Reportagem em Terras de Bouro, concelho que tem a fatura de água mais baixa do País, resultado de um compromisso ancestral: a comunidade cedeu à autarquia o acesso às nascentes de terrenos privados e o município retribuiu com fatura mais baixa Joaquim Cracel estica a mão para a fria água que jorra da fonte em frente ao edifício da Câmara Municipal de Terras de Bouro e incita os visitantes: "Podem beber, é de qualidade." Água não falta no município minhoto, que oferece a fatura mais baixa do País, incluindo saneamento e recolha de lixo (segundo o Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal, divulgado em setembro pela ERSAR, a entidade reguladora do sector). E isso não acontece por acaso: ali, o líquido essencial sempre foi da comunidade, que cedeu à autarquia o acesso às fontes e nascentes de terrenos privados com a mesma generosidade com que a câmara retribui na conta mensal. Cracel, que preside à autarquia do distrito de Braga, desfia as razões de quem oferece a fatura de água, saneamento e lixo mais barata de Portugal (30,36 euros anuais, para um consumo médio mensal de dez metros cúbicos): "Deve-se a dois fatores: primeiro, porque quando se construíram as redes de abastecimento ao domicílio, logo a seguir ao 25 de Abril, se aproveitaram as nascentes das aldeias, que as pessoas e as comunidades cederam. Em troca houve o compromisso de a água permanecer sempre barata. Segundo, porque sendo Terras do Bouro um concelho com dificuldades e fraco poder de compra, assumimos a água como um apoio social." "É claro que isso tem custos para a câmara" - admite o autarca - "mas não é muito: são cerca de 40 mil euros por ano. E assim damos um apoio à população." "Somos seis e pagamos seis ou sete euros" Quem agradece são os 7300 habitantes do concelho, uma porta de entrada das serranias do Gerês, onde a montanha parece crescer a cada curva e contracurva da estrada. Maria Nunes, que passa apressada na rua, enquanto o sol da manhã ainda não aqueceu o granito em volta, a fatura mensal nem parece "assim tão barata". Contudo, revela: "Somos seis lá em casa e, em média, pagamos seis ou sete euros por mês" - um valor inimaginável em outros pontos do litoral do País (em Espinho, município mais caro, pagam-se 408,12 euros anuais, para um consumo médio mensal de 10 metros cúbicos). E a água barata é mesmo uma das poucas vantagens da interioridade. "O bom desta terra é que temos muita água", diz a transeunte, já de partida para casa. A tese é repetida por Vasco Dias. "Temos a vantagem de ter muita água nestas terras", afirma o comerciante, à porta da sua churrasqueira, enquanto espera clientes, para a hora de almoço. Eles hão de chegar, para consumir e implicar despesas variadas em lavagens de louça, limpezas e descargas de casa de banho. Mas isso ali não é problema assim tão grande. "Ter água mais barata é uma vantagem para os comerciantes do interior, em relação aos do litoral. No cenário atual, acho muito justo. E espero que isso se mantenha assim", aponta.