{1}1
No terceiro ano do reinado de Joaquim em Judá, Nabucodonosor, rei da Babilónia, foi até Jerusalém e cercou a cidade. O Senhor entregou-lhe nas mãos Joaquim, rei de Judá, e parte dos objectos do Templo de Deus. Ele então levou tudo para a terra de Senaar e guardou os objectos na sala do tesouro do templo do seu deus.
Depois o rei deu ordem a Asfenez, chefe dos eunucos, para escolher, entre os israelitas da família real ou de outras famílias importantes, alguns jovens sem nenhum defeito físico, de boa aparência, instruídos em toda a espécie de sabedoria, práticos em conhecimento, gente de ciência, capazes de servir na corte do rei; deu também ordem para que lhes ensinasse a literatura e a língua dos caldeus. O próprio rei destinou-lhes uma ração diária da comida e do vinho da mesa real. Eles deveriam ser preparados durante três anos, e depois passariam a servir o rei. Entre eles estavam Daniel, Ananias, Misael e Azarias, que eram judeus. O chefe dos eunucos deu-lhes outros nomes: Daniel passou a chamar-se Baltassar; Ananias, Sidrac; Misael, Misac; e Azarias, Abdénago.
Daniel resolveu que não iria contaminar-se com as comidas e o vinho da mesa real. Pediu ao chefe dos eunucos permissão para não aceitar essas comidas. O Senhor fez com que Daniel conquistasse a simpatia do chefe dos eunucos. Este disse-lhe: «Tenho medo do rei, meu senhor, que determinou pessoalmente o que deveis comer e beber. Se ele perceber que os vossos rostos estão mais pálidos que os dos outros jovens da mesma idade, tornar-me-eis culpado de crime de morte aos olhos do rei». Daniel disse ao funcionário, a quem o chefe dos eunucos havia confiado Daniel, Ananias, Misael e Azarias: «Faz uma experiência connosco: durante dez dias não nos dês a comer senão vegetais, e água a beber. Depois, compara a nossa aparência com a dos outros jovens que comem da mesa do rei. Depois agirás connosco como achares melhor». O funcionário aceitou a proposta e fez a experiência durante dez dias. No final dos dez dias, estavam com boa aparência e corpo mais saudável que todos os jovens que comiam da mesa do rei. Então o funcionário tirou definitivamente a comida e o vinho da mesa dos jovens e passou a dar-lhes somente legumes. Aos quatro jovens Deus concedeu o conhecimento e a compreensão de toda a literatura e também sabedoria. A Daniel especialmente, deu o dom de interpretar visões e sonhos.
Terminado o tempo que o rei havia fixado para os jovens serem apresentados, o chefe dos eunucos levou-os à presença de Nabucodonosor. O rei conversou com eles e não encontrou ninguém melhor do que Daniel, Ananias, Misael e Azarias. E, a partir desse momento, entraram ao serviço do rei. Por tudo o que procurou saber deles em termos de conhecimento e sabedoria, o rei achou que eram dez vezes mais capazes que todos os magos e adivinhos que havia no seu reino. Daniel ficou ali até ao primeiro ano do reinado de Ciro.
{1}2
No segundo ano do seu reinado, Nabucodonosor teve um sonho e ficou tão assustado que chegou a perder o sono. Mandou chamar os magos, astrólogos, agoureiros e adivinhos para interpretarem o sonho. Chegaram e foram levados à sua presença. Então o rei disse-lhes: «Tive um sonho que me assustou e quero saber o que ele significa». Os adivinhos disseram ao rei: «Viva o rei para sempre! Conta-nos o sonho e dar-te-emos a explicação». O rei respondeu aos adivinhos: «Esta é a minha decisão: se não me expuserdes o conteúdo do sonho que tive, nem me derdes a sua interpretação, sereis feitos em pedaços e as vossas casas serão transformadas em ruínas. Porém, se me contardes qual foi o meu sonho e qual é a sua interpretação, recebereis de mim donativos, presentes e muitas homenagens. Dizei qual foi o meu sonho e qual é a sua interpretação». Os adivinhos disseram: «Majestade, conta-nos o sonho, e dar-te-emos a interpretação». O rei respondeu: «Estou a ver que quereis ganhar tempo. Sabeis que dei uma ordem, e se não me contardes o meu sonho, tereis todos a mesma sentença. Combinastes mentir e enganar-me, esperando que a situação mude. Dizei-me qual foi o meu sonho, e eu terei a certeza de que sereis capazes de o interpretar». Os adivinhos disseram ao rei: «Não há ninguém no mundo que possa fazer o que o rei nos pede. Nenhum rei, governador ou chefe jamais pediu uma coisa dessas a qualquer mago, astrólogo ou adivinho. O que o rei exige é sobre-humano; somente os deuses, que não habitam com os mortais, podem dar ao rei a solução». Ao ouvir isto, o rei ficou furioso e mandou matar todos os sábios da Babilónia.
Quando foi publicado o decreto que condenava à morte todos os sábios, procuraram Daniel e seus companheiros, a fim de os executarem também. Então Daniel falou com inteligência e bons modos a Arioc, o carrasco-chefe do rei, encarregado de matar todos os sábios da Babilónia. E disse-lhe: «Qual é a razão de um decreto tão rigoroso do rei?» Então Arioc contou o caso a Daniel. E Daniel mandou pedir ao rei que lhe fosse dado um prazo, a fim de poder dar a interpretação do sonho.
Daniel vol-tou para casa e contou o facto aos companheiros Ananias, Misael e Azarias. Disse-lhes para pedirem ao Senhor do céu a graça de desvendar o segredo, para não serem mortos com os outros sábios da Babilónia. Então o mistério foi revelado a Daniel numa visão nocturna. E ele glorificou o Deus do céu:
«Que o nome do Senhor seja louvado,
desde agora e para sempre,
pois a Ele pertencem
a sabedoria e o poder.
Ele modifica os tempos e as estações,
depõe e entroniza dos reis,
dá sabedoria aos sábios
e ciência aos inteligentes.
Ele revela os segredos mais profundos
e sabe o que as trevas escondem,
pois a luz mora com Ele.
A Ti, Deus de meus pais,
eu louvo e celebro,
porque me deste sabedoria e poder.
Tu me revelaste o que Te pedi
e revelaste-me o caso do rei».
Depois disto Daniel procurou Arioc, a quem o rei tinha encarregado de matar os sábios da Babilónia. Aproximando-se dele, disse-lhe: «Não precisas de matar os sábios. Leva-me ao rei, e eu interpretarei o sonho que ele teve».
Arioc apressou-se a levar Daniel à presença do rei, dizendo-lhe: «Encontrei este jovem entre os judeus aqui exilados e que é capaz de interpretar o sonho do rei». O rei perguntou a Daniel, cujo nome era Baltassar: «És mesmo capaz de me contar e interpretar o sonho que tive?» Daniel respondeu ao rei: «Os sábios, astrólogos, magos e adivinhos não são capazes de desvendar o segredo que Vossa Majestade lhes propôs. Mas há no Céu um Deus que revela os segredos. Ele revelou ao rei Nabucodonosor o que acontecerá nos últimos dias. Este é o sonho que Vossa Majestade viu quando estava deitado: Vossa Majestade estava na sua cama e pensava naquilo que ia acontecer no futuro. Então, Aquele que revela os segredos fez-lhe conhecer o que acontecerá. Não é por em mim haver maior sabedoria que nos outros homens que este mistério me foi revelado; foi apenas para poder dar a Vossa Majestade a explicação e interpretação das imagens que lhe povoaram a mente.
Vossa Majestade teve uma visão: Era uma grande estátua, alta e muito brilhante. Ela estava diante de Vossa Majestade e tinha uma aparência impressionante. A cabeça da estátua era de ouro maciço, o peito e os braços eram de prata, o ventre e as coxas eram de bronze, as pernas de ferro e os pés eram parte de ferro e parte de barro. Vossa Majestade estava a contemplar a estátua, quando, sem intervenção de mãos, uma pedra se desprendeu da montanha e veio bater exactamente nos pés de ferro e barro da estátua, quebrando-os. Ao mesmo tempo quebrou-se tudo o que era de ferro, de barro, de bronze, de prata e de ouro. Ficou tudo como se fosse palha na eira depois da debulha, palha que o vento leva sem deixar sinal. Depois, a pedra que tinha atingido a estátua transformou-se numa enorme montanha que cobriu o mundo inteiro. Foi este o sonho. Agora vamos dar a Vossa Majestade a interpretação.
Vossa Majestade é o rei dos reis, a quem o Deus do céu concedeu o reino e o poder, o domínio e a glória. Em todo o mundo habitado Ele entregou-vos os seres humanos, as feras e as aves do céu, para que Vossa Majestade domine sobre tudo isso. Assim, Vossa Majestade é a cabeça de ouro. Depois de Vossa Majestade, vai aparecer outro reino, menor que o vosso; depois, um terceiro reino, o de bronze, que dominará sobre toda a Terra. O quarto reino será duro como o ferro, pois assim como o ferro esmaga e esmigalha tudo, assim também ele quebrará e esmigalhará todos os outros. Os pés e os dedos que Vossa Majestade viu, parte de ferro e parte de barro, significam um reino dividido. Ele tem a dureza do ferro, pois Vossa Majestade viu ferro misturado com uma parte feita de barro. Os dedos dos pés, metade de ferro e metade de barro, significam um reino firme por um lado, mas fraco por outro. O ferro que Vossa Majestade viu misturado com barro significa que as pessoas se juntarão por casamentos, mas não se ligarão umas com as outras, assim como o ferro não faz liga com o barro. Durante este último reinado, o Deus do céu fará aparecer um reino que nunca será destruído. Será um reino que não passará para as mãos de outro povo, mas, pelo contrário, humilhará e liquidará todos os outros reinos, enquanto que ele continuará firme para sempre. Esse reino é a pedra que rolou do monte sem ninguém a empurrar e esmigalhou o que era de barro, ferro, bronze, prata e ouro. O grande Deus mostrou ao rei o que acontecerá daqui em diante. O sonho tem sentido e a sua interpretação é digna de fé».
Então o rei Nabucodonosor deitou-se com o rosto por terra na frente de Daniel, mandando oferecer-lhe sacrifícios e queimar-lhe incenso. E o rei disse a Daniel: «De facto, o vosso Deus é o Deus dos deuses, o Senhor dos reis; Ele revela os mistérios, pois só tu foste capaz de desvendar este segredo». Em seguida, o rei promoveu Daniel: deu-lhe uma quantidade enorme de presentes e quis fazer dele o governador de todas as províncias da Babilónia e o chefe geral de todos os sábios do país. Daniel, porém, pediu ao rei que nomeasse Sidrac, Misac e Abdénago para a administração das províncias, enquanto Daniel ficaria a servir na ante-sala do rei.
{1}3
O rei Nabucodonosor mandou fazer uma estátua de ouro com trinta metros de altura por três metros de diâmetro, e colocou-a na planície de Dura, província da Babilónia. Depois, mandou reunir os governadores, ministros, prefeitos, conselheiros, tesoureiros, letrados, magistrados e autoridades das províncias para assistirem à inauguração da estátua que o rei Nabucodonosor havia erguido. Reuniram-se os governadores, ministros, prefeitos, conselheiros, tesoureiros, letrados, magistrados e autoridades das províncias para a inauguração da estátua construída pelo rei Nabucodonosor. Todos estavam de pé diante da estátua. Então o porta-voz do rei gritou em alta voz: «Esta é a mensagem para todos os povos, nações e línguas: quando ouvirdes o som da trombeta, flauta, cítara, harpa, saltério, gaita e outros instrumentos musicais, todos deveis prostrar-vos para adorar a estátua de ouro erguida pelo rei Nabucodonosor. Quem não se prostrar e não adorar será imediatamente lançado na fornalha ardente». Quando ouviram o som da trombeta, flauta, cítara, harpa, saltério, gaita e outros instrumentos musicais, todos os povos, nações e línguas se prostraram em adoração diante da estátua de ouro erguida pelo rei Nabucodonosor.
Alguns caldeus foram denunciar os judeus. Procuraram o rei Nabucodonosor e disseram: «Viva o rei para sempre! Vossa Majestade decretou que toda a pessoa que ouvisse o som da trombeta, flauta, cítara, harpa, saltério, gaita e outros instrumentos musicais, deveria imediatamente cair de joelhos, adorando a estátua de ouro. E quem não se ajoelhasse para adorar, seria lançado na fornalha ardente. Pois bem! Alguns judeus que Vossa Majestade nomeou administradores das províncias da Babilónia - e são eles: Sidrac, Misac e Abdénago - não obedecem à ordem do rei. Eles não veneram os deuses nem adoram a estátua de ouro erguida por Vossa Majestade».
Nabucodonosor, com raiva e ódio, mandou comparecer Sidrac, Misac e Abdénago. Eles chegaram à presença do rei e este perguntou-lhes: «Sidrac, Misac e Abdénago, é verdade que não venerais os meus deuses nem adorais a estátua de ouro que eu ergui? Então, estai preparados, e quando ouvirdes o som da trombeta, flauta, cítara, harpa, saltério, gaita e outros instrumentos musicais, caireis de joelhos para adorar a estátua de ouro que Eu fiz. Se não adorardes, sereis imediatamente lançados na fornalha ardente; e quero ver qual é o deus que vos livrará da minha mão». Sidrac, Misac e Abdénago responderam ao rei: «Não precisamos de vos responder. Existe o nosso Deus, a quem adoramos, e que nos pode livrar da fornalha ardente, libertando-nos da mão de Vossa Majestade. Mesmo que isso não aconteça, fique Vossa Majestade a saber que nós não adoraremos o vosso deus, nem adoraremos a estátua de ouro construída por Vossa Majestade». Nabucodonosor ficou tão furioso contra Sidrac, Misac e Abdénago que o seu rosto empalideceu. Então mandou acender na fornalha um fogo sete vezes mais forte que o de costume, e depois mandou que os soldados mais fortes do seu exército amarrassem Sidrac, Misac e Abdénago e os lançassem na fornalha ardente. Então amarraram-nos, vestidos com as suas túnicas, calções, gorros e outras roupas, e atiraram-nos à fornalha ardente. Como a ordem do rei era rigorosa e o fogo da fornalha era extremamente forte, aconteceu que as labaredas de fogo mataram aqueles que nela lançaram Sidrac, Misac e Abdénago. Os três jovens, porém, foram cair, amarrados, dentro da fornalha ardente.
Sidrac, Misac e Abdénago passeavam no meio das labaredas, cantando hinos a Deus e louvando o Senhor. Azarias, de pé, soltando a voz no meio do fogo, rezou:
«Bendito sejas Tu, Senhor,
Deus dos nossos pais,
Tu és digno de louvor e o teu Nome
é glorificado para sempre!
Porque Tu és justo em tudo
o que nos fizeste,
e todas as tuas obras são verdadeiras;
os teus caminhos são rectos,
e todos os teus julgamentos são justos.
Foi justa a sentença que decretaste,
todo o sofrimento que mandaste
sobre nós
e sobre Jerusalém, a cidade santa
dos nossos antepassados.
Pois é segundo a verdade e o direito
que nos fizeste acontecer
todas estas coisas,
por causa dos nossos pecados.
Sim! Pecámos, cometendo um crime
ao afastarmo-nos de Ti;
sim, pecámos gravemente em tudo.
Não obedecemos
aos teus mandamentos,
nem os observámos,
nem agimos conforme nos ordenavas,
para que tudo nos corresse bem.
Por isso, o que nos fizeste acontecer,
tudo o que Tu mesmo nos fizeste,
foi com julgamento justo
que o fizeste.
Tu nos entregaste nas mãos
dos nossos inimigos,
a uma gente sem lei,
aos piores dos ímpios,
a um rei injusto, o mais malvado
de toda a terra.
Nesta hora, nem sequer nos deixam
abrir a boca;
a decepção e a vergonha caíram
sobre os teus servos
e sobre os que Te adoram.
Não nos entregues para sempre,
não rejeites a tua aliança,
por causa do teu Nome.
Não nos retires a tua misericórdia,
por amor de Abraão, teu amigo,
por amor de Isaac, teu servo,
e de Israel, teu santo.
Falaste-lhes, prometendo
que a sua descendência seria
tão numerosa
como as estrelas do céu
e como a areia que existe à beira-mar.
No entanto, Senhor,
nós estamos diminuídos
no meio de todas as nações;
estamos hoje humilhados
na terra inteira,
por causa dos nossos pecados.
Neste nosso tempo,
não há chefe, profeta ou dirigente,
nem holocausto, sacrifício, oferenda
ou incenso;
não existe lugar onde oferecer-Te
os primeiros frutos
e alcançar misericórdia.
Mas, com alma despedaçada
e espírito humilhado,
sejamos aceites como se viéssemos
com holocaustos de carneiros, touros
e milhares de gordos carneiros.
Seja este o sacrifício
que Te oferecemos,
e, diante de Ti, que ele seja completo,
pois jamais haverá decepção
para os que confiam em Ti.
Mas agora nós vamos seguir-Te
de todo o coração;
vamos temer-Te e procurar a tua face.
Ah! Não nos deixes decepcionados,
mas trata-nos
com toda a tua bondade
e conforme a abundância
da tua misericórdia.
Liberta-nos,
segundo as tuas maravilhas,
e glorifica o teu Nome, Senhor.
Fiquem envergonhados
aqueles que prejudicam
os teus servos;
que fiquem cobertos de vergonha,
privados de todo o seu poder,
e que a sua força seja esmagada.
Que eles saibam, Senhor,
que Tu és o único Deus,
glorioso sobre toda a Terra».
Contudo, os funcionários do rei que tinham lançado os três jovens na fornalha não paravam de alimentar o fogo com óleo combustível, pez, estopa e lenha seca, tanto que as labaredas subiam uns vinte e dois metros acima da fornalha, alcançando e queimando os caldeus que se encontravam junto dela.
O Anjo do Senhor, porém, tinha descido à fornalha para junto de Azarias e seus companheiros. Afastou da fornalha as labaredas de fogo e formou no meio da fornalha um vento húmido refrescante. O fogo nem tocou neles, nem lhes causou nenhum sofrimento ou incómodo.
Os três cantavam hinos, glorificavam e louvavam a Deus, a uma só voz, dentro da fornalha:
«Bendito és Tu, Senhor,
Deus dos nossos pais;
a Ti, glória e louvor para sempre.
Bendito é o teu Nome santo
e glorioso;
a ele, glória e louvor para sempre.
Bendito és Tu no teu Templo
santo e glorioso;
a Ti, glória e louvor para sempre.
Bendito és Tu no trono do teu reino;
a Ti, glória e louvor para sempre.
Bendito és Tu, que sondas os abismos,
sentado sobre os querubins;
a Ti, glória e louvor para sempre.
Bendito és Tu, no firmamento do céu;
a Ti, glória e louvor para sempre.
Bendizei o Senhor,
todas as obras do Senhor;
exaltai o Senhor com hinos
para sempre.
Anjos do Senhor, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Céus, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Águas todas acima do céu,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Todas as potências, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Sol e lua, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Estrelas do céu, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Chuva e orvalho, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Todos os ventos, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Fogo e calor, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Frio e ardor, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Chuvas e orvalhos,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Gelo e frio, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Geada e neve, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Noites e dias, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Luz e trevas, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Relâmpagos e nuvens,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Terra, bendiz o Senhor;
louva e exalta o Senhor para sempre.
Montanhas e colinas,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Tudo o que germina na terra,
bendiz o Senhor;
louva e exalta o Senhor para sempre.
Fontes, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Mares e rios, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Baleias e peixes, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Aves do céu, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Animais selvagens e domésticos,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Criaturas humanas, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Israelitas, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Sacerdotes do Senhor,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Servos do Senhor, bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Espíritos e almas dos justos,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Santos e humildes de coração,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Ananias, Azarias e Misael,
bendizei o Senhor;
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Porque Ele nos tirou da mansão
dos mortos
e nos salvou do poder da morte;
livrou-nos das chamas
da fornalha ardente
e retirou-nos do meio do fogo.
Dai graças ao Senhor,
porque Ele é bom,
louvai e exaltai o Senhor para sempre.
Todos os que adorais o Senhor,
Deus dos deuses,
bendizei o Senhor:
louvai e dai graças ao Senhor,
porque a sua misericórdia
é para sempre».
Nabucodonosor ficou muito admirado. Levantou-se repentinamente e disse aos seus ministros: «Não foram três os jovens que lançámos amarrados à fornalha?» Eles responderam ao rei: «Sem dúvida, Majestade». Então ele disse: «Como é que vejo quatro jovens soltos a andar dentro da fornalha ardente, sem qualquer incómodo, e a aparência do quarto é de um filho de deuses?»
Nabucodonosor chegou à boca da fornalha ardente e disse: «Sidrac, Misac e Abdénago, servos do Deus altíssimo, saí e vinde cá». Imediatamente os três jovens saíram da fornalha. Reuniram-se os governadores, ministros, prefeitos e conselheiros para ver os jovens. A fornalha não teve força nenhuma sobre os seus corpos, nem os cabelos das suas cabeças ficaram queimados, nem as suas roupas sofreram coisa alguma e nem mesmo o cheiro do fumo os atingiu.
Nabucodonosor disse então: «Bendito seja o Deus de Sidrac, Misac e Abdénago, que mandou o seu anjo libertar os seus servos que n'Ele confiaram. Eles não fizeram caso do decreto do rei e entregaram o próprio corpo, pois não prestam culto nem adoram nenhum outro deus que não seja o seu Deus. Faço, pois, um decreto, mandando que qualquer povo, raça ou língua que disser uma blasfémia contra o Deus de Sidrac, Misac e Abdénago, seja feito em pedaços e a sua casa seja totalmente destruída, pois deus igual a Este, capaz de salvar, não existe outro». E promoveu novamente Sidrac, Misac e Abdénago a cargos públicos na província da Babilónia.
«O rei Nabucodonosor a todos os povos, nações e línguas que existem na Terra: paz e prosperidade. Tantos sinais e prodígios operou em meu favor o Deus altíssimo, que me pareceu bom publicá-los. Como são grandiosos os seus sinais, quanta força em seus prodígios! O seu reino é eterno e o seu poder atravessa as gerações!
{1}4
Eu, Nabucodonosor, vivia tranquilo em minha casa, feliz no meu palácio. Então tive um sonho que me assustou; as imaginações que me vieram enquanto estava na cama e as visões que me passaram pela mente perturbaram-me. Por isso, publiquei um decreto em que mandava vir à minha presença todos os sábios da Babilónia, para que me dessem a interpretação do meu sonho. Vieram os magos, astrólogos, agoureiros e adivinhos. Eu contei-lhes o meu sonho, mas eles não foram capazes de dar a interpretação. Então veio Daniel, chamado Baltassar em honra do meu deus. Ele tinha o espírito dos deuses santos. Contei-lhe, então, o meu sonho:
«Baltassar, chefe dos magos, eu sei que possuis o espírito dos deuses santos e que nenhum segredo é difícil para ti. Escuta a visão que tive num sonho e, depois, dá-me a sua interpretação. As imagens que me vinham à cabeça, quando estava na minha cama são estas: havia uma árvore gigantesca no centro da terra. A árvore cresceu e ficou forte, e a sua copa chegou até ao céu: podia ser vista do extremo da terra. A sua folhagem era bonita e tinha frutos abundantes; nela havia alimentos para todos. À sua sombra abrigavam-se as feras da terra e nos seus ramos aninhavam-se as aves do céu. Dela se alimentava todo o ser vivo. Eu estava na cama, observando as imagens que se formavam na minha cabeça, quando apareceu um guardião sagrado que descia do céu. Com voz forte, ele gritou: "Derrubai a árvore, cortai-lhe os ramos, arrancai-lhe as folhas, e atirai para longe os seus frutos. Feras, fugi da sua sombra; pássaros, fugi dos seus ramos. Mas deixai no chão o tronco com as raízes, ligado com correntes de ferro e bronze, no meio da erva do campo. Que ele seja banhado pelo orvalho do céu e que a erva do campo seja a sua parte com as feras do campo. Perderá o instinto de homem e adquirirá instinto de fera. E ficará assim durante sete anos. Esta é a sentença dos guardiães, é o que anunciam os santos, para que todo o ser vivo reconheça que o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens; Ele concede o reino a quem quiser e coloca no trono o mais humilde". Tal foi o sonho que tive eu, o rei Nabucodonosor. Agora, tu, Baltassar, dá-me a interpretação deste sonho. Nenhum sábio do meu reino foi capaz de me dar essa explicação, mas tu podes, porque tens o espírito dos deuses santos».
Daniel, que tinha também o nome de Baltassar, ficou assustado e perturbado em seus pensamentos. O rei disse-lhe: «Baltassar, não deixes que este sonho ou o seu significado te assustem». Baltassar respondeu:
«Meu senhor, que o sonho seja para os vossos inimigos, que o seu significado seja para os vossos adversários. Vossa Majestade viu uma árvore muito grande e forte; a sua copa atingia o céu e podia ser vista do mundo inteiro; a sua folhagem era bonita e tinha frutos abundantes para alimentar o mundo todo; à sombra dela viviam as feras do campo e nos seus ramos aninhavam-se as aves do céu. Pois bem! Essa árvore é Vossa Majestade, tão grandioso e magnífico. O domínio de Vossa Majestade chega ao céu e o vosso império chega até aos confins do mundo. Vossa Majestade viu também um guardião sagrado, que descia do céu e dizia: "Derrubai e destruí a árvore. Mas deixai no chão o tronco com as raízes ligado com uma corrente de ferro e bronze, no meio da erva do campo. Que ele seja banhado pelo orvalho do céu e que a erva do campo seja a sua parte com as feras do campo. E ficará assim durante sete anos". Esta é a explicação, Majestade, e estes são os decretos do Altíssimo que atingem Vossa Majestade, meu senhor: Vossa Majestade será tirado da companhia dos homens e irá morar com as feras do campo. Comerá erva como os bois e será molhado pelo orvalho. E ficará assim durante sete anos, até aprender que o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens e dá o poder a quem Ele quer. Mandaram deixar o tronco com as raízes, porque Vossa Majestade voltará a reinar quando reconhecer que Deus é soberano. Agora dou-vos um conselho: pagai os vossos pecados com obras de justiça, e os vossos crimes socorrendo os pobres. Talvez assim a vossa felicidade possa durar».
Tudo isto aconteceu ao rei Nabucodonosor. Doze meses depois, estava ele passeando no terraço do seu palácio em Babilónia. Dizia: «Aí está a grande Babilónia que eu construí para moradia do rei, com o poder da minha autoridade e para esplendor da minha glória!» Ele ainda estava a falar, quando uma voz do Céu lhe disse: «Rei Nabucodonosor, é a ti que falo: perderás o reino e expulsar-te-ão da companhia dos homens, viverás no meio das feras do campo, comerás erva como os bois, ficarás molhado pelo orvalho e assim viverás até reconheceres que o Altíssimo é quem domina sobre os reinos dos homens e dá o poder a quem Ele quer». No mesmo instante, esta palavra cumpriu-se para Nabucodonosor: ele foi retirado da companhia das pessoas, passou a comer erva como os bois. O seu corpo foi molhado pelo orvalho do céu. Os seus cabelos ficaram compridos como penas de águia e as suas unhas cresceram como garras de aves de rapina.
«Passado o tempo, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos para o céu e recuperei a razão. Então passei a bendizer o Altíssimo, a louvar e glorificar Aquele que vive eternamente, dizendo: "O seu domínio é eterno e o seu reino atravessa as gerações. Os habitantes do mundo para Ele nada valem; Ele trata como quer os astros do céu e os habitantes do mundo. Ninguém pode atentar contra Ele ou pedir-Lhe contas do que faz". Nesse momento, recuperei a razão e, para o esplendor da minha autoridade de rei, também voltaram a minha glória e majestade. Os meus conselheiros e ministros foram procurar-me, e eu fui restabelecido na minha autoridade de rei, e o meu poder ficou ainda maior. Agora, eu, Nabucodonosor, louvo, exalto e glorifico o Rei do céu, porque as suas obras são justas e os seus caminhos são rectos, e humilha aqueles que caminham com soberba».
{1}5
O rei Baltasar fez um grande banquete para mil altos funcionários seus e pôs-se a beber vinho na presença deles. Tocado pelo vinho, Baltasar mandou trazer os cálices de ouro e prata, que seu pai Nabucodonosor havia tirado do Templo de Jerusalém, para neles beberem o rei, os altos funcionários, as suas mulheres e concubinas. Trouxeram os cálices de ouro tirados do Templo de Jerusalém; então o rei, os altos funcionários, mulheres e concubinas começaram a beber nesses cálices. Bebiam vinho e louvavam os seus deuses de ouro, prata, bronze, ferro, madeira e pedra.
De repente, surgiram dedos de mão humana que escreviam, por detrás do candelabro, na cal da parede do palácio do rei. O rei, ao ver a mão que escrevia, mudou de cor; os seus pensamentos confundiram-se, a espinha desconjuntou-se e os joelhos batiam um no outro. Aos gritos, ele chamou os astrólogos, magos e adivinhos, e disse aos sábios da Babilónia: «Quem conseguir decifrar esta inscrição e dar a sua interpretação, vestirá o manto vermelho com o cordão de ouro ao pescoço e será a terceira autoridade do reino». Chegaram todos os sábios da Babilónia, mas ninguém conseguia decifrar a inscrição nem dar a sua interpretação. O rei ficava cada vez mais desorientado e pálido, e os seus funcionários perdidos de susto.
Foi então que a rainha, atraída pelos gritos do rei e funcionários, entrou na sala do banquete e disse: «Viva o rei para sempre! Que os teus pensamentos não te apavorem, nem fiques pálido! Existe uma pessoa no teu reino que tem o espírito dos deuses santos: no tempo do rei teu pai, achavam que ele tinha uma luz e uma inteligência parecidas com a sabedoria dos deuses. Teu pai, o rei Nabucodonosor, fez dele o chefe dos magos, astrólogos, agoureiros e adivinhos. Pois bem! Já que esse Daniel, a quem o rei deu o nome de Baltassar, tem tanto espírito, conhecimento e luz para interpretar sonhos, decifrar enigmas e resolver problemas, manda-o chamar para que dê a interpretação».
Daniel foi levado à presença do rei, que lhe perguntou: «Então tu és Daniel, um dos judeus exilados que meu pai trouxe de Judá? O que se ouve dizer é que tens o espírito dos deuses, muita luz, muita inteligência e muita sabedoria. Compareceram na minha presença os sábios e astrólogos para decifrarem a inscrição e descobrir-lhe o sentido, mas eles não foram capazes de mostrar o significado de coisa nenhuma. Ouvi dizer que és capaz de interpretar e resolver problemas. Se fores capaz de decifrar a inscrição e explicar o seu significado, vestirás o manto vermelho com o cordão de ouro ao pescoço, e serás a terceira autoridade no reino».
Daniel respondeu ao rei: «Fica com os teus presentes e dá a outros os teus prémios. No entanto, eu vou decifrar a inscrição e explicar o seu significado. O Deus Altíssimo deu império e poder, glória e honra ao teu pai Nabucodonosor. Por causa da grandeza que Deus lhe deu, todos os povos, nações e línguas temiam e tremiam diante dele, pois ele possuía poder sobre a vida e a morte, exaltava e humilhava conforme queria. Mas quando ficou com ideias de grandeza e espírito soberbo, tornando-se orgulhoso, foi derrubado do seu trono real e perdeu a dignidade: foi afastado da companhia dos seres humanos e, com instinto de fera, passou a morar com burros selvagens e a alimentar-se de erva como os bois, enquanto o orvalho banhava o seu corpo. Assim ficou até reconhecer que o Deus Altíssimo domina sobre os reinos dos homens e dá o trono a quem Ele quer. Tu, porém, Baltasar, seu filho, mesmo sabendo de tudo isto, não te quiseste humilhar. Revoltaste-te contra o Senhor do céu e trouxeste os cálices do Templo, para tu, os teus funcionários, mulheres e concubinas beberdes vinho neles, louvando deuses de prata, ouro, bronze, ferro, madeira e pedra, deuses que não vêem, não ouvem e não entendem. Não glorificaste a Deus em cujas mãos está a tua vida e todo o teu caminho. Por isso, Deus mandou esta mão escrever isso. Eis o que está escrito: "Contado, pesado, dividido". A explicação é a seguinte: "Contado": Deus contou os dias do teu reinado e já marcou o limite. "Pesado": Deus pesou-te na balança e faltou peso. "Dividido": o teu reino será dividido e entregue aos Medos e Persas».
Baltasar mandou vestir Daniel com o manto vermelho e colocar-lhe o cordão de ouro ao pescoço, proclamando-o terceira autoridade no reino. Nessa mesma noite, porém, Baltasar, rei dos Caldeus, foi morto.
{1}6
E Dario, o Medo, sucedeu-lhe no trono, com a idade de sessenta e dois anos.
Dario decidiu nomear, em todo o reino, cento e vinte sátrapas com autoridade. Acima deles havia três ministros, aos quais os governadores deviam prestar contas, para que o rei não fosse defraudado. Um dos três era Daniel. Contudo, Daniel estava tão acima dos outros ministros e governadores por causa do seu talento extraordinário, que o rei decidiu dar-lhe autoridade sobre todo o império. Então os ministros e governadores procuraram uma oportunidade para apanharem Daniel em algum deslize nas coisas de interesse do império. Mas nada conseguiram encontrar de errado, pois ele era muito honesto, e nada conseguiram achar de incorrecto. Reconheceram, então: «Não encontraremos motivo algum de acusação contra Daniel, a não ser no que diz respeito à sua religião».
Então os ministros e governadores correram a dizer ao rei: «Viva o rei Dario para sempre! Todos os ministros, prefeitos, governadores, autoridades das províncias e conselheiros estão de acordo que Vossa Majestade determine e faça um decreto segundo o qual toda a pessoa que, no prazo de trinta dias, fizer alguma prece a outro deus ou homem que não seja Vossa Majestade, tal pessoa seja lançada na cova dos leões. Majestade, sancionai essa lei, assinando este documento, para que não possa ser alterada ou revogada, de acordo com a legislação dos Medos e dos Persas». E o rei Dario assinou o documento, sancionando a lei.
Ao saber que o rei tinha assinado o documento, Daniel foi para casa. No andar de cima havia uma janela que dava para o lado de Jerusalém. Três vezes por dia ele ajoelhava ali para rezar e louvar o seu Deus, e assim fazia sempre. Aqueles homens correram até lá e encontraram Daniel a rezar e a fazer preces ao seu Deus. Depois foram dizer ao rei: «Vossa Majestade não assinou um decreto, segundo o qual toda a pessoa que, no prazo de trinta dias, fizer alguma prece a outro deus ou homem que não seja Vossa Majestade, tal pessoa será lançada na cova dos leões?» O rei respondeu: «A decisão é definitiva e não pode ser revogada, em conformidade com a legislação dos Medos e dos Persas». Eles disseram ao rei: «Daniel, um dos exilados da Judeia, não deu importância ao decreto de Vossa Majestade, à lei que Vossa Majestade assinou, e continua a fazer as suas orações três vezes ao dia». Ao ouvir essa notícia, o rei, muito pesaroso, ficou preocupado com Daniel, querendo salvá-lo. Até ao pôr do sol ficou tentando livrá-lo. Aqueles homens foram procurar o rei e disseram: «Vossa Majestade sabe que é lei entre os Medos e Persas que um decreto sancionado pelo rei não pode ser modificado». Então o rei mandou trazer Daniel e lançá-lo na cova dos leões. E o rei disse a Daniel: «O teu Deus, a quem tu adoras, vai livrar-te».
Levaram uma pedra para tapar a entrada da cova. Em seguida, o rei lacrou a pedra com a sua marca e a marca dos seus secretários, para que ninguém pudesse alterar nada em favor de Daniel. O rei voltou para o seu palácio e ficou em jejum aquela noite; não lhe levaram as mulheres e ele perdeu o sono.
No dia seguinte, ele levantou-se bem cedo e foi depressa à cova dos leões. Ao chegar à cova onde estava Daniel, o rei, aflito, gritou: «Daniel, servo do Deus vivo, o teu Deus, a quem sempre adoras, foi capaz de te livrar dos leões?» Daniel disse ao rei: «Viva o rei para sempre! O meu Deus mandou o seu anjo para fechar a boca dos leões, e eles não me incomodaram, pois fui considerado inocente diante d'Ele, e também nada fiz de errado contra Vossa Majestade». O rei ficou contentíssimo e mandou que tirassem Daniel da cova. Quando o tiraram, não encontraram nele nenhum arranhão, pois ele confiou no seu Deus. Então o rei mandou trazer aqueles homens que tinham caluniado Daniel e mandou lançá-los na cova dos leões juntamente com os seus filhos e mulheres. Ainda não tinham chegado ao fundo da cova e já os leões os tinham agarrado e despedaçado.
Então o rei Dario escreveu a todos os povos, nações e línguas da terra: «Paz e prosperidade! Estou promulgando o seguinte decreto: Por toda a parte aonde chega o poder da minha autoridade de rei, todos estão obrigados a temer e respeitar o Deus de Daniel, pois Ele é o Deus vivo, que permanece para sempre; o seu reino nunca será destruído e o seu domínio não conhecerá fim. Ele salva e liberta, faz sinais e prodígios no céu e na terra. Ele salvou Daniel das garras dos leões». Daniel teve muito sucesso, tanto no reinado de Dario, como no de Ciro, rei dos Persas.
{1}7
No primeiro ano de Baltasar, rei da Babilónia, Daniel teve um sonho. Escreveu imediatamente as imagens que lhe povoaram a mente enquanto dormia. Daniel fez o seguinte relato:
Durante a noite, tive esta visão: os quatro ventos reviravam o mar imenso. Quatro enormes feras surgiram do meio do mar, cada uma diferente da outra. A primeira parecia um leão com asas de águia. Eu estava a olhar, quando lhe arrancaram as asas, e as patas foram-se erguendo do chão: ela ficou de pé como um homem, e deram-lhe um coração humano. Depois apareceu uma segunda fera, que parecia um urso. Estava de pé só sobre um dos lados e tinha na boca três costelas entre os dentes. Disseram-lhe: «Vamos! Come bastante carne». Depois vi uma outra fera parecida com um leopardo. Tinha no lombo quatro asas de ave e quatro cabeças. E deram-lhe o poder.
Em seguida, tive outra visão nocturna: Vi uma quarta fera, que era medonha, terrível e muito forte. Tinha enormes dentes de ferro, com os quais comia e esmagava tudo, e calcava com os pés o que sobrava. Era diferente das outras feras, porque tinha dez chifres. Eu observava esses chifres, quando no meio deles apontou um outro chifre pequeno. Os três chifres que estavam mais perto deste foram arrancados para lhe ceder o lugar. Nesse chifre havia olhos humanos e uma boca que falava com arrogância.
Eu continuava a olhar: uns tronos foram instalados e um Ancião sentou-Se, vestido de veste branca como a neve, cabelos claros como a lã. O seu trono era como labaredas de fogo, com rodas de fogo em brasa. Um rio de fogo brotava da frente d'Ele. Milhares e milhares O serviam e milhões estavam às suas ordens. Começou a sessão e os livros foram abertos.
Eu continuava a olhar, atraído pelos insultos que aquele chifre gritava; vi que mataram a fera, a fizeram em pedaços e a lançaram ao fogo. Quanto às outras feras, foi-lhes tirado o poder, mas foi-lhes dado um prolongamento de vida até um tempo determinado.
Em imagens nocturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha Alguém como um filho de homem. Chegou até perto do Ancião e foi levado à sua presença. Foi-Lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca Lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído.
Eu, Daniel, senti-me com o espírito perturbado dentro de mim. As visões da minha mente deixaram-me apavorado. Cheguei perto de um dos presentes e perguntei-lhe o que era tudo aquilo. Ele respondeu-me, dando-me a explicação completa: «As quatro feras enormes são os quatro reinos que surgirão na Terra, mas os santos do Altíssimo receberão o reino e possuí-lo-ão para sempre».
Depois eu quis saber o que significava a quarta fera, que era diferente das outras: medonha, com enormes dentes de ferro e unhas de bronze; que comia, esmagava e triturava todo o resto com os pés. Quis saber também o que significavam os dez chifres que havia na sua cabeça, e aquele outro chifre que apareceu e fez cair os três que lhe estavam mais perto, e que tinha olhos e uma boca que falava com arrogância e parecia maior que os outros chifres. Observando, vi que esse chifre fazia guerra contra os santos e os derrotava, até chegar o Ancião para fazer justiça aos santos do Altíssimo. E chegou a hora, quando os santos tomaram posse do reino. Ele então explicou-me: «Surgirá no mundo um quarto reino, que será diferente dos outros reinos. Ele devorará o mundo inteiro e, depois, pisará e esmagará. Os seus dez chifres são dez reis que surgirão nesse reino, e depois deles surgirá outro rei. Ele será diferente dos dez primeiros e derrubará do trono três reis. Blasfemará contra o Altíssimo e perseguirá os seus santos; pretenderá modificar o calendário e a Lei de Deus. Os fiéis serão entregues nas suas mãos durante três anos e meio. O tribunal, porém, instalar-se-á e retirar-lhe-á o poder e esse rei será destruído e aniquilado até ao fim. O reino, o império e a grandeza de todos os reinos que existem debaixo do céu serão entregues ao povo dos santos do Altíssimo. O seu reino será um reino eterno, e todos os impérios o servirão e lhe prestarão obediência».
Aqui termina a história. Eu, Daniel, fiquei com os pensamentos perturbados, empalideci e guardei tudo na memória.
{1}8
No terceiro ano do reinado de Baltasar, eu, Daniel, tive uma visão, depois daquela que já havia tido. Observando, vi que estava em Susa, capital da província de Elam. Eu estava a olhar e vi que me encontrava junto ao rio Ulai. Levantei os olhos e vi junto ao rio, de pé, um carneiro. Tinha chifres altos, e um era mais alto que o outro, e esse mais alto foi o último a aparecer. Notei que o carneiro dava chifradas para o Poente, para o Norte e para o Sul. E nenhum animal lhe resistia. Ninguém lhe escapava, pois fazia o que queria, e aumentava sempre o seu poder.
Pensava eu nisso, quando apareceu um bode, vindo do Poente, sobrevoando o mundo inteiro sem tocar o chão. O bode tinha um chifre bem visível entre os olhos. Ele veio em direcção ao carneiro de dois chifres, que eu tinha visto junto do rio Ulai, e atirou-se contra ele com toda a fúria. Eu vi que ele atacou o carneiro, agredindo-o furiosamente e quebrando-lhe os dois chifres. O carneiro não teve forças para resistir. Ele derrubou o carneiro ao chão, pisou-o e não houve quem livrasse o carneiro do seu poder. O bode cresceu muito mais ainda; porém, no auge da sua grande força, o seu grande chifre quebrou-se e, no lugar dele, brotaram quatro chifres, cada um voltado para um lado da Terra. De um desses chifres nasceu um chifre pequeno, que depois cresceu muito em direcção ao Sul, para o Nascente e para o lado da nossa Terra deliciosa. Cresceu até às alturas do exército do céu, deitou por terra algumas estrelas desse exército e calcou-as aos pés. Até contra o Comandante do exército do céu ele quis levantar-se, abolindo o sacrifício permanente e abalando as bases do santuário.Entregaram-lhe o exército e o sacrifício quotidiano e expiatório; ele deitou por terra a verdade; e tudo o que fez prosperou.
Ouvi dois santos que conversavam. Um perguntava: «Quanto tempo vai durar a visão do sacrifício quotidiano e expiatório, do ídolo abominável, do santuário e do exército calcados aos pés?» O outro respondeu: «Vai durar duas mil e trezentas tardes e manhãs. Depois será feita justiça ao santuário».
Eu, Daniel, estava a olhar procurando entender a visão, quando de repente apareceu de pé diante de mim a figura de um homem. Então, vinda do rio Ulai, ouvi uma voz que gritava: «Gabriel, explica-lhe a visão». Ele dirigiu-se para o lugar onde eu estava. Quando se aproximou, eu assustei-me e caí de bruços por terra. Ele disse: «Homem, fica a saber que esta visão se refere ao tempo final». Ele falava comigo e eu, desmaiado, continuava de bruços no chão. Tocou em mim e fez-me ficar de pé como estava antes. Depois continuou: «Eu vou explicar-te o que acontecerá no tempo final da ira, porque é do tempo final que se trata. O carneiro de dois chifres que viste é o reino dos Medos e dos Persas. O bode é o rei da Grécia, e o chifre enorme que tinha entre os olhos é o primeiro rei. Quebrado este, os quatro chifres que cresceram no seu lugar são os quatro reis que substituirão o primeiro, mas não com o mesmo poder. E, no final dos seus reinados, depois de se completarem os seus crimes, surgirá um rei ousado e esperto nas intrigas, de força indomável, prodigiosamente destruidor e bem sucedido em tudo o que faz. Destruirá poderosos e também o povo dos santos. Com a sua astúcia, fará triunfar a fraude nas suas acções. Ele inchar-se-á de orgulho e destruirá muita gente com a surpresa. Até contra o Chefe dos chefes ele se levantará; mas, sem ninguém fazer nada, ele será destruído. A visão das tardes e manhãs é verdadeira; tu, porém, guardarás em segredo a visão, porque só acontecerá daqui a muito tempo».
Eu, Daniel, desmaiei e fiquei doente durante alguns dias. Depois, levantei-me e continuei a tratar dos assuntos do rei. Ainda estava assustado com a visão e sem poder compreendê-la.
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No primeiro ano do reinado de Dario, filho de Xerxes, que era da linhagem dos Medos e tinha sido colocado como rei dos Caldeus, no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, lia atentamente no livro das profecias de Jeremias o número dos anos que Jerusalém devia permanecer em ruínas: eram setenta anos. Voltei o meu olhar para o Senhor Deus, procurando fazer preces e súplicas com jejum, vestido de pano de saco e coberto de cinza. Então, fiz uma oração ao Senhor Deus, confessando e dizendo: «Ah! Senhor, Deus imenso e terrível, cumpridor da aliança e do amor para com os que Te amam e observam os teus mandamentos! Pecámos, praticámos crimes e impiedades, fomos rebeldes e desviámo-nos dos teus mandamentos e das tuas sentenças. Não quisemos escutar os profetas, teus servos, que em teu Nome falavam aos nossos reis e autoridades, aos nossos pais e a todos os cidadãos. Senhor, do teu lado está a justiça, e a nós só resta a vergonha que hoje estamos passando, tanto o cidadão de Judá como o habitante de Jerusalém, e todo o Israel: tanto os que estão perto, como os que estão longe, por todos os países por onde os espalhaste, por causa dos crimes que praticaram contra Ti. Sim, ó Javé, a nós, aos nossos reis, às nossas autoridades e aos nossos pais, só resta a vergonha que estamos passando, pois pecámos contra Ti.
Com o Senhor nosso Deus está a misericórdia e o perdão, porque nos revoltámos contra Ele. Não obedecemos a Javé nosso Deus, para andarmos de acordo com as leis que Ele nos deu por meio dos profetas, seus servos. Todo o Israel desrespeitou a tua Lei e se afastou para não Te obedecer. Então caíram sobre nós as maldições e ameaças que estão escritas na lei de Moisés, servo de Deus, pois pecámos contra o Senhor. Ele cumpriu as ameaças que tinha feito contra nós e nossos governantes, mandando sobre Jerusalém uma calamidade como jamais aconteceu debaixo do céu. Toda esta desgraça nos veio tal qual está escrita na lei de Moisés, mas nós não procurámos agradar a Javé nosso Deus, arrependendo-nos dos nossos pecados e levando a sério a sua fidelidade. Javé encarregou-Se desta desgraça e fê-la chegar até nós, pois Javé nosso Deus trata-nos com justiça, porque não Lhe obedecemos.
Agora, Senhor nosso Deus, Tu que tiraste o teu povo da terra do Egipto com mão forte, criando para Ti essa fama que dura até hoje, nós pecámos e praticámos a impiedade. Senhor, conforme a tua justiça, afasta de Jerusalém, a tua cidade, e do teu santo monte, a ira e a cólera. Por causa dos nossos erros, por causa dos pecados dos nossos antepassados, Jerusalém e o teu povo são desprezados pelos povos vizinhos. Agora, Deus nosso, ouve a oração e as súplicas do teu servo e, por causa da tua honra, faz brilhar a tua face sobre o teu Templo destruído. Meu Deus, inclina o teu ouvido e escuta-me; abre os olhos e vê a desolação e olha para a cidade sobre a qual foi invocado o teu Nome, porque não é confiando nos actos de justiça que Te pedimos misericórdia, mas em nome da tua imensa compaixão. Ouve, Senhor! Perdoa, Senhor! Atende, Senhor! E começa a agir sem demora, por causa da tua honra, meu Deus, pois o teu Nome foi invocado sobre esta cidade e sobre o teu povo».
Eu ainda falava, fazendo a minha prece, confessando o meu pecado e do meu povo Israel; eu estava a apresentar a minha súplica a Javé meu Deus em favor do seu monte santo; eu ainda estava a fazer a minha súplica, quando Gabriel, o homem que eu tinha visto no começo da visão, veio em voo rápido para perto de mim. Era a hora em que se faz a oferta da tarde. Ele chegou e disse-me: «Daniel, eu vim dar-te uma explicação. Quando começaste a tua súplica, foi pronunciada uma sentença e eu vim contar-ta, porque és querido. Presta atenção à mensagem e procura compreender a visão: setenta semanas foram determinadas para o teu povo e a tua cidade santa, para fazer cessar a transgressão, selar o pecado, expiar o crime, para trazer uma justiça perene, até se realizarem a visão e a profecia e ser ungido o lugar santíssimo. Fica a saber: desde que foi decretado o regresso para a reconstrução de Jerusalém, até ao príncipe ungido, sete semanas se passarão. Em sessenta e duas semanas, praças e muralhas serão reconstruídas, mas em tempos difíceis. Depois das sessenta e duas semanas, o Ungido inocente será eliminado, e a cidade e o Templo serão destruídos por um chefe invasor que virá. O seu fim será na inundação e, até ao fim, haverá guerra e destruição. Com muitos ele fará uma aliança que durará uma semana e, durante meia semana, fará cessar ofertas e sacrifícios. Colocará sobre a nave do Templo o ídolo abominável, até que chegue para o destruidor o fim decretado».
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No terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, certa mensagem foi revelada a Daniel, que era chamado Baltassar. Era uma mensagem autêntica e falava de uma grande luta. Ele compreendeu a mensagem, graças à visão.
Nessa ocasião, eu, Daniel, fiquei de luto durante três semanas. Não comi nada que tivesse algum sabor, nem carne, nem vinho entraram na minha boca, nem usei nenhum tipo de perfume durante três semanas completas. No vigésimo quarto dia do primeiro mês do ano, estava eu à beira do grande rio, o Tigre, quando, de repente, levantei os olhos e vi: era um homem vestido de linho e que tinha à cintura um cinturão de ouro puro; o seu corpo era como uma pedra preciosa e o seu rosto como um relâmpago; os seus olhos eram como lâmpadas acesas, e os seus braços e pernas tinham o brilho do bronze polido; a sua voz parecia o clamor de grande multidão.
Só eu, Daniel, vi a aparição. Os outros que estavam comigo não viram nada; mesmo assim, caiu sobre eles um medo tão grande que fugiram para se esconderem. Fiquei sozinho. Ao ver essa magnífica aparição, senti-me desfalecer, o meu rosto empalideceu e eu não conseguia controlar-me. Ouvi o som de palavras e, ao ouvi-lo, caí sem sentidos com o rosto por terra. A mão de alguém tocou-me e sacudiu-me, fazendo-me ficar de joelhos, com a palma das mãos no chão. Ele disse-me: «Daniel, homem querido, procura entender a mensagem que te vou transmitir. Fica de pé, pois foi Deus que me enviou a ti». Ele falou e eu levantei-me a tremer. Ele continuou: «Daniel, não tenhas medo, pois desde o primeiro dia em que começaste a meditar para entender e te humilhaste diante de Deus, as tuas palavras foram ouvidas, e é por causa delas que eu vim. Durante vinte e um dias o príncipe dos reis da Pérsia resistiu-me, porém Miguel, um dos príncipes supremos, veio em minha ajuda. Eu deixei-o lá a enfrentar os reis da Pérsia, e vim explicar-te o que acontecerá ao teu povo nos últimos dias, pois ainda existe para esses dias uma visão».
Enquanto ele me dizia estas coisas, caí de bruços e fiquei sem fala. Alguém com aparência de um ser humano tocou os meus lábios. Abri a boca e disse àquele que estava à minha frente: «Meu senhor, a visão fez-me contorcer de dor e não consegui dominar-me. Como poderia falar o servo do meu senhor, se as minhas forças tinham desaparecido e eu até tinha perdido o fôlego?» De novo, alguém semelhante a um homem tocou-me e deu-me forças. Ele disse-me: «Não tenhas medo, homem querido. Tem calma e sê forte». Enquanto ele falava comigo, eu senti-me mais forte e disse: «Fale então o meu senhor que me devolveu as forças». Ele disse: «Muito bem! Sabes para que te vim procurar? Agora devo voltar para combater contra o príncipe da Pérsia. Quando terminar, o príncipe da Grécia chegará. Vou contar-te o que está escrito no livro da verdade. Ninguém me ajuda na luta contra eles, a não ser Miguel, o vosso príncipe,
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assim como eu estive ao lado dele, dando-lhe força e ajudando-o no primeiro ano do reinado de Dario.
Agora vou contar-te a verdade. Ainda surgirão três reis na Pérsia, mas o quarto rei que virá depois será o mais rico de todos e empregará toda a sua força e toda a sua riqueza contra os reis da Grécia. Depois aparecerá um rei guerreiro, que terá um grande império e poder absoluto. Logo, porém, que ele surgir, o seu império será dividido e repartido pelos quatro ventos da terra. Os seus descendentes não herdarão o seu império, nem será tão poderoso; o seu império cairá em mãos alheias.
O rei do Sul será forte, mas um dos seus generais ficará mais forte do que ele e terá um império maior que o dele. Depois de alguns anos, os dois farão aliança e a filha do rei do Sul casar-se-á com o rei do Norte, para confirmar acordos. Mas ela não será capaz de sustentar a própria força nem a do seu filho, e acabará derrotada com a sua comitiva, com o seu filho e com o marido que ia dar-lhe força. A seu tempo, porém, surgirá das suas raízes um rebento que ficará no lugar do seu marido. Ele irá com o exército até ao esconderijo do rei do Norte, e vai tratá-lo com dureza. Até os seus deuses, as suas estátuas com os seus objectos preciosos de ouro e prata, ele os levará como troféu para o Egipto. Depois, durante alguns anos, deixará em paz o rei do Norte. Este tentará invadir o reino do rei do Sul, mas será obrigado a voltar para a sua terra.
Contudo os filhos do rei do Norte vão armar-se, reunindo grande e forte exército, e um deles avançará, passando como uma enchente; e voltará a lutar contra o rei do Sul na própria fortaleza deste. E, despeitado, o rei do Sul sairá para lutar contra ele. O rei do Norte procurará resistir com numeroso exército, mas toda essa multidão cairá em poder do rei do Sul. Depois de dominar tanta gente, ele ficará com ideias de grandeza. Mas, apesar de vencer tanta gente, ficará sem forças.
O rei do Norte reunirá outro exército mais numeroso ainda, e no final de algum tempo, alguns anos, virá com imenso poderio e muitos recursos. Durante esse tempo, muitos quererão enfrentar o rei do Sul, até mesmo alguns indivíduos mais violentos do vosso povo. Vão querer revoltar-se, pensando estar a cumprir a profecia, mas fracassarão. Então virá o rei do Norte, fará um aterro e tomará a cidade cercada de muralhas. As forças do Sul não poderão resistir, nem as tropas escolhidas; faltarão forças para resistir. Depois da invasão, o rei do Norte fará o que bem quiser e ninguém será capaz de lhe opor resistência. Ele estabelecer-se-á na nossa Terra deliciosa, que será completamente sua. O rei do Norte terá em mente conquistar todo o reino do Sul. Fará um acordo com o rei do Sul e, para tentar arruiná-lo, dar-lhe-á a sua filha em casamento. Mas o projecto não terá êxito. Ele voltar-se-á, então, contra as cidades do litoral e conquistará muitas delas. Contudo, um chefe porá fim à sua arrogância, sem que ele seja capaz de responder. Então ele voltar-se-á para o lado das fortalezas do seu próprio país, mas tropeçará e desaparecerá. No seu lugar surgirá outro rei, que vai mandar um cobrador para requisitar o tesouro do Templo. Mas, depois de alguns dias, será derrotado sem ira e sem guerra.
Em seu lugar, sucederá um miserável, a quem não se dariam as honras da realeza. Mas virá sorrateiramente e, com intrigas, tomará o poder. Varrerá exércitos inimigos, aniquilando-os, e vencendo também o príncipe da Aliança. Embora dispondo de pouca gente, com os seus cúmplices e à força de traições, pouco a pouco tornar-se-á forte. Sorrateiramente entrará nas regiões mais férteis da província, fazendo o que nem os seus pais nem os seus avós fizeram: entre os seus amigos repartirá os saques, despojos e riquezas e, com tramas, atacará as fortalezas. Mas isso vai durar pouco tempo. Em seguida, contando com grande exército, atacará o rei do Sul. Este preparar-se-á para a guerra com um exército muito grande e muito forte, mas não poderá resistir, porque cairá vítima de conspirações: os mais íntimos, que comem com ele, é que o derrotarão. O seu exército será arrasado, e muitos morrerão. Os dois reis, com o pensamento voltado para a prática do mal, sentar-se-ão à mesa para dizerem mentiras; no entanto, não vão conseguir nada, porque o fim vai esperá-los no prazo marcado. Depois o rei do Norte voltará para a sua terra com muitas riquezas. O seu pensamento estará voltado contra a santa Aliança. Depois de fazer o que planeava, voltará para a sua terra.
No prazo marcado ele invadirá novamente o Sul, mas desta vez não será como da primeira. Os navios de Cetim irão contra ele, ficará com medo e recuará para descarregar a sua cólera contra a santa Aliança. Ele favorecerá os que abandonaram a santa Aliança. As tropas enviadas por ele pôr-se-ão em guerra e profanarão o santuário da fortaleza. Abolirão o sacrifício quotidiano e instalarão um ídolo abominável. Com lisonjas, perverterá os que violam a Aliança, mas o povo dos que reconhecem o seu Deus agirá com firmeza. Os mais conscientes entre o povo esclarecerão muita gente, mas acabarão mortos pela espada, nas fogueiras, castigados com a prisão e o confisco dos seus bens, por um período bem longo. Quando caírem na desgraça, poucos serão os que virão ajudá-los, e muitos se juntarão a eles por adulação. A desgraça de algumas dessas pessoas esclarecidas servirá para purificar, lavar e branquear, até que chegue o fim, pois o prazo está marcado.
Esse rei fará o que bem entender: ele engrandecer-se-á e exaltar-se-á acima de todos os deuses, e dirá coisas arrogantes até mesmo contra o Deus dos deuses. Terá sucesso até à hora da vingança, porque o que está marcado cumprir-se-á. Ele não respeitará o deus de seus pais, nem o deus favorito das mulheres, nem qualquer outro deus, pois julgar-se-á superior a todos eles. No lugar desses deuses, ele prestará culto ao deus das fortalezas. A esses deuses que os seus pais não conheceram, ele oferecerá ouro, prata, pedras preciosas e jóias. Para reforçar as suas fortalezas, estabelecerá o povo desse deus estrangeiro. A esses preferidos seus vai enriquecê-los muito, vai dar-lhes autoridade sobre muita gente e entre eles repartirá terras como recompensa.
No tempo final, o rei do Sul pretenderá lutar contra o rei do Norte, mas o rei do Norte lançar-se-á contra ele com carros de guerra, cavalos e numerosos navios, invadindo as suas terras como uma enchente. Invadirá também a nossa Terra deliciosa, e muita gente vai morrer. Escaparão das suas mãos os edomitas, os moabitas e um resto dos amonitas. Ele deitará a mão a todos os países, e nem o Egipto lhe escapará. Passará a ser dono das riquezas em ouro e prata e de tudo o que houver de mais valioso no Egipto. Até os líbios e etíopes formarão a sua comitiva. Contudo, notícias chegadas do Oriente e do Norte virão assustá-lo. Ele pôr-se-á em marcha, cheio de fúria e raiva, para matar e liquidar muita gente. Armará as tendas da sua nobre residência entre o mar e a deliciosa montanha santa. Então chegará o fim, e ninguém o defenderá.
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Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe que protege o povo ao qual pertences: será uma hora de grandes aflições, tais como jamais houve, desde que as nações começaram a existir até ao tempo actual. Então o teu povo será salvo, todos os que estiverem inscritos no livro. Muitos que dormem no pó despertarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha e a infâmia eternas. Os sábios brilharão como brilha o firmamento, e os que tiverem levado muitos aos caminhos da justiça brilharão para sempre como estrelas. Tu, Daniel, guarda em segredo esta mensagem, lacra este livro até ao tempo final. Muitos o examinarão, e o seu conhecimento aumentará».
Eu, Daniel, vi também outros dois homens de pé, à beira do rio, um do lado de cá e o outro do lado de lá. Um deles disse ao homem vestido de linho que estava sobre as águas do rio: «Quando se realizarão essas coisas maravilhosas?» Ouvi o homem vestido de linho que estava sobre as águas do rio. Ele levantou as duas mãos e jurou por Aquele que vive eternamente: «Daqui a um ano e dois anos e meio. Quando acabar a opressão do povo santo, então é que se realizará tudo isto». Eu ouvi, mas não entendi. E perguntei: «Meu senhor, como é que tudo isto vai terminar?» Ele respondeu: «Vai, Daniel! Esta mensagem ficará guardada e lacrada até ao tempo final. Muitos ainda serão separados, limpos e expurgados, enquanto os ímpios continuarão a praticar a injustiça. Os ímpios não entenderão estas coisas, mas os sábios compreendê-las-ão. A partir do dia em que acabar o sacrifício quotidiano e for instalado no Templo o ídolo abominável, passarão mil duzentos e noventa dias. Feliz quem souber esperar com perseverança, alcançando mil trezentos e trinta e cinco dias. Quanto a ti, segue em frente até que chegue o teu fim e repouses: tu levantar-te-ás para receber a tua parte no final dos dias».
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