Portugal: primeiro estranhamos e depois conformamo-nos Os dados objectivos não se prestam a euforias neste dia 17 de Maio, que apenas marca a nova forma de a troika cá estar É difícil imaginar a alegria e as festividades que vão por esse país fora neste dia 17 de Maio, em que Portugal se liberta do jugo opressor da troika. Estando a ser preparada na sexta-feira, dificilmente nesta edição se poderá anunciar quantos Vasconcelos terão sido já defenestrados neste novo dia de Restauração à hora a que os leitores tomam contacto com a edição de  fim-de-semana. Depois de tão patriótica acção política de ajustamento, seria uma triste ingratidão a população não acorrer ao Paço para saudar a efeméride e preferir ir para o campo, para a praia, para o Jamor ou para a frente das televisões. Todavia, é provável que faça isso mesmo e se marimbe para qualquer manifestação de júbilo que não seja desportivo, mostrando uma cruel ausência de compreensão em relação à data histórica que assinalamos. Mas percebe-se. Na verdade, hoje não comemoramos nada, porque Portugal não ganhou nenhuma autonomia suplementar. Nem sequer se conseguiu concluir a 12.a avaliação com sucesso porque ela impõe mais um conjunto escondido de sacrifícios balbuciados à pressa pelo governo junto dos parceiros sociais. Mesmo que se ensaie na reunião do governo algum anúncio de prestidigitação triunfal, o que se passa é que, como o i referia sexta-feira, caiu um balde de água fria e de realismo em cima do executivo com os resultados do primeiro trimestre. Depois de três anos de troika e de 30 mil milhões de euros de austeridade, em que Portugal não só não cresceu como teve uma contracção de 3,4% do PIB, tendo o défice acumulado chegado a 15,3%, as pessoas vivem uma situação dramática. O país não está melhor, apenas beneficia de uma conjuntura favorável. A economia não se modificou, não houve desenvolvimento apesar da desvalorizarão do trabalho e a situação social degradou-se. Cortaram-se vencimentos, pensões, regalias, postos de trabalho públicos, gerou-se um desemprego enorme na área privada e muitos dos mais preparados emigraram. A necessária reforma do Estado foi atirada para as calendas gregas e optou-se pela multiplicação e pelos aumento de impostos. Tão responsável como os líderes políticos da coligação, ou mais, por tamanho erro estratégico e de visão é Vítor Gaspar, que abandonou o seu cargo e agora o país. Exemplos não faltam de que quase tudo está igual. Desta semana bastam dois: os juízes continuam a ser todos muito bem pontuados quando se sabe que há situações surrealistas protagonizadas por alguns e não se arranja um perfil para a Autoridade Tributária, o que diz bem da degradação do prestígio do Estado e das condições que oferece. Tirando a venda de grandes empresas sadias que deixaram de dar rendimento ao Estado através de dividendos, não houve uma reestruturação significativa do sector empresarial do Estado e a que se prepara é a fusão da Refer e da Estradas de Portugal, susceptível de produzir o maior monstro de todos os tempos na área pública. As mensagens de optimismo não colam com a realidade, a ponto de estranhamente o próprio Passos Coelho ter admitido a possibilidade de formar governo com os socialistas, o que deixou consternado o CDS, que pode ser ele próprio a fazer o mesmo depois das legislativas. Já habituados a que as mudanças nada mudem, os portugueses estão cada vez mais conformados e indiferentes, como certamente se verá no dia 25. // Conteúdo Relacionado Troika de saída. Ajustamento custou mais 21 mil milhões do que estava previsto