a figura. Lembre vos quando as gentes celebravam em Grécia as grandes festas de Lieu, onde as fermosas Ninfas se juntavam e os sacros moradores do Liceu. Todos em doce sono se ocupavam pelo monte despois que anoiteceu; mas o deus do Helesponto não dormia, que um novo amor o sono lhe impedia. Mas ela, enfim, os braços estendendo, em ramos se lhe foram transformando; em raízes os pés se vão torcendo, e o nome Loto só lhe vai ficando. Vede, Napeias, este caso horrendo, que vos está de longe ameaçando. Que assi também aquela a quem seguia o sacro Pan, a forma só perdia. E que direi de Fílis, que, perdida da saudosa dor em que vivia, com desesperação, enfim, trazida do comprido esperar de dia em dia, por desatar do corpo a triste vida atava ao colo a cinta que trazia, mas o tronco sem folha pelo monte Ródope abraça o lento Demofonte. Nas boninas também vereis Jacinto, por quem Febo de si se queixa em vão, vereis o monte Idálio em sangue tinto, do neto de seu pai, da mãe irmão. Chora Vénus a dor do moço extinto, maldiz o Céu e a Terra com razão; a Terra, porque logo não se abriu; o Céu, porque tal morte permitiu. E tu, constante Clície, a quem falece a fé de teus amores enganosos, no louro amante, que de ti se esquece, se esquecem os teus olhos saudosos. Nenhum alegre estado permanece, que são do mundo os gostos mentirosos; e tu, ó clara luz, por quem suspiras; ainda agora em erva a folha viras. Trago vos estas cousas à lembrança, porque se estranhe mais vossa crueza com ver que a criação e longa usança vos não perverte e muda a natureza. Dou estas lágrimas minhas em fiança que em tudo quanto está na redondeza cousa há de Amor isenta, se atentais, enquanto a vós não virdes, não vejais Já vos disse que de Amor sempre tiveram as cousas insensíveis pena e glória. Vede as sensíveis como se perderam; e dir vos ei das aves larga história. Que as penas que em sua alma se sofreram nas asas lhe ficaram por memória. E aquele alívio e leve movimento lhe ficou só por dor do pensamento. O doce rouxinol e a andorinha, de onde elas se foram transformando, senão do puro amor que o Trácio tinha que, em poupa, inda a amada anda chamando? Chama sem culpa a mísera avezinha que, nas areias de Fásis habitando, do rio toma o nome; e assi se vai chamando à mãe cruel, e mouro o pai. Vede a que enjeitou Palas por falar (que dos amores é maior defeito), e aquela que sucede em seu lugar, ambas aves; de Amor usado efeito; üa, porque fugia ao deus do mar; outra, porque temera o pátrio leito. E Cila, que a seu pai pôs em perigo, só por ser muito amiga do inimigo. A ele lhe ficaram ainda as cores da púrpura Real, que ter soía; Ésaco, que seguindo seus amores o trouxe a ver tão cedo o extremo dia: ou vede os dous tão firmes amadores que Amor aves tornou na praia fria. Do rei dos ventos era genro o triste, mas contra o Fado, enfim, nada resiste. Estava a triste Alcíone esperando com longos olhos o marido ausente, mas os irados ventos assoprando, nas águas o afogaram tristemente. Em sonhos se lhe está representando; que o coração pressago nunca mente; só do bem as suspeitas mentirão, que as do mal futuro, certas são. o pranto os olhos seus a triste ensaia; buscando o mar com eles, ia e vinha, quando o corpo sem alma achou na praia. Sem alma o corpo achou, que n' alma tinha! Nereidas do Egeio, consolai a, pois este triste ofício vos convinha! Consolai a; saí das vossas águas, se consolação há em grandes mágoas. Mas, oh! néscio de mi, que estou falando das avezinhas mansas e amorosas? Se também teve Amor poder e mando entre as feras monteses venenosas. O leão e a leoa, como ou quando tais formas alcançaram temerosas? Sabe o da deusa Dindimene o templo, e a que o deu a Adónis por exemplo. Quem fosse a mansa vaca, di lo ia; mas o grão Nilo o diga, que a adora. Que forma tem a Ursa, saber se ia do Pólo Boreal, onde ela mora. O caso de Acteon, também, diria em cervo transformado; e milhor fora que dos olhos perdera a vista escura que escolher nos seus galgos sepultura. (Daqui se tiraram duas oitavas) Tudo isto Acteon viu na fonte clara, onde a si de improviso em cervo viu; que quem assi destarte ali o topara, que se mudasse em cervo permitiu. Mas, como o triste amante em si notara a desusada forma, se partiu. Os seus, que o não conhecem, o vão chamando; e, estando ali presente, o vão buscando. Cos olhos e co gesto lhes falava, que a voz humana já mudada tinha. Qualquer deles por ele então chamava, e a multidão dos cães contra ele vinha. Que viesse ver um cervo, lhe gritava: —Acteon, aonde estás? Acude asinha! Que tardar tanto é este (lhe dizia)? — É este, é este, o eco respondia. Quantas cousas em vão estou falando, ó esquivas Napeias! sem que veja o peito de diamante um pouco brando d e quem meu dano tanto só deseja. Pois por mais que de mim andeis tirando, e por mais longa, enfim, que a vida seja, nunca em mim se verá tamanha dor que Amor a não converta em mais amor. Aqui, ó Ninfas minhas, vos pintei todo de amores um jardim suave; das aves, pedras, águas vos contei, sem me ficar bonina, fera ou ave. Se o amor dos peitos que deixei, que dos contentamentos tem a chave, por dita em tempo algum determinasse que de tão longos danos vos pesasse, quanto mais devagar vos contaria de minha larga história, e não alheia? E com quanta mais água regaria, de contente, que o rio a branca areia? Entre os contentamentos me seria este um não cuidado, e grande ideia; e vós, gostando deste estado ufano, zombareis então de vosso engano. Mas com quem falo, ou que estou gritando, pois não há nos penedos sentimento? Ao vento estou palavras espalhando; a quem as digo, corre mais que o vento. A voz e a vida, a dor me estão tirando, e não me tira o tempo o pensamento. Direi, enfim, as duras esquivanças que só na morte tenho as esperanças. A ti, Senhor, a quem as sacras Musas nutrem e cibam de poção divina, não as da fonte Délia Cabalina, que são Medeias, Circes e Medusas, mas aquelas em cujo peito, infusas, as leis estão, que as leis da Graça ensina, beninas no amor e na doutrina e não soberbas, cegas e confusas; este pequeno parto, produzido de meu saber e fraco entendimento, üa vontade grande te oferece. Se for de ti notado de atrevido, daqui peço perdão do atrevimento, o qual esta vontade te merece. Vai o bem fugindo, crece o mel cos anos, vão se descobrindo co tempo os enganos. Amor e alegria menos tempo dura. Triste de quem fia nos bens da ventura! Bem sem fundamento tem certa mudança, certo sentimento na dor da lembrança. Quem vive contente, viva receoso: mal que se não sente, é mais perigoso. Quem males sentiu, saiba já temer; e pelo que viu julgue o que há de ser. Alegre vivia, triste vivo agora; chora a alma de dia, e de noite chora. Confesso os enganos do meu pensamento: bem de tantos anos foi se num momento. Meus olhos, que vistes? Pois vos atrevestes, Chorai, olhos tristes, o bem que perdestes. A luz do sol pura só a vós se negue; seja a noite escura nunca a manhã chegue. O campo floreça, murmurem as águas, tudo me entristeça, creçam minhas mágoas. Quisera mostrar o mal que padeço; não lhe dá lugar quem lhe deu começo. Em tristes cuidados passo a triste vida; cuidados cansados, vida aborrecida! Nunca pude crer o que agora creio: cegou me o prazer do mal que me veio. Ah, ventura minha, como me negaste! Um só bem que tinha porque mo roubaste? Triste fantesia, quanta cousa guarda! Quem já visse o dia que tanto lhe tarda! Meus olhos, que vistes? Pois vos atrevestes, Chorai, olhos tristes, o bem que perdestes. A luz do sol pura só a vós se negue; seja a noite escura nunca a manhã chegue. O campo floreça, murmurem as águas, tudo me entristeça, creçam minhas mágoas. Quisera mostrar o mal que padeço; não lhe dá lugar quem lhe deu começo. Em tristes cuidados passo a triste vida; cuidados cansados, vida aborrecida! Nunca pude crer o que agora creio: cegou me o prazer do mel que me veio. Ah, ventura minha, como me negaste! Um só bem que tinha porque mo roubaste? Triste fantesia, quanta cousa guarda! Quem já visse o dia que tanto lhe tarda! Nesta idade cega nada permanece; o que ainda não chega já desaparece. Qualquer esperança foge como o vento: tudo faz mudança, salvo meu tormento Amor cego e triste, quem o tem, padece: mal quem lhe resiste! Mal quem lhe obedece! No meu mal esquivo sei como Amor trata: e, pois nele vivo, nenhum amor mata.