Rachel Joyce. "Os prémios são uma armadilha" Mil quilómetros separam um homem de si mesmo. Ou assim o descobrirá o protagonista de “A Improvável Viagem de Harold Fry”, que um dia recebe uma carta de uma amiga que não vê há 20 anos e que está a morrer. Harold não se fica pela simples resposta por correio e decide caminhar até à amiga. Carolina Pelicano Falcão falou com a autora sobre a peregrinação e Eduardo Martins conseguiu que a timidez da autora não impedisse um retrato A viagem a Lisboa foi curta de mais para Rachel Joyce saber onde estava. Chegou à capital de noite e foi directa para o hotel sem ver as vistas. Tudo isto provocou-lhe a sensação de acordar em nenhures. Assim nos conta a própria, que, antes de uma série de entrevistas que neste dia a esperavam, foi à rua a ver se sentia a cidade. Antes de voltar a embarcar, nesse mesmo dia, a escritora inglesa de 52 anos, que durante muitos outros foi actriz e depois disso se dedicou a escrever peças para a BBC Radio Four, falou-nos sobre o seu romance de estreia, pelo qual a crítica a inscreveu na rota da nova geração de escritores ingleses. Prémios à parte - como o National Book Award -, que considera uma armadilha que não quer que influencie o que escreve, a sua ode vai para a vida simples. Começou a escrever este romance quando soube que o seu pai tinha cancro. Como saltou desta notícia para a história de um homem que um dia sai de casa para pôr uma carta no correio e nunca mais pára de andar? Acho que conscientemente não sabia o que estava a fazer. Muitas vezes quando se escreve uma história não se sabe porquê. O meu pai já tinha cancro há uns quatro anos mas aquele foi o ponto em que nos disseram que não havia nada a fazer. Foi um período devastador. Foi aí que comecei a escrever, em segredo. Não contei a ninguém. Mas agora olhando para trás percebo que nessa altura me apercebi de que o meu pai estava a morrer, que não havia nada a fazer, e então comecei a escrever a história deste homem que salva alguém. Às vezes a vida apanha-nos em momentos caóticos e escrever é como tentar dar uma estrutura a isso e uma nota positiva. Porque na altura nunca consegues ver coisas positivas. Harold, a personagem do livro, tem semelhanças com o seu pai? Sim, tem algumas. Acho que o Harold é uma mistura de muitas pessoas diferentes. Mas uma coisa que tinham em comum é a maneira como usavam a gravata e o casaco. E também ambos tinham muita dificuldade em falar das coisas que sentiam, uma certa reserva. No livro, a palavra "fé", não num sentido religioso, é o que conduz Harold na sua viagem, quando conhece uma rapariga numa bomba de gasolina que lhe fala na importância de acreditar nalguma coisa. Acha que a fé é o que move as pessoas? Sim, acho que sim. Muitos de nós andamos à procura de uma verdade que é maior do que nós. De certa maneira, a viagem de Harold é uma peça de arte: não sabes se vais chegar ao fim, não sabes sequer se está certo, não sabes se vai funcionar ou se alguém vai gostar. Mas, ainda assim, fazes a coisa. E isso é fé. Acho que tem a ver com tentar fazer algo da vida. E isso é bom. Acho que todos nós, de certa maneira, andamos a tentar encontrar sentido. Já encontrou sentido na vida? Sim, até certo ponto sim. Escrever, para mim, é uma maneira de tentar realmente entendê-la. O caminho feito por Harold não é apenas uma maneira de manter viva a sua amiga mas também uma peregrinação dentro dele próprio. Qual é a mística de andar, de peregrinar? Li bastante sobre peregrinação quando estava a escrever este livro e o que percebi é que a viagem é a coisa. Ou seja, que às vezes o simbolismo não tem a ver com o sítio onde vais, com o destino, mas está no próprio caminho, pôr os pés na estrada e retirares-te daquilo que conheces leva-te a um estado reflexivo. Também fiquei interessada na questão da atenção, de estar realmente ali e não nas tuas memórias, mas no presente. Para mim, o Harold é como uma pessoa que está adormecida há 20 anos e que negou várias verdades sobre a sua vida. Quando aquela carta que o faz andar chega, é como se ele estivesse à espera que alguma coisa o abanasse. Alguma vez sentiu esse impulso de simplesmente caminhar e não parar mais? Uma vez perguntaram-se se não me conseguia encontrar a mim própria se simplesmente estivesse num aeroporto com uma mala. E eu disse que não, claro [risos]. Algumas vezes, quando as coisas pareciam pesar demasiado, simplesmente saía para andar. Mas geralmente dura dez minutos, depois volto para casa. Mas isto é diferente, é como uma resposta a uma coisa com a qual não sabes lidar. Esta viagem do Harold é uma coisa que lhe permite ir a um sítio mais e mais profundo. Tem conhecido muitos Harolds na vida, muita gente "apagada", digamos? Algumas pessoas como ele, sim. Vivo numa terra muito pequena e tranquila e vejo muitas vezes, em particular homens de uma certa idade, que simplesmente estão a andar pela rua e pergunto-me o que andarão a fazer e aonde irão. Nunca calhou perguntar-lhes? Não, não. Acho que os assustaria [risos]. Assim como a longa caminhada de Harold mantém a amiga viva, este livro é uma maneira de manter vivo o seu pai? Acho que acaba por resultar nisso. Quando alguém morre, temos de ser muito cautelosos porque há a tentação de reescrever essa pessoa, e essa pessoa já aí não está para aclarar as coisas. Portanto não se pode romantizá-la. Mas, claro, enquanto escrevia, pensei muito no meu pai, senti muitas saudades dele. Bom, não sou diferente das outras pessoas. Numa entrevista dizia que grande parte do sentimento envolvido neste livro tinha a ver com a bravura e a coragem das pessoas comuns de lidar com as grandes situações da vida. A que se referia exactamente? Todos nós fazemos coisas comuns. Lavamos a loiça, todos vivemos vidas normais, digamos, e temos todos muito em comum nesse sentido. Mas às vezes acontecem-nos coisas que realmente nos atiram para o lado e de maneira alguma podem ser previstas. E acho que lidamos com essas coisas de uma maneira mundana. Por exemplo, a minha filha mais nova, quando tinha três anos, adoeceu gravemente. Eu estava a fazer as minhas coisas e ela estava bem e no minuto a seguir olhei e ela estava completamente azul. E pensei: "Tenho de a levar ao hospital. Não, mas primeiro tenho de acabar de tirar as comprar do carro. Não, não, as compras não têm importância, tenho de a levar já." É a este tipo de mudanças bruscas que me refiro, de passar de coisas banais para grandes questões em segundos, e tens de responder--lhes, mas não num sentido heróico. Cometemos erros. Mas essas situações vão fortalecendo as pessoas aos poucos, não? Sim. Acho que temos de ir ficando mais fortes porque, quanto mais formos compreendendo, quanto mais honestos connosco mesmos formos, menos estaremos a fingir. Nesse sentido, sente-se uma pessoa diferente do que era há uns anos? Bom, sim, mas continuo a sentir-me a mesma pessoa que sentia com seis anos, só que pareço mais velha [risos]. E provavelmente sinto-me mais certa em relação a algumas coisas. Mas tenho a certeza que a vida vai continuar a surpreender-me. Este livro foi o seu primeiro romance e foi um enorme sucesso, já que ganhou até o National Book Award. Esperava que isso acontecesse? De maneira alguma. Foi muito bom mas foi também um choque, acho que fiquei sem saber como responder a isso. Aconteceu tudo muito depressa e para mim a coisa que mais interessava era simplesmente publicar o livro, que era o fim desta jornada. Tudo o resto que veio depois foi uma coisa que de maneira alguma pensei que acontecesse. A questão dos prémios é muito bizarra. Bizarra como? Bom, acho que os prémios são coisas engraçadas mas implicam um julgamento de valor. É muito uma escala de estrelas. Em Inglaterra tudo tem agora classificação de estrelas, quatro, cinco, nove. E às vezes pergunto: "Mas porquê é que tudo tem de ter estrelas?" Mas de estimulou-a para continuar a escrever? A Rachel já escrevia há muitos anos para a rádio, mas nunca tinha publicado um romance. O prémio não, mas publicar este livro sim, fez-me escrever mais. Na verdade tento afastar-me da ideia do prémio. Não que não seja uma grande honra, mas fazer ou deixar de fazer as coisas por causa de prémios ou da falta deles não é bom. É mais ou menos uma armadilha. Mas antes deste livro nunca teve vontade de escrever romances? Durante muito tempo escrevi prosa, mas simplesmente nunca mostrei a ninguém. Nunca pensei que era suficientemente boa. Mas com este "A Improvável Viagem de Harold Fry" teve esse receio? Na altura não achava que fosse suficientemente bom. Mas começo a aperceber- -me de que ao escrever um livro nunca sabemos muito bem o que é até alguém o ler. É como se fosse uma coisa de reflexo, que brilha de volta para ti depois de ter passado por outra pessoa. Essa é a minha batalha: para uma pessoa que tem muitas dúvidas pessoais o seu trabalho é livrar-se delas. Foi actriz durante muito tempo, trabalhou em companhias como a Royal Shakespeare Company. Porque não seguiu com a carreira? Por várias razões. Adorava representar mas comecei a ter filhos e durante algum tempo geria tudo. Ser actriz é uma carreira brilhante quando se é jovem, e para mim foi, mas com o tempo já não queria viajar e estar sempre longe da família. E também havia o lado social da coisa, e chegou uma altura em que queria estar por minha conta, a trabalhar tranquilamente. Tem saudades de representar? Não. Escrever é parecido com representar. Quando estás numa peça estás a expressar alguma coisa, e é o mesmo quando escreves, estás a expressar algo. Li que vive numa quinta, com o seu marido, os seus filhos e muitos animais. Gosta de estar no campo? Adoro. Somos muito felizes lá. Até há 12 anos vivemos em Londres mas tanto eu como o meu marido ficámos mais interessados na terra, em poder olhar para o céu. Essas coisas alimentam-nos. Como as cidades dantes faziam mas já não fazem. Carolina Pelicano Falcão