Poema da malta das naus

Música: Manuel Freire
Letra: António Gedeão

In: "Fala do Homem nascido", 72;
F C
Lan cei ao mar um ma deiro,
Bb F
espe tei-lhe um pau e um len çol.
A Dm
Com pal pite marinheiro
Bb A
medi a altura do Sol.

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Bb Dm
Dormi no dorso das vagas,
Bb Dm
pasmei na orla das praias
Eb Dm
ar reneguei, roguei pra gas,
Eb A Dm
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me a gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse, fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.

Versos de Segunda, Luís Nunes


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