Tunísia. Uma Nova Esperança Na semana em que George Lucas completou 70 anos, Ágata Xavier guia-o, por texto e fotografias, numa viagem intergaláctica ao local que o realizador e produtor elegeu para quase todos os seus filmes: a Tunísia Acho que já estou a ver duas luas!", diz Sofia depois ter dançado num casamento árabe - e ter jantado uma costeleta de dromedário grelhada acompanhada por um bom vinho tinto local. "Não são luas, são sóis", apressam-se a corrigir. Estamos em Tatooine, o planeta de dois astros brilhantes, um amarelo e outro vermelho, que viu nascer Anakin e Luke Skywalker, o vilão e o herói de "Guerra das Estrelas", a epopeia intergaláctica assinada por George Lucas. Ou melhor, estamos na Tunísia, o palco de cinco dos seis filmes que compõem a saga. E aqui o sol continua a ser um, por enquanto. Este país do Norte de África mantém- -se nas notícias pelas mudanças políticas e de mentalidades por que tem passado, fruto da Revolução de Jasmim. Na Tunísia sente-se que há "Uma Nova Esperança", tal como o título que Lucas escolheu para iniciar a sua epopeia. A Tunísia, grande impulsionadora da chamada Primavera Árabe, vive hoje a sua própria odisseia no espaço - à procura de um lugar no espaço democrático. Mas também se tem falado da Tunísia a propósito de outro espaço, o galáctico, e do novo filme da "Guerra das Estrelas", cujo elenco foi revelado há cerca de duas semanas. Foi aqui que o realizador e produtor George Lucas montou o seu set de gravações, no final da década de 70, para criar aquela que viria a tornar-se a mais emblemática história do bem contra o mal a ter lugar fora do planeta Terra. Entre os filmes "THX 1138" e "Nova Geração", e antes de preferir o fundo verde (o chroma) para dar vida a outros mundos, Lucas escolheu o Sul da Tunísia para filmar "Guerra das Estrelas". Várias naves e criaturas fantásticas apareceram no deserto de Chott El Jerid, perto de Nefta e Tozeur, duas cidades junto à fronteira com a Argélia. Montaram-se acampamentos nas montanhas e usaram-se as casas trogloditas escavadas na pedra, em profundidade ou comprimento, para o cenário. Luke Skywalker, o jovem treinado por Obi Wan Kenobi para lutar contra o lado negro da Força, morava numa delas. Actualmente, pode passar uns dias na casa em que o Jedi cresceu, convertida no Hotel Sidi Driss, um complexo escavado na terra - em que as paredes são brancas e as portas amarelas. Em plena região montanhosa de Matmata, a 40km do oásis de Gabes, o hotel mantém intacta a sala em que Luke conversa com os tios no "Episódio IV: Uma Nova Esperança". O tecto preserva as pinturas originais e a divisão reproduz fielmente a decoração usada na cena. No bar, para lá do sabre de luz, das cabeças de um Stormtrooper ou de Darth Vader pendurados na parede, e da colecção de cromos do elenco da primeira trilogia, há uma televisão ligada a um leitor de DVD confinado a transmitir os mesmos três minutos de sempre: a cena referida anteriormente entre Luke e a sua família. Por cerca de 10€ pode passar uma noite numa caverna igual à do filme, com o mínimo indispensável para uma boa noite de sono. Perto do hotel encontra Toujene, uma região montanhosa com casas semelhantes, onde habitam os povos nómadas de origem berbere. Aí poderá deliciar-se com a vista enquanto saboreia uma pizza local e um chá de menta. Além disso, é um óptimo sítio para conhecer a tapeçaria berbere, em que as mulheres tosquiam as ovelhas, fiam a lã, tingem-na com recurso a produtos naturais - flores, folhas, insectos ou outros - e tecem-na em tapetes ou mantas cheios de pormenor. Com preços que podem oscilar entre os 30€ e os 500€ (sempre regateáveis), os tapetes são vendidos em lojas geridas pelos filhos das artesãs. Os motivos, geométricos e alusivos à cultura berbere (o peixe, o olho da mulher ou a borboleta), são feitos de memória e sem guião. As cores tradicionais são o vermelho e o dourado, embora se encontrem vários tons de azul, verde e amarelo. Por perto encontrará a duna em que R2-D2 e C-3PO se despenham no início do episódio IV. Seguindo para sul descobrirá Tataouine, a cidade que dá o nome ao planeta criado por George Lucas: Tatooine. As suas vilas são rodeadas por pequenas fortificações, semelhantes a castelos, conhecidas por ksours. Algumas delas aparecem nos filmes da saga, sobretudo no mais recente "Episódio I: A Ameaça Fantasma" (2005), como habitações de escravos. Se seguir para o interior, em direcção ao oásis de Tozeur, encontrará um cenário natural que rivaliza com os mais modernos efeitos especiais, Chott El Jerid, o Lago Salgado. Um mar imenso sem água, apenas sal, cortado por uma única estrada que liga o litoral ao interior. Poderá contorná-lo mas, embora as suas costas agradeçam, a sua memória ficará mais pobre. São cerca de 150km de deserto branco, pontuados no início e no fim por cáfilas de dromedários, apreciadores fervorosos de Hamada, uma erva que cresce perto de zonas salgadas. Foi aqui que o jovem Luke contemplou o pôr de dois sóis no "Episódio IV: Uma Nova Esperança". Já em Tozeur, a 300km de Tataouine, dirija-se a Chott El-Gharsa e encontrará um fenómeno raro na natureza, os yardangs. Esta solidificação de areia em forma de garra, e com nome turco, foi palco de uma importante batalha entre Qui-Gon Jinn e Darth Maul no "Episódio I: A Ameaça Fantasma" (1999). O Rally Paris-Dakar costumava passar por aqui. Por perto, em Nefta, está o ex-líbris da série, o cenário quase completo de Mos Espa, com 15 edifícios praticamente intactos. As restantes partes estão cobertas por dunas e entregues à passagem impiedosa do tempo. Uma associação formada por cientistas e pelo Instituto para o Desenvolvimento do Turismo de Oásis e do Sara (CDTOS) criou recentemente um projecto de recuperação do local das rodagens chamado "Save Mos Espa" ( www.savemosespa.org ). Gérald Vernies, um dos responsáveis, explica ao LiV a importância da preservação do local. "Existem dois objectivos: salvar e recuperar o local das rodagens para os fãs de 'Guerra das Estrelas' espalhados pelo mundo e ajudar as pessoas da região através da criação de emprego e de actividades culturais e sociais." Para as obras já efectuadas contaram com o apoio financeiro da Câmara de Tozeur e com a ajuda de Taieb Jellouli, o construtor do cenário original. Apesar de muitos tunisinos não terem visto os filmes, têm uma relação especial com eles. "Muitos habitantes daquela zona trabalharam nas rodagens como técnicos, decoradores ou figurantes", explica Gérald. E continua: "Eles guardam vários souvenirs e consideram que a sua região, e eles próprios, fazem parte da saga." Ligado a este projecto está também o grupo de fãs do país: o Star Wars Tunisia. Além de ter organizado uma marcha em Tunes no final de Abril - data em que foi divulgado o elenco do sétimo filme -, recriou mais uma versão vídeo do êxito de Pharrell Williams, "Happy", com Stormtroopers e outras personagens a dançarem em diferentes cenários do filme. O próprio Pharrell não deixou de o partilhar através da sua conta de Twitter. Este ano, entre os dias 21 e 24 de Fevereiro, teve lugar a primeira edição de Les Dunes électroniques, considerado pelo site Topito o festival mais insólito do mundo (o Festival Boom, realizado em Idanha-a-Nova, vem em terceiro lugar). Este festival decorre em Nefta, em pleno local de gravações. A nova geração tunisina, que não se revê no estilo musical tradicional do país, procura assim novos lugares, e maneiras, para se distrair, ao mesmo tempo que aproveita um dos lugares mais emblemáticos da sétima arte. George Lucas não filmou ou produziu apenas "Guerra das Estrelas" em solo tunisino. Foi lá que deu vida ao arqueólogo mais charmoso do cinema, ao produzir "Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida", filme realizado por Steven Spielberg no início dos anos 80. Harrison Ford repetiu a viagem, depois de já ter interpretado Han Solo na saga galáctica, mas desta vez foi até ao oásis de Chebika, a norte de Tozeur. Este oásis natural estará na origem do nome Chewbacca, uma das personagens mais emblemáticas de "Guerra das Estrelas". As suas ruínas, por onde Jones passeou o seu chicote, resultam de uma forte inundação ocorrida no final dos anos 50 e foram usadas nas filmagens, assim como os desfiladeiros que as rodeiam. A famosa cena em que Indiana Jones dispara sobre um virtuoso da espada foi filmada em Kairouan, uma cidade no Nordeste da Tunísia, muito importante para o mundo islâmico por possuir a mesquita mais antiga do Norte de África: Sidi-Uqba. A maior parte das rodagens fez-se na medina desta cidade a cerca de 45km de Sousse, um importante ponto turístico no litoral do país. Enquanto o novo filme de "Guerra das Estrelas", com estreia prevista para 2015, vai animando os admiradores mais fervorosos, a Tunísia mantém viva a memória das trilogias anteriores. O i viajou a convite do Turismo da Tunísia e da Soltrópico. Ágata Xavier