Mega Ferreira. Uma viagem pelas estantes das nossas almas A partir de uma série de colóquios, Mega Ferreira escreveu uma viagem por alguns dos autores fundamentais da literatura europeia. Uma escolha motivada pelo prazer, que Nuno Ramos de Almeida defende transcender o gosto pessoal Uma viagem é uma viagem. Esta começa com a "Odisseia", atribuída a Homero, passa pelo "estabelecimento" da literatura, a golpes de lança contra moinhos de vento, por "Dom Quixote", de Cervantes, entranha-se na genialidade de Goethe, tropeça no romance epistolar libertino de Laclos, derrama--se nas "Ilusões Perdidas" de Balzac, transporta-nos pelas páginas da "Guerra e Paz", de Tolstoi, da "Ilha do Tesouro", do romance de vida de Proust, para vir aterrar nos estranhos anos entre as duas guerras mundiais presos num sanatório por Thomas Mann. Finalmente, a décima etapa desta "Viagem pela Literatura Europeia" de António Mega Ferreira é dedicada ao "Livro do Desassossego", de Fernando Pessoa. Este livro de Mega Ferreira tem por base uma série de palestras dadas no Inverno de 2014 no El Corte Inglés. O livro é uma excelente jornada pela literatura europeia, o autor repete como critério um certo princípio do prazer nas suas escolhas, confessando nunca ter partilhado, embora também nunca se ter totalmente oposto, à ideia de cânone ocidental expressa por Harold Bloom, preferindo reafirmar, como Albert Manguel, que "os melhores guias são os caprichos dos leitores - confiança no prazer e fé no acaso -, que por vezes nos transportam a uma espécie de estado de graça e são capazes de transformar o linho em fios de ouro". Apesar desta declaração de fé quase epicurista, a leitura do livro de Mega Ferreira revela-nos muito do cânone ocidental que ele próprio renega. A ideia de que a literatura consegue ser uma espécie de estrutura que ocupa no pensamento humano o lugar que as matemáticas preenchem na ciência está, provavelmente sem querer, expressa neste muito interessante livro de Mega Ferreira. A escolha das etapas desta viagem deve-se certamente ao gosto próprio, mas também permite que várias leituras, tanto em termos de evolução da literatura como até do ponto de vista da história política e ideológica da Europa. Essa é aliás uma das muitas qualidades deste texto: permite-nos pensar a pluralidade das leituras sobre as obras que aborda. É caso para dizer que no nosso gosto pessoal há muito das escolhas e dos pensamentos dos outros. No capítulo inicial, sobre uma das obras atribuída a Homero, revela-se que "A Odisseia" pode ser vista como a simples história do regresso atribulado a casa de Ulisses, mas também como uma forma de inocentar a humanidade da maldade dos deuses, ou até como um processo, de séculos, em que uma tradição poética oral, provavelmente de autoria colectiva, se transforma em Homero. Todas estas questões se encontram plasmadas nas páginas de Mega Ferreira. O fascínio de um texto como o da "Odisseia" é essa capacidade de ser uma espécie de pranchas de Rorschach, em que o desenho espelha muito das estruturas do nosso pensamento, em que cada um é capturado pelos traços e lhe dá a sua própria lógica. O facto de ter sido um texto quase colectivo em que a passagem para a escrita foi mediada por séculos pode explicar muito desta capacidade de apreensão da alma colectiva. Mega Ferreira dá uma resposta "redonda" a uma mulher que lhe faz notar que a busca do pai num livro de Camus segue os passos da demanda de Telémaco, de Pilos a Esparta, por seu pai, Ulisses. Diz-lhe que "de uma maneira ou de outra, todas as paixões, anseios, virtudes e defeitos da espécie [humana] se encontram retratados nos poemas homéricos". Isso tem muito de verdadeiro. Infelizmente para parte da humanidade houve alguma coisa que se perdeu, e quando chegamos tarde a casa já não pega a desculpa de que fomos capturados, durante uma noite, por uma ninfa contra a nossa vontade, quanto mais durante sete anos. Na modernidade deve dizer-se que se foi comprar tabaco. Um dos aspectos desta viagem pela literatura europeia é o espaço que se dá a uma certa intertextualidade, à capacidade dos escritos de se pronunciarem e pensarem sobre si próprios. De certa forma é nesse acto que se dá uma certa ruptura epistemológica que faz que se passe de uma transcrição de histórias, muitas delas retiradas de tradições orais, para a emergência de uma literatura. Exemplo disso é a relação de "Dom Quixote" com as histórias de cavalaria. A obra de Cervantes é geralmente aceite como referência fundadora daquilo que se apelida moderna literatura ocidental. É esta capacidade de fazer um romance sobre o próprio romance que indicia essa revolução. Uma forma que pode ser vista pela primeira vez em "Dom Quixote", ou em romances de Lawrence Sterne, como "A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy", em que nas páginas são dispostas a imensidade das formas de contar uma história. Segundo Mega Ferreira, Cervantes tinha apenas como intenção escrever um livro divertido, "o que ele acabou de escrever (a forma como o fez) veio por acréscimo." E conclui o autor: "Assim é na errática sedução dos seus inúmeros desvios que se encontra, a meu ver, um dos mais poderosos efeitos da modernidade que o texto mágico de Cervantes provoca quatro séculos depois da sua publicação. Sobretudo na sua primeira parte, 'Dom Quixote' é um monumental palimpsesto." A sequência de autores escolhidos para esta viagem é reveladora. A Goethe, expoente máximo das paixões do romantismo, seguem-se "As Ligações Perigosas", de Laclos. Se para o primeiro, o génio, as paixões e as "afinidades electivas" estavam na ordem do dia, para os libertinos outra fé se estabelecia. Os homens do Sturm und Drang (tempestade e ímpeto) com que Goethe alinhou defendiam sobre o que escreviam e viviam: "Em substituição dos cânones literários proclama-se o valor da natureza "original"; a virtude e os jogos de espírito cedem o lugar à força e ao génio. Em vez de moral reclamam paixão; em vez da forma, os excessos geniais; em vez da ordem, a fecundidade do caos; em vez da sociedade, o povo; em vez da justa medida, a liberdade tumultuária", como escrevia Goethe na "Paixão do Jovem Werther". Já para os libertinos como Laclos, a fazer fé em Roger Vailland, outros amanhãs cantavam. "O amor é também um prazer", assim começa Roger Vailland o seu "Esboço para "Um Retrato de Um Verdadeiro Libertino". Nesta pequena obra, o escritor francês defende que o amor-prazer se opõe tão rigorosamente ao amor-paixão como a liberdade à escravatura. No amor--paixão os amantes aceitam passivamente "o curso inexorável" de um destino que não elegeram. Pelo contrário, o libertino escolhe o objecto do seu prazer. O libertino não pretende apaixonar-se, nem perder-se. Vê na paixão uma alienação que não lhe permite ser livre e controlar a sua vida. A sua verdadeira forma de comportamento está inscrita na frase do Divino Marquês, Sade, num romance: "Ele poisou em mim o olhar frio do verdadeiro libertino." Nada é mais estranho ao espírito da libertinagem que a linguagem das "afinidades electivas" de Goethe. A ideia da predestinação das almas gémeas é totalmente repugnante para aquele que apenas a liberdade segue. A geometria variável da cama seria parte desse processo de libertação perante uma moral burguesa. Para Vailland, "a cama é para o amor-prazer o que o dinheiro é para o jogo. Foi precisa uma certa burguesia para imaginar o jogo a feijões e o amor sem cama". "Libertino" designava originalmente o filósofo ateu. A palavra foi-se transformando, pela lei da vida, naquele que escorraça Deus e a moral dos outros da sua cama. Defendia Borges que a vida estava totalmente inscrita no universo de uma biblioteca, que teria a capacidade de sobreviver, estranhamente, à própria vida. "A Biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direcção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem). A minha solidão alegra--se com essa elegante esperança", escrevia. Recomenda-se, portanto, muito esta "Viagem pela Literatura Europeia". Nuno Ramos de Almeida